Publicado por: Alena Cairo em: 8 maio, 2006
Dia 03 de maio, Marcelo Coelho publicou "Auto-ajuda em negativo" na Folha. Senti vontade na hora e rabisquei-lhe estas palavras:
Marcelo,
penso nesta "auto-ajuda" que, realmente, tem nos impelido à "ideologia" massacrante "da felicidade". A gente tem tanto que "dar certo" que se nega ao ser humano o sentimento básico do sofrer. A intolerância generalizada às lágrimas alheias talvez decorra da vida "celebridade" imposta como parâmetro no mundo contemporâneo: sucesso, risos, dinheiro, taças, flashes, mansões, poder e cabelos femininos com chapinha povoam o imaginário da população.
É preciso " dar certo" e este imperativo tem conduzido à rejeição de todo e qualquer humano que se mostre feio, choroso, sofrido, abatido, com problemas etc. Após o fim de uma longa relação amorosa, a qual me fez feliz em alguns momentos, ouvi estupefacta os comentários superficiais daqueles que iam sabendo da separação: "ah, que pena! Não deu certo, não é?" A superficialidade se revela assim, comenta-se pouco, fala-se o básico e livra-se do outro com o clichê-consolo: "é assim mesmo", "é natural", "hoje em dia…"
Fiquei, então, a pensar nisso e descobri que não, deu certo sim. Dizia o poeta que durou o tempo necessário e "deu certo" , portanto, enquanto durou. Recorrendo a outro lugar comum: "o que passou passou". Foi bom, foi ruim,; talvez como tudo o mais nesta vida. Das dores aos momentos de encanto, do choro aos risos de pura felicidade, da beleza e do companheirismo à solidão a dois e ao egoísmo.
Então, aprendi que a minha vida me pertence, "todos os dias são meus" (F. Pessoa). Em face dos acontecimentos em minha vida pessoal e diante da insensibilidade umbilical dos tempos modernos, tenho optado pela companhia "de mim mesma": se quero chorar, faço-o copiosamente. se quero esquecer, permito-me.
Seu texto de 3 de maio me faz refletir sobre o "excedente de sentido" e penso também no que acumulamos por "sobra de significado". Sem necessariamente cultuar a memória dos que se foram desta vida ou da nossa história, vejo-me a guardar as roupas deixadas e minha casa pelo último namorado, já ex. Não as dei às vítimas da chuva, nem as joguei fora. Estavam passadas a ferro no armário e limpas, como se a, inconscientemente, esperar que ele voltasse. Já é hora de os Correios e Telégrafos funcionarem ou de fazer a caridade talvez. É hora de levá-las ao seu destino porque não há mais excedente de significado, nem resquício algum. Passou como tudo mais.
Há horas sim, em que ninguém pode nos ajudar, entretanto tenho visto estupefacta como perdermos o direito a um colo básico de amigo, no qual vamos apenas deitar e deixar que as nossas dores se traduzam em lágrimas. Isso me faz lembrar, em oposição a este individualismo patente hoje, uma história. É a história de uma tribo cujas mulheres, quando uma de suas companheiras perde o filho, num ritual de cura e dor, reúnem-se àquela que sofre e gritam e choram todas juntas, como a extirpar a dor individual, humana, coletiva e social. Choram por si, pela companheira e por toda e qualquer pessoa que passe por situação semelhante.
A vida é cíclica (outro clichê!), há para todos sucessos e fracassos. É preciso no mundo contemporâneo, saber apagar as luzes do palco em que representamos socialmente o papel sorridente de eternos vencedores e poder, no escuro de si mesmo, permitir-se a lágrima, o desalento, a tristeza. Faz bem.
Alena
Oi Alena, adorei esse texto, não deu pra ler o original do Marcelo – tem que ter uol – mas nem importou, o que vc disse é fantástico. Eu sempre achei que os relacionamentos terminam mas não necessariamente dão errado. Eu tenho pelo menos uns relacionamentos que terminaram mas que deram sim, muito certo. Enquanto duraram foi lindo, acabar não quer dizer não dar certo. Também achei fantástica a parte da superficialidade dos consolos, todo mundo realmente só fala o óbvio, mas se formos pensar quantas pessoas hoje em dia ouvem de verdade para dar respostas de verdade? Talvez não ouçam porque também não são ouvidas, sei lá…
Mas gostei de pensar com esse texto. Abraços.
só jesus salava,ele é nosso mestre
9 maio, 2006 às 9:58 am
Simplesmente perfeito Alena…
Tanto a construção das palavras quanto os pensamentos levantados no texto…PARABENS!!!
Concordo plenamente contigo!
Abraços