Recebi hoje por e-mail:
Bastou um brasileiro ir para o espaço que já sumiu um planeta.
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Como anda a roubalheira no país…
Recebi hoje por e-mail:
Bastou um brasileiro ir para o espaço que já sumiu um planeta.
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Como anda a roubalheira no país…
Segunda foi aniversário da matriarca da família Freire de Carvalho. Os cabelos já estão branquinhos, a pele continua boa, as marcas da idade enriqueceram com a história dela. A audácia de minha avó é assunto para um post grande, de homenagem. Vou guardar mais um tempo a história ainda. São 82 anos.
Abaixo, as duas avós que meus pais me deram:
Faz duas semanas. Eram 3h da matina. Um homem muito bonito, 1,80 m , modelo, gatíssimo, cabelo displicente com cachinhos, do tipo Erick Marmo, músculos definidos, camisa preta, ombros largos, calça jeans descolada. Uma garota loira (de salão, mas loira), sarada, de 1,65 m, trajando uma blusa preta e calça jeans cintura baixa.
Passaram apressados na porta da Fashion Club, discutiam alto. Ela o agarrou pela blusa, pedindo-lhe algo. O bonitão deu-lhe um empurrão, ela o puxou de novo e recebeu um tapa na cara. A garota tinha cerca de 23 anos, mesma faixa de idade dele. Ela segurou o braço dele, ao que recebeu uma torção no seu braço e teve o seu cabelo puxado. Ficou cerca de 10 minutos com a cabeça pendendo para baixo porque ele puxava as madeixas com força enquanto torcia o braço dela. Uma senhora, produtora cultural, amiga de ambos, chegou até o rapaz e pediu-lhe que soltasse a menina, que se debatia com as pernas, posto que estava imobilizada pelo cabelo e pelo braço torcido para trás.
Após a cena, ele atravessou a rua e foi embora. A senhora segurou a garota que chorava muito. A loira dos cabelos puxados entrou num celta preto, arrancou cantando pneu. Gritava com alguém ao celular.
A noite silenciou de novo. Mas não sei não.
O ponteiro da balança, vixi, nem é mais ponteiro, agora que me dei conta… O vermelho com cara de stop daqueles números insandecidos da balança digital da farmácia, do supermercado e do shopping insistem em marcar quilos a mais que você não pediu para ter, não quer ter, não gosta de ter e com os quais não quer aprender a conviver…
Mas quem foi mesmo que instituiu que mulher tem que ser magérrima??? Arght estilistas que não gostam de mulher! Arght publicidade que nos ataca com os iogurtes diet que nenhuma daquelas modelos se arriscam a beber e nem a comer aquelas barrinhas de cereais… Feliz quem passava a pão e água antigamente. Nos tempos de hoje, água basta porque até olhado engorda!!
Depois de uma tentativa (insana) de conciliar trabalho e atividade física (que me tem feito ter prazer enorme comigo, com o suor pingando no corpo, com os músculos enrijecendo, com o shortinho definindo… ) , fui hoje descobrir que … argth! arght! arght! Fui faceira à balança hoje e AIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Os quilos tabajara continuam lá. Eu não pedi, eu não chamei por eles.
Só existe uma forma de diminuir o peso, não há jeito: fechar a boquinha, mas na família de glutões da qual eu venho… hum, tá difícil.
Ou então, tive idéia melhor: vou mandar fazer uma balança digital, moderníssima, com scanner de mente (pode ler demente) que marque sempre o meu peso ideal do dia, aquele que eu acordar com vontade de ter.
Assim vou fazer para me achar linda todos os dias, inclusive naqueles de tpm.
Ah, está curioso(a) do porquê do post? É porque depois da megera balancinha marcando um peso que eu não quero ter e de dar aulas até às 22h35, eu tenho uma linda e deliciosa pizza cheirando muito aqui no forno a me esperar. E uma taça de vinho tinto português(que eu já disse que adoro). Danem-se as Giseles desbundadas da vida. ( buá ou tin tin ?)
Uma aluna minha me enviou um link da página do Digestivo Cultural, onde foi publicado um texto de Marcelo Maroldi sobre O que é ser jornalista.
Ao que percebi, é uma resenha superficial ou incompleta do livro do Noblat.
Não vejo que seja só o glamour que aproxima os jovens da profissão de jornalistas , até porque muitos sabem que vão penar até conseguir algum prestígio, se conseguirem.
Subentende-se da leitura que o Marcelo sugere que só filhos de jornalistas deveriam ser jornalistas? Ora, antigamente, filhos de ferreiro mantinham-se ferreiros… de médicos, também. Isso há muito mudou e o ensino possibilita certa mobilidadde profissional. Não tenho que seguir a carreira de meu pai ou de minha mãe. Até porque não há garantias de que eu saiba ou goste de fazer o que eles, os pais, fazem. Muita frustração e insucesso se perpetuava por causa desta pseudo-obrigação de ser o que o pai fôra.
Argumento dele sobre o aumento de vagas nos cursos de jornalismo por causa do glamour da profissão (questionável) : poderia vir acompanhado do argumento de que vagas aumentaram para todos os cursos, não só o de jornalismo, é a tendência nacional da expansão do ensino privado.
Vale ler o texto apenas como uma resenha superficial do livro do Noblat, mas superficial mesmo. Comentários ao texto acabaram sendo mais complementares.
Não me assusta a mudança de classe de Plutão, assunto que causou frisson nesta semana que passou.
Eu adoro astronomia, adoro olhar para o céu à noite naquelas cidadezinhas em que quase não há luz e podemos ver também o céu da poesia, como o de Ícaro ou o de Mario Ruppuolo, em O Carteiro e o Poeta. Amo ver a astrofotografia.
Mas me incomoda muito a mania humana de classificar todas as coisas. Mais sensibilidade e menos razão nesse pseudomundo-racionalíssimo-e-tão-bárbaro-e-provinciano-e-tosco! Penso em Darwin e também nas classes de palavras, nas classes econômicas, classes escolares, animais, vegetais, sociais… etc etc etc. Por causa das classes é que a gente se perde neste mundo. Por causa da classificação é que se acentua o preconceito, se incentiva o mundo da aparência : pareça que pertence a esta ou aquela classe para pertencer a ela.
Ciência: verdade absoluta? Inquestionável? A própria história revela o contrário.
E sorrio ao pensar que o que Aristóteles pensou, Copérnico refutou, Galileu modificou… Os astrônomos de agora revêem e os do futuro também verão com outros olhos. Passei um tempo tentando, por curiosidade, entender o que Plutão era então, já que não era mais planeta porque assim os homens estudaram, comprovaram(?!) e decidiram. Não achei durante o primeiro dia da notícia o que Plutão era então. No outro dia, li sobre sua massa, suas características e etc… Para mim, o que verdadeiramente importa é as conseqüências de Plutão, simplesmente, existir. O que é Plutão para o homem e o que ele interfere na nossa vida.
A Lua influencia as marés, por exemplo. E mais os amantes e os poetas. Por isso ela é tão inteira, tão Lua. E Plutão? É um corpo celeste (enquanto não decidirem os homens que é outra coisa). O que Plutão nos traz, o que transforma ou o que influencia ?
Blá-blá-blás à parte… Não interessam muito as denominações no âmbito que as pessoas as têm discutido. Corpo celeste, astro, galáxia, planeta, sol ou satélite, nada mudará na sua vida porque o nome mudou. A ciência descobre que Plutão não pertence à classe dos planetas, então da descoberta derivam estudos que beneficiarão ou não a humanidade. Isso importa.
Qual a questão? Shakespeare é que estava certo neste mundo de ser ou não ser. Eisnsten também, quando encucou uns e libertou outros com a relatividade de todas as coisas… Outro homem lá no passado da Grécia Antiga, um tal de Platão que não é o Plutão da questão, também já percebera as sombras projetadas na parede da caverna… Os limites da nossa visão. Camões, na Renascença, escreveu : ” Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/ Muda-se o ser, muda-se a confiança;/ Todo o mundo é composto de mudança,/ Tomando sempre novas qualidades.”
Gente, paremos de chorar a classificação declinada. Talvez seja um convite a repensarmos a falsa solidez dos conceitos. Dos dogmas. Das certezas. E dos absolutismos que nos levam à Tirania da Intimidade, da Política, da Fofoca, da Crítica Indiscriminada, do Preconceito, da Intolerância.
“Tudo que é sólido, desmancha no ar”, não é Marx? Um brinde às mudanças, ao repensar, às novas descobertas. Mas um brinde especial com cara de vacina à lucidez que devemos ter para lidar com o mundo dos homens, da racionalidade e da ciência. Senão, poderemos ficar (ou permanecer) como o doutor alienista de Machado: louco; ou como os homens do ensaio de Saramago: cegos que vêem não vendo.
Por isso é que eu não fiquei pluta da vida, não me preocupei com as mnemônicas musiquinhas escolares ( aliás, acho-as imbecis: se posso memorizá-las,p osso decorar logo o que tenho que aprender).
Plutão não é mais planeta, mas (parece que) continua lá no céu… Take it easy, portanto.
Como professora, procuro sempre educar meus alunos em sala e a questão do plágio está atualmente em pauta nas discussões das universidades e escolas. O famoso “Que é que tem?” é a declaração de falta de ética maior que eu já vi. Uma aluna minha copiou na íntegra uma crônica de Fernando Sabino e me deu como se fosse a genialidade dela que a tivesse produzido. Achei que já havia lido o texto e … pimba! Tiro e queda! Para azar dela, outro aluno resolveu gravar uma locução da mesma crônica no mesmo dia e me trouxe a fita para que eu a avaliasse em classe. Foi ouvirmos e o texto da “dita Sabina” aparecendo …
Não me mata saber do plágio porque não sou inocente e sei que nem todo mundo tem caráter. O que me revolta é pensar no tamanho do cérebro do imbecil que plagia. Poxa, plágio para mim é atestado de incompetência, de ingerência cerebral. Quando leio algo que eu queria ter escrito, acho genial, bacana, elogio, divulgo a idéia, dou o crédito, aprendi com fulano… Penso então que preciso ouvir minhas vozes para escrever como os autores que eu gosto de ler. E nunca me esqueço de que o berço da escrita é a leitura. E não há como discordar.
Quem plagia obviamente admira ou reconhece o valor do plagiado. Mas é um tipo de admiração que nenhum autor quer ter. Na internet, com o control c e control v, tudo ficou absolutamente fácil. Em segundos, o desonesto pode ser o novo dono de suas palavras, de seu estilo, de suas idiossincrasias e de seus pensamentos publicados. Só leio blog que se respeita, só repasso mensagem com autoria publicada ou assinatura. Só escrevo o que sai de minha cabeça, de minhas emoções, de meus sentimentos e percepções.
Chateia ver o que anda acontecendo: http://queridoleitor.zip.net/arch2006-08-20_2006-08-26.html .
Mas há solução: denúncia e processo. Todo leitor tem dever ético com o autor que admira. Aderi à campanha de denúncia e divulgação de casos como o de Miltinho.
Trair e coçar: é só começar, o filme, tem, como elenco, Adriana Esteves (Olímpia), Cássio Gabus Mendes (Eduardo), Otávio Müller (Cláudio), Bianca Byington (Inês), Mônica Martelli (Lígia), Mário Schoemberger (Cristiano), Aílton Graça (Nildomar), Fabiana Karla (Zefinha), Márcia Cabrita (Vera), Lívia Rossi (Salete), Thiago Fragoso (Carlos Alberto), Mário Borges (Ricco), Cristina Pereira ( D. Orávia), Chris Amorim (Gorete), Leandro Firmino (Mecânico), Miguel Nadir (Homem da mudança), Paulão Duplex (Homem da mudança), Ed Oliveira (Homem da mudança).
O filme deixa a desejar em vários aspectos. Primeiro, não vi a peça e não tenho, portanto, elemento de comparação. Cheguei a pensar que talvez no palco a fórmula dê certo, mas na telona peca em diversos aspectos de seqüência e verossimilhança. É entretenimento barato, arranca algumas risadas ao longo do enredo, mais pela atuação de um ou outro consagrado ator ou atriz do que pela história propriamente dita. Adriana Esteves mostra sua versatilidade, sai do papel de mocinha, que a trouxe ao conhecimento do público nas novelas, e encarna a atrapalhadíssima empregada Olímpia no filme. Consegue convencer.
A doméstica interpreta equivocadamente a ironia e brincadeira do patrão Eduardo ao lhe responder sobre uma outra mulher com quem falara ao telefone e se confunde ao mentir por causa de um jantar surpresa da esposa Inês em comemoração aos seus 15 anos de casados. Eduardo volta mais cedo de viagem para casa e as confusões começam todas “ao mesmo tempo agora”. Lígia, amiga de Inês, conhece um joalheiro há muitos anos e o marido Cristiano pega um cartão dele, Ricco, para ela, interpretando-o como uma declaração de amantes. Até aí, interessante pensar em como a comunicação realmente causa ruídos e nos faz transformar hipóteses em certezas.
Entretanto, se no teatro a comédia se consagrou, no cinema deixa a desejar certamente. Teatro e cinema exigem recursos distintos e a fórmula que dá certo no palco, pela ação e performance dos atores, no cinema, exige outros elementos de coesão e melhor interpretação porque a ação é projetada na telona.
Erros de seqüência, captei-os ainda no cinema, enquanto assistia ao filme: os dois maridos supostamente corneados, por exemplo, estão trancados no escritório e ouvem a conversa das mulheres pelo buraco da fechadura. A empregada os trancou lá dentro. Depois, em outra cena, eles olham pela fresta da porta entreaberta e, na cena seguinte, estão lá trancados de novo. Como abriram a porta se não possuíam as chaves? E depois, logo seguidamente, aparecem trancados por fora?
Na cena em que Vera ouve a confissão do marido síndico de que se apaixonara por outra, no caso Inês, a descompostura de Márcia Cabrita (como Vera) e a péssima qualidade de sua atuação ficam evidentes. Ao sair do espaço no play onde conversavam, concluindo que está sendo traída e que vai se separar, levando tudo de casa, Vera sai saltitante como se fosse uma criança a buscar o sorvete na esquina com os dez reais que ganhara do pai. Nenhuma expressão corporal, diga-se. Nenhuma mulher se separa saltitante, nem sai de uma confissão de paixão do marido por outra com a leveza que ela caminha para se retirar. Até hoje, estou certa de que ela é um caso típico de atriz por QI (Quem Indica). Nunca convenceu no Sai de Baixo e em nada mais que fez e pude ver.
A aspirante a síndica, D. Orávia, não diz a que veio. Cristina Pereira desperdiça seu talento e simplesmente sobra no filme. É, no filme, elemento totalmente secundário e dispensável. Não precisava constar. Assim também ocorre com Salete, personagem de Lívia Rossi. Encontrar o cardiologista Eduardo no avião é verossímil e interessante. Situação plausível. Mas o filme projetado na aeronave ser o dela dançando num congresso e o jornal que ela lê ter a foto de Eduardo… coincidência demais para poucas horas de avião. Ao final da história, ela ainda aparece na casa dele para lhe devolver o seu celular que perdera. Nenhum problema nesta situação, mas ela ir à casa de um quase estranho vestida para dançar e subir no apartamento dele não é nada comum.
Ao final do filme, a empregada tranca todos em salas, quartos, lavabo, área de serviço. O detalhe é que ela guarda todas as chaves na própria roupa, arrancando-as das portas. Quando os homens que fizeram a mudança da esposa do síndico invadem o apartamento, em busca de reaver seus prejuízos, saem destrancando todos. E as chaves? Não houve a cena deles pegando a chave. Abrem simplesmente as portas como se lá na fechadura as chaves estivessem.
Outra questão me deixa sem paciência para o engraçado que poderia haver na circunstância: a esposa do síndico se enerva com a possibilidade dele a estar traindo e resolve se separar. Os trogloditas da mudança chegam e, simplesmente, sob protestos do síndico, saem carregando toda e qualquer coisa que haja dentro do ap. O síndico nem consegue impedir, pela força bruta os homens levam o que querem. Como isso pode ocorrer? Nem mandato eles tinham … E olha que tenho experiência em mudança e é simplesmente impossível que se carregue tudo tão rápido, em poucas horas, inclusive que se arranque o lustre da sala e nenhum biscuit mais haja pela casa, ou milhares de caixas.
Depois, mais um erro de seqüência: o síndico se esconde no armário ou guarda-roupa que os homens carregam e, na cena que sai do ap, eles realmente demonstram a força física extra necessária para acarregar o móvel com um homem (gordo) dentro. Ao saírem do elevador, entretanto, os homens , apenas dois, carregam-no sem o menor esforço. O homem saiu do armário ou eles tomaram espinafre? Em poucas horas, a mudança vai e volta.
Adriana Esteves, Cássio Gabus Mendes e Aílton Graça são os atores responsáveis por sustentar toda a trama e garantir que ainda a classifiquemos como comédia. Eles impedem que o filme caia na “sem-gracisse” absoluta. Ainda há que se ressaltar que o perdão coletivo dos patrões e demais pessoas envolvidas na confusão de Olímpia não desce na garganta de ninguém em sã consciência. Além do mais, o título do filme não diz a que veio. Nada o justifica. Não houve sequer uma traição no filme, é preciso registrar. E ninguém se coçou (estou sendo mordaz).
Penso que os autores e diretores de filmes, livros e peças têm de escolher o grau de verossimilhança que pretendem imprimir às obras. Não dá para oscilar tanto sob pena de cair no ridículo do mau gosto e decepcionar o leitor ou espectador que se sentem subestimados. O inverossímil de filmes como Top Gang, Corra que a polícia vem aí ou do Casseta e Planeta são exatamente a medida certa de sua graça. Mas Trair e coçar não consegue situar-se nem em um campo nem em outro. O filme não ganha força, não alavanca como comédia, proporcionando apenas risos aqui e ali , e vira mera sessão da tarde. Não oportuniza o riso largo ao sair da sala de exibição e nem nos faz comentá-lo depois em mesas de bar ou sessões com amigos. Simplesmente, um filme que esqueceremos.
Finalmente o processo de perder o passado está acontecendo.
Deixar as traças da memória apagarem o que passou.
Rasgar os papéis que não fazem mais sentido.
Superar os traumas que ainda despontavam como dor breve.
Um medo que não existe mais.
Uma tranqüilidade que começa a chegar porque a vida vai , simplesmente, ficando normal.
Casas vazias de prazer,
cheias de conforto e tecnologia.
Faltam pessoas.
Nenhum brasileiro. Quinta-feira. À noite.
Saia rodada, boca pintada.
Escolhi um holandês. Brindei com um português.
E terminei a noite com um hamburguês.
Seu nome… é agora apenas mais um, impresso no jornal.
Um estranho desconhecido.
E eu não sabia disso naquele tempo.
Este é um post pela blogagem coletiva (proposta pela Laura) sobre violência nas grandes cidades brasileiras. É um texto que eu preferiria não saber escrever. É um texto que hoje pode sair de mim e vir para o mundo, mas que ficou entalado por mais de um mês em minha garganta.
Nos jornais impressos, nas revistas, na internet e na televisão, vemos, diariamente, dezenas de notícias sobre violência. Isso nos assusta um, dois e três dias, mas passa a ser comum (atenção que eu escrevi comum e não normal) e a fazer parte do cotidiano, não despertando mais a nossa atenção. Apenas sabemos que a violência anda realmente alta quando ela bate à nossa porta ou à porta de alguém querido ou conhecido nosso.
No ano passado, uma van que levava minhas alunas para a faculdade, às 18h30, foi interditada e assaltadíssima. Roubaram relógios, telefones, dinheiro e cartões. Uma delas, a Rosa: responsável, senhora mãe de família, casada, trabalhadora. Faz faculdade no terceiro turno em busca de melhores condições, chega em casa quase à meia-noite. Paga com sacrifícios as suas contas. Madruga para dar conta de marido, almoço, filhos e de sair para o trabalho que começa cedo. Citar as referências de Rosa só aumenta a estupefacção que sinto, embora não considere que haja perfil de pessoas para serem assaltadas.
Uma amiga minha, incauta, gastou mais tempo do que deveria na porta de casa no bairro pacato onde nasci e cresci. Namorava o seu futuro esposo e dava o último beijo da noite. Os bandidos os renderam, tomaram o carro, levaram ambos no porta-malas, mantiveram-nos em cativeiro por um dia, até que o carregamento de drogas chegasse com sucesso à cidade do interior no carro roubado. Na hora de liberá-los, levaram-nos ao matagal, mandaram que andassem sem olhar para trás e corressem. Ela pensou que levaria um tiro pelas costas. Sobreviveu, graças à ‘bondade’ dos bandidos.
Conheço quatro rapazes, em igual condição de honestidade e dignidade (vale ressaltar), trabalhadores, que sofreram seqüestros relâmpagos. Abordaram o carro de cada um deles, sempre ladrões armados, rumaram ao caixa eletrônico, sacaram o dinheiro e levaram mais o que puderam de pertences. “Ladrões educados”, como se diz, porque, em três casos, devolveram os documentos às vítimas.
Chega!
Basta!
Pára tudo!
Brecht tem um poema que ecoa diariamente na minha cabeça e que recito em sala de aula para que nunca o esqueçamos, ao menos eu e os meus alunos:
” Vos pedimos com insistência
nunca digam é natural.
Pois em tempo de anarquia e sangue,
de humanidade desumanizada,
em que o arbitrário tem força de lei,
que nada se tome como imutável,
que diante de nada se diga ‘é natural’.”
Não consigo deixar de me indignar. Uma colega trabalha num colégio estadual no centro da capital baiana. Um aluno a ameaçou com uma arma caso ela não o aprovasse. Outra colega saiu da aula noturna para uma noite de terror: trabalha há 20 anos na escola que fica no Rio Vermelho, bairro boêmio em Salvador, cantado em verso e prosa, voz e violão. Ao ‘desacionar’ o alarme do carro, três homens a abordaram armados, empurraram-na no veículo. Depois de minutos de terrorismo verbal, vagando pela cidade sem lei, eles pararam em frente ao caixa eletrônico e a fizeram sacar o que podia. Queriam levar também os envelopes que ela carregava, explicou-lhes por a + b que eram provas da escola. Eles deixaram os pacotes, embora não sem antes conferir o conteúdo. O comentário dela foi: “graças a Deus que eles não levaram as provas. O que eu ia dizer aos alunos e à escola? E ao diretor?”
Sabe, é nestas horas que penso que alguma coisa séria precisa mudar. Muito séria mesmo. Não consigo aceitar que a pressão de um diretor ou de alunos possa ser maior que o ato de violência que ela sofreu. Dane-se a escola. Dane-se o diretor. Danem-se os alunos. Danem-se todos que não conseguirem entender que uma pessoa foi assaltada. Falamos em educação diversas vezes como solução para os problemas da humanidade. Não creio que seja utopia, acredito que possa mesmo transformar a sociedade em grande parte, mas não esqueço que tiranos são muito bem educados. E que a corja de governantes que pouco se importa com o povo também foi ‘bem educada’. O povo fica sem armas e sem argumentos.
É hora de ir às ruas, de ir às urnas, de ir às salas de aula, às palestras, aos shows de pagode, axé, sertaneja ou clássica, aos teatros, aos cinemas, às igrejas, aos centros espíritas, aos terreiros de candomblé, aos templos, aos estádios… é hora de parar em todos estes lugares para entender que não dá para viver com os índices de violência a que estamos submetidos. Alguma coisa precisa ser feita porque cada vez mais eu, você, nós e os eles que conhecemos são as vítimas de uma abismal desigualdade social, de um capitalismo que incita a ganância, a usura e os desejos de consumo daqueles que pouco se lixam para o bem estar global, porque protegidos por carros blindados e muitos seguranças e isolados no mundo à parte em que vivem as elites. Há, por outro lado, os que anseiam ter o mesmo mundo daqueles, mundo que lhes é negado. Se eu não posso comprar, eu tomo. Simples. Minha vida pouco vale, não há, muitas vezes, família, escola ou Estado que comigo se preocupe. Não trabalho, não tenho dignidade. Não sou cidadão.
Há pouco tempo eu li nos olhos de dois garotos de no máximo 22 anos que eles não tinham nada a perder.
Passei 30 anos fora das estatísticas negativas. Nunca ladrões conseguiram me roubar, embora houvesse várias tentativas. Mas, há menos de dois meses, parei às 10h30 no calçadão da praia para fazer umas fotos. O mar estava com uma cor incrível, o céu de um azul lindo. Ia blogar a foto e escrever um poema. Estacionei, desci do carro só com a câmera. Usava um óculos, uma saia longa e sandálias baixas. Olhei ao redor, a câmera era discretíssima, pequenina. A praia estava cheia, muitos homens fortes, malhados, sarados. Pais e mães e filhos, gente de bem. Tirei uma, duas, três, quatro fotos. Então percebi os vultos correndo em minha direção, dei um giro, olhei ao redor, vi muitas pessoas… Agarrei a câmera, um deles a pegou enquanto o outro me puxava pelo braço. Puxei, gritei, gritei, gritei, gritei. NÃO! NÃO! NÃO! Ele gritava: a digital! A digital! A digital! Os transeuntes passavam, os carros passavam. Os ônibus estavam no ponto próximo.
O menor deles, me olhou, cerrou a mão. Percebi o que ia fazer, desviei o rosto e então pude aliviar o impacto do murro que tomei no maxilar pelo lado esquerdo. Agarrei o outro que me puxava o braço com violência, não sei com que força que achei na hora. Torci o braço dele e o derrubei. O outro puxava a câmera e eu a corda de nylon trançado que me feriu o dedo porque se partiu em mim. Empurrei-o e ele caiu, a câmera foi jogada no chão. Eu ia pisar no cara, bater nele, imobilizá-lo… e foi aí que vi, em seus olhos, que ele não tinha nada a perder. Num átimo de segundo, lembrei minha mãe, lembrei que havia a possibilidade do bandido estar armado e, se fôra capaz de me esmurrar e ferir, eu, uma mulher, seria capaz também de atirar, de matar…
Cerca de seis homens malhadíssimos se aproximaram nesta hora, ao ver ambos no chão, tudo muito rápido, segundos… e minha cabeça veloz, no sentido contrário do slow motion da cena… olhei o meu dedo ferido, sangrando… e brilhou um anel de minha mãe nele. Foi o suficiente para que eu me lembrasse do mantra que recito desde que ela morreu: vão-se os dedos, ficam os anéis. E me lembrei de que eu tinha o que perder, a minha vida. E ela é cara para mim. Soltei o garoto, segura de que os homens que chegaram o segurariam e imobilizariam o outro. Qual o quê! Ninguém fez nada. Nada.
Foi o tempo dos bandidos perceberem, catarem a máquina no chão, com a objetiva ainda aberta e atravessarem seis pistas em menos de 10 segundos, desaparecendo na Boca do Rio. Olhei os homens que se acercaram, chamei-os de covardes e desapareci no carro, atrás ainda dos bandidos ou de uma polícia que fosse. Não encontrei nem uns nem outra.
Fiz o retorno e fui comer o caranguejo que me haviam proposto. Beber um pouco para celebrar a vida que é sempre o brinde que eu faço. Afinal, os dedos ficaram. Não acho certo lutar contra bandidos, não aconselho ninguém. Mas não pensei ao reagir, não sabia que assim faria. Sempre me considerei mulherzinha, frágil.
Dei queixa, chances 0,000000001% de encontrarem minha câmera. Prejuízo de uma trabalhadora que paga impostos, declara IR, madruga às 5 ou 6, dorme sempre mais de meia-noite, trabalhando. Foram quase oito salários de prejuízo material, houve um dano psicológico irreversível que me faz ter mais medo de andar na rua e até de ficar em casa e houve mais os danos físicos: o braço roxo, o dedo ferido e o maxilar latejando por duas semanas. Revoltante. Se eles, os bandidos, são vítimas, não posso me esquecer do quanto eu, você e nós somos também.
É por isso que convoco os leitores e os blogueiros a uma reflexão coletiva, hoje, dia da blogagem contra a violência nas grandes cidades. Está na hora de entendermos que somos nós os atores de nossa própria história. E falar em atores significa falar em sujeitos e não em objetos passivos. Esta vida aqui é a nossa vida. Esta cidade é a minha, assim como você tem a sua. Nós estamos aqui. Nós permitimos o mundo assim. Não sou idealista ao ponto de acreditar que vamos mudar o mundo inteiro e sei que violência existe desde que o homem é homem.
Mas há alternativas. Há formas de diminuir a violência nas grandes cidades. Educação é uma delas. Políticas sociais são necessárias. Chega de assistencialismo que só gera mendicância. Por isso, eu vou estudar a oferta de candidatos para outubro. Meu voto vale a minha vida. A máquina se foi. Meus dedos, entretanto, ficaram. Logo, tenho certeza de que poderei melhor ainda apertar o botão digital em outubro.
E o título do post?
Pão e circo: a política pública atual e já velha conhecida. Seitas e religiões alienadoras, pagodes e axés só para cantar as bundinhas e vagabundices que sobem e descem ou os sertanejos para desfilar o rosário de cornos que levaram das mulheres amadas por esta ou aquela dupla. Escolas de produzir rebanhos, televisão de entretenimento tosco. Celebridades, intrigas e fofocas… Ti-ti-tis inférteis. Enquanto todo mundo só quer saber com quem você, Adrianes, Marílias, Déboras, Glaucos e Lurdinhas se deitam, sinto muito, nada pode mesmo prosperar.
A música toca aqui para me lembrar de que um homem e uma mulher deitaram-se numa cama larga de sonhos, desejos, prazeres, ânsias e êxtases. Neste quarto quase escuro, na penumbra, uma luz tão clara nos olhos teus. E, nos meus, esperança de acordar um dia aninhada no pós-tudo do delírio, do gozo e do infinito de um amor que se revela tão insensato. Frágil possibilidade de não mais adormecer sozinha, com frio ou medo.
A música toca aqui e dá vontade de te ter ao meu lado, de deitar gostoso em teu peito e sentir a paz, a paz, a paz… A paz que me leva entregue a Morfeu, lavada de um suor tão teu e meu, tão nosso. A paz que me deixa simplesmente menina. A paz que sinto ao ver os teus olhos tão perdidos no infinito de estrelas possíveis para além do teto simples de um apartamento.
Não sei onde vai tua alma nestes segundos que ainda consigo ver antes do sono inocente. Teus olhos tão perdidos… tão longe, tão doces… e sinto o calor do teu peito, a cabeça assim deitada, e sinto as tuas mãos a acariciar-me os cabelos… Teus olhos tão perdidos… ainda os vejo mais uma vez… E sei que assim adormeço no colo teu.
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A música é The dark night of the soul de Loreena . Só achei o vídeo com desenho no you tube. O desenho é besta. Mas gosto da música.
O Museu Carlos Costa Pinto, no Corredor da Vitória, foi a melhor pedida da semana que se encerrou. Quarta-feira à tarde, trinta e quatro alunos do primeiro semestre, calouríssimos (quase maioria) e um corredor de histórias para explorar: ACBEU, ICBA e Aliança Francesa, três respeitáveis centros de idiomas; Museu Geológico, Museu Carlos Costa Pinto e Museu de Arte da Bahia; Igreja da Graça, Igreja da Vitória e Igreja de Santo Antônio da Barra e o Cemitério dos Ingleses. Tarefa para a tarde: explorar de modo sensível qualquer um dos espaços.
Entenda-se a complexidade da tarefa: passei semana passada um filme em classe a fim de falar sobre poesia e texto informativo, de metáfora e fatos. Falar de arte, de literatura, Neruda e sensibilidade. O filme era O Carteiro e o Poeta. Não é que peguei gente rindo do filme? Foram poucos, fiz questão de nem saber quem eram, de não prestar atenção às figuras para não gravar má impressão. Fiquei tão emp*tecida por tanta insensibilidade que mudei toda a aula do dia. Escrevi no quadro uma sondagem para reflexão pessoal. Isso mesmo. Eu não ia recolher nem ler nada, só queria que cada um pensasse. Sozinho. Em si.
Não fiz cara de bruxa. Sorrindo ( com o coração raivoso, juro, mas ainda acreditando na profissão), escrevi várias perguntas no quadro branco. Perguntei o que cada um entendia por cinema para as massas, qual o museu inesquecível que haviam visitado, qual a biblioteca de que mais gostavam, qual o tipo de música preferido por cada aluno, qual a peça de teatro de que mais gostaram na vida, quais os livros mais amados por eles, quais as cidades da Bahia que conheciam, quais os estados do Brasil e quais os países que haviam visitado.
Cinqüenta minutos para escreverem sozinhos, com exigência de justificativas, embora houvesse avisado que eu não leria nenhum dos cadernos. Então, ditei para que escrevessem o tema da produção/reflexão textual :
“O MUNDO É DO TAMANHO QUE VOCÊ O VÊ. “
QUE TIPO DE JORNALISTA VOCÊ QUER SER? Que caminhos está percorrendo para atingir seu objetivo? Que trilhas pretende explorar nos próximos anos?
Então marquei rapidinho um programa cultural externo à faculdade. E fiquei satisfeita com o resultado.
Encontramo-nos no ponto exato símbolo do capitalismo, da globalização, da cultura de massas, da junk food: Mc Donald’s. Bem embaixo daquele M gigante fiquei com os meninos. Convidei-os a olhar ao redor e ver: uma igrejinha histórica, um sítio onde Diogo Caramuru esteve, árvores centenárias na Vitória, prédios da década de 40 e 50, uma arquitetura urbana riquíssima a ser explorada. Gradis, janelas, residências. Muito da cidade de Salvador está ali, muito mais que o carnaval em fevereiro de todos os anos.
E, traçadas as possiblidades de roteiros, eles se rearrumaram em grupos e partiram em busca da experiência e de vivências diferentes. Pedi-lhes que procurassem ver o que talvez poucos vissem, que explorassem os detalhes e que se permitissem contemplar.
Passada meia hora, optei pelo caminho do Museu Carlos Costa Pinto. Uma funcionária gentilíssima, Liége Coelho, atendeu o grupo e, além de contar-nos a história da família e da criação do museu, projetou o filme sobre as peças e a história da fundação do MCCP. Depois, a maravilha de ver as pratarias e as louças, as jóias de escravas e senhoras, os candelabros, os cristais, o mobiliário e os quadros de coleção do grande mecenas que foi Carlos Costa Pinto. Algumas peças estavam fora, na exposição O que é que a Bahia tem, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, mas em nada subtraíram a beleza da exposição. Interessantíssimo foi para mim verificar o estado de conservação das peças, a seriedade com que o museu é cuidado e o sistema de segurança.
Boas notícias: menores de 18 anos nunca pagam; às quintas-feiras, ninguém paga e, também às quintas, é exibido um filme antigo no cinema do museu, gratuitamente. A biblioteca Margarida Costa Pinto tem um riquíssimo acervo de livros sobre arte e o café Balangandan é simplesmente um espaço delicadíssimo no centro da cidade, com requinte e bom gosto.
Visite o link quem não mora aqui. Quem reside em Salvador, vá degustar uma tarde no Museu. Eu adorei. Os meninos também.
O carteiro e o poeta? Será reavaliado em ouuuuuuuuuutra aula, depois que algumas visitas mais ocorrerem. E olha que respeito muito o gosto pessoal. Poderiam fazer mil críticas ao filme, achá-lo até monótono. Mas rir… só se for de piada.
Resolvi tirar o dia para mim. Isso implica reclusão e fazer só o-que-eu-quis. Esperei até uma pessoa me ligar, mas parece que estava com outros afazeres. À tarde, naquele esquema depois do banho, deitei no ócio na minha cama e simpesmente dormi profundo. Concluo nestas horas que o sono sempre está atrasado quando se é professora.
O engraçado às 19 horas: lembrei que me esqueci (ô contradição!) de pegar os convites para o show de Nando Reis que já rolava na Concha Acústica (risos). Também, vai ver que o inconsciente se satisfez com a dose de quinta e resolveu desconsiderar a outra oportunidade.
Foi dia de arrumar gavetas e papéis. Jogar coisas fora.
Maior ato de coragem: jogar no lixo todos os arquivos de jornais velhos que tenho.
Maior arrependimento: ter jogado no lixo todos os arquivos de jornais velhos que tenho.
Atitude póstuma: ir ao lixo pegar de volta todos os arquivos de jornais velhos que joguei fora.
Pode?
Aí fico angustiada aqui pensando quando é que vou me livrar do excesso de papelada que eu tenho? Vira e mexe, faço doações gigantescas. Fico aqui num trabalho de bibliotecária, separo sacolinhas para fulano, sicrano e beltrano. Entretanto, arght!, tem horas que dá vontade de passar tudo pelo incinerador. (Ah, falar nisso, meu sonho de consumo mais imbecil é a trituradora de papel de escritório. Ainda compro uma bichinha daquelas [AS 870 CR] para ter o prazer de ouvir o tzzzzz tzzzz tzzzz… e ver o papel picotadinho. Se alguém se habilitar, rsrsrsr, aceito de presente!).
Agora, tarde já, um filminho que eu sou gente ainda. Quanto ao lanche, vou inventar que eu não sou traça.
Ser mulher não é lá tarefa das mais fáceis, embora seja uma delícia muitas vezes. Na semana que antecede a menstruação, nós acumulamos líqüidos que podem, na balança, significar exatos dois quilos a mais. Nada de drástico se se considerar que, assim que menstrua, o peso equilibra-se, uma vez que a atividade linfática retoma à normalidade. O problema é que, percebendo-se inchada, dificilmente a mulher se lembra de qualquer vaso: nem o de flores, nem o sanitário, quanto mais o linfático! Ansiosas, então, pela alteração hormonal e pelo inchaço que faz elas se sentirem feias e não caberem bem naquela calça, a menina, a moça e a mulher comem. Comem não, devoram.
Doces, chocolates, biscoitos, tortas, calabresas, picanhas, churrascos, camarões, queijos e tudo o mais que for gordura ou açúcar (e delícia, diga-se). Este comportamento, obviamente, leva, realmente, os ponteiros na balança a subirem. Então, só no dia em que a dita cuja chega é que a mulher consegue controlar a ansiedade e fazer dieta até que possa, novamente, chegar ao patamar de alimentação normal. Nenhum problema se se conhece o funcionamento corporal, o diabo é que é um CICLO. Sim, e isso significa que, todos os meses, lá vamos nós de novo, mulheres, neste processo incha-desincha, que talvez tenha inspirado a sanfona que tanto chora. Chora, chora, sanfoninha, chora, chora…
A sensibilidade fica à flor-da-pele, viramos manteigas-derretidas. Para chorar, é daqui para ali. Choramos por tudo, coisas sérias e banais. A taxa hormonal potencializa todas as coisas e, de repente, um outro programa feito pelo namorado é interpretado como escanteio ou provocação. Ou então palavras sérias de repente ouvidas como grosseria das bravas. Um mau humor daquele funcionariozinho da repartição pode parecer a ela uma perseguição sem precedentes! Coitados dos homens, sim, que não sabem o que é o ciclo menstrual e não têm como entender a nossa órbita. É difícil mesmo.
E ainda temos que contar com o efeito da Lua. Não é à toa que a Lua mingua, cresce, fica cheia e depois nova de novo. Somos água e, se a Lua influencia o movimento das marés… imagina os maremotos que não nos causa. Já observei o quanto o “enchimento” lunar tem a ver com o enchimento do meu metafórico saco. Perco a paciência, não tolero idiotices, não faço ouvidos de mercador, digo o que penso e fico cortante. Navalha na saia. Por outro lado, na Lua nova, fico meio perdida, marola sem objetivo, até que ganho de novo, entusiasmo e cresço em ondas… para minguar daqui a pouquinho em maré morta. De cansaço. Ou de enfado.
Nada é 100% exato, sim, ainda bem. Se não houvesse outros fatores, poderíamos ser simplistas e reduzir a análise a quaisquer estereótipos cabíveis. Ser mulher ou humana, escapa, felizmente, aos estereótipos. É difícil estar e não estar, inchar e não inchar, emagrecer e engordar, animar e desanimar… Quando se pensa que seremos agressivas, relaxamos e somos doces; quando se crê que seremos passivas, viramos leoas feridas. Talvez este seja o encanto: o imprevisível. A shakespeariana questão: ser ou não ser serve para os homens, porque oferta exatas opções. Às mulheres, acrescente-se a possibilidade do quando. Quando quero ser ou quando posso ser ? Quando não sou e nem quero ser? Somos agora e daqui a pouco já não mais.
Talvez o paradoxo da inconstância cíclica nos remeta ao que somos nós, as mulheres: a antítese pleonástica de nós mesmas. Vá entender. Ou entender-nos.
Ontem fui surpreendida pelo convite inesperado para o show de Nando Reis na Fashion Club às 23 horas. O concerto com o ex-Titã durou 1h30min. A casa estava lotada de gente bonita e interessante, cerveja e roska livres (refrigerante também) na festa de comemoração do aniversário da Globo Fm. Os sucessos agitaram o público, especialmente Marvin e All Star, que fizeram a platéia cantar bem alto. Relicário e O segundo Sol deixaram o lirismo à flor da pele. A hora exata em que os beijos começaram a acontecer e puderam ser notados pelos observadores de plantão: gente jovem, curtindo o ficar sem compromisso, quiçá o embrião de um novo amor.
Sábado, na Concha Acústica, novo show de Nando, desta vez aberto ao público, em produção de Irá Carvalho.
Mais fotos no meu fotoblog.
Além de toda a redação do panfletinho colocado na minha caixa de correio hoje, a incorreção ortográfica não deu para tolerar. Eu não uLtilizo nada, utilizo…
Ganhar flores é sempre tão bom!
Meio-dia. Sineta insuportável ecoa, crianças descem gritando e correndo pelos corredores. Esgueirei-me calada, cenho franzido. Três avisos coordenados: “não esqueça isto”, “não esqueça isso” e “não esqueça aquilo”. Um pai tranca o carro dos demais. Uma perua buzina histérica. O alarme deu pane de novo. Quinze minutos para religar o carro. Engarrafamento. Buracos espalhados por toda a pista. Um renault bêbado samba na rua, ziguezagueando. Uma senhora de laranja atravessa fora da faixa, entre os carros. Vendedores ambulantes com tangerinas e morangos à esquerda. Insistem, insistem, insistem. Flanelões maiores de idade, homens sem camisa, com o nariz esmagado no vidro do seu carro a olhar o que há dentro e a implorar um trocado. Semáforos vermelhos. Obras em toda a orla. Trânsito interrompido, tudo sujo nos canteiros de obras. Um gol faz barbeiragens. Um siena tranca o tráfego no cruzamento. Quarenta e cinco minutos depois… Cheguei em casa, o controle da garagem não funcionou. O porteiro demorou a abrir o portão. O elevador estava no nono andar. A empregada jogou fora o meu chá caríssimo. A empregada esqueceu-se de fazer o feijão. Minha avó ligou para bater papo. Meu primo ligou para vir aqui. Minha amiga ligou para vir aqui também… STOP! Almocei e fui dormir, que eu sou gente.
Tenho a maior certeza de que quem ganha ilicitamente o seu dinheiro não se incomoda com preços. Já pude observar pessoas desonestas consumindo. E qualquer trabalhador ficaria no mínimo indignado se visse o desperdício e a soberba daqueles que não sabem o que é o suor de cada dia.
Aos outros, os que trabalham para ganhar o seu salário, seja ele suficiente ou mínimo, lembro as enrascadas dos supermercados modernos. Os templos de consumo cada vez mais estrategicamente se armam para nos iludir. E vender, óbvio. Há a disposição das gôndolas e dos produtos nelas, a própria arrumação das seções, que prioriza na entrada do mercado os supérfluos e as mercadorias mais caras. Às vezes, em nome do seu orçamento, vale começar as compras pelo outro lado. Há muito o que se pensar ao fazer uma rotineira visita ao supermercado para adquirir o pão nosso.
Dizem os especialistas em economia que devemos levar sempre listinhas. Comigo até hoje não funcionaram bem. Não me eduquei para comprar assim. Tenho boa memória e – o problema – sou volitiva, então escolho no dia o que quero ou não. Um dia ainda tentarei a disciplina da lista. Nos últimos 7 anos sem mãe, acabei aprendendo a não me encher de supérfluos e a pensar se preciso realmente deste ou daquele produto. Mas não dá para não colocar na lista mexilhão e chegar aos frios, ver a qualidade e o preço bom e deixar de pensar na hora no spaghetti que aquilo ali pode virar… É muita racionalidade e o meu estômago não pensa. Deseja.
Entretanto, comecei a observar uma série de coisas, como as estratégias para lucrar mais. Que um sabão custa mais e outro menos, todo mundo sabe. Estas questões de marca e qualidade interferem no preço final do produto. Mas daí a pensar que 1kg em uma embalagem custe mais que dois pacotes de meio quilo em duas embalagens… Ora, se usamos 1 quilo de sabão no mês, a tendência é pegarmos o pacote grande e não dois pequenos. Hoje, entretanto, voltei para casa com duas caixinhas ao invés de uma grande. Foi mais barato assim e o produto era o mesmíssimo.
As maiores armadilhas que tenho visto, contudo, envolvem o famoso leve tanto e pague menos. Para ilustrar o serviço “dona de casa”, vejam o caso dos cotonetes. O produto era os da marca Johnson & Johnson. A matemática que aprendi não me permite entender : 75 cotonetes custam R$ 1,49. O pacote leve 75 e pague 60 custa R$1,55. E o pacote com 150 hastes flexíveis sai a R$3,45. Fizeram as contas do custo/benefício? Levar dois pacotinhos de 75 custa mais barato que um de 150. E a promoção é embromação. Leve 75 e pague 60? Como? Se sai mais caro que a embalagem que não é promocional? Supermercado a que fui hoje? G Barbosa do Costa Azul.
Eis a prova!
Se ontem era dia de enfado, hoje providências foram tomadas. Então eu peguei as rédeas, assumi a direção, abasteci o combustível, projetei meus trilhos, desemperrei o manche, destravei a corrente e pedalei livre, livre pelas vias que quero circular nos próximos 5 anos.
Os burros continuam empacados, mas meu caminho é cada manhã. É hora de tecer a nova história, de traçar os objetivos e sonhar para os próximos tempos.
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Outro tempo começou para mim agora. Tenho muita coisa ainda para arrumar. Papéis, livros, roupas e objetos. O passado já está arrumado; a memória, quite. Os traumas passaram. Cumpri minhas promessas, não tenho palavras a dizer a ninguém. Disse tudo que havia, não calei, não engoli, não me feri.
O presente é ainda inconstante, bom de ser aproveitado melhor. As prioridades estão se redefinindo.
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Boa notícia é que daqui a apenas sete dias acontecerá algo que eu espero há 7 anos. Haverá champanhe.
É isso aí.
Deu saudade hoje de todas as vezes em que eu tinha um alguém sempre a me esperar. Senti falta do companheiro de leituras. Ele lia o livro todinho calado, na dele. Depois, colocava o exemplar em meu caminho de todas as formas. Até que eu o percebesse. Quando as provas e o meu trabalho permitiam, então, eu me deitava à tarde de banho tomado na cama gostosa e lia… lia… lia… Findo o livro, à noite, em casa, com certeza, havia velas acesas, mesa posta e jantar especial. Vinho bom. Sempre os portugueses, de que gostávamos.
Mas a surpresa às vezes vinha em forma de buquê ou de jóia e de chegar mais cedo em casa, para tomar sopa e abraçar no sofá. Rapidinho, com disposição, o pão-com-café-e-sopa cotidianos acabavam virando bacalhau ao forno ou o maravilhoso spaghettini.
E depois havia a varanda, um décimo quarto andar, duas taças e um homem e uma mulher. Que partilhavam leituras. Filosofavam. Discordavam. Argumentavam. Convergiam. Poetizavam. Intertextualizavam. E livros se transportavam de lá de dentro da estante para a mesa que recebia a luz do luar após a meia-noite.
Companheirismo, sabe?
Recordo então o abraçar apertado na cama mais tarde. As pernas entrelaçadas. Os beijos nas costas. E a certeza de que acordar seria mais doce e menos vazio na manhã seguinte.
É isso aí. A vida tão simples é boa.
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A vida tão simples é boa. É. E como eu a queria nesta noite!
Com outra pessoa…
Sem rédeas.
Barra de direção quebrada.
Combustível na reserva.
Descarrilamento.
Manche emperrado.
Corrente travada.
Burro empacado.
Carro sem boi.
Pneu furado.
Vela rasgada.
Injeção entupida.
Blecaute no bonde elétrico.
Pernas cansadas.
Braços sem nado.
Sem nada.
Alguém pode me dizer quando o governo federal vai resolver privatizar logo o Brasil inteiro? A ingerência está me irritando a ponto de eu me tornar resmungona insuportável.
Segunda viagem a Feira em apenas 1 mês = menos dois pneus. No mesmo trecho, cinco carros no pseudo acostamento com o pneu ou furado ou rasgado. Por isso é preciso ter atenção na estrada para você não cair nos poucos pedaços de rua que existem entre os buracos.
Postos de gasolina típicos de países de oitavo mundo. Sanitários públicos? Pastos são mais limpos. Deu vontade de voltar ao primitivismo do paraíso e encarar as moitas e folhas das estradas. Papel higiênico? O que é isso? Na Bahia, só se viaja com papel no porta-luvas ou na bolsa. Os mais toscos improvisam com guardanapinhos do projeto submundo de lanchonete.
Segurança? Só a do cinto.
Policiamento, patrulhamento? Maus elementos.
Ô, meu Deus, por que eu nasci aqui? Juro que pensei. Ficam pregando para lá e para cá as maravilhas naturais do Nordeste, que realmente existem, e se esquecem de avisar ao povo que já inventaram a CIVILIZAÇÃO. Tive vontade hoje de solicitar uma aula pública, magna e depois em série, tipo no mínimo um semestre de EDUCAÇÃO BÁSICA, para TODA a população brasileira. Obrigatória.
1. Dia dos pais sem pai, sem avô e sem namorado.
2. Problemas te batem à porta, confusões na vida de pessoas queridas e uma criança de sete anos sofrendo. (ai, Jisus!)
3. Saudades de Lisboa, já que Pasárgada não existe.
4. Uma vela que derreteu em minutos no pires (haja urucubaca).
5. Um quarto de bagunças para arrumar – sem vontade.
6. Meu sono interrompido pelo telefone. Insônia depois (arght!).
7. Vontade de dar ultimatos.
8. Nenhum programa interessante na tv.
9. Não há biscoitos doces na dispensa hoje. Se houvesse, que adiantaria? Estou com vontade, mas sem fome alguma.
10. Coração em caquinhos.
Tomara que chegue o amanhã.
Depois de muuitos dias julinos de farra, cerveja, vinho e muita comida boa, resolvi acordar light. Senão…
Primeira providência: dispensar a empregada. Sim, porque cozinhar para um é chato. Aí evitei as panquecas deliciosas, a moqueca de camarão ou de peixe, que era isso que eu comeria hoje se achasse uma vítima para compartilhar.
Abri a geladeira e saquei logo uns pimentões vermelhos, que eu adoro, alface, rúcula, pão integral e duas finas fatias de peito de peru defumado. Comi o sanduíche com mostarda Maille. Um guaraná antarctica diet.
Duas horas depois, o buraco negro na barriga gostaria de sugar queijos e vinho português (preferível aos argentinos). Mas resisti bravamente. Um potinho de palmito me convidou. Pensei em salsichão alemão com chucrute. Dispensei e des-pensei.
Tem uma coisa na cozinha que eu adoro, que são as facas. Desde pequena tenho fascínio por elas. Sempre ia ao supermercado e colocava uma nova no carrinho de minha mãe. Quando ela dava conta, a faca estava lá e eu argumentaaaaaava que era uma beleza, para que ela a adquirisse. Muitas vezes, a empreitada dava certo e lá ia eu ajudá-la no buffet com minha faca nova. Só ajudava se a faca tivesse pouco tempo de uso e se eu a inaugurasse ( filha cruel!). Haja vontade feita!
Então, peguei minhas facas com aquele fio preciso de cortar fui fatiando o palmito compridinho… depois em rodelas que eu odeio rotinas e monotonia. Mussarella de búfala, uma bolota apenas. Quatro tomates secos. Um pacote de rúcula lavadinha no vinagre. Uma cenoura. Aí fui fazer experimento com meu jeito MacGuiver… não achei o descascador de legumes e resolvi pegar o fatiador de queijos. Menina, funciona que é uma maravilha! A lâmina é perfeita. Descasquei a cenoura e resolvi que a queria em palitinhos finos também (acredita que em rodelas me dão enjôo?). Outra maluquice: cenoura ralada me dá fome porque só penso naqueles dias insanos de dieta e nos sanduíches naturebas mal feitos. Aí não é todo dia que eu gosto de cenoura ralada.
Então fui arrumando o prato, polvilhei um mínimo de orégano no queijo, bem pouquinho, quase nada. Acrescentei alcaparras e três míseras azeitonas (senão como todas que houver). Para dar pompa ao negócio, em cima do palmito em rodelas pus a mostarda e inventei de comer tudo de pauzinho (japonês é magro porque dá trabalho comer de pauzinho) (estes são lembranças de viagem. Só os encontrei aqui em casa com a ajuda do meu santo predileto: São Longuinho.) Lembrei-me do molho shoyo, que eu detestava e aprendi a gostar com o último amore. E, antes de comer tudo, preparei duas xícaras de chá verde com pêssego. Dei os três pulinhos devotados, fotografei e sentei-me para o ritual do almoço.
Tudo então resolvido se eu não ficasse pensando depois do prato de salada: sim, a que horas vão trazer o churrasco?
Hoje é o terceiro dia da FLIP. Nas notícias: Jorge Amado mostrou a Bahia.
Mais uma fotografia de Parati:
E aqui o link do Punto Divino ( Punto di viño também se pode ler). O restaurante para comer o menu inteiro. Divida os dias e , sem medo de errar, peça tudo que houver.
“Caro amigo Jorge Amado, o bolo de puba que eu faço não tem receita, a bem dizer. Tomei explicação com dona Alda, mulher de seu Renato do museu, e aprendi fazendo, quebrando a cabeça até encontrar o ponto. ( Não foi amando que aprendi a amar, não foi vivendo que aprendi a viver?)
Vinte bolinhos de massa de puba ou mais, conforme o tamanho que se quiser. Aconselho dona Zélia a fazer grande de uma vez, pois de bolo de puba todos gostam e pedem mais. Até eles dois, tão diferentes, só nisso combinando: doidos por bolo de puba ou carimã. Por outra coisa também? Me deixe em paz, seu Jorge, não me arrelie nem fale nisso. Açúcar, sal, queijo ralado, manteiga, leite de coco, o fino e o grosso, dos dois se necessita.(Me diga o senhor, que escreve nas gazetas: por que se há de precisar sempre de dois amores, por que um só não basta ao coração da gente? As quantidades, ao gosto da pessoa, cada um tem seu paladar, prefere mais doce ou mais salgado, não é mesmo? A mistura bem ralinha. Forno quente.)
Esperando ter lhe atendido, seu Jorge, aqui está a receita que nem receita é, apenas um recado. Prove do bolo que vai junto, se gostar mande dizer. Como vão todos os seus? Aqui em casa, todos bem. Compramos mais uma quota da farmácia, tomamos casa para o veraneio em Itaparica, é muito chique. O mais, que o senhor sabe, naquilo mesmo, não tem conserto quem é torto. Minhas madrugadas, nem lhe conto, seria falta de respeito. Mas de fato e lei quem acende a barra do dia por cima do mar é esta sua servidora. Florípedes Paiva Madureira dona Flor dos Guimarães.”
( Bilhete recente de dona Flor ao romancista)
( AMADO, Jorge. Dona Flor e seus dois maridos)
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- Foto da edição da editora Record, página 3.
- Texto transcrito da página 10 do romance.
…porque de SPArro minha vida anda cheia.
Ah, finalmente chegaram os cds da digitalização das fotos do ano passado em Parati. Delícia que compartilho com vocês para agradar aos que não foram à FLIP:
O charme da cidade é realmente especial…
O mar, os passeios de escuna… viver Parati exige alguns dias de deleite.
Surpresas na baía, navegar é preciso sim!
Ilha do castelinho, julho de 2005.
O charme da cidade que quase vira uma Veneza com a maré cheia. O centro histórico de Parati é muitíssimo interessante, às vezes se tema impressão de que o tempo não passou por ali ou de que o relógio gira em outro compasso. A vida se torna muito mais fruição.
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Dica para quem está em Parati agora ou vai visitá-la:
Almoçar ou jantar todos os dias no Punto Di viño (Punto Divino) é a melhor pedida. Pode experimentar sem medo todo o cardápio. Inesquecível.
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Todas as fotos em máquina analógica, canon.
Alena Cairo. Julho de 2005.
A Anna, do Terapia Zero, escreveu assim:
Pois é, esse mês só dá Jorge Amado. Homenageado na Flip, capa da Bravo, capa da Entrelivros… Goste ou não goste, não dá pra não tirar o chapéu pro baiano.
Eu lhe respondi:
Eu aprendi a tirar o meu e a sentar com ele para uma abará e uma cervejinha no largo do Rio Vermelho! (Risos) A Bahia dos becos e do povo comum de Jorge foi uma descoberta para mim, menina protegida dessas verdades pela mãe. A alma de meu pai talvez tenha se inspirado nas linhas do escritor… a baianidade dele, a vagabunda alegria de viver. Ele me mostrou a Bahia que é nossa, é de todos e era de Jorge. A Bahia da rua. Nesse caso, meu pai foi o meu poeta.
Vale a publicação porque domingo, se ele estivesse vivo, eu lhe daria um beijo em agradecimento. Ele me tirou do mundo da hipocrisia para o qual muitos dos meus se encaminharam. Do mundo vestido de soberba e faz-de-conta, de aparências e vazios. Do mundo em que vale ter 17 cartões e talvez nenhum dinheiro ou alegria. Mostrou-me que era possível andar sem roupas a maior parte do tempo porque isso aqui é trópico, mas também ele ficava lindo em sua camisa de seda pura. Era o pai que não fôra exemplo nenhum na escola, mas que gostava de ler e era curiosíssimo, inteligente e sagaz, além de malandro pela escola da vida. Devido ao que aprendi com ele, consigo gostar de cristal e tomar com prazer uma cervejinha em copo americano, sentar no Soho ou no tamburete de uma barraquinha em ponto de acarajé. Assim é mais fácil e mais possível viver. A gente nunca anda insatisfeito e consegue sorver da vida o que há de melhor: as pessoas, as companhias, as vivências.
Mais um pouquinho de Jorge Amado, já que a FLIP começou ontem. Que arrepio é esse de pensar no show de Bethânia?
“O soneto que não foi escrito”
” O poeta Antônio Bruno faleceu, vítima de fulminante enfarte – o segundo em curto prazo – , a 25 de setembro de 1940. A manhã luminosa, de atmosfera límpida e temperatura amena, trouxera-lhe à memória outra manhã assim, diáfana, entrando pela clarabóia, iluminando o estúdiu parisiense, envolvendo, rósea e transparente camisola, o corpo nu da mulher adormecida. Visão digna de um soneto, pensara, mas não o escrevera pois a moça despertou e estendeu-lhe os braços.
Ao recordar, tomou do papel e da caneta, e com sua bela caligrafia quase desenhada traçou no alto da página o que deveria ser um poema de amor: ” A Camisola de Dormir.” A lembrança tornou-se dolorosa, a saudade cruciante, ai, nunca mais! O poeta não teve tempo para um verso sequer: levou a mão ao peito, arriou a cabeça em cima do papel, abriu vaga na Academia Brasileira.
O primeiro enfarte o acometera exatamente três meses antes, ao escutar, num programa de rádio, a notícia da queda de Paris.”
(Amado, Jorge. Farda Fardão Camisola de Dormir)
Para ser grande, sê inteiro:
nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
Porque alta vive.
Ricardo Reis
O Navio
” O apito do navio era como um lamento e cortou o crepúsculo que cobria a cidade. O capitão João Magalhães encostou-se na amurada e viu o casario de construção antiga, as torres das igrejas, os telhados negros, ruas calçadas de pedras enormes. Seu olhar abrangia uma variedade de telhados, porém da rua só via um pequeno trecho onde não passava ninguém. Sem saber por que, achou aquelas pedras, com que mãos escravas haviam calçado a rua, de uma beleza comovente. E achou belos também os telhados negros e os sinos das igrejas que começaram a tocar chamando a cidade religiosa para a bênção. Novamente o navio apitou rasgando o crepúsculo que envolvia a cidade da Bahia. João estendeu os braços num adeus. Era como se estivesse se despedindo de uma bem-amada, de uma mulher cara ao seu coração.”
(AMADO, Jorge. Terras do Sem Fim)
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(Mais tarde a foto do casario de Parati)
Parati Julho de 2005
Parati Julho de 2005
Semana da amamentação:
Mulher de peito dá leite!
Meu comentário breve, mas incisivo: eu não sei o que passa na cabeça de uma mulher que nega a si o prazer de dar o peito ao seu filho. À criança, o leite traz saúde, força, vitalidade, proteção. O peito dado e o peito abocanhado , não tive filhos, mas sei: é o momento fêmea.
Nesta próxima quarta, terá início a Festa Internacional Literária de Parati (FLIP). Infelizmente, não estarei lá. Ano passado, em julho, estive a passeio no litoral sul carioca e no litoral norte paulista. Um dos pontos altos da viagem apaixonante foi descobrir Parati. Lembro-me com muito gosto de que meus pais pescavam e estiveram em um torneio de pesca em Parati. Herdei deles o gosto pelas viagens, literárias e mundanas, mentais e físicas… E era incrível ouvir a voz doce de minha mãe ao falar de Parati. Sempre contemplando, absorta em suas recordações idílicas. Descobri Parati e também que talvez não haja lugar melhor para esta festa.
Vindo do litoral paulista, a chegada após costear a praia presenteia-nos com uma cidadezinha colonial, incrustada no cenário belíssimo da serra que abraça o mar. O casario encanta e lembra a Minas de Ouro Preto e Mariana, a Bahia do Pelourinho, de Santo Amaro da Purificação, de Lençóis, Ilhéus ou Valença.
Neste ano, oportunamente, o homenageado pela FLIP é baiano. Assim , não há como não celebrar a fusão entre Parati e o Jorge tão amados.
(foto Parati, julho de 2005)
” Melodia
O mar lhe mandou os ventos mais rápidos, lhe enviou o nordeste que atira o “Valente” para o cais da Bahia. Canoas que passam, saveiros que cruzam, jangadas que levam pescadores, batelões carregados de lenha lhe desejam boa viagem:
- Boa viagem, Guma…
Boa viagem que ele vai em busca de Lívia. A lua ilumina sua rota, o mar é uma estrada larga e boa. E o nordeste sopra, o terrível nordeste das tempestadaes. Mas agora ele sopra como amigo que o ajuda a transpor mais rápido esse braço de rio. O nordeste traz as canções da beira do rio, canções de mulheres lavadeiras, cantigas de pescadores. Os tubarões saltam nas ondas da entrada da barra. Há danças no navio iluminado que entra. À luz da lua, um casal conversa. “Boa viagem”, diz Guma e sacode a mão. Eles respondem e ficam comentando, entre sorrisos, a saudação daquele marítimo desconhecido.
Ele vai buscar Lívia, ele vai buscar uma mulher bonita para oferecer ao mar. Não demorará muito a carne de Lívia terá o gosto da água salgada do oceano, os seus cabelos serão úmidos dos salpicos do mar. E cantará, no “Valente”, as canções do cais. Saberá da história de Besouro, da história do cavalo encantado, de todas as histórias de naufrágios. Será como um saveiro, o casco de uma canoa, uma vela, uma cantiga, apenas uma coisa do mar.
O nordeste sopra, empina as velas do “Valente”. Corre, saveiro, corre, que já brilham as luzes da Bahia. Já se ouve o baticum dos candomblés, a música dos violões, o triste gemer das harmônicas. Guma parece já ouvir a risada clara de Lívia. Corre, saveiro, corre.”
(AMADO, Jorge. Mar Morto.)
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Todos os dias da semana, então, um post a ambos. Com direito a fotos inéditas.
Porque hoje é sábado, acabei indo parar na praia do poeta. Incrivelmente, a luz estava linda para a fotografia, descobri que talvez seja aquele o lugar de melhor luz em Salvador. Mas porque hoje é sábado, não levei a câmera. Fui livre, leve, solta… tranqüila… sem hora para voltar, sem contas a pagar, sem estresses, sem trabalho; larguei tudo em casa, deixei tudo na vida, na cidade que se via de lá ao longe.
Fomos eu e meus olhos de céu, abraçar moleque, rir à toa, gargalhar de besteiras e, simplesmente, namorar, namorar, namorar… Quanto tempo passou não sei, quanto tempo virá não sei, quanto tempo já há, também não sei. Sei que é bom, que é bonito, que é puro.
Os barcos de Itapuã estavam lindos, com aquela preguiça no doce balanço, proa voltada para o leste… Pareciam me embalar em sonhos de infância quando havia pai e mãe. E foi gostoso, foi bonito. Estar com o coração tranqüilo acalma, não entristece. A luz da tarde, alta ainda, prateava o mar de tal maneira que mil folhas de celofane pareciam rebrilhar a cada marola.
Então nuvens pesadas vieram do horizonte, mas o Nordeste soprou e levou-as a chover em Salvador, naquele cinza de cotidianos que cegamente correm para lá e para cá, atropelando-se todos. Aqueles outros, os urbanos, eram os que precisavam de um banho de chuva. Ali, o tempo parara para a gente. E os barquinhos azuis, um vermelho, alguns brancos e tantos verdes, muitos verdes, dançavam numa cadência infinita no mar.
E pudemos perceber três homens, senhores de si a conduzir o saveirinho que mais parecia uma carruagem real, abrindo espaço entre as colchas d’água de Yemanjá. Era um saveiro de sonho, orgulho e perfeição no conduzir humano. A pintura tosca não era menos poética: ondinas marrons marolavam no branco do barco, lambendo a possibilidade de navegar para sempre.
As ostras estavam frescas, o abará delicioso. A cerveja no ponto, a roska na medida. O tremer de frio de lábios tão queridos aguçava as vontades de abraços. As pessoas sorriam-nos, a luz da tarde dourou o coqueiro de modo que imponente ele se ergueu a declarar a sua presença. Música do dia? Não sei se há. Mas cantarolei comigo mesma toda a tarde.
Alena Cairo
05 08 2006
… praia!
Porque hoje é sábado e o poeta cantou:

O dia da criação
I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar. Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens
[vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro
[das Origens, o Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes
[e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação
[da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da
[terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como
[as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois
[últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas
[cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos
[peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de
[cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do
[próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil,
[imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das
[terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos
[animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e
[estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até
[praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto
[Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
(MORAES, Vinícius de . Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro, Aguilar,1976.)
Sexta-feira com cara de colo.
O dia poético sempre é o dia que escolhemos para sê-lo.
Podem ser todos os dias? Não, não pode. Poesia é para ser sorvida e dias poéticos precisam de contemplação. Não dá para acordar na rotina e fazer de conta que o dia é poético.
Durante anos, quando eu era professora do ensino fundamental, elegi a quarta-feira com todo o seu azul para ser o meu dia poético. A matemática era simples: segunda, dia de horror à semana de trabalho puxado, preguiça com cara de tenho que labutar, eram 12 a 15 horas de trampo em sala de aula. Terça tinha cara de “ai, meu deus”.
Assim, Quarta era o dia P-E-R-F-E-I-T-O.
Simples, quando eu começava a trabalhar, já era sinal de que o dia ia acabar, não faltava mais um dia para o fim-de-semana. Quarta é véspera de quinta, dia de cine-mendigo, dia de sair à noite, dar um voleio imbecil no shopping. O segredo de quarta é que é véspera de quinta. E a gente sabe a humana idiossincrasia de comemorar a véspera. E o melhor, como quarta é véspera de quinta e quinta é véspera de sexta, estava tudo em pleno estado de comemoração. Já.
O segredo era simples: fazer da quarta, pilar da semana estressante, o dia de começos de risos com cara de folga… cara de fine settimana.
E por mais que eu trabalhasse quinta, este lance de saber que era quarta já me alegrava.
O tempo passou, entretanto, e elegi a quinta. Por causa do ex-amor. Ele amava a quinta, dia de vestir verde. A gente acabou assim amando junto a quinta-feira. E era dia de comidinha árabe feita por mim. Dia de chamar os amigos e fazer jantar em casa. Dia de tomar vinho até a Lua nos cansar na varanda e as poesias de Pessoa, Saramago, Drummond nos embriagarem de vez. Dia de discutir Nietzsche, de filosofar Platão, de descobrir Aristóteles. Dia de resenhar as leituras da semana na varanda gradeada (Ó como eu quis arrancá-las, as grades)… olhando por entre as frestas e acreditando no humano sonho de Ícaro… O vinho balizou os poemas, aguçou o olfato e o sexo entre macho e fêmea. E a Heineken alegrava as horas de tertúlias amorosas e amistícias somadas às gargalhadas de quem sabe ser feliz. Llosa, Neruda, Hugo, Veloso, Sousa Tavares… todos nos acompanharam… e rimos e rimos e rimos… brindando sempre à vida e a nós dois… que eu nunca esqueço o brinde.
Hoje, o tempo passou mais uma vez… O legado ficou e não mudei para a sexta. A sexta é comum, pertence a todos, banais, humanos normais que se arrastam pelos metrôs ou nas estações sem sequer saber que existe vida após o trabalho. E que dinheiro dá prazer, não dor de cabeça.
E porque hoje é quinta, eu chego mais tarde sim, em casa. Trabalho muito, sim. Corro de um lado para o outro… mas tenho prazer em pôr eu mesma o alho a cheirar no azeite, os tomates a cozer, a cebola a refogar e os pimentões milimetricamente cortados a despertar a acidez que me é tão doce. Depois, os mexilhões, a lula, o polvo, o kani, a lagosta e os camarões a dourar junto, banhados naquele pouco de viño bianco que aguça qualquer sabor. O molho de tomates rega o riso, arbóreo e frondoso na panela, enquanto o açafrão ou a páprica dão a pitada certa que o sal complementa. A atenção é redobrada no cozinhar do feitiço para ser feliz…
E sento à mesa, taça em riste, para brindar a doçura de viver bem… um brinde aos que assim me ensinaram e aos que poderão desfrutar destes momentos… Porque a vida só é possível reinventada, não é Cecília?
Minha amiga papeou hoje à tarde por muitos inquietantes minutos comigo. A história era a de um homem interessante, bonito e inteligente. Ela se apaixonou, mesmo sem querer. E alguém lá consegue escolher essas coisas do coração?
Então, qual o furúnculo perturbador? Vulgar, comum, ordinário, cotidiano: o cara é casado. Ihhhhhhhhhhhhhh…
Eu fui logo lhe dizendo, queira nada sério com ele, não. Porque você o verá desabafar em seu colo o horror de conviver com a esposa macabra, malévola, bruxa do mal. Em todas as horas de riso de vocês, haverá piadinhas sobre a dita cuja insensível e implacável. Depois do sexo. No jantar à luz de velas. No sofá deitados ou no cinema à meia-noite. Na hora da sua carência (leia-se exigência), a bruxa será você. Ela, coitadinha, será a frágil menina que não sabe viver sem a proteção dele, macho provedor. A irada esposa ofendida que ataca, agride, o faz desfazer-se em lágrimas – que serão choradas todas em seu colo. Minutos depois, quando a arma fatal da mulher oficial for posta estrategicamente entre vocês, e ela chorar as lágrimas sentidas de beicinho que saberá fazer melhor do que você, já que depois de tantos anos é PhD em lidar com ele, hoho, filhinha , amiguinha, você vai sofrer. Preterida.
Ah, e tem mais, amiga, poupe-se da dor de saber que nas noites em que você toma café vendo a droga da programação na tv, sem ter com quem comentar, ele estará lá, na casa dela. Na cama deles. E sua cabeça insana de mulher apaixonada vai pensar por horas e horas na cena provável de carinho entre os megeros pombinhos.
- Ah, Alena, mas está difícil achar o desimpedido … o liberto … A vida apronta com a gente.
- Não, honey, não. A gente apronta com a gente. Vá lá, se jogue, como dizem os meus alunos. Mas leve as cordas e deixe a equipe de resgate a postos para te retirar do fundo do poço depois. (Buáááá… eu queria protegê-la, mas ninguém pode contra um insensato coração).
Durante muitos anos, eu comprei briga com as “puladas de cerca”. Se não fosse esse tal de amor a querer exclusividade em todo o seu potencial egoísmo… talvez de forma leve todos os casais pudessem estar mais tempo juntos… ou talvez outros estivessem há mais tempo separados.
Hoje prefiro, como mulher, não pensar muito nisso. E entender que os desejos aparecem. Não podemos crucificar-nos e nem guilhotinar os outros.
Mas a liberdade é melhor quando não se ama. Amando, estamos em cárcere da consciência. E da culpa que o outro tenta nos impingir.
Se me descubro eu, conheço o não de mim.
Então varro as minhas salas carregadas de histórias.
Sacudo os tapetes dos silêncios comedidos e bem educados.
Explodo em defesas que gritam a partir as louças e os cristais: só buscam o livre sorriso.
E me canso de toda e qualquer hipocrisia. Do marzipã do faz-de-contas de tantas pessoas.
E sofro. E choro. E busco. E cavo para renovar. Para re-inventar-me.
E sou.
O Vento que baila livre.
É preciso não sufocar o grito, não negar os rasgos, escrever as cartas… não poupar o outro para não violar a alma. Há quereres nossos imperativos e há vazios ansiando a completude.
O pôr-do-sol requer tarde límpida, mar de ilha e casal apaixonado. Eu quero você.
Pensei, depois de traçar um terço daquela torta, em comer só saladas nesta semana. Mas o Zezinho, amigo d’além-mar, me fez repensar as folhas…
Minha avó dizia , encantada, não entender como eu era capaz de comer as folhas. “Minha neta, quem come folha é boi, no pasto”. Já eu penso sempre que também pode ser vaca!
Brincadeiras à parte, veja o que o Zé me enviou hoje:
Arght!
Hoje sou um pedaço de família:
mulher-ilha sozinha em minhas decisões.
Hoje precisei de um pedaço de homem:
seus braços fortes para me envolver.
Desejei outro pedaço, este atitudinal:
“pode deixar, minha filha, que eu resolvo tudo para você”.
Um pedaço do meu carro pifou:
o alarme encrecou e eu fiquei à deriva
no banco da frente, pedaço de mim,
esperando o seguro com motor bloqueado às 23 horas.
Um pedaço de meu cérebro lembrou
que eu tenho a mania de ler manuais
e tentei todos os pedaços de decisões
que os garanhões de plantão não conseguiram resolver.
Aperta daqui e dali, abre o capô, o painel de fusíveis,
gira a chave com pé na embreagem, gira a chave sem o pé na embreagem,
acelerei assim e assado, apertei botão, soltei botão, fiz isto, isso e aquilo…
Até que parei, pensei e decidi, sozinha:
pedaço de papel colado no vidro. Disquei o seguro.
Relaxei, tranqüilizei-me… Lembrei então o pedaço certo do manual…
tática aplicada, desbloqueio do motor do carro ativado!
Feliz, auto-suficiente e mulher.
Faculdade deserta, mais ninguém àquela hora.
Dispensei o seguro, voltei para casa.
Subi a escada escura meio melancólica.
Em casa, faltava o pedaço que eu queria.
Olhei a torta de nozes…
um pedaço, dois pedaços, três e quatro pedaços.
Depois de um terço da doçura digerido serotoninamente,
a dieta foi para o espaço… mais três morangos…
A essa altura,
e o coração?
Simples: está em pedaços.
Acabei de descobrir no Pras Cabeças que sou (ou fui, sei lá!) gerontofílica. Uia…