Arquivos Mensais:outubro 2006

Mãos que tecem

Mãos que tecem

 

Entre as vidas secas no sertão baiano, lá na terra castigada pelo sol entre As Almas e Serra Preta, a oito léguas de Ipirá, nasceu há “75 anos e 10 meses”, como faz questão de frisar, Dona Leandra Maria de Santana.

Dona Leandra vende artesanato na feira em São Francisco do Conde, está cadastrada pela secretaria como artesã e seu nome aparece no site da cidade. A primeira feira de artesanato foi realizada com seu trabalho. Passou seis meses na Assistência Social ensinando às crianças a trabalharem com palha. Orgulha-se de ser ‘professora’, título de prestígio, e exibe o certificado do censo da prefeitura na parede de sua casa.

Como eu a conheci? Passava de carro pela rua do Drena, rua simples, sem asfalto, e deparei-me com uma casinha em cujas grades estavam à  mostra bolsas e chapéus de palha. Lá de dentro, da varandinha, uma  senhora sorridente me convidou a ver a sua arte ganha-pão. Desci do carro e passei uma hora agradável de prosa, vendo o trançado que suas mãos hábeis não paravam de fazer. E ouvi a sua história.

 

“Era uma adêvogada se tivesse, valei-me, botado para estudar!” “Pai e mãe” não a colocaram na escola. Ela passou só 20 dias na sala de aula, já adulta, e não aprendeu a ler. Então saiu. Aprendeu a assinar o nome e só. As mãos, que não passaram pelas linhas do papel e nem seguraram o lápis na infância, trançam a palha da Bahia e tecem honesta-mente o sustento de uma família. Desde criança, com 5 anos apenas, aprendeu a tecer corda de cabresto e peia com coroá ou linho. “Naquele tempo, o trabalho era normal, não havia isso de criança explorada, não. Todo mundo trabalhava com o pai e a mãe” no Brasil sertanejo de 1935.  E dona Leandra aprendeu a fazer de tudo: esteira, bolsa, chapéu, tapete, brinquedo de criança, vassoura… Ao ver uns chapeuzinhos de palha, miniatura, sua “genra” diz que Maurício (o gato) adorou… Ao que dona Leandra retruca: “Oxi, i eu lá trabaio pra gato?” “Ah, não repare, não, moça, aqui em São Francisco, a gente não chama nora. É genro e genra.”

Eu pergunto de onde vem a palha e ela ri, com assombro, da minha pergunta:

“-Tem que í no mato pegá. Oxi, i tem paia dentro de casa?” 

 

Dona Fia, como é conhecida “daqui até os limites de Feira de Santana, todo o povo me conhece, sou reconhecida. É um prazer, Deus e o mundo todo me abraça”, Dona Fia ri largo, gargalha bonito e convida-me para o almoço, que dispenso educadamente. Então ela ri e se diz uma “velha ousada”, querendo chamar a moça para almoçar, “tomando intimidade”. “Conheci agora, veio de Salvador e já parece que saiu foi de dentro de mim”.

Suas mãos não se aquietam um segundo e noto a dupla aliança. Ela se casou duas vezes e enviuvou dos dois.

Primeiro, casou-se só no civil, lá em Santo Estevão, porque o padre se recusou a fazer a cerimônia religiosa. O sobrenome de solteira Leandra Pereira dos Santos, sertaneja,  era igual ao do marido, natural de Cachoeira, no Recôncavo baiano, Manoel Pereira dos Santos. O padre então se negou a casar os dois “irmãos”.  No cartório,  o oficial resolveu a questão: tirou o Pereira, botou o Maria.

Seu ventre gerou 11 vezes. Perdeu três e uma filha morreu aos dois anos. Hoje são sete descendentes e o mais velho já tem 50 anos (vive de vender caranguejo).  O marido acabou “matado de carro”, mas dona Fia não acusa o motorista. “Manoel estava em cima do capô e caiu na estrada, em seguida, foi atropelado pelo outro carro”. A brincadeira lhe custou caro e deu a dona Fia trabalho enorme para criar sozinha os filhos. Só 90 dias Manoel estava na firma,  não lhe deram o direito à pensão e o sustento se fazia por meio de biscates. Leandra lavou roupa de ganho até “sentir o gosto de sangue na boca”. E então “Deus lhe mandou” outro Manoel.

Ela não queria, mas ele veio de lá da fazenda e bateu em sua porta:

“- Dona Leandra, eu posso sustentar a senhora. Trabalho na fazenda e ajudo a criar seus filhos.”

Foi assim que passou a se chamar Leandra Maria de Santana. Conta encantada: “Sou feia, não é boniteza. Deus viu que eu precisei e me mandou outro marido”.

Não faz exames, porque o médico só atende no posto dia de terça. Foi duas terças e nunca teve vaga. Aí desistiu de voltar… Pediu “ao Espírito Santo e ele me disse na hora: ‘vá , doença, embora”. Dona Fia me mostra o pé com uma cicatriz: feriu-se, cortou ela própria “os nervos”, limpou com água oxigenada e passou a pomada que a doutora mandou. “Fiz tudo sozinha”, conta orgulhosa. E sarou. Mas isso a impediu de andar longas distâncias.  Paga para trazerem do mato a sua palha de licuri.

A essa altura da prosa, dona Fia me pergunta então se eu quero ver que ela sabe ler sem saber. Fico embaraçada, sem entender direito. E a sua “genra” vai lá dentro pegar a bíblia. De cabeça para baixo, ela a folheia um tempo até perceber o engano. Ri e não perde a compostura. Abre em um salmo e o lê… Conta-me então, em segredo, que basta ela ouvir uma vez com atenção, que ela aprende “a ler”. Vejo seu livro único, então, cheio de marcadores de páginas. Com certeza, as páginas que ela sabe ler. E assim ensina na Igreja Deus é Amor. É missionária em São Francisco do Conde, evangeliza com a palavra. seu grande caráter não conhece a manipulação, crê no Bem e no Amor. E é isso que ensina a quem quer ouvir. E no trabalho, que este foi quem a ajudou a viver honestamente “esta vida de meu Deus”. 

Pergunto-lhe o preço da bolsa e ela insiste em me dar de presente. Na próxima, eu aceito, dona Leandra. Mas hoje vou lhe pagar. Gastei 8 reais e trouxe para casa duas bolsas lindas bem trançadas. Isso é Brasil. Este é o povo e esta é a cultura de que eu gosto tanto.

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Alena Cairo , 27/10/2006 

Velhos hábitos

Velhos hábitos

Não sei porque abandonamos o que gostamos… não sei porque desistimos de nossos amores… não sei porque não bebia vinho há muitas semanas… Hoje, no 5S final que estou fazendo em minha vida, repaginação total (leia-se possível), me transportei de novo aos 14 anos, quando eu era filha ainda e arrumava meu guarda-roupa. Adoro dar as coisas. Mas só dou a quem eu acho que vai fazer uso. A gente limpa, limpa, limpa… e daqui a uns anos tem tudo entulhado de novo. A gente vai juntando de novo novas importâncias. Por quê?  Porque as coisas perdem a importância e as pessoas também enquanto outras coisas e pessoas vão surgindo.  Alguns dizem que infelizmente, outros suspiram felizes. Eu não sei.  Acho mesmo que a vida é assim. Simplesmente.

Hoje minha aluna  fez um elogio à minha roupa. Olhei-me toda e de repente percebi que era a roupa comprada para um jantar especial que ocorreu há um ano. Pulôver lilás, jeans justinho e bota preta de bico e salto finos. Tudo novinho há um ano, bonito no dia, especial para tomar uísque com pessoas importantes… Hoje aquele tempo vai longe, as pessoas continuam importantes, mas agora para os outros, não mais para mim. E a roupa? A roupa virou uma indumentária de trabalho. Bonita ainda, mas já vulgar, porque consigo não carrega a especialidade que ficou presa no outrora de um tempo em que se cria em projetos diferentes.

O cheiro de passado não voltou com a arrumação de hoje. Não houve naftalinas  no coração. Só a certeza de que os ossos são mortos. E talvez o presente também o seja. Que importa? Importa que eu estou feliz, que como queijo mineiro e tomo vinho francês em casa… vestida de menina que ainda sonha com um futuro que talvez me traga a paz que eu procuro para dormir aninhada. A ninhada.

Só se ama quem se conhece

Só se ama quem se conhece

Já me falaram muito de amor, já ouvi muito sobre amor. Em tempos de falta de confiança, de animosidades e barbarismos nas relações que se pretendem sérias, mas não o são face à desconfiança imperativa dos dias em que ninguém é de ninguém, os sentimentos que poderiam fluir livres são vilipendiados por falta de conhecimento do outro.

Está todo mundo tão preocupado com o que vai sofrer de decepção que se esquece de conhecer a pessoa com quem se deita. Parece que estranhos fazem sexo, se procuram e se dão, mas com reservas. Os corações vivem magoados, os olhos apertados como se quisessem perceber entrelinhas em tudo. Fuça-se orkut, monitora-se o celular, ‘hackeia-se’ a senha da caixa postal, intercepta-se a correspondência e vive-se o inferno na Terra ou em casa mesmo.

Se ele lhe trouxe flores, é porque aprontou alguma; se chegou mais cedo, foi para se redimir; se telefonou, foi porque se enganou ao discar; se dormiu e não ligou, deveria estar aprontando… vai ver que é mentira, vai ver que a pessoa não presta, vai ver que… que… que…

Por conta deste comportamento, muita gente tem demonstrado que não merece ser amada. Ou que tem medo de amar e por isso se protege, denegrindo diante de si mesma a imagem do outro.  Amor é entrega e confiança, é respeito também. Ninguém está isento de ciúmes, ninguém está imune a uma insegurançazinha… mas trazer o dantesco para o cotidiano, isso é coisa lá dos infernos. 

Em meio às neuras diárias, homem e mulher se perdem ao invés de se encontrar. Gastam o potencial de amar que possuem desacreditando, desconfiando, destruindo o que se poderia construir com afeto.

É uma pena. 

Cinzas

Cinzas

No convento,

elas vestem o hábito.

O cabelo se esconde,

o corpo não se delineia.

Nos pés, as sandálias de couro

ou as sapatilhas.

A repressão não cheira,

não tem odor.

Descubro-me a pensar

que são mulheres…

Deus, a cor da roupa é

o fim do fogo feminino?

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Alena Cairo

Sei que você fez os seus castelos

Sei que você fez os seus castelos

No último conto de fadas, a Branca de Neve foi beijada pelo príncipe que a levou embora em seu avião branco. Lá na terra da fumaça, ela foi feliz muito tempo. Então ela voltou à floresta e descobriu tarde que sua sorte estava traçada. O príncipe era um anão complexado e tramou largar a princesa no pântano de suas desilusões. Nem era a história de Aladin, mas puxaram-lhe o tapete mágico e … bau bau.

Aí, como dizem as crianças, a Branca ficou mais branca, cada vez mais branca, e quase desmaiou porque enquanto ela estava fora, tudo se desarrumara em sua vida. Meninaaaaaaa, foram precisos 9 meses para parir o filho da *uta, expulsá-lo de dentro do peito ferido.

Mas nasceu um novo tempo. Enfim.

Gosto de sábado

Gosto de sábado

O poeta já cantou que logo cedo a gente vai ‘sentir preguiça no corpo’ e estirar a coluna, as pernas e os dedos até deliciosa e lentamente encontrar a doce vontade de levantar … não sem antes beijar, abraçar e beijar e abarcar a felicidade inteira de estar com quem se ama.

Um desjejum com fruta doce, pão de linhaça torrado com manteiga, vitamina, granola, iogurte, mel… café e leite. Depois mil beijinhos de despedida na porta até o meio-dia, quando o sol de Salvador castigava os mortais e azulava mais ainda o mar imenso. Vinícius cantava para o casal a caminho da praia. A maré estava cheia como a Lua de ontem à noite e a areia fofa convidava ao descanso regado a cerveja e acarajé com pimenta. 

A tardinha ia chegando e a moqueca de camarão borbulhou convidando ao degustar com a cerveja estupidamente gelada… O restaurante acolhedor, a simpatia do pessoal… Tantas palavras o dia inteiro, tanta conversa … aqui e ali um suspiro de futuro, quem sabe? “O presente é tão grande, não nos afastemos, não nos afastemos muito. Vamos de mãos dadas”.

A noite já trazia a Lua ao voltarmos à casa onde o cheiro dos corpos banhados convidaram ao acasalamento. E veio a paz, o silêncio e o sono.

Soluções

Soluções

É incrível como as coisas que nos angustiam são sempre menores do que projetamos.  Todas as vezes em que me bate o desespero por qualquer motivo, sento-me e escrevo o problema, busco as suas origens, a sua causa e levanto as hipóteses de solução. Então tudo se torna mais fácil.

Shit!

Shit!

Sabe o que me dá raiva?Eu falo sempre a verdade, tenho um blog cheinho da minha vida em palavras, não uso pseudônimo nem fico vestindo personagens secretos em nicks falsos,conto a deus e ao mundo o que vivi,

não tenho segredos nem nada que me desabone,

tudo que fiz, fiz mesmo, não costumo me arrepender de nada porque assumo as conseqüências do que faço, 

não enrolo ninguém e ainda assim um mal entendido da vida vem me castigar?

Odeio injustiça e nesta semana uma pessoa de quem eu gosto muito me magoou demais porque me acusou gravemente daquilo que não sou.

Detesto estar magoada. Porque dói.

maravilha

maravilha

Ser terça-feira, ter feito a maior terapia da sua vida, descoberto todas as questões que faltavam descobrir, ter transgredido umas normas necessárias, ter feito o que queria exatamente, sem eira nem beira…

Maravilha estar livre, ter 31 anos, saber-se Alena, saber poder… saber o que não pode… tão pouco…

Maravilha poder optar por fazer umas maluquices, não ter filhos ainda, não ter marido opressor, não ter rédeas, saber que sabe fazer sobremesa e que pode viver disso ou fazer tranças em Porto Seguro , aquele lugar onde o Brasil foi descoberto e onde você pode se encontrar ou se perder, aquele lugar onde você lê nas camisetas  que tem dia que a noite é foda, aquele lugar absurdo… mas onde seu espírito voa livre…

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Não , eu não fiz nada que me desabone. Mas eu vou vender meu carro para ir a Paris. De novo.

Oba!!!

Oba!!!

Depois de uma indigência mental que já dura um tempo, consegui realizar um plano que há tempo eu arquiteto. O primeiro texto do meu blog de viagens Eu ando pelo mundo. Serão fotos e histórias de lugares por onde eu ando nesta vida. Delícia o cantinho, vão lá conferir.

O post abaixo é o primeiro texto do blog, só para quem vem aqui saborear… mas lá está com as fotos.

Beijo!

Vontade…

Vontade…

… de vender meu carro e ir para a França e a Itália me distrair um pouquinho. Tomar chocolate em Paris, caminhar pelas margens do Sena, ficar mais uma vez estupefacta ao ver Notre Dame. Caminhar até a Gare de Lion e tomar um trem para Milão. Assim, meio como quem não quer nada. Sentir a velocidade nas gotas de chuva que mal caem na janela do trem bala a 300 km por hora e docemente fazer a baldeação nos Alpes. Ver da janela a neve, os chalés, e pensar quase incrédula que sim, moram pessoas ali.

Chegar a Milão, passear na Vittorio Emanuele e pôr o calcanhar nos culhões do touro para voltar mais uma vez. Passar uma hora inteirinha na stazione centrale só vendo o movimento das pessoas que vão e vêm… E então pegar outro trem para Veneza, chegar a Santa Lucia e andar, andar, andar… atravessar o grande canal, subir e descer as infinitas pontes, comer uma pizza e tomar um vinho no primeiro lugarzinho que achar… só para recompor as forças. Depois ir ao Vini da Pinto e comer todas as entradinhas antes da bela massa.

Farta, satisfeita, tomar um gelato stracciatella e nocciola. Sentar no meio da Piazza San Marco, estender o mapa no chão e aventar as hipóteses do próximo destino… 

Em liberdade

Em liberdade

“Não sinto o meu corpo, não quero senti-lo por enquanto. Só permito a mim existir, hoje, enquanto consistência de palavras. Estas combinam-se em certas frases que expressam pensamentos meus oriundos da memória afetiva e criados pelo acaso.

(…)

Paro de combinar frases.

Estou prenhe de frases como nunca estive. Todo o meu cérebro está funcionando como um imenso útero que fabrica, sem que tenha consciência, frases e mais frases. Quero acreditar que posso escrever como nunca escrevi. Sei que não posso. A produção das frases está aqui, na cabeça, e difícil é passá-las para o papel. O problema não está tanto na dificuldade em transcrevê-las. Basta fechar os olhos e entegrar-se ao automatismo surrealista da escrita. Encontrar uma razão para a necessidade de deixá-las existir no papel e no livro: eis a questão. Fora de mim e para o outro. Para isso sempre foi preciso “fazer ficção” das minhas palavras. Ou não.

(…)

O único motivo – pelo menos o mais forte – que vejo no momento para poder deitar as minhas frases no papel é que quero não sentir o meu corpo. Quero que todo o meu eu seja- agora e hoje – apenas um emaranhado pesado, denso e consistente de frases. Elas camuflam um corpo dolorido que não quer pensar nas dores sofridas que castigam os sentidos e a memória. Escrevo para não deixar que o meu corpo doente e massacrado exista, prossiga, influa, direcione, convença-me finalmente da sua importância e da sua riqueza para mim.”

Silviano Santiago (baseado em apontamentos de Graciliano Ramos  ao sair da prisão em 1937)

O diabo veste Prada

O diabo veste Prada

Crédito da imagem: http://www.cinemacomrapadura.com.br/filmes/img/1937-2006-06-21-19:06:09_8.jpg

A maior recompensa de O DIABO VESTE PRADA é, realmente, ver o esbanjamento de charme e classe de Meryl Streep, magnífica no papel de Miranda, editora de moda da revista Runway, a mais importante de NY. O filme revela os bastidores do mundo da moda. O enredo é fraquinho,  cansa o espectador e faz a coluna sentir o incômodo da cadeira. Interessa a poucos e não chega a ser nem politicamente correto nem incorreto. Meio constatações de como são as coisas no mundo fashion.  Anne Hathaway interpreta a recém-formada em jornalismo que consegue o seu primeiro emprego , justamente como assesssora da terrível Miranda, misto de deusa da moda e diabo de chefe.

Soube agora que o filme é uma adaptação do livro homônimo, de Lauren Weisberger. Admira-me esta obra virar best seller com tanta literatura precisando de leitores no mundo, mas vamos lá, metáforas não são mesmo para todos e o mundinho fashion das celebridades é o norte dos valores vigentes então. A autora foi assistente da editora da Vogue americana e parece que a voz d‘a vida como ela é’ acabou por apimentar mais ainda a vendagem do livro.

Mito ou realidade, se o diabo veste Prada, todos podem concluir que ele é um show de elegância. E se o diabo veste Armani, Gabbana, Dior, Valentino e o que mais do gênero, além de endinheirado – não dizem que foi ele que inventou o $$$? – o tinhoso é  de muito bom gosto. O que me atraiu ao longo do enredo, que deu sono realmente, foi o mundo de faz-de-conta e a tirania das editorias. Miranda é realmente espelho de muitos editores , capazes de vender até a alma ao diabo para ter certas benesses. Uma troquinha de favores aqui, uma puxação de saco ali, e milhões de dólares gerados pela indústria da moda. É o espelho de pessoas que vivem de flashes e sorrisos, diplomáticas, mas , na verdade, toleram-se umas às outras.

Nada contra a moda, nada contra os estilistas. Aliás, os melhores momentos do filme são realmente os desfiles de modelitos. O diálogo de Miranda com a subalterna explicando-lhe sobre a cor do suéter dava uma aula de análise crítica muito boa. Aliás, o clímax do filme para mim. A secretária de Miranda entra no manequim  do papel. Ótimo pensar que a moda crucifica quem veste 40. Acima disso, nem existe! Paradoxo é ver a própria Miranda exibir com elegância quilos a mais e a mais e a mais do que o restrito padrão de 34 a 38. Quem tem um pouco de massa encefálica, entende a crítica que perpassa levemente satírica o enredo. Os demais? Deslumbra-se-ão e considerarão a  heroína Andrea tola.

Paris em flashes vale a pena: dá para quem a conhece sentir o frio gostoso da saudade. Mas o final, diante do desenrolar dos fatos: pouco provável. Sem contar no editor que paquera Andrea… tsc tsc tsc… personagem mais improvável impossível.  A relação de Andrea com o love também … tsc tsc tsc…

Bom, só para não dizer que não falei dela,  Gisele Bündchen faz uma mini ponta no filme. Bela como sempre, mas nada que chegue a lhe dar algum sal a ponto de a considerarmos  como algo mais que uma figurante. Foi ela, mas poderia ter sido qualquer outra ali.

É inútil o filme? Não. Mas também não chega a ser bom.

Cegueira

Cegueira

Por que será que as pessoas que mais falam em religião são as que menos professam os seus preceitos? Que eu saiba, a maioria das religiões professa os mesmos valores: tolerância, perdão, compaixão, amizade, AMOR. Então não é um paradoxo que haja tanto ‘ministro de deus e do espírito” INCAPAZ de ao menos ouvir o outro?

São sempre cheios de certezas e a certeza é um absolutismo que leva à intolerância. O dogma das razões religiosas conduz à soberba. Os que se acham certos, os que se consideram infalíveis… Os donos da verdade e da ‘palavra’.

As pessoas que geralmente vivem a falar em deus ( aquele lá que colocam com letra maiúscula e tudo, senão é “desrespeito”) são as menos propensas, muitas vezes , ao Amor. Tem até uma religião que fala que deus é amor. Mas AMOR pressupõe tolerância, perdão, compaixão, amizade.

Se Deus existir, creio que reprova o egoísmo. A intolerância. A grosseria. A estupidez. O espezinhamento do outro. O sadismo.

Encontrei pela vida umas pessoas boas. Elas tinham amor no coração. Delicadeza nos gestos. Compreensão nas atitudes. Paciência como virtude. E sabiam ouvir, com os olhos e os ouvidos.

Eu não acredito em religião. Para ser sincera, gosto das mais tribais, panteístas. E faço delas uma miscelânea: um pouco de cada ensinamento.

Eu acredito é nas pessoas. E sei que há boas e más pessoas no mundo. Não da forma assim, divididinha, os bons de um lado e os maus de outro. Creio que há bondade e maldade em todos nós. Mas sei que somos dotados de passionalidade, impulso e razão. Por isso, alguns conduzem melhor sua vida.

A minha máxima “religiosa” li em A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, quando eu tinha 14 ou 18 anos : “Toda paixão pelo extremismo é um desejo de morte disfarçado.”

Citações

Citações

“Apenas as pessoas podem participar no amor. Todavia, não o encontram já pronto e preparado em si próprias. Se uma pessoa permitir que a sua mente, os seus hábitos e as suas atitudes se impregnem de desejos sexuais não encaminhados para um amor pleno, resultará que pouco a pouco se vá deteriorando a sua capacidade de amar verdadeiramente, e estará permitindo que se perca um dos tesouros mais preciosos que todo o homem pode possuir.

Se não se esforçar por retificar esse erro, o egoísmo far-se-á cada vez mais dono da sua imaginação, da sua memória, dos seus sentimentos, dos seus desejos, e a sua mente ir-se-á enchendo de um modo egoísta de viver o sexo.

Tenderá a ver o outro de um modo interesseiro, apreciará acima de tudo os valores sensuais ou sexuais dessa pessoa e fixar-se-á muito menos na sua inteligência, nas suas virtudes, no seu caráter ou nos seus sentimentos. O despertar do prazer erótico antes do tempo costuma ocultar a necessidade de criar uma amizade profunda e pura. Aliás, uma relação baseada apenas numa atração sensual, tende a ser flutuante pela sua própria natureza, e é fácil que em pouco tempo – ao desvanecer-se esse atrativo – acabe em decepção, ou até numa reação emotiva negativa, de antipatia e desafeto.”

Alfonso Aguiló

Resenha do dia 01

Resenha do dia 01

Pronto. Votamos todos. É verdade que não havia opção.

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Achei bonito um vendedor de castanhas na praia falar que  votou em C. Buarque  porque acredita que o caminho para o país é a educação. É bonito ver o homem do povo pensar assim.

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Adorei a  propaganda ter sido banida. A cidade ficou muito mais limpa.

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Não havia na tabela de pesca eleitoral os números dos presidentes. Muita gente se atrapalhou na hora de votar por isso.

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Votei na escola onde minha mãe trabalhou por mais de quinze anos. A praça Maria Emília estava lá, no interior do colégio. Transportei-me no tempo e me lembrei da inauguração. Maria Emília era a excelente diretora daquele tempo. Li toda a Ciranda dos livros na sala dela. Era um tempo melhor no ensino público.

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Um cartaz, na seção 88, com letras lindas, dizia que as línguas eram Português, Inglês, Italiano, Japonês e ESPANHOU. No tempo de minha mãe, não era assim. As professoras erravam, mas uma consertava a outra. Havia coordenação , vice-direção e direção. E o cartaz já estava velhinho na parede. Sinal de que há tempo os alunos lêem espanhou.

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É proibido vender álcool em dias de eleição? Aqui na Bahia parece que não. Os bares da orla estavam lotados. Muita cerveja e vodka.

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Não vi ninguém realmente feliz com as urnas.

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O dia estava lindo; o sol, apaixonante; a vida é bela e é possível ser feliz. Mas eu estava cinza.