
… embora desnecessárias neste caso.

… embora desnecessárias neste caso.

As mudanças realmente ocorrem quando a gente não precisa falar delas.
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Em 24/02/2006, eu escrevia Já é carnaval, cidade.
A jornalista e professora Malu Fontes publicou este texto no domingo de carnaval. Vale conferir!
A Tarde, domingo, 18 de fevereiro de 2007
TELEANÁLISE
AS MARCAS DA DIFERENÇA
MALU FONTES
“Camarote 2222/Aqui é o novo endereço/torça para ser convidado/até olhar de fora vale a pena”. Adornadas por desenhos alusivos a motivos carnavalescos e estampando a reluzente marca de refrigerantes que figura como uma das principais patrocinadoras do camarote, as frases acima parecem convidar a duas leituras igualmente irresistíveis levando em conta os contextos sociais e políticos. A primeira delas é que essas frases curtinhas, publicitárias, despretensiosas, são, na verdade uma negação arrivista daquilo que diz a logomarca do Governo Federal, governo, inclusive, que tem como ministro da Cultura o principal anfitrião do Camarote 2222, Gilberto Gil. Para quem não lembra, a logomarca do governo estampa: Brasil/Um país de todos/Governo Federal).
Pode-se dizer que inferência apontando para a negação do slogan do governo pelas frases do camarote é um ponto de vista subjetivo, uma questão de leitura pessoal, etc. e tal. Mas a segunda leitura tem como perspectiva o bom senso. Em um país em que só os alienados não enxergam que vivemos sob a ameaça da convulsão social e da intolerância entre as classes sociais do alto e da base da pirâmide, soa no mínimo inadequado um espaço festivo montado em torno de um ministro de estado promover a distinção social, a diferença, a característica de “para poucos” que se quer imprimir ao tal camarote e que de fato o caracteriza.
EMPADAS – As frases curtinhas não querem dizer outra coisa senão reforçar o quanto aquele espaço é para privilegiados que tenham a sorte (que passa pela condição sócio-econônica, estética ou pelo viés da fama) de serem escolhidos. Assinala, embora com alguma sutileza, que a ralé sem chance de torcer para ser convidada deve se dar por muito feliz em poder, do chão da rua, olhar para cima e admirar o olimpo e os olimpianos. Quem sabe até dá para ganhar uma latinha de cerveja quente ou um restinho de empadas jogadas generosamente lá de cima, como bem diz Carlinhos Brown em entrevista ilustrativa sobre o Carnaval de Salvador em A Tarde do último domingo.
Os camarotes se tornaram onipresentes no Carnaval de Salvador e representam hoje o próprio Brown chamou o ano passado de apartheid da festa, juntamente com as cordas que separam o povo e os blocos dos grandes artistas da festa. A camarotização tem como principais referências justamente os camarotes Expresso 2222, organizado pela mulher do ministro, Flora Gil, e o de Daniela Mercury, organizado pela promoter mais incensada da Bahia, Lícia Fábio. O primeiro está ancorado em R$ 2,5 milhões em cotas de patrocínio levantadas entre marcas líderes do mercado e o segundo em R$ 2 milhões.
TAPA – As marcas que bancam esses custos querem visibilidade em imagens na TV durante a festa, fotos, notas e matérias na imprensa local, nacional e na Internet. Por isso a lógica é só convidar gente interessante (geralmente gente famosa, influente, descolada ou rica). À revista Piauí, Flora Gil definiu o perfil de seus convidados: “convido puta, viado, artista, baiana de candomblé, tudo”. Deus sabe o que cabe nesse tudo, mas a mesma revista dá uma opção de resposta sobre quem é bem vindo nos camarotes vips:”é para cliente, gostosa e famosa”, diz o dono da AmBev, Paulo Lemann, patrocinador de 9 entre cada 10 camarotes desses cujas camisas são disputadas a tapa nos bastidores do high society baiano.
O fato é que em uma cidade em que os desinteressantes, segundo a semântica da gramática dos camarotes, são cada vez mais empurrados para os becos com cheiro de xixi ou se contentam em ficar olhando para cima para ver os privilegiados, são ilustrativas as frases de efeito da fachada do camarote onde o ministro receberá seus convidados. Nesse contexto, merece aplausos a iniciativa do mesmo Carlinhos Brown que fala em apartheid na festa. Depois do Camarote Andante, este ano uma das marcas da festa é o seu Bloco Pipocão.
Em um Carnaval que caminha a passos largos acentuando as desigualdades entre as pessoas que dele participam, qualquer iniciativa que contemple os sem abadá e sem camarote soam como formas de oxigenar o modelo da festa e servem para distinguir a condição de artista da condição de mero cantor de bloco ou de trio. Mas já que é Carnaval, vamos fingir que tudo é festa e criatividade, inclusive músicas que transformam até Deus numa persona poética abilolada. Com o caos do mundo transbordando, quem foi que disse que Deus pode parar para namorar, na beira do mar, ao mesmo tempo em que desenha gente perfeitinha, num sinal que nem mesmo sua suposta namorada merece sua atenção? Socorra-nos, Deus!
Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.
Não dá para deixar de falar do Carnaval de Salvador. Até tentei, não queria o assunto, mas aí está.
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A festa
Imaginar o carnaval de Salvador é completamente impossível para quem não conhece a realidade do carnaval baiano. Só quem já passou um ano aqui pode ter a dimensão do que é a festa.
Nos corredores da cidade, três, quatro pistas ficam pequenas para o trio, a corda e a multidão dentro e fora do bloco. As avenidas foram todas loteadas e os camarotes de vários andares dominam os circuitos da Barra a Ondina e do Campo Grande. O apartheid é óbvio: as castas mais ricas têm local privilegiado em camarotes vip’s disputadíssimos nos quais tudo é free. Em cima do trio, os artistas conduzem o circo enquanto aqueles que não têm pão se espremem do lado de fora das cordas ou segurando-as para dar segurança aos que ainda têm condições de pagar um bloco (de 500 a 2500 reais por três dias – há os mais baratos e um ou outro que até extrapola).
A pipoca
A graça do folião comum, aquele que vai à pipoca curtir (fora das cordas, livre, nas ruas, no meio do povo) quase acabou. Aficcionado pelo Chiclete, por Ivete ou pelo Asa que “arrêa”, arrisca a diversão popular, a ‘pseudo maior festa grátis do planeta’. Dizer que se acotovelam é mentira das maiores: é praticamente impossível subir ou mexer os braços na multidão. O vai para lá e para cá na maior parte do tempo envolve um empurra-empurra do qual ninguém escapa. Suores, banhos de cerveja, agarra-agarra e respingos da imensa quantidade de urina que alaga o “chão da praça” são inevitáveis. Pense em jogar seu tênis fora depois do primeiro dia (eu sempre adquiro um baratinho só para abandoná-lo tão logo acabe o carnaval).
Os camarotes
Nos camarotes, ar-condicionado, borrifos de água pulverizada para diminuir o calor e aumentar a umidade do ar, música para os intervalos entre os blocos, piso até com grama sintética, rede conectada ao mundo todo, bares e restaurantes, infra-estrutura de fazer inveja. Parece mais uma praça de alimentação de um grande shopping dos melhores centros urbanos.
O homem é um animal
O problema ocorre na hora em que as necessidades fisiológicas nos lembram a condição humana animal. Nos megacamarotes repletos de loiras escovadas de salto alto (acreditem!), mesmo naqueles que se erguem na frente dos hotéis da orla, a fila do banheiro feminino chegava a ter 40 mulheres à espera do reservado (geralmente sujo, respingado e alagado). Nas ruas, caminhe cerca de 20 a 30 minutos sem pôr os pés no chão algumas vezes, levada pela massa que se desloca, encontre na rua detrás do circuito (por exemplo, a Sabino Silva) cerca de 20 sanitários químicos, insuficientes, óbvio, e fique numa fila absurda à espera de manter um pouco a sua dignidade social. Muitos não agüentam e, infelizmente, você vai se deparar com homens com o pênis de fora por todo o caminho a ‘mijar’ nas ruas e mulheres agachadas ao lado de qualquer carro ou atrás de qualquer poste. Há também homens e mulheres defecando nas vias transversais ao circuito oficial.
Fazer uma festa para mais de 2.000.000 de pessoas é quase um suicídio municipal. Havia sanitários em vários lugares ao longo do percurso, sim, mas imagine a quantidade que serviria para atender a este número de pessoas. E eu não estou falando em conforto porque se alguém conhece um sanitário químico na Bahia, conforto é tudo em que não se pode pensar jamais. A cena da Sabino Silva me fez lembrar Ensaio sobre a cegueira de Saramago.
Providências urgem
Ou a organização do carnaval da Bahia entende que o espaço deve ser algo como a av. Paralela, mesmo que percamos o glamour da avenida Sete e da Praça Castro Alves ou do Farol da Barra, ou a festa terá que acabar. Há seis anos era tudo muito diferente, há dois anos ainda era possível brincar melhor. Rua hoje é difícil, honestamente.
Fazer muitos circuitos alternativos é um caminho também, mas é preciso deslocar o Chiclete com Banana para estes lugares porque o povo não abre mão de vê-lo. O percurso Barra-Ondina surgiu como uma alternativa para descongestionar a avenida, mas estão ambos absurdamente superlotados.
A violência
Quando vejo os números da violência, respiro aliviada. As mortes são poucas se considerarmos a multidão. A quantidade de pessoas aglomeradas poderia gerar uma catástrofe que a festa da alegria não permite, graças.
Assaltado, entretanto, é certo que você será. Mesmo que não leve nada. Na multidão, enfiam a mão em seu bolso, afanam sua corrente e partem suas pulseiras. Ainda que não leve nada de valor e nas orelhas carregue uma bijuteria barata, seus bolsos serão revistados e é por isso que nós, baianos, distribuímos o dinheiro pelas meias, lateral da calcinha e bolsos diferentes. Na minha bermuda, eu carregava no bolso traseiro a carteira do plano de saúde no primeiro dia: voltei sem ela para casa. Deve ter passado uns dias no chão da avenida à espera dos lixeiros desde o instante em que o bandido folião percebeu que não era de valor já que pessoal e intransferível.
A música
Sim, apesar de tudo, é contagiante o ritmo, é fantástico o povo junto pulando, é maravilhosa a sensação de alegria, brincadeira e curtição da vida. A vontade que dá é a de que o carnaval não acabe nunca. Por isso mesmo, precisa mudar a atual estrutura.
O blog faz aniversário dia 23. Um aninho.
Há um ano atrás, eu estava aqui escrevendo sobre o carnaval e abrindo o A vida em palavras.
Na quarta de cinzas passada, eu só pensava no dia de Fênix, na reconstrução, na mudança, no ressurgimento de mim mesma… As vassouras entraram em ação mesmo em 2006. Planejar vale a pena, sim. Aconteceu , ufa!
Hoje, um ano após, me vejo aqui com novos planos e metas. Ainda bem.
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O Mesa de bar fez um post com links maravilhosos! Para quem está iniciando a blogosfera vale ver, clicar e descobrir; para quem já é assíduo, vale conferir!
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Este menino Zeca escreve bem!
- AlÔ!
- Oi, amiga! E aí? Como está de carnaval?
- Ah, ontem foi meio razoavelzinho…
- Por que assim?
- Ah, só beijei quatro. É que estou muito mais seletiva…
Para vocês, as máscaras de Veneza, já que é carnaval:
Fotos de janeiro de 2005.
Gente, há um tempo atrás, publiquei um post sobre as obras de Zaca Oliveira. E fiz livremente as minhas leituras dos quadros dele cujas fotos disponibilizei. Não é que Zaca esteve aqui e deixou o seu depoimento?
E, de quebra, ainda explicou os porquês deste quadro. Privilégio nosso!
Posso admitir que não gosto de ver tv. Posso proclamar que não gosto de ver tv. Leio os jornais, leio as revistas, mas não gosto de ver tv.
Na semana que passou, ociosa em casa, resolvi ligar o Jornal Nacional e descobri, mais uma vez, porque não gosto de ver tv. Era a semana do crime que matou o menino João Hélio no Rio de Janeiro. Estarrecida com a apurada crueldade da cena, desliguei a tv assim que Fátima terminou a notícia. O caso precisava de maturação na minha mente, assim como quando leio. Não dava para saber de um fato bárbaro como aquele e, simplesmente, achar graça da propaganda de camisinhas feita pelo governo para o carnaval ou vibrar com a nova skol, sol, schin ou qualquer outra ‘cerva’ mais, desejar a nova coca-cola, ver as mulatas nuas do RJ comercializando a idéia de paraíso nudista que é o Brasil lá fora e banalizando a mulher aqui dentro especialmente. Não. O sorriso da Globeleza não combinava com a cena que eu acabara de ver.
Precisei, como quando leio, me afastar um pouco do assunto para maturá-lo. Precisei digerir, sentir náuseas, vomitar, engolir e ruminar por horas e mesmo pelos dias subseqüentes.
Se a tv tem a qualidade e a diversidade da imagem que tanto encanta, paradoxalmente é este também o seu maior defeito. Porque distrai. Desfoca.
Esperei um tempo passar. Li a reportagem emotiva e indignada que noticia o fato na Veja. Li o artigo daquele Mainardi que se revolta por tudo. Ouvi. Pensei. Refleti.
Não é preciso criar novas leis. É preciso educação, saúde, comida, água, conforto e tênis nike(!?). Isso é lugar-comum. Isso todo mundo sabe.
Mas, vivendo no país do jeitinho, só consigo pensar que é preciso maior rigor, maior fiscalização, mais ética profissional e punição sim, à bandidagem. Não dá para saber que um bandido, marginal, mesmo sem os privilégios do colarinho, entrou e saiu da cadeia seis vezes e mais sete poderá entrar e sair.
Não premeditaram, não fizeram porque ‘quiseram’, não creio. Mas o que importa é que eles não pararam, não pensaram. Encegueirados pela mola do crime, impulsionados pela impunidade a que cheira o país, seguiram impiedosamente em seu propósito. Assim banalizaram a minha, a sua, a de João e sua família e a própria vida deles, que já não vale nada mesmo. Pouco caso, descaso. Em troca de um som ou um tênis ou um notebook ou uma corrente de ouro: uma família, um povo e um país chocados pela barbárie.
Sem pena, mais punição e rigor!
ele havia descoberto que, mesmo tendo lido sobre a insensatez da mulher no modo de cuidar da família (quiá, quiá, quiá) , eu resolvi, em tempos moderninhos, ultra contemporâneos, atacar na cozinha com uns defumados , um bom feijão preto, negrinho, bacon, toucinho, barriga de porco, lombo e carne de boi, além dos chouriços, claro!
Aí Nietzsche chorou mais ao constatar que eu não sou um ser pensante, lógico, porque sou mulher, e não consegui perceber o que a comida significa, tipo ’a feijoada era a comida dos escravos, feita com as partes não muito nobres dos animais’.
E Nietzche se desaguou em lágrimas ao ter certeza mesmo de que a única descoberta fisiológica que eu fiz foi que feijão dá gases e se for mal feito dá dor-de-barriga.
Como ele mesmo constatou, a mulher na cozinha retardou a evolução do homem, porque, por exemplo, esta feijoada gostosíssima que acima aparece será consumida com pimenta baiana e farinha de mandioca da fininha apenas para nos dar combustível nos dias de carnaval que virão. Ou seja, se a mulher pensasse, jamais contribuiria para a política do panem et circenses se perpetuar!
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(Foto da minha feijoada cometida para o carnaval)
… Quando Nietzsche chorou. Então quem me pergunta isso me olha com aquela cara de “ô, coitada, não sabe nada da vida!”
E nada adianta eu explicar que já li Nietzsche, que penso Nietzsche, que não concordo com tudo que Nietzsche disse, que penso sobre o que ele ‘filosofou’, que acho O AntiCristo o melhor até hoje. Nada. Toda vez, ouço o comentário:
“- Ah, mas você tem que ler é “Quando Nietzsche chorou”.
Ai, Jisus! Protegei-me!
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De presente, então, ofereço um pouco de Nietzsche para relembrar aos que o conhecem e para ampliar o repertório dos que souberam do tempo em que ele ‘chorou’:

“Os homens trataram até agora as mulheres como pássaros que, vindos das alturas, se perderam e vieram refugiar-se ao pé deles. Enfim, como algo de mais delicado, mais vulnerável, mais selvagem, mais esquisito, mais doce, com mais alma - mas algo que se deve engaiolar, para que não fuja.”

“A estupidez na cozinha! A mulher como cozinheira! A horripilante insensatez com que cuida da alimentação da família e do dono da casa! A mulher não percebe o que a comida significa, e quer ser cozinheira! Se a mulher fosse um ser pensante, cozinhando já há milhares de anos, teria obviamente feito as maiores descobertas fisiológicas, e ter-se-ia tornado mestra na arte de curar! Devido às más cozinheiras, pela falta total de bom senso na cozinha é que foi mais retardada, mais prejudicada a evolução do homem. Veja que isso pouco melhorou nos nossos dias. Que sirva de aviso para as jovens meninas.”
”O que na mulher inspira respeito e muitas vezes medo é a sua natureza, “mais natural” que a do homem, a sua genuína e astuciosa agilidade de animal feroz, a sua garra de tigre sob a luva, a sua ingenuidade no egoísmo, a impossibilidade de a educar e o seu instinto selvagem, as suas paixões e as suas virtudes inconcebíveis, vastas, inconstantes… Apesar do medo, o que faz com que tenhamos pena desta gata “mulher” perigosa e bela é que ela parece ser mais sofredora, mais vulnerável, mais necessitada de amor e mais condenada à desilusão do que qualquer outro animal.
Temor e compaixão: foi com estes sentimentos que até agora o homem se encontrou frente à mulher, já com um pé na tragédia, que dilacera na medida que encanta. Como? Isso ter-se-ia acabado agora? Estaria desaparecendo o encanto da mulher? Surge lentamente a mulher entediante? Ó Europa ! Europa! Conhece-se o animal com chifres* que para ti sempre foi o mais atraente, que representou sempre a ameaça para ti! A tua velha fábula podia mais uma vez tornar-se “história” – mais uma vez uma grande estupidez poderia apoderar-se de ti e arrastar-te! Nenhum deus estaria escondido sob ela, não!, apenas uma “idéia”, uma “idéia modernista”!
* O animal com cornos é o touro branco em que Zeus se transformou para raptar Europa.
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NIETZSCHE, Friedrich. Para Além do Bem e do Mal – Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. Tradução Alex Clarins. São Paulo: Martin Claret, 2005. p. 154,156,159.
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Créditos das imagens:
http://www.marciomelo.com/2004/Mulherepassaro.jpg
http://static.flickr.com/55/147798575_c3b0d4eb48_o.jpg
(O Rapto de Europa: do pintor russo Valentin A. Serov)
Hoje a Ticcia arrasou mais uma vez: o post sobre o “eu prometo” dos namorados está lindo! Veja lá no Mme. Mean.
A amiga vai conhecer a sogra em pleno carnaval e anda nervosíssima blogando, ansiosa:
- “Eu sei que sempre fui uma pessoa à frente do meu tempo, mas esse negócio de conhecer a sogra no Carnaval tá me deixando tensa. Juro!!!”
- Sogra? Carnaval? E ela vai fantasiada de quê?
***
(Risos se pensar em bruxa)
O namorado lindo de morrer diz à sua bela em plena quarta, início da folia:
- Amor, descanse hoje a tarde toda, durma um pouquinho… Você tem trabalhado muito. Não se preocupe com seu trabalho de hoje. Você vai ter tempo para fazê-lo nestes dias que virão enquanto eu pulo carnaval…
- …
O namorado português da minha amiga, hospedado aqui na praia do Flamengo e cheio de animação, acordou-a às 11 da manhã em pleno domingão de carnaval no ano passado:
- Minha querida, acorda, hoje não vai mais ter carnaval.
- Hã?! Nãão?
- Não, acabou o carnaval de todo mundo (categórico).
Ela levanta-se sobressaltada da cama:
- O que foi? ACM morreu? (assustadíssima)
- Não, está chovendo.
- Ah… (muitos risos, quase gargalhadas ) Tolinho, pode ir vestir seu abadá porque vai ter carnaval sim. Oxi… quem já viu!
mas a chuva ainda não parou.
Ai, ai… apenas 30 minutinhos de chuva à tarde foram suficientes para alagar a rua a este ponto. Veja a seqüência de fotos:
Depois de chover a tarde inteirinha até às 21h, imagino o caos da cidade.
E a prefeitura? Manda-nos aquele abraço!
Na aula que passou, provoquei os calouros com as perguntas: eu escrevo para quê? Por que eu escrevo? E para que e por que eu escreverei? Qual é a minha história com a escrita?
De presente, ofereço a ‘resposta’ poética de Paulo Leminski:
Razão de ser
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
(LEMINSKI, Paulo. Melhores poemas de Paulo Leminski. SeleçãoFred Góes e Álvaro Marins. 4.ed. São Paulo: Global,1999. p.133)
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E você, escreve? Por quê? E para quê?
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Mais tarde, no Seiscentos cafés, as respostas de alguns alunos. Confira!
Existem pessoas que criam expectativas enormes em relação às demais pessoas com as quais convivem. Geralmente, aquele que projeta no outro os seus desejos ou padrões de comportamento, sente-se falido em relação às próprias forças e possibilidades. Aquele que espera receber amor, afeto, conhecimento, dinheiro, seja lá o que for, muitas vezes, pouco faz em relação ao próprio potencial de conquista.
Escrevo porque vejo alunos, por exemplo, acusarem professores de não lhes ensinar o que deviam aprender. Penso e reflito muito sobre a atitude: é cômodo ser o receptáculo do conhecimento, receber tudo mastigado, ouvir passivamente em sala de aula. O que o estudante de hoje está produzindo? O que anda discutindo? Pelo que se interessa? Debate? Pesquisa? Aprofunda? Questiona?
Reclama-se da quantidade de apostilas, exige-se prova medíocre, de preferência, objetiva. Compram livros? Não, tiram xerox. De alguns textos, todos não. É caro gastar os 0,10 por página de Platão, Galileu, Einsten, Marx, Machado, Asa Briggs ou Maquiavel que seja. Ler ? Só se cair na prova. E, na moral , professora, vou puxar seu saco que preciso ser aprovado.
Isso não é educação.
Quer conhecer o trabalho de restauração que foi feito no Palacete de Bernardo Martins Catharino e que abrigará as obras de Rodin? É só passar lá no Eu ando pelo mundo.

Este é meu exato problema.
Embriago-me deveras estudando, adoro os livros, amo-os!
Vivo mil vidas na Literatura, sofro, choro, sorrio, amo para sempre e morro. Mas chega um dia em que me dou conta de que pode ser que a vida esteja passando e eu aqui…
O que fiz? O que faço? O que farei?

Não sou nenhum eremita. Saio, passeio, me distraio. Mas meus programas são tão torta com chocolate que eu apavoro quando vejo esta Bahia fervilhando de ensaios e festas mil. É difícil andar na contramão da história.
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Créditos das imagens: http://www.magazine-litteraire.com/images/045-01-108010.jpg
http://i5.photobucket.com/albums/y170/Nimby33/Eremita_Nimbypolis.jpg
Eu quero um tempo para fotografar, um tempo para ler despreocupada, um tempo para vadiar…
Quero uma hora para ouvir música, duas para ver um filme, meia para tomar um sorvete…
Quero um dia para dançar, dois para o italiano, três para passear, quatro para cozinhar e cinco para malhar…
Quero uma taça com vinho, um aconchego no sofá, um beijo de amor…
Quero dinheiro na conta, reconhecimento no trabalho, prazer na vida e alegria nas horas…
E tudo ao mesmo tempo agora!
Aqui agora podemos tomar uns seiscentos cafés com os estudantes de Jornalismo das FJA.
As FJA receberam ontem, dia 05 de fevereiro, José Saja, professor de Filosofia da UFBA para a Aula Magna da instituição. Franzino, ele se apresenta como um homem sem H maiúsculo, reflete sobre o h minúsculo e conclui que, pelo seu tamanho, deve ser mesmo um homem com o, minúsculo mesmo. O interessante é que este pequeno convidado ganha ares de grande e ilustre pessoa à medida que fala, porque, de modo simples e humilde, ensina-nos a viver a escola.
Ele dedicou a 1a aula aos calouros não sem agradecer e lembrar a presença dos veteranos e professores. Provocativo, diante de uma geração desiludida e apática face à modernidade ‘tribalista’, individualista e desprovida de ideais , evocou logo Che Guevara:
” Mesmo correndo o risco de parecer ridículo, todo revolucionário é movido por imenso sentimento de amor”
e nos lembrou que este amor de que se fala é um arrebatamento, mas, principalmente , uma atitude.
É desconcertante, no cenário moderno capitalista e neoliberal com todo o seu impacto sobre as massas e a educação, ouvi-lo dizer que, se “mil vidas” tivesse, seria mil vezes professor de Filosofia da UFBA. Assusta porque estamos habituados a ouvir os queixumes dos professores, a desilusão que se instalou. A fala de Saja é a fala de um homem realizado, que encontra amor em sala de aula e o distribui também.
Nas suas palavras, que refletem a Pedagogia de Freire, uma sala de aula jamais deve ser uma “cela” de aula. Compreende este espaço como um lugar propício à libertação do ser humano, onde entre as Ciências, a Filosofia e a Arte, constrói-se o cenário no qual o homem pode ser ator – agente – de sua história.
“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” e o homem sofre, recorda-nos insistente, para recuperar o papel da escola, do professor: na sala de aula, o espaço onde nos encontramos para diminuir a nossa dor.
Margeando a metafísica, convidou-nos a todos a refletir sobre o que estamos fazendo com a única vida que temos. E mais: o que estamos fazendo com a única vida das pessoas com as quais convivemos.
A sala de aula, neste cenário de catástrofes ambientais, de problemas sociais e políticos, para Saja, aparece como uma das estratégias para salvar o homem. Ele lembrou a todos que a faculdade não é o lugar para ganhar dinheiro: “Nós estamos aqui é para mudar o mundo, para inventar um homem novo, uma mulher nova. Tudo na vida vai passar a gente só fica com os nossos sonhos”.
A corajosa reflexão assume ares de denúncia: “no lugar de um professor, muitas vezes, nós temos um impostor (…) o grande problema da juventude é acreditar que há um amanhã”.
Precisamos ressignificar o nosso tempo, ser feliz, sentir emoção. Temos fome de quê? Temos sede de quê? Vamos nos contentar com qualquer coisa? “O Capitalismo sobrevive pelo sofrimento das pessoas, forjando a incapacidade, a inutilidade e estimulando a baixa auto-estima”.
Saja convidou todos a se apaixonarem porque o amor move o mundo, a amar uma causa, as pessoas, um ideal; a tomar as rédeas da própria vida e decidir o seu destino. A capacidade, enfim, que temos que desenvolver, é a de segurar os nossos sonhos, de investir na nossa própria vida.
A aula se encerrou com o belíssimo vídeo de Maria Bethânia cantando Comida dos Titãs e O que é o que é ? de Gonzaguinha.
“E a vida? E a vida o que é diga lá meu irmão… “
__…___
Saí leve da faculdade ontem, feliz porque há outros que também acreditam.
” Judith soluça no quarto. É destino de todas elas. Os homens da beira do cais só têm uma estrada na sua vida: a estrada do mar. Por ela entram, que seu destino é esse. O mar é dono de todos eles. Do mar vem toda a alegria e toda a tristeza porque o mar é mistério que nem os marinheiros mais velhos entendem, que nem entendem aqueles antigos mestres de saveiro que não viajam mais e, apenas, remendam velas e contam histórias. Quem já decifrou o mistério do mar? Do mar vem a música, vem o amor e vem a morte. E não é sobre o mar que a Lua é mais bela? O mar é instável. Como ele é a vida dos saveiros. Qual deles já teve um fim de vida igual ao dos homens da terra que acarinham netos e reúnem as famílias nos almoços e nos jantares? Nenhum deles anda com esse passo firme dos homens de terra. Cada qual tem alguma coisa no fundo do mar: um filho, um irmão, um braço, um saveiro que virou, uma vela que o vento da tempestadedespedaçou. Mas também qual deles não sabe cantar essas canções de amor nas noites do cais?Qual deles não sabe amar com violência e doçura? Porque toda a vez que cantam e que amam, bem pode ser a última. Quando se despedem das mulheres não dão rápidos beijos, como os homens da terra que vão para os negócios. Dão adeuses longos, mãos que acenam, como que ainda chamando.
(…)
A música atravessa o cais para chegar até eles:
É doce morrer no mar…”
(Jorge Amado . Mar Morto. p.24 e 25)
”Para ver a mãe d’água, muitos já se jogaram no mar sorrindo e não mais apareceram. Será que ela dorme com todos eles no fundo das águas? (…) porque a mãe-d’água é loira e tem cabelos compridos e anda nua debaixo das ondas, vestida somente com os cabelos que a gente vê quando a lua passa sobre o mar.
Os homens da terra (que sabem os homens da terra?) dizem que são os raios da lua sobre o mar. Mas os marinheiros, os mestres de saveiro, os canoeiros, riem dos homens da terra que não sabem nada. Eles bem sabem que são os cabelos da mãe-d’água, que vem ver a lua cheia. É Iemanjá que vem olghar a lua. Por isso os homens ficam espiando o mar prateado nas noites de lua.Porque sabem que a mãe-d’água está ali. Os negros tocam violão, harmônica, batem batuque e cantam. É o presente que eles trazem para a dona do mar. Outros fumam cachimbo para iluminar o caminho, assim Iemanjá verá melhor. Todos a amam e até esquecem as mulheres quando so cabelos da mãe-d’água se estendem sobre o mar.”
(Jorge Amado. Mar Morto. p.27)
Dia 2 de fevereiro foi dia de festa no mar.
O Rio Vermelho daquela profusão de gente e cores e baianas e flores e festas e bebidas e presentes e pessoas… é, simplesmente, assim no cotidiano, num dia nublado qualquer da cidade da Bahia.
A Literatura é o derramamento da alma humana através das palavras.
O trabalho cansa, deixa dores nas costas, nos braços, causa L.E.R., dói as vistas, impede-nos de cair no reggae, de passear, faz-nos virar noites em claro a corrigir e corrigir e corrigir… mas eu gosto!
Hoje eu quero apenas oferecer no blog o que eu oferecerei aos meus alunos do terceiro ano na segunda -feira, no módulo de Literatura:
“Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.
(John Donne, poeta inglês)