Arquivos Mensais:março 2007

Mestre Haroldo… e os meninos

Mestre Haroldo… e os meninos

Mestre Haroldo… e os meninos  está em cartaz de sexta a domingo às 20 horas na Sala do Coro do Teatro Castro Alves. A peça de Athol Fugard conta a história de Reri, um adolescente branco filho da dona de uma lanchonete onde trabalham Samuel, um garçom negro de 50 anos, e Valney, faxineiro negro  de aproximadamente 45 anos.

O velho Samuca criou Reri, muitas vezes fazendo-lhe o papel de pai uma vez que este, na verdade, era um alcoólatra inveterado. Estudou com o menino, ajudou-lhe com as lições, empinou pipa e carregou-o no colo nos momentos difíceis. O menino cresce e, adolescente impiedoso, diz impropérios ao velho Samuca, cospe-lhe na cara e exige que o trate por Mestre, assim como o Valney já fazia.

O clímax da peça ocorre em meio às gargalhadas do adolescente que repete ao velho Samuca a piada racista que o seu pai biológico lhe contava repetidamente no lar. A revolta de Samuca faz da tensão grotesca que se forma um momento lírico de libertação do preconceito, da discriminação. Uma lição de moral e amor.  

Gideon Rosa, no papel de Samuca, emociona uma sala inteira e rouba, literalmente, a cena, protagonizando o conflito que Athol Fugard, autor africano, transpôs para o teatro num ato único. Como Mestre Haroldo, o ator Igor Epifânio e, como Valney, José Carlos Ngão.

A peça, ambientada numa lanchonete dos anos 50 na África do Sul, nos remete ao Brasil que também discriminou nas fazendas escravocratas as amas de leite e os pajens. Um Brasil que gerou filhos brancos preconceituosos capazes de humilhar aqueles que mesmos que os criaram na infância.

Ao final do espetáculo, os atores bateram um papo conosco. 

Conselhos úteis do leitor de Nuno Cobra

Conselhos úteis do leitor de Nuno Cobra

- Ô, menina, você tem que rever este seu horário.

- Eu sei.

- Tem que dormir mais, você dorme pouco. E tarde…

- Ai, meu Deus, eu preciso é de tempo para mim. Eu quero dormir.

- Basta você se organizar.

- A questão não é esta. A demanda de trabalho é muito grande. O que eu preciso é ganhar mais e trabalhar menos ( eu e a grande parte da humanidade). Não é fácil se sustentar sozinha e manter as coisas todas.

- Tenho a solução: trabalhe sábado e  domingo.

- Mais ?

- Nunca durma à tarde

- Mas o sono da tarde é para repor o mínimo de horas necessárias, já que eu chego às 23h em casa e saio às 6h40 da matina. Ou seja, durmo apenas seis horas diárias.

- Depois a gente conversa, você precisa dormir mais.

- Ai, ai… (quimera)

Ser

Ser

Você é aquilo que é.

E mais um pouco do que pensam de você.

Você é a projeção de seus fantasmas.

A loucura de suas desconfianças.

A explosão da revolta adulta que a sua infância impotente não lhe permitiu.

Você é o que o mundo lhe cobra e por isso é também o sufoco de seus quereres.

Eu vi a cara da morte

Eu vi a cara da morte

A cara da morte é desfiguração.

Os olhos ficam embaçados e perdem o viço.

Uma nuvem quer apagar a vida enquanto o corpo ainda resiste,

relutante, a aceitar que  perece.

A névoa apaga o olhar.

Tira-lhe o brilho, tira-lhe as lembranças.

O corpo fenece lentamente, treme um pouco, sua.

Frio, muito frio.

.

Um gemido agoniado,

um revirar de olhos,

um suspiro de quem não queria ir.

É findo. Terminou.

.

Os vasos entopem, o líqüido derrama.

Pinga do corpo estendido: necrotério de sonhos.

Mãe.

Um dia

Um dia

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Um dia a gente se cansa

de ter sido tantas vezes girassol:

rodar em torno de si,

com raízes fincadas na terra

a mirar um sol que se põe distante

porque ilumina outros planetas.

.

Neste dia, leoa, leonina,

mulher e menina

se descobrem sol,

astro, luz, força, fogo e calor.

E renasce criança, moça de dourados sonhos.

O poder de um pênis

O poder de um pênis

Pênis. Esta foi a palavra mágica capaz de parar por mais de 15 minutos a aula inteira. Falei na palavra pênis. Gritos e risadas incontidas. Compulsão ao riso, à gargalhada, ao descontrole. Barulho de trinta vozes contando histórias, discutindo, falando … E, quanto mais eu falava, mais riso, mais balbúrdia.

O caso foi o seguinte: a aula era sobre leituras do vídeo, cinema e da arte. Então me lembrei de contar o vídeo que vi projetado na sala do Museu Rodin Bahia.  A filmagem é algo interessantíssimo: um líqüido vermelho-amarelo fritando, o dendê. O som do dendê no fogo foi colocado na sala da projeção para ambientar a cena mais ou menos como as exposições de Andy Warhol, e, no meio da liquidez do azeite, percebe-se a subexposição de um pênis ereto.  É místico, mágico e artístico o vídeo.

Mas bastou eu falar a palavra pênis que eu nem consegui explicar mais nada. Pura confusão. Deixei o clima como estava e os alunos gastarem as emoções. Uma parte estava enfadada, mas a outra – a maioria – eufórica. Percebi então o efeito catártico que tinha desencadeado e sugeri-lhes alguns exercícios. Primeiro, que repensassem o que consideravam imoral, pornográfico e indecente. Depois, que lessem Rubem Fonseca (particularmente Intestino Grosso e O Campeonato). Para encontrar um ponto de equilíbrio, que usassem a terapia para a síndrome de La Tourette (coprolalia): falassem, gritassem todos os nomes que conhecessem para vagina, pênis e sexo. Não, eles não toparam, contidos. ‘Expliquei-lhes’ então  que sexo é natural (muitos risos, muito assombro, muita gargalhada) e que a Igreja impôs a inferno, fogueira e guilhotina a idéia de sexo como pecado. Uns olhos se arregalaram ao ouvir que todos os avós e as avós e pais e mães fizeram sexo para que nascêssemos. Pedi-lhes para análise deles que buscassem então no cinema dois filmes de escolha própria sobre o sexo, o erotismo, a sedução.

Não consegui controlar os risos deles, as gargalhadas deles… tudo por causa do poder de um pênis. E falado. Imagina só se visto, tocado, sentido, gozado…

* * *

Glauber ainda me fez conseguir encerrar a aula na faculdade, graças.

Para confortar

Para confortar

Hoje, quando me sinto assustada, aprendi a não ceder ao desespero, a não me transformar num rolo compressor de ‘faz-de-conta que está tudo bem’ e a acolher a parte de mim que precisa de atenção.

Confessar a si própria os medos não é nada fácil, afinal o mundo e mesmo aqueles que amamos só exigem pessoas fortes, alegres, bonitas e vencedoras. Sem problemas.

Ficar triste, entender seus limites, traumas e medos é importante não para o mundo, mas para nós mesmas. Cansei de ser infalível há muito tempo, graças. Isso me restituiu a livre condição de ser humana.

É neste momento de reconhecimento de si que se dá o encontro com a liberdade.

Dia Internacional da Mulher

Dia Internacional da Mulher

Hoje é um dia diferente. Às vezes, penso-o triste. Seria melhor que não precisasse havê-lo. Depois da estupidez de um mundo patriarcal consolidada por dois milênios, a luta feminina se tornou necessária devido à opressão que as mulheres sofreram (e sofrem). É controverso, mas necessário que haja o 8 de março.

Da perseguição na Idade Média, quando eram acusadas de bruxas, ao casamento imposto pelos pais, chegando ao tempo em que, nas fábricas de um mundo recém industrializado foram exploradas e dobraram turnos até os triplicarem como mão-de-obra barata e dita “desqualificada”, ao mundo atual, quando ainda sofremos os efeitos de uma sociedade machista e cega que estupidamente insiste na guerra entre os sexos… nós, mulheres, precisamos mesmo é de que nos restituam a nossa condição de mulher. Ou que a conquistemos. De volta.

Li muitas homenagens, vários apelos publicitários, alguns piegas, outros comoventes, mensagens sem sal e outras com sal. Ou açúcar. Mas confesso que acordei incomodada. Incomodada pelo dia. Incomodada pela importância que temos nós todos, seres humanos, e pela necessidade que temos de saber e ouvir isso sempre, não só num dia específico. E por sermos tão sensíveis, nós, mulheres, tão emotivas a ponto de manifestarmos o desejo de ouvir palavras doces. Que deveriam ser espontâneas amiúde.

Liguei para minha avó agora à tarde. Ela nasceu em 1924. Conversei com ela pelo dia, prestei-lhe a homenagem devida, reconheci o seu valor de ‘guerreira’, lamentei que tivesse que ser. Ela foi pioneira num Brasil patriacal e machista. Casou-se com um charmoso descendente de árabes, sonhando o príncipe encantado. Descobriu um tirano que jogava, bebia  e impunha seu comportamento e suas vontades. Fazendeiro e abastado, moço da cidade da Bahia, o meu avô não foi lá um bom companheiro.

De moça educada no Instituto Feminino da Bahia, leitora de livros franceses e do melhor da literatura brasileira, inclusive a de vanguarda modernista, conhecedora das artes e da música erudita, de origem nobre e fina, viu-se sujeita às condições medievas do pensamento  masculino dominador. A gota d’água ocorreu em 1949, quando,  depois de voltar de uma jogatina regada a uísque na cidade de Paulo Afonso onde se perdia a fortuna e a racionalidade, ele , na fazenda, queimou no quintal os livros dela porque não queria mulher intelectual. Ela, de nariz em pé, lhe disse que queimasse os livros porque o conhecimento ela carregaria consigo para sempre, ele jamais lhe poderia tirá-lo (não é  à toa que eu digo isso na sala de aula). Trancou-se no banheiro com os dois filhos pequenos, de quatro e dois anos, e chorou assustada a noite interia.

Em Salvador, um tempo depois, voltando das farras no Cassino Tabaris na praça Castro Alves, meu avô jogara as jóias dela, de herança familiar. Questionadora, ela bebera nos livros os ideais de um novo tempo e, infelizmente, sofreu a agressão dele que lhe queria impor o seu poder. “Chorou de ficar com a cara inchada” no quarto trancada, as crianças também choravam no banheiro. O dia amanheceu e pelo telefone chamou os irmãos e o pai para resgatá-la do casamento condenado ao fracasso. Meu bisavô Alexandre questionou-a, mas acolheu a filha que quisera princesa e não cinderela.

Não era fácil ser desquitada na Bahia dos anos cinqüenta. Perdeu amizades, ouviu gracinhas, sem-gracices e piadinhas, mas se manteve trabalhando em emprego federal, nos Correios e Telégrafos, morando com seus pais.  O doutor Josaphat Marinho lhe fez o desquite. E assegurou ao pai dela que tomara a decisão certa. Anos mais tarde, minha avó engajou-se na campanha pelo divórcio promovida pelo doutor Nelson Carneiro (http://pt.wikipedia.org/wiki/Nelson_Carneiro).

Foi por isso que hoje eu lhe dei dois parabéns. O primeiro, porque ela é mulher. O segundo porque eu me orgulho do que ela fez. Optou pela dignidade num tempo em que isso significava correr o risco de perdê-la socialmente.