Publicado por: Alena Cairo em: 27 Setembro, 2007

Dia 27 de setembro é dia de caruru na Bahia.
Cheguei à cozinha e minha empregada estava a rir solta… Indaguei-lhe qual era a graça e ela disse que fôra a conversa que ouvira no ônibus a caminho. Uma mulher assombrada conversava com a amiga sobre o medo que tinha do candomblé e ‘destas coisas malignas’. Dizia que a sua avó soubera pelos tios que, no candomblé, quando morre uma mãe de santo e fazem uma festa depois, a saia sai dançando sozinha. Sorri também. Lembrou-me dos livros de Jorge Amado.
Eu sou uma pessoa apaixonada por tradições, rituais e crendices, ainda que eu não creia em (quase) todas, burle rituais e subverta tradições. Na Bahia, hoje é dia de caruru. O sincretismo se encarregou de misturar a comida dos negros, as oferendas, aos rituais cristãos europeus. Por isso, hoje no meu estado só se fala em caruru.
Nas feiras, os preços dos camarões estão lá no alto, há cestos de quiabos espalhados por todos os mercadinhos e grandes supermercados e, logo mais, à noite, nas Sete Portas e na Feira de São Joaquim, haverá gigantescos carurus de não sei quantos mil quiabos para agradecer aos meninos as benesses que nos ofertam. As baianas também estarão em todas as esquinas hoje não só para vender seus quitutes, mas para oferecer um caruru gostoso à população em agradecimento às vendas do ano inteiro.
São Cosme e São Damião são invocados por católicos no mundo todo. Reza a lenda difundida desde o século V d.C. que as crianças gêmeas curavam enfermidades de pessoas e animais. São patronos dos médicos e farmacêuticos e também das crianças. Família baiana que se preza oferece um caruru anual aos gêmeos: se os têm também dentro de casa, então caruru é lei.
No tempo em que minha mãe era viva, ela oferecia a Cosme e Damião mais de um caruru por ano. Sempre havia no mínimo uns três: abril, julho e outubro. É que eles também são os padroeiros das doceiras e minha mãe, além de professora, era quituteira das melhores. Foi por isso que eu cresci vendo os santinhos na cabeceira do criado-mudo dela, em cima do mármore bege-bahia com os pratinhos de caruru, vatapá
feijão fradinho, arroz, xinxim de galinha, farofa de dendê e umas balinhas ou rapadura. E duas velinhas acesas, lógico. Sempre havia 7, 14 ou 21 crianças convidadas a comer. E quem vive na Bahia sabe: nem precisa conhecer estas crianças todas. Se o caruru é bem sucedido, se os gêmeos abençoaram, as crianças aparecem sempre.
Ironicamente, a oração a São Cosme e São Damião tem um trechinho assim:
“(…) medicai o meu corpo na doença e fortalecei a minha alma
contra a superstição e todas as práticas do mal (…)”
Sorrio porque na Bahia a oração não funcionou: a superstição faz parte do próprio culto aos meninos. Os ibejis, gêmeos amigos das crianças, são festejados no candomblé dia 27 de setembro e, por isso, a festa aqui ocorre um dia depois do calendário oficial dos santos. Os ibejis são crianças traquinas que podem desorganizar a vida de alguém, atrapalhar os caminhos, mas atendem sempre aos pedidos dos devotos que lhes oferecem doces e guloseimas. Por isso a tradição de dar o caruru com doces e de oferecê-lo sempre primeiro às crianças.
Há quem duvide da existência de Cosme e Damião e atribua o culto cristão ao sincretismo com uma antiga lenda grega: os filhos gêmeos de Zeus, Castor e Pólux.
Não importam as verdades, lendas e superstições agora. Porque eu estou a me preparar para seguir a tradição familiar que mantenho: dar o caruru de São Cosme e São Damião. Já arrumei o altar, acendi as velas e coloquei os santinhos. É só pedir saúde, fertilidade e deixar vir a mim as criancinhas.
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Esta imagem que abre o post lá em cima é dos santinhos de minha mãe.
olá alena
não sei dizer como encontrei p seu blog. às vezes perco-me no ciberespaço, e vou andando…quase sempre encontro locais onde gosto de voltar, e o seu foi um deles.Talvez estivesse à procura de alguma coisa da bahia, local onde já fui 3 vezes e onde espero voltar muitas.
comecei a gostar da bahia, e de salvador em especial, pela mão do jorge amado, lendo os seus livros, no porto. Depois o meu irmão, em Houston, texas, arranjou-me uma cunhada baiana, com 12 irmãos,e 11 cunhados, mãe e muitos sobrinhos .A seguir o meu sobrinho mais velho, que é meu compadre duas vezes , casou com uma baiana, em lisboa.Talvez por isso gosto de ler as suas mensagens, e também porque voce sabe contar histórias, coisa rara de encontrar.
um abraço para si, da sua nova amiga portuga
mãenuela
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Então você, Manuela, é baiana por osmose!!!
Volte sempre, amei conhecê-la!!! Um beijo enorme.
Querida Alena, adoro ler os seus textos. Como não sou da Bahia,aprendi aqui a gostar de caruru. hoje por onde passei tinha alguém
distribuindo essa comida tão gostosa!Gosto das tradições, acho que devemos conservá-las.
Abraços,
Chica
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Eu gosto muito de rituais, Chica, não é nem que acredite neles,
mas acho tão mágico ver as pessoas seguindo preceitos e mantendo tradições!
Bom caruru.
Ah, este foi o melhor que eu fiz na minha vida, ficou uma delícia!!!
Ontem, quinta-feira, dia 04/10, comi de novo.
Vou convidá-la a vir degustar comigo na próxima vez.
Um beijo
Alena
Querida Alena, adoro ler os seus textos. Como não sou da Bahia,aprendi aqui a gostar de caruru. hoje por onde passei tinha alguém distribuindo essa comida tão gostosa! Gosto das tradições, acho que devemos conservá-las.
Abraços,
Chica
stribuindo essa comida tão gostosa!Gosto das tradições, acho que devemos conservá-las.
Abraços,
Chica
Poxa, nem me chamou hein? rsrs.. Tudo de bom pra vc minha lindinha. Muita sáude, paz, grana e amor. Em dobro, como o Cosme e Damião. Beijão.
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Conte ao povo aí: eu o chamei, convidei, voc~e saiu para tomar todas com meu cunhado e, simplesmente, ambos foram dormir … hic, hic hic!!
Ahahahah… Não existe, simplesmente, eu fazer algo e não convidar você. Um beijo
A
humm, a comida…humm ,humm…
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Alena,
Fiz um post sobre o site do Adenor Gondim, que eu conheci através do teu blog. Vá, depois, dar uma olhada lá.
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Vou ver, Arnaldo, pode crer!
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Fui ver e adorei, o Adenor merece! Obrigada.</strong>
Adoro símbolos significativos.
Me manda seu e mail pra gente marcar de se conhecer.
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Gabi, o e-mail é alenacairo@yahoo.com.br
Um abraço!!
Alena
Tenho muita vontade de conhecer as festas do candamblé na bahia, conhecer a origem de crenças populares.
Odorei o texto !
Bjus
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Bom… vou fazer como faço em sala de aula: conheça! Estude! (risos)
Beijo
Alena
Alena,
Divido com você uma história baiana divertida, que envolve tradições e caruru.
Antes de tudo falo sobre minha mãe. Ela é incapaz de comer do prato de qualquer pessoa. Nem dos filhos. Não come com o talher que alguém já tenha usado, não bebe do mesmo copo. Costumamos dizer em casa, provocando-a, que ela é muito nojenta.
Terreiro de Mãe Menininha na Bahia. Em uma panela enorme, um delicioso caruru é cozinhado. De uma colher de pau comunitária todos se servem, deliciam-se com o alimento. Jorge Amado, muito educado, pega o talher de madeira da mão de um Pai de Santo, que acabara de se servir, enche de caruru, e vem com ela, a baba do quiabo escapando, caindo no chão, em direção de minha mãe.
- Coma, minha filha, está uma delícia.
Não teve jeito, ela teve que comer.
Até hoje, nas reuniões de família, quando ela começa com seus nojos, lembramos do fato para provocá-la.
Beijão
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Ahahahahahhaa… história maravilhosa! E sabendo bem das molequeiras de Jorge Amado, imagino como ele foi inocente fazendo-a comer na colher coletiva!!!
Esta Bahia é boa mesmo!
Alena,
Certa vêz, minha tia e meu primo me levaram à uma festa em um terreiro, no Rio.Uma fila foi formada, e baianas, serviam as iguarias. Por falta de costume de comer as delícias da Bahia
pedí que colocasse pouquinho,meu primo guloso,
pediu um poucão.Se deu bem!!!! Era caruru.
Adorei, mas envergonhada, não repetí.
Todos os anos (há muitos anos),ofereço doces às crianças, em intenção a Cosme e Damião.
Bjs
ALENA QUERIDA. SOU MINEIRA E SOU DEVOTA DE SÃO COSME E DAMIÃO. GOSTARIA DE SABER ONDE ADIQUIRIR LIVROS QUE CONTEM SUA HISTORIA. GRATA. DEUS TE ABENÇÕE.
HELOISA RIOS
eu também acredito muito em Cosme e Damião já fiz 2 carurus e sei que eles me protegem com o auxilio de Deus nosso Pai. E hoje extamente no dia 27 de setembro de 2008, fui a um caruru e veio em meu prato um quiabo inteiro sinal que tenho que fazer outros carurus em agradecimento a eles. parabéns pela sua devoção! beijos !Mônica. eu tenho certeza que irei alcançar a graça que tanto almejo.
ADOREI TUDO QUE VOÇÊ FALOU E FIZ UMA PROMESSA PARA COSME E DAMIÃO UMA JÁ FUI ATENDIDA AGORA VOU ESPERAR PELAS OUTRAS E SEI QUE SEREI. UM BEIJO FELICIDADES BOA SORTE HOJE E SEMPRE.
27 Setembro, 2007 às 7:29 pm
Alena,
legal, sua foto! Você tem a cara de seus posts!
Cara boa, de quem sabe escrever, sabe cozinhar e, sobretudo, sabe escrever sobre cozinha.
Fiquei com água na boca…
Muito bom você manter as tradições. Acho da maior importância, parabéns!
Ah, li você me conclamando aos blogs, no Sub-rosa. Fico feliz e honrada, te agradeço, mas, por enquanto, vou lendo vocês, e palpitando, aqui e ali. Mais tarde, quem sabe?
Beijo da
Vivina.
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Merci, merci!!!
Só posso agradecer sua presença aqui, Vivina.
Vem para a Bahia que eu cozinho para você (risos).
Um beijo
Alena