Arquivos Mensais:novembro 2007

Cor de couve-flor grafitti

Cor de couve-flor grafitti

Ahaha… a vida é bela e quando não pinta o que você quer, o melhor é comprar suas próprias tintas e dar uma corzinha na sua vida.

Meu escritório agora é cor de couve-flor grafitti:

 

Na mesma leva, resolvi que meu quarto entraria 2008 verdinho. Segundo a cromoterapia, verde é saúde, verde é prosperidade e verde é dinheiro (tudo de bom, tudo que eu quero!) uh lá lá!

Bons fluidos.

 

Se Maomé não vai à montanha…

Se Maomé não vai à montanha…

… o puteiro vem à sua casa.

Antigamente(“nos primórdios”), quando eu era adolescente, saber que existia um lugar para fazer sexo onde só os homens entravam me deu uma curiosidade danada. Primeiro, achava injusto. Por que é que as mulheres também não poderiam ir? Aí descobri que as mulheres iam sim, mas na condição de prato principal.  O silogismo era lógico na minha cabecinha: a mulher é objeto então. E me revoltei.

Ora, cresci com as possíveis castradoras doutrinas católicas e familiares. Ai de minha mãe ao me ouvir falar assim. E ela ouvia. Porque eu conversava e dizia o que pensava. Na condição de mãe, tentava purificar a minha cabeça, mas cada vez mais me dava livros e me estimulava a estudar. Então não teve jeito.

Desde a época em que tomei consciência da condição existencial da putas, fiquei fascinada e deprimida. Fascinada porque pensava na possibilidade de uma mulher fazer sexo com quem quisesse, libido pura, desejo e prazer. Então descobri que não era bem assim. As mulheres putas ou eram escravas do dinheiro ou de sua condição social (às vezes de ambos).

Então percebi que putas não fazem sexo apenas com quem querem, mas com quem paga.

Das putas pobres, eu sempre tive dó. Não creio que a pobreza leve irremediavelmente à prostituição. Há quem seja pedinte, esmolé ou mesmo indigente. Mas é fato que há mulheres de vida difícil que dão o corpo em troca do alimento. Ou do dinheiro para comprá-lo. No âmbito da ficção, por exemplo, a cena mais chocante do filme “O nome da rosa” é para mim a que uma pobre medieva faz sexo com um monge franciscano para receber um frango. A equação é óbvia: sexo = a comer para não morrer de fome .

Outra situação é a da menina, moça ou mulher seduzida pelo novo celular ou pelo jantar ou hotel de luxo, que vende o produto a fim de gozar o dinheiro. É difícil do meu lugar social entender que o valha. O fato é que não se pode comparar ambas garotas. Que fique claro que não estou a atirar pedras, até porque a incompreensão para mim envolve é os freqüentadores das putas.

A mesma cabeça adolescente e anárquica que eu sempre tive perguntava-se desde jovem: mas por que é então que todo mundo não transa com todo mundo para se evitar o sexo pago? Na verdade, evitar-se o nojo de ter INTIMIDADE com quem não se quer? A condição de mulher traída já doía tardiamente (se considero o passado de minhas avós) e precocemente ( se entendo que tinha ainda 14 anos e já pensava assim) em mim. Sim, sentia a dor das putas que copulavam com homens que não desejavam e a dor das mulheres traídas em casa. Até eu entender que não ia salvar a humanidade inteira e que não era Madre nenhuma quanto mais Teresa.

Uma vez um amigo de quase 60 anos me explicou uma coisa: “Alena, a gente paga as putas para depois se ver livre delas”. Minha cabeça deu um nó e eu tinha 26 anos. Pensei, pensei e senti compaixão. Dele. Na varanda, várias conversas com o grisalho me levaram à conclusão triste: estes homens satisfazem o desejo biológico e depois querem ficar a sós. Pagam para ir embora. O gostoso do abraçar e dormir depois não havia. Nem com a esposa em casa, que o casamento estava falido, nem com as moças de aluguel.

***

Mas esta é só uma versão de um longo assunto sobre o qual ainda quero ensaiar bastante. Para ver se eu mesma entendo algumas coisas.

***

O fato é que, como não vejo televisão quase nunca, só hoje tomei conhecimento do vídeo no you tube da novela Duas Caras. E aquele lugar mágico, misterioso, proibido e ‘sujo’ que povoou minha imaginação durante anos foi simplesmente revelado tal e qual na novela das oito a todas as famílias que a ela assistem. A minha curiosidade de saber como era um puteiro, uma casa de show, não é mistério hoje para qualquer criancinha ou senhora de idade. Estou doida ou é vídeo erótico esta cena?

Nenhum puritanismo, por favor. Eu era criança e via novelas e achava as putas maravilhosas: eram mulheres maquiadas e exuberantes, sempre alegres e vestidas de forma exótica. Vedetes. Minha mãe precisou de muita castração para me ensinar que aquilo não era maravilhoso (kkkkk) . Eu era criança e o bordel de “Roque Santeiro” era a melhor parte da novela.

O realismo de certas cenas feitas para a família brasileira ultrapassa minha compreensão como no caso da cena protagonizada por Flávia Alessandra. E a necessidade de uma trama como essa também. É o quê? Necessidade de perdoar as belas enfermeiras (eta! lá vão estigmatizar uma profissão) que fazem programa para completar a renda e sustentar os filhinhos?

Qual o benefício sociopolítico destas ditas novelas engajadas? Creio que a ficção não precise de tanta verossimilhança. Em tempos de BBB, Casa dos Artistas, pornografia on line ou via webcam e cia, talvez seja eu mesma a antiquada.

o QUE fazer no meio da noite sem sono?

o QUE fazer no meio da noite sem sono?

Trabalhar? Ah, que saco, nem pensar. Zanzar sem rumo pela net e tomar umas decisões sobre a vida, anotadas no caderninho de realizações próximas. Ao menos.

Que falta que sinto de morar numa cidade mais cosmopolita com academia funcionando 24 horas. Poderia ir malhar agora para não me arrepender tanto do churrasco de hoje. E amanhã tenho aula às 7h30.

Férias pra que te quero!

____ * _____

Ao menos mudei(melhorei) o programa: revi Quem somos nós?

Escrevi uma cartinha para uma amiga.

Embalei um presente para outra.

Decidi acordar bem amanhã.

A vida vale

A vida vale

Melhor momento do dia:

você vai à praia. ok

Você está na companhia de  dois amigos bacanas. ok

Ela não quer ir à água. O mar está revolto e bravio (eu adoro a praia assim também).

Ele quer ir. Você também. Vai junto então.

Despe-se do vestidinho e serelepe de biquíne entra na água que lava toda e qualquer ziquizira. Mergulha muitas vezes. Mais de sete que é superstição.

E, na hora de sair da água, tão bonitinho, ele te ajuda. Um amigo lhe dá a mão para sair do mar que te puxa sem parar. Fala sério! Isso existe? Confesso que achei uma coisa linda a gentileza.

Vazio de cortar (meu) coração

Vazio de cortar (meu) coração

Tá.

Ré confessa.

Tem alguma coisa muito estranha acontecendo quando você sonha com umas urucubacas horríveis, acorda no meio da noite de domingo, triste, triste. Vê tv, assiste às péssimas resenhas esportivas, nenhum filme que valha, uma bagunça inimaginável de provas a corrigir… resta o pc, s.o.s. solidão, procuro no orkut, converso no msn, marco uns encontros com amigas, relembro o dia… e estou aqui a descobrir novos blogs (pasmem!) ouvindo aquelas melodias infanto juvenis de Sandy e Júnior com um vazio daqueles no peito. Merda!

Tô doida.

Falta o coração bater de novo.

Só pode.

O time sobe. O torcedor cai?

O time sobe. O torcedor cai?

Sempre que alguém se refere a um torcedor do Bahia, associa a ele o adjetivo “doente”. É “Bahia doente”. Longe de ser perjorativa, a associação significa que o torcedor é apaixonado, é Bahia de corpo e alma, é Bahia de coração e que nada, mas nadica mesmo neste mundo, fará com que ele mude de time ou troque a camisa.

O time estava na série C do Brasileirão e a torcida apaixonada lotou o estádio da Fonte Nova em diversos jogos. Público de 60000 pessoas, mais de 50000 pagantes. Ingressos foram vendidos por cambistas até quatro vezes mais caros. Na hora H, não havia mais como entrar no estádio, lotado, sem nenhum ingresso disponível.

Salvador se vestiu tricolor: azul, vermelho e branco. As lojas no shopping venderam as camisas todas. As pessoas passavam orgulhosas nas ruas com bandeiras gigantescas. Os automóveis circularam pela capital baiana como se fosse final de copa do mundo.

O jogo foi meia boca. O time empatou. Não houve gols. Ainda assim, classificou-se para a série B. Trios elétricos aguardavam fora do estádio para carnavalizar o futebol. Mas a lona do circo caiu : a arquibancada desabou e cerca de dez pessoas caíram na rua de uma altura enorme. Seis morreram na hora. Três homens e três mulheres. Mais um morreu no Hospital Geral do Estado. Alguns mais ficaram feridos.

Era preciso ocorrer a tragédia para que houvesse vistoria? Era preciso que o anel superior da arquibancada desabasse para se falar em superlotação? Que teria ocorrido se o time desse uma goleada e houvesse o agito característico da vitória?

Sobe o Bahia, cai o povo.

Lamentável.

O vendedor de sonhos

O vendedor de sonhos

Não sei que mágica é esta que o colorido dos brinquedos e a fofura dos infláveis provoca nas crianças.

Foto: Alena Cairo

Aquela que há em mim fica deslumbrada, sempre extasiada ao ver o homem que passa na praia sob um guarda-sol de ilusões… Ele vende a alegria, ele vende a diversão, vende a ternura do amor de pais e filhos, vende o riso solto e o correr atrás da bola descalços na areia. Essas coisas que não se compram.

Este homem é deus. Ele vende o intangível.

O que mais me deixa feliz…

O que mais me deixa feliz…

… é acordar e perceber que a vida vale a pena, que só a mim cabe a responsabilidade pelos meus dias, pelo jeito como vou encará-los, fazer-me feliz.

É perceber que, ao longo da minha vida, estive sorrindo, estive disposta a acreditar nas pessoas, na vida e em mim mesma.

É descobrir de novo um motivo para sonhar.

É desejar o coração batendo forte e apaixonado no peito. É esperar que a festa aconteça e, se demorar, resolver fazê-la.

É tomar as providências para cuidar de mim.

Encontros especiais

Encontros especiais

Nesta semana, fui surpreendida com um e-mail que me fazia um convite interessante. Era a Gabriela do blog Episódios me propondo um encontro para me conhecer. Ela estaria na faculdade e marcamos para bater um papo. Sabe lá a impressão que ela ficou de mim, porque fui como sou: falei pelos cotovelos, tagarelei a metade de minha vida ( a outra metade está aqui), dei risada à vontade e fiquei futucando uma micro espinha o tempo todo.

Posso dizer que a Gabi é um amor. Tem um papo interessante, é sagaz e divertida.

Eu preciso pedir desculpas porque costumo ser pontualíssima, mas, neste dia, me atrasei.

Só pai e mãe

Só pai e mãe

Há momentos na vida em que ser órfã é mais difícil. Mais difícil ainda do que é ser todo dia.

Não ter pai e mãe vivos significa um sucessão de vazios. Desde o vazio maior que é o afeto e o colo (im)possível diário ao vazio de rememorar o seu passado. Como rememorar?

Quem é que vai contar a meus filhos (que eu ainda nem tive) as travessuras e gracinhas que cometi na infância? Parece irrelevante, mas o conhecer-se, o autoconhecer e o construir de nossa identidade requerem, sim, a imagem que eles (nosso pai e nossa mãe) têm de nós. Freud explica.

O mais f*da ainda ocorre quando você precisa de um tipo de auxílio que só pai e mãe dão. Tipo arranjar um fiador. Pai e mãe são fiadores naturais de filhos honestos e desonestos. A paternidade e a maternidade (quase) sempre suplantam quaisquer obstáculos que o capitalismo impõe (leia-se DINHEIRO $$$).

Um dia você acorda toda feliz, dá um passo na sua vida, tem dinheiro sacrificadinho para pagar – fruto do seu suor… passou por seleção, tirou fotocópia de trezentos documentos, assinou cinqüenta papéis, carimbou todos eles, reconheceu firma, pegou n filas e… então se depara com a pedra no meio do caminho. Os contratos exigem fiador. Às vezes, mais de um.

E você é um pássaro livre sem ninho e as portas se fecham. Só negativas. Recusas. Nem adianta falar como deus da instituição. Nem com todos os chefes daqui e dali. Educação é um grande negócio. E negócio é negócio. E exige contrato. Com fiador.

Sua avozinha não ganha o suficiente. Salário federal vergonhoso. Sua irmã ainda é estudante com salário de brasileira: droga. A outra é professora. Já viu, né? O tio está complicado. O primo nem pensar. Aí seu dedo aflito busca todos os números do celular e você escolhe umas vítimas mais próximas e, para não acabar a amizade para sempre, começa logo com o discurso de que dá a ele ou a ela, amigo ou amiga, a oportunidade livre e sem zangas de lhe dizer não. E ouve um não. Outro não. Outro e mais outro. Uns não querem e outros não podem. Normal. Sem zangas mesmo. Sua melhor amiga que faria isso sem pestanejar está a mais de 1000 km.

Mas aí bate uma orfandade sem limites e você faz beicinho porque as coisas para você não são simples e você é uma guerreira mesmo e não vai desistir ainda que com lágrimas nos olhos.

Aí cata a agenda dos tempos arcaicos, aquela manuscrita que guarda em casa e recorre aos consanguíneos. Liga para um. Para dois. Para três. E respira aliviada porque uma prima de alma boa se solidariza sem problema algum. ufa, enxuga a lágrima. Passa as costas da mão na bochecha e ouve os dados preciosos de que precisa para dar este passo em sua vida. E vai ser grata até a morte.

É . Agora você já pode se matricular. Vai trabalhar, vai estudar, vai se virar. É honesta, paga com sufoco, não está inadimplente. Nem pretende ficar.

Não há incentivo para estudar neste país de particulares. 

E você se resigna, pega o material das aulas. Filou hoje a academia na maratona pelo fiador. Nem almoçou com tanto assunto indigesto. Vai trabalhar aqui e ali. E mais ali. Talvez acolá.

E não vai se esquecer nunca da carinha alegre dos calouros que conduziam seus pais à fila de matrículas. Os fiadores natos. Eles os têm. São ricos de verdade.

Choque de gerações

Choque de gerações

Não sei quem escreveu. É mais um destes textos que recebemos por e-mail.  Vou pesquisar a autoria, se achar, coloco-a aqui.

Não sou de ficar publicando os textos de e-mail, mas eu não resisti a este:

“Um calouro muito arrogante, que estava assistindo a um jogo de
futebol, tomou para si a responsabilidade de explicar a um senhor já maduro,
próximo dele, por que era impossível a alguém da velha geração entender esta
geração.

- Vocês cresceram em um mundo diferente, um mundo quase primitivo…

O estudante disse alto e claro de modo que todos em volta pudessem ouvi-lo.

- … nós, os jovens de hoje, crescemos com televisão, aviões a jato,
viagens espaciais, homens caminhando na Lua, nossas espaçonaves tendo
visitado Marte. Nós temos energia nuclear, carros elétricos e a hidrogênio,
computadores com grande capacidade de processamento e, …

Numa pausa para tomar outro gole de cerveja.

O senhor se aproveitou do intervalo do gole para interromper a
liturgia do estudante em sua ladainha e disse:

- Você está certo, filho. Nós não tivemos essas coisas quando nós éramos
jovens, por isso nós as inventamos… e você, bostinha arrogante, o que
você está fazendo para a próxima geração? “

PAIXÃO POR CARROS

PAIXÃO POR CARROS

Exposição Shopping Salvador

Fotos: Alena Cairo

Eu sempre fui apaixonada por carros. Sim. E não deixei de ser mulher por causa disso. Detesto generalizações, embora confesse também incorrer em algumas vez ou outra: é a força da cultura nos traindo.

No shopping Salvador, recentemente, houve uma exposição de carros antigos. Daquelas pessoas que curtem muito automóveis e passam a vida a exibir o que resgataram dos tempos idos: verdadeiras jóias que – se não possantes pelo motor desta ou daquela cilindrada – são possantes pela sua história e pelo que representaram na época.

Exposição Shopping Salvador

Fotos: Alena Cairo

Eu adoro exposições de automóveis, eu adoro carros antigos e atuais. Curto muito dirigir um carro, o meu carro. Nestas horas, sinto-me senhora de mim mesma e recordo prazerosamente com o pé na estrada que muitas mulheres – gerações inteiras – não puderam ir e vir. Hoje eu posso e celebro esta conquista.

Exposição Shopping Salvador

Fotos: Alena Cairo

Dirigir me dá a noção de ir e vir, este direito constitucional e universal que todos temos, mas muitos esquecem. Dirigir me dá a sensação de que posso tomar outra estrada, aprender novo caminho, escolher espaços diferentes na vasta geografia da Terra. Ou da minha Vida. É a metáfora do assumir o controle, do curvar e seguir reto quando necessário.

É por isso que sinto muito quando mulheres escrevem textos nos quais associam os carros apenas ao universo masculino, ou pior: quando os limitam aos ‘patriarcas’, estigmatizando e estereotipando ainda mais as mulheres.

 

 

Fotos: Alena Cairo

A autora seria capaz de repetir a máxima: “mulher no volante perigo constante”?

Perigo sim!

Mulher no volante: perigo porque assume o controle, decide onde vai, pode escolher inclusive abandonar um casamento que não a satisfaz ou a deixa feliz. Mulher no volante pode ir ter com o amante. Mulher no volante pode desvendar o universo masculino, pode empatar com o homem na liderança, na atitude de escolha, na descoberta de caminhos e na opção por eles. Mulher no volante era um perigo porque ela não deve(ria) saber onde o homem estava, onde se escondia ou onde se achava.

Frase mantenedora DOS COSTUMES DE OPRESSÃO à mulher, de REFORÇO da sociedade patriarcal, de EXCLUSÃO do gênero, de SABOTAGEM da vontade feminina de assumir o controle de sua história.

Mulher no volante pode mudar de direção. Este era o problema. E o perigo constante.

Fotos: Alena Cairo