Ando lendo sobre…
Arquivo da categoria: Confesso que eu li!
Mãe Menininha do Gantois Memorial
O ILÉ ÌYÁ OMI ÀSE ÌYÁMASÉ – Gantois e a Associação de São Jorge Ebé Oxossi convidaram para o lançamento do livro Memorial Mãe Menininha do Gantois , dia 22 de julho de 2010.
Casa do Gantois Rua Mãe Menininha, Alto do Gantois n 23
Salvador Bahia
O evento transcorreu iluminado pela luz maravilhosa de Oxum. Filhos e filhas de santo, artistas e personalidades da Bahia prestigiaram a noite, emprestando também sua luz ao lançamento. Servidos diversos quitutes e iguarias nordestinas e típicas, pairava a bênção acolhedora da Mãe Menininha sob o som inesquecível da Oração a Mãe Menininha do Gantois na voz de Gal Costa.
O livro Memorial Mãe Menininha do Gantois, inspirado pelo ideal de Mãe Carmen, reúne fotografias de Claudiomar Gonçalves, resultantes de um trabalho que durou cerca de dois meses .
Mãe Carmen radiante emanava toda sua majestade ao lado de suas duas filhas e de sua neta.
Mais registros:
E:
Ari Capela, fotógrafo, pedindo a bênção de Mãe Carmen.
Fim de festa…
Fim do evento no Gantois em clima ainda de total descontração.
O vídeo abaixo mostra parte do acervo para quem quiser vê-lo. Faz parte de um documentário sobre Mãe Menininha:
Seis
Seis livros em seis dias. Delícia de viver!
Esse Carpinejar…
Sempre irreverente, sempre gostoso de ler.
A vida sem palavras

Leitura sofrível
E escrita também. Pense num livro que não alcança o interesse do leitor : O clube do filme. Uma história insossa que talvez pudesse até convencer se fosse contada por outra pessoa ou de outra maneira. Mas a narrativa é tão monótona que a leitura só prosseguiu porque eu tinha o otimismo de que, em algum momento, alcançasse um clímax. Nada. Não chega a canto algum.
Um pai resolve dar a seu filho adolescente entediado com a escola e com rendimento baixo a oportunidade de abandonar a sala de aula e nada fazer em troca – nem trabalhar nem pagar aluguel – mas apenas se comprometer em assistir a alguns filmes com ele, no mínimo três por semana.
Fora duas relações amorosas um tanto traumáticas para o garoto Jesse, o fato de tocar numa banda e fazer uma viagem para assistir a um show – até então nada contagiante ou fora do lugar-comum – bem como o envolvimento rápido do garoto com cocaína, que não chegou a ser um vício… ademais, nada há na narrativa a não ser as próprias impressões do autor, David Gilmour, sobre os filmes a que assistiu na vida (ele próprio crítico de cinema). A vida comum pode ser excelente pauta de livros, mas a impressão que fiquei foi a de que em nada me acrescentaram. Nada. Tudo muito óbvio, muito nhenhenhém.
O problema prossegue: as opiniões de Gilmour sobre as películas aparecem de forma superficial, ressaltando um momento um tanto quanto óbvio em cada filme, um ator ou diretor e o garoto não consegue também nos entusiasmar embora por vezes discorde do pai. A narrativa das escolhas de filmes que vai fazendo é cansativa, um roteiro, um manual. Chato demais. Parece um diário de anotações sobre a experiência que depois foi impresso. Mas um diário sem emoções. Sem vida. Como uma lista de supermercado.
Tipo de livro que vai parar num sebo rapidinho. Aos montes.
Blog sobre programas infantis
Basta você ter um filho para confirmar a certeza que já guardava há tempo: a sua cidade é DESPROVIDA de espaços sociais interessantes que não sejam pagos e particulares. Os grandes parques estão decadentes, sujos e abandonados. São inseguros. A biblioteca pública… tsc tsc tsc. Dá pena. Vou aventurar em breve a Monteiro Lobato para ver o que me espera (aguardem).
E, sinceramente, eu me recuso a aceitar que as formas de lazer da minha filha serão concentradas nos shoppings da urbe. Parquinho infantil de plástico com grama sintética e um espaço com tv e dvd (??!!) pago por hora: blarght! Parques eletrônicos nos grandes centros comerciais: sempre??? Bares adultos com um cercado onde se coloca uma tv com dvd (de novo!!?? – babá eletrônica) , umas animadoras desanimadíssimas que se arrastam entre as crianças, uma casinha plástica e umas quinquilharias mais uma cama elástica (somente e sempre ela). Nada contra estas formas de lazer, mas só elas? Ar livre, parque público, grama, árvores, banquinhos, calçadões na praia… tudo limpo, organizado e seguro. Em Salvador? Só se for.
Desesperada na net, fico buscando o que fazer de interessante nos fins de semana. Teatro é sempre bom, cinema também (mas Alice ainda não encara a telona). Mas estou escarafunchando o que fazer para poder proporcionar à minha filha uma formação diversa. Vou ter que – vira e mexe – voltar à estrada.
Mas também não posso deixar de comentar aqui a descoberta fantástica que fiz há um tempinho: o blog PEQUENÓPOLIS. Excelente indicação do que anda acontecendo em Salvador. Vale conferir.
Ensaio sobre a cegueira, o filme
Ensaio sobre a cegueira de José Saramago é um livro que para mim dispensa apresentações. Sem dúvida alguma, um dos melhores que li em minha vida – e olha que não foram poucos. Um clássico e um marco na literatura.
Desde 2001 que minhas turmas o lêem. E nunca faço avaliação, nunca cobro detalhes. É leitura por prazer, por auto conhecimento, por desafio. Tem dado certo.
Sempre temi livros maravilhosos virarem filme. Porque muitas vezes o cinema os estraga, outras vezes os reduz, banaliza, simplifica. Acontece também o inverso (mais raramente): livros medíocres virarem grandes filmes.
Ensaio sobre a cegueira por Fernando Meirelles não chega a decepcionar, mas também não é um grande filme. Acompanhei a trama toda como uma leitora ávida da obra. Houve um clímax no meio da história, houve as simbologias, as metáforas bem representadas… mas o cinema não conseguiu fazer o que a obra de Saramago faz: fazer-nos ser a protagonista, viver o drama como se conosco fosse. É uma história que se passa na tela e a possibilidade de interiorizarmos sua mensagem, pequena.
Agora, o problema: como solicitar a leitura aos alunos que são , sim, cada vez mais reducionistas? Verão o filme e pronto. Lembrarão uma história em que todos iam ficando cegos – que ficção!- e em cujo final a visão volta. É só.
Nada mais da metáfora de si mesmo.
Leituras saramaguianas
Quando eu me descobri grávida, sabia que não teria tempo de curtir a barriga , de ficar serpenteando ao sol apenas a admirar-me e a ler as obras que ainda tenho na fila dos livros que considero amáveis ou indispensáveis. É que, ironicamente, eu havia decidido que este seria o ano de trabalhar muito e enriquecer (muitos risos) fazer pé-de-meia para o breve futuro. Nada conforme o planejado então. Ano de muito trabalho, poucas leituras, muitas correções e (sim!) deleite com o barrigão. Mas este só me era permitido na calada da noite, naquela hora escura em que em casa todos já dormiam e eu ficava inerte na cama, quietinha, só a sentir a ebulição que ocorria dentro de mim. E era nesta hora da madrugada que Alice me mostrava toda a sua atividade com mil chutinhos e soquinhos a me avisar que era uma nova vida e , no entanto, estava dentro de mim.
Como eu ia dizendo, necas de planos então. O segundo plano era de que pelo menos o tempo da licença-maternidade (por que tão curta?) seria gasto com a amamentação e com horas de leitura bem ao estilo da minha adolescência quando eu lia ao menos um livro por dia. Quem dera…
Passados quase quatro meses e nenhuma linha lida. Só folheei revistas de decoração de quartos de bebê. Só. Foi a leitura que mais me deu prazer. Ficar dias olhando as coisas tão bonitinhas que este mundo inventa. Aí deu vontade de aprender a costurar e de viver fazendo artes. (Quem foi mesmo que queimou o sutiã?)
Embora eu não tenha escrito muito aqui no blog nos últimos tempos e não tenha fugido ao monotema da gravidez-parto-puerpério, esta fase inicial como mãe foi bastante profícua. Muitos assuntos a blogar ao longo do tempo ainda.
Uma das observações que fiz foi o estado de caverna em que a mulher se encontra no puerpério. É um retirar-se do mundo bem ao estilo pedras desmoronando na única entrada da caverna. E a mulher à espera de um resgate sabe-se lá para quando.
Tive vontade de escrever um livro (projeto ainda não abandonado) sobre as peripécias (leia-se rotina) do pós-parto e as agruras da mulher moderna que se vê reduzida a bicho de novo, como se nem racional tivesse qualquer semelhante sua um dia sido. O título da obra – era só o que eu pensava – terioa que ser A CAVERNA.
Mas não sou a única a pensar neste véu que nos esconde do que entendemos como realidade ( e que , retirado, nos conduz a tantos outros possíveis caminhos) e nem é inédito o título. Também não é plágio. Apropriação, digamos.
Pois bem, ora pois. Levei idilicamente para a maternidade A Caverna de Saramago , parece que adivinhando inconscientemente o estado em que me recolheria breve, entretanto ainda sem dele ter noção. Não li nem um capítulo e de agosto aos dias de hoje, nadica mais. Ao que parece, a tsunami já foi e já consigo fazer algumas coisas minhas agora. Para leitura, depois de tanto jejum, retomo o Saramago que deixei lá atrás.
Coisa boa de descobrir
Tá. A sua edição é mais antiga. Mas é bom descobrir que ontem você não deu o livro de Comédias de Martins Pena que parece andar na moda agora com a reedição em caixa decorativa e ‘módico’ preço de R$119,00 (quase 1/3 do salário mínimo).
Ainda os livros
Categorias:
Livros que eu amo
Livros que eu preciso
Livros com que eu trabalho
Livros que marcaram minha vida
Livros que eu ganhei do autor (como dá-los se há autógrafo e carinho ainda que nem sempre haja qualidade?)
Livros que eu ganhei de amigos (de novo: como dá-los?)
Livros de grandes autores (um de Gil autografado…)
Livros que eu ainda vou ler
Livros moderníssimos
Livros de viagens com fotos de lugares e histórias de onde pisei
Livros para rir
Livros para chorar
Livros para reler e reler e reler
Livros técnicos
Livros irreverentes
Livros de Literatura Brasileira
Livros de Literatura Portuguesa
Gramáticas de toda sorte de autores
Minidicionários diversos
Livros sobre Jornalismo e Mídia
Livros sobre Filosofia
Livros sobre Direito
Livros de Literatura Caboverdiana
Literatura Infantil
Literatura Juvenil
Livros de poemas
Livros de crônicas
Livros de contos
Livros de meus autores prediletos
Meu livro
De livros e amores
Quando você constata que é mais fácil jogar fora antigas cartas de amor que doar seus livros… tem que tomar uma séria providência: ou muda de casa e faz uma biblioteca gigante ou … ?
Não consigo pensar na opção.
* * *
Separei alguns livros para doar (e eu faço isso sempre), mas todos os anos minha estante vai ficando mais gorda.
* * *
Há sete anos, decidi que cinco estantes virariam três. E era uma vez mais de trezentos livros que doei para uma universidade particular de Salvador. Neste ano, fui à Universidade Federal com a mala de um corsa sedan(leia-se enoooorme mala) abarrotada de livros do curso de Letras. A funcionária me mandou listar todos e fazer a catalogação senão ela não aceitaria a doação porque daria muito trabalho a ela. (?!?!?!?) Percebeu o que eu fiz, né?
Na época, não tinha blog e os jornais de Salvador eram (continuam) fraquíssimos. Rumei para a particular e fui recebida com cadeira, cafezinho, diversos homens para carregar as obras que foram devidamente acondicionadas na biblioteca. Recebi uma carta de agradecimento e muitas mesuras. Certamente, muitos estudantes de Letras puderam folheá-los.
* * *
Não gosto de vender os livros em sebos. Sempre pagam muito menos do que valem. Mesmo que seja uma cópia velha de alguma adaptação de Cervantes para a 5a série, não consigo imaginar que me pagarão R$10,00 ou R$1,00 por ele. É uma afronta. Como se dissesse: isso não vale nada. Para mim, Literatura não tem preço. Então, prefiro doar. De graça combina mais com a questão da arte: a arte que não tem preço e é atemporal. A arte da palavra.
* * *
Todos os anos, desde então, costumo recolher muitos livros [de editoras, mais os que ganho para analisar (e não gosto) junto aos que já vão perdendo lugar no meu dia-a-dia (tipo os juvenis que são adotados nas escolas no ensino fundamental) ] e fazer as doações de caixas e mais caixas para bibliotecas de localidades carentes.
Sei lá: é aquela vontade de que mais crianças e adolescentes se sintam apegados como eu.
* * *
Há cinco anos, decidi que três estantes virariam duas. E fiquei com duas e meia por todo este tempo. Agora quero uma e meia. Mas não consigo emagrecer de jeito nenhum as benditas.
* * *
Não há como a gente se desapegar do amor ao livro. É por isso que, mesmo lendo muitos e-books e guardando arquivos gigantes em meu pc, eu não acredito no fim do livro impresso. Não para a minha geração.
Detalhe: toda vez que eu emagreço a estante é para convidar as novas obras a entrarem em minha vida.
* * *
Detalhe 2: tanta reclamação e eu aqui já fazendo a listinha de Natal dos livros que quero ganhar e daqueles que vou comprar sem falta.
Livros
Sabe quando o novo precisa acontecer? Pois é. Terei uma estante de livros com espaços vazios a partir de hoje. Muitas doações.
Um livrinho bom de reler
O pagador de promessas de Dias Gomes. Hoje é um ótimo dia para ele. Foi bem no dia de Santa Bárbara que Zé-do-Burro prometeu levar a cruz até o altar. Só que ele prometeu a Iansã e o padre não permitiu que entrasse na ‘santa casa’ com aquela promessa profana. Ignorância do povo, ingenuidade da mulher, sedução do cafetão, manipulação da mídia impressa, intolerância religiosa, hipocrisia de beatas e Igreja, polícia absurda. Alguém reconhece a Bahia de hoje?
Só é gordo quem quer
Acabei de ler o já antigo só é gordo quem quer. Muito matemático, repleto de tabelas… combina daqui e dali e, se você faltou às suas aulas de biologia ou não suportava aquele livro todo-em-preto-e-branco de Sônia Lopes da década de 80, esqueça. É muito glicídio e caloria para lá e para cá. Vai queimar mais neurônios que gorduras. Algumas charges são ótimas e o apelido Dona Redonda e Dona Fininha para os nossos cardápios são engraçados. Umas dicas aqui e outras ali valem a pena, mas, no todo, não gostei.
Quem quer emagrecer deve buscar métodos mais fáceis: tipo vergonha-na-cara.
Livros felizes
A Lulu polemizou e desabafou a queixa de seus alunos: eles estão cansados de livros tristes. E têm razão. Respondi ao seu post lá no blog dela e resolvi copiar aqui.
O polêmico e, às vezes (leia-se quase sempre), disparatado Diogo Mainardi escreveu um dos melhores textos que li sobre literatura na escola: Os clássicos no chinelo. Ele acusa as escolas de entregar aos adolescentes cheios de espinhas os grandes livros antes do tempo e conseguir fazer com que eles odeiem literatura. E tem razão. Eu sempre comento isso com meus alunos. E, por isso e por causa da idade deles, eu escolho livros felizes para ler em sala. E falo dos porquês de ler um clássico.
A coisa é meio assim: seduzo pela delícia, depois mostro os dramas do mundo. Emociono, faço chorar ou arrepiar. Porque ler é um ato HUMANO. Demasiadamente humano. Como o Lord falou, alguns clássicos são para ser lidos na fase adulta, os pais dele tinham razão quando o ‘proibíram’ de ler Graciliano Ramos (o avô) antes do tempo .
Os adolescentes geralmente são felizes e eu comecei a ensinar cedo (com 17 anos, época em que eu era muito feliz) e percebi esta angústia deles há 15 anos, porque era a minha também. Eu, simplesmente, odiava a Clarice e todos os seus problemas de mulher de 40. Achava-a mal amada. Torcia o nariz. Na época.
As mensagens de esperança eram muito mais interessantes naquela idade, face ao mundo já caótico que eu começava a perceber, como Pollyana, O menino do dedo verde ou mesmo o amor triste, mas lindo de morrer do Portuga e de Zezé em Meu pé de laranja-lima. Sabe que eu não fui do tempo do Vicente Celestino, não o ouvira jamais, não conhecia sua voz, sua obra, mas , muitos anos depois, estava no interior da Bahia e ouvi uma radiola cantando numa casa e, imediatamente, eu soube que era o Vicente? E amei aquela música toda porque eu já a amava há muito pelas letras de Vasconcelos e pelos ouvidos de Zezé.
Um grande (grande em todos os sentidos) livro feliz é O sítio do pica-pau amarelo.
Sempre fui a Emília – até hoje – que faz-de-conta que quando as coisas não são exatamente como eu quero. Eu posso!
Escolho contos felizes. De amor, de amizade, de esperança, de beleza, de aventura, de mistério. Polissêmicos. Trato do superficial e depois entro nas entrelinhas com eles. Geralmente, eles se entusiasmam. E as provas sempre têm que ser com textos lindos de morrer, tipo Menino de ilha de Vinícius.
Outra coisa: literatura é fruição, é prazer e , na adolescência, não se sente prazer com a leitura que objetiva responder a uma prova. Me poupem, professores! Literatura não é assunto de prova, é formação, é fruição, é arte. E perguntar o que Michelangêlo quis dizer com a Pietá é matar a contemplação e as lágrimas que podem surgir ao admirá-la. Pelos livros ou ao vivo em Roma. Ler Machado de Assis para responder a questões de abecêdêé é o fim.
Acabei de derreter todinha ontem ao ler O conto da ilha desconhecida de Saramago. E é um conto muito lindo. E meus alunos todos, cerca de uns 200, vão ler também. Porque eu o amei.
Adoro Felicidade Clandestina na sala de aula. Do ‘bulling’ ou da crueldade ao amante…
A biblioteca verde de Drummond é um sonho de poema e de amor pela leitura.
A ilha perdida é uma aventura deliciosa para esta idade. Dois amigos e um chato é uma coisa de maravilha de fazer amar a leitura que Stanislaw Ponte Preta inventou. Trabalho Ziraldo em qualquer série, até na faculdade, e Ziraldo é um maluquinho feliz.
Os adolescentes daqui amaram Crônica de uma namorada de Zélia Gattai. Isso ninguém me tira é uma livrinho legal para começar a gostar de ler. Dandara de Janaína Amado é de um erotismo picante para a 8a . Dias Gomes é sensacional em O pagador de Promessas. Adoro os autos de Gil Vicente na sala também. Cinco minutos é levinho… de Alencar. Calvino é fenomenal. O cavaleiro inexistente : muitas palmas aqui!!! Um livro maluco, divertido, inverossímil e completamente humano: os três personagens (Gurdulu, Agilulfo e Rambaldo) são as projeções de um eu tripartido. Impossível porque imperfeito ao extremo. Impossível porque perfeito em demasia. Existente porque humano com as projeções de perfeições e a realidade de imperfeições que nos torna o que somos. Um pouco Agilulfo, um pouco Gurdulu e, certamente, Rambaldo. Ou Bradamante.
Quando eu era adolescente, li a coleção da ática inteirinha e Monteiro Lobato também.
O nosso amor pelos livros acaba contagiando os alunos, mas realmente, crianças e adolescentes não merecem ainda ser moídos pelas mazelas humanas que algumas obras tratam com propriedade indiscutível para nós, adultos. Deixa que o tempo deles da desilusão chegará. Eles ainda querem ser felizes para sempre. Ainda bem. E, se lerem os livros certos, poderão, quando a vida os massacrar, fechar os olhinhos e apertá-los bastante, fazendo de conta que… ainda vale a pena viver.
Terminei de ler…
… O conto da ilha desconhecida e já o inseri no meu cronograma de aulas e já o enviei aos meus amigos leitores. Saramago, simplesmente, sabe o segredo. Nestes dias, quando eu termino de ler um escrito seu, tenho, simplesmente, a vontade de me sentar em Lanzarote com ele, na varanda, a vê-lo com os seus cachorros e a esperar que o mestre me diga qualquer palavra - após os minutos de um silêncio imperativo e essencial enquanto esperamos juntos que Pilar nos traga o chá.
Nem tudo está perdido!
Passei um momento agradabilíssimo na sala de leitura infantil da Biblioteca Pública do Estado da Bahia. Embora tenha me decepcionado com o pequeniníssimo acervo de livros e revistinhas (HQ), voltei à infância com a leitura que amo tanto até hoje: a dos livros ditos infantis. Uma barata entrou lá em casa! de Cláudio Martins (São Paulo: Geração Editorial, 2000) me divertiu por alguns preciosos minutos. As ilustrações do autor são uma deliciosa viagem que revelam a confusão de uma barata numa casa onde moram três gerações. Indico e recomendo.
O melhor da Biblioteca sempre serão os livros.
* * *
Ah, o livro custa R$16,00 . Boa pedida de presente.
Indico
Ontem amei o post que li no blog da Soll. Sobre os manifestos no Rio de Janeiro(post de 20/04).
* * *
Tem publicação nova lá no
* * *
A Nalu faz ótima homenagem a São Jorge. Poema lindo .
* * *
Leitura do dia
Memorial do convento de José Saramago.
Bilhete de Dona Flor ao romancista
“Caro amigo Jorge Amado, o bolo de puba que eu faço não tem receita, a bem dizer. Tomei explicação com dona Alda, mulher de seu Renato do museu, e aprendi fazendo, quebrando a cabeça até encontrar o ponto. ( Não foi amando que aprendi a amar, não foi vivendo que aprendi a viver?)
Vinte bolinhos de massa de puba ou mais, conforme o tamanho que se quiser. Aconselho dona Zélia a fazer grande de uma vez, pois de bolo de puba todos gostam e pedem mais. Até eles dois, tão diferentes, só nisso combinando: doidos por bolo de puba ou carimã. Por outra coisa também? Me deixe em paz, seu Jorge, não me arrelie nem fale nisso. Açúcar, sal, queijo ralado, manteiga, leite de coco, o fino e o grosso, dos dois se necessita.(Me diga o senhor, que escreve nas gazetas: por que se há de precisar sempre de dois amores, por que um só não basta ao coração da gente? As quantidades, ao gosto da pessoa, cada um tem seu paladar, prefere mais doce ou mais salgado, não é mesmo? A mistura bem ralinha. Forno quente.)
Esperando ter lhe atendido, seu Jorge, aqui está a receita que nem receita é, apenas um recado. Prove do bolo que vai junto, se gostar mande dizer. Como vão todos os seus? Aqui em casa, todos bem. Compramos mais uma quota da farmácia, tomamos casa para o veraneio em Itaparica, é muito chique. O mais, que o senhor sabe, naquilo mesmo, não tem conserto quem é torto. Minhas madrugadas, nem lhe conto, seria falta de respeito. Mas de fato e lei quem acende a barra do dia por cima do mar é esta sua servidora. Florípedes Paiva Madureira dona Flor dos Guimarães.”
( Bilhete recente de dona Flor ao romancista)
( AMADO, Jorge. Dona Flor e seus dois maridos)
__________________________________________
- Foto da edição da editora Record, página 3.
- Texto transcrito da página 10 do romance.
O soneto que não foi escrito
Mais um pouquinho de Jorge Amado, já que a FLIP começou ontem. Que arrepio é esse de pensar no show de Bethânia?
“O soneto que não foi escrito”
” O poeta Antônio Bruno faleceu, vítima de fulminante enfarte – o segundo em curto prazo – , a 25 de setembro de 1940. A manhã luminosa, de atmosfera límpida e temperatura amena, trouxera-lhe à memória outra manhã assim, diáfana, entrando pela clarabóia, iluminando o estúdiu parisiense, envolvendo, rósea e transparente camisola, o corpo nu da mulher adormecida. Visão digna de um soneto, pensara, mas não o escrevera pois a moça despertou e estendeu-lhe os braços.
Ao recordar, tomou do papel e da caneta, e com sua bela caligrafia quase desenhada traçou no alto da página o que deveria ser um poema de amor: ” A Camisola de Dormir.” A lembrança tornou-se dolorosa, a saudade cruciante, ai, nunca mais! O poeta não teve tempo para um verso sequer: levou a mão ao peito, arriou a cabeça em cima do papel, abriu vaga na Academia Brasileira.
O primeiro enfarte o acometera exatamente três meses antes, ao escutar, num programa de rádio, a notícia da queda de Paris.”
(Amado, Jorge. Farda Fardão Camisola de Dormir)
FLIP e Amado
Nesta próxima quarta, terá início a Festa Internacional Literária de Parati (FLIP). Infelizmente, não estarei lá. Ano passado, em julho, estive a passeio no litoral sul carioca e no litoral norte paulista. Um dos pontos altos da viagem apaixonante foi descobrir Parati. Lembro-me com muito gosto de que meus pais pescavam e estiveram em um torneio de pesca em Parati. Herdei deles o gosto pelas viagens, literárias e mundanas, mentais e físicas… E era incrível ouvir a voz doce de minha mãe ao falar de Parati. Sempre contemplando, absorta em suas recordações idílicas. Descobri Parati e também que talvez não haja lugar melhor para esta festa.
Vindo do litoral paulista, a chegada após costear a praia presenteia-nos com uma cidadezinha colonial, incrustada no cenário belíssimo da serra que abraça o mar. O casario encanta e lembra a Minas de Ouro Preto e Mariana, a Bahia do Pelourinho, de Santo Amaro da Purificação, de Lençóis, Ilhéus ou Valença.
Neste ano, oportunamente, o homenageado pela FLIP é baiano. Assim , não há como não celebrar a fusão entre Parati e o Jorge tão amados.
(foto Parati, julho de 2005)
” Melodia
O mar lhe mandou os ventos mais rápidos, lhe enviou o nordeste que atira o “Valente” para o cais da Bahia. Canoas que passam, saveiros que cruzam, jangadas que levam pescadores, batelões carregados de lenha lhe desejam boa viagem:
- Boa viagem, Guma…
Boa viagem que ele vai em busca de Lívia. A lua ilumina sua rota, o mar é uma estrada larga e boa. E o nordeste sopra, o terrível nordeste das tempestadaes. Mas agora ele sopra como amigo que o ajuda a transpor mais rápido esse braço de rio. O nordeste traz as canções da beira do rio, canções de mulheres lavadeiras, cantigas de pescadores. Os tubarões saltam nas ondas da entrada da barra. Há danças no navio iluminado que entra. À luz da lua, um casal conversa. “Boa viagem”, diz Guma e sacode a mão. Eles respondem e ficam comentando, entre sorrisos, a saudação daquele marítimo desconhecido.
Ele vai buscar Lívia, ele vai buscar uma mulher bonita para oferecer ao mar. Não demorará muito a carne de Lívia terá o gosto da água salgada do oceano, os seus cabelos serão úmidos dos salpicos do mar. E cantará, no “Valente”, as canções do cais. Saberá da história de Besouro, da história do cavalo encantado, de todas as histórias de naufrágios. Será como um saveiro, o casco de uma canoa, uma vela, uma cantiga, apenas uma coisa do mar.
O nordeste sopra, empina as velas do “Valente”. Corre, saveiro, corre, que já brilham as luzes da Bahia. Já se ouve o baticum dos candomblés, a música dos violões, o triste gemer das harmônicas. Guma parece já ouvir a risada clara de Lívia. Corre, saveiro, corre.”
(AMADO, Jorge. Mar Morto.)
______________
Todos os dias da semana, então, um post a ambos. Com direito a fotos inéditas.
Com licença, eu vou à …
… praia!
Porque hoje é sábado e o poeta cantou:

O dia da criação
I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar. Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens
[vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro
[das Origens, o Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes
[e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação
[da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da
[terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como
[as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois
[últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas
[cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos
[peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de
[cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do
[próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil,
[imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das
[terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos
[animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e
[estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até
[praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto
[Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
(MORAES, Vinícius de . Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro, Aguilar,1976.)
Covardia
Fui conhecer um blog hoje e achei um texto de que ouso transcrever trechos:
“Tenho uma relutância figadal aos fins.
Recuso-me a pôr uma pedra no mal-resolvido.
Adio as decisões na esperança de que se revelem injustas.“
(…)
Já todos tivémos despedidas inglórias – sentimo-nos uma peça de contrafacção em forma de gente.
Mas o que eu não sabia é que há despedidas por e-mail, messenger e até sms.
É a ‘p—” da tecnologia a canabalizar os sentimentos.
Dá vontade de fugir daqui. “
Isso estava lá, no post do Woman Like You.
Debalde eu já tentei me comunicar com uma figura que ia ser o meu amor para sempre e que , depois de resolver não querer mais, não se deu ao trabalho sequer de olhar-me nos olhos ao se despedir.
Assim, a última grande mágoa com que tive que aprender a lidar foi um adeus pelo telefone, um e-mail escrito “delete-me”, um eterno eu não atendo mais você. É muito absurdo o imperativo tecnológico: engoliu as pessoas.
À época, escrevi ao fulano um e-mail gigante que começava assim: “Não se deletam pessoas.”
Reli agora o tal do e-mail que mandei e … nossa, acho que vou participar do Mulheres que Amam Demais (risos). Em breve, vou inaugurar de verdade a categoria Love End no blog. Os amores idos e bem vividos. E as lágrimas choradas. E bem sentidas.
De novo, posso confessar que vivi.
Poema erótico
Tive o prazer de descobrir mais um poema da Ticcia. Dez!
Pequei
Estudei em colégio de freiras, o que me rendeu um bom conhecimento bíblico. Mas não foi suficiente para me cegar. Não, ao contrário, depois de ter lido, criança, toda a obra de Lobato, eu só poderia ter o inconformismo da Emília. E pensei muito durante muito tempo se eu não estava querendo trocar abóboras de lugar com jabuticabas.
No Ensino Médio, que antes era segundo grau, conheci a obra do Boca do Inferno, pela qual passaram voando, voando, devido aos fundamentos religiosos, e do qual os professores disseram ser um poeta menor, um louco desbocado, acreditem.
Meus pais, entretanto, me disseram que a educação era o que de mais importante havia na vida e eu os amava tanto que acreditei sem hesitações. Sempre ia a fundo e, como eu já conhecia a Biblioteca Central naquele tempo, fui um sábado vadio passar a tarde lá. Encontrei o que queria: mais sobre Gregório. Depois disso, descobri, na casa de meu avô, homem culto do sertão nordestino, um exemplar da obra gregoriana. E me fascinei com a linguagem que tentaram me fazer crer descabida. Sozinha, entendi o que vinha a ser conceptismo e cultismo.
Depois das incursões gregorianas, virei professora e fui à luta. Ter que dar com 20 anos aulas no cursinho me fez estudar muito. E mais conheci de Gregório. A formação religiosa dará outro post, breve. Vamos ao que interessa: a culpa.
Minha mãe era extremamente rigorosa, de boa família e pautada pela decência, moral e pelos bons costumes. Por outro lado, viveu a geração paz e amor e lia demais, portanto não deixou de nos criar com o cerne da inquietação. Casa de tês filhas, bebemos a revolução e a anarquia que ela mesma cuidava de podar para que não desvairasse em galhos muito acintosos. Seus olhos reprovadores eram o super ego de qualquer uma de nós.
Livrei-me da cegueira religiosa, da cegueira de família latifundiária interiorana casada-para-todo-o-sempre-amém, da cegueira do que-é-que-os-outros-vão-pensar… Li O Anticristo, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Para Além do Bem e do Mal, e mais: poesia, contos machadianos, literatura universal etc etc etc… Se aquele que tinha Guerra no nome me influenciou em idade perigosa, aos 14, e mais tantos outros, como é que o Ministério de Educação diz que ler não faz mal (risos)?
Assim pude me libertar também dos olhos incriminadores dela, da luta entre o anjo e o diabo na minha consciência que se percebeu, simplesmente, humana e animal.
Deste modo, extirpo qualquer sombra de culpa e, ao meu pecado, brindo na Boca do Inferno onde talvez eu vá me aquecer do frio soteropolitano, bebendo o vinho de Baco:
A Jesus Cristo Nosso Senhor
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
Gregório de Matos Guerra ____________________________________________________________________
Genial, não? Pequem, ovelhas, Deus que nos venha salvar então!
Ah, nessa mesma escola, APRENDI o silogismo: Deus é amor. Quem ama perdoa. Então…
Ó divina desculpa !
___________________ ___________________
Evil o pecado veio à porta. E agora bate na aorta.
Aos diabos!
Ai… o que é o relógio diante das sensações? Pouco importa o relógio, pouco importam erros. Christopher Reeve estava lindo, ele era o super homem no outro filme, toda menina sonhava com um Clark bobinho e frágil para pôr no colo, mas que virasse Super nas horas do perigo. Ui, talvez tenha sintetizado o que queríamos dos homens.
crédito:(http://www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/album/images/20041011-christopher_reeve-01.jpg)
Quando eu vi Em algum lugar do passado, tinha exatos 13 anos e disse a hiperbólica frase adolescente: foi o melhor filme que eu vi na vida. Há que se considerar minhas experiências aos 13. Cheguei à minha casa do cinema tão adolescentemente encantada que fui conversar com minha avó. Falei-lhe que queria de presente o livro, meu aniversário seria no mês seguinte. Ela retrucou porque achou que eu deveria querer qualquer coisa mais mocinha. Acabei assim descobrindo a diferença entre a linguagem do cinema e do livro.
Tudo passa, mas há coisas doces. Se o filme hoje é boboca, paciência. Àquele tempo , não o era. Deixou marcas nas bocozices de nós, mulheres…
Ãã… Agora vem cá, por que diabos é que a gente tem que ficar explicando por que gosta do que gosta? Gosta e pronto, uai. Nenhum homem tem que palestrar ao confessar torcer para um time ou dizer que adora dominó, fórmula 1 ou baralho. Talvez sejam ecos da submissão feminina, de uma época em que tudo de que a gente gostava era inferior ou "tolices" para os machos-patriarcas-imperadores da sociedade, da vida, do mundo e da nossa história.
Vi lá nas Fridas a confissão primeira, este post começou ao comentar o que a Helê escreveu. Aí resolvi oferecer-lhes (aos que confessam gostar), blogueiros e leitores, uma prenda:

E, de brinde, a epígrafe do livro:
Oh, chama de volta o passado,
ordena que o tempo retorne.
- Ricardo II, 3o ato, 2a Cena
Ao ver tanta gente se explicando sobre as bobagens que curte, como eu mesma me expliquei durante muito tempo, penso em quantos se irmanam nestas doces idiossincrasias… Se a minha vida está em palavras, que agora possa estar também em filmes. Sim, confesso que os vi!
- Dirty Dancing (13 vezes no cinema com 14 anos, mais umas vinte no vídeo, comprei os dois lps e depois os dois cds. Ah, e tenho hoje o 'devedê', ao qual assisto com minha afilhada nas jovens tardes de domingo);
- Capitão Coreli (Yes, faz quatro anos que vi no cinema e depois comprei o 'devedê');
- De volta para o futuro (vi todos e basta passar na sessão da tarde para eu repetir);
- Top Gang (para rir muito da imbecilidade: vi todos, todos);
- Corra que a polícia vem aí (toda a série);
- e ainda mais Romeu e Julieta, A Odisséia, Sociedade dos poetas mortos e tantos outros.
Só para dizer que eu não me envergonho, eu rio, eu curto, choro, sofro, me apaixono… Sabe a expressão de assombro do cara da locadora : De novo!?!?!?
A propósito do tema, às almas amantes da literatura e das artes, eu ofereço uma crônica deste livrinho aqui:

A segunda primeira vez (página 175/176)*. Vale a leitura pela oportunidade de se repensar enquanto gente , humana, com sentimentos, memórias e recordações. Pessoas que vêem um passado em algum lugar, e que sabem que "Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão." ( C. D. de Andrade)
_____________________________________________________________________
*(Procurei link na net, não achei. Eu a digitei agorinha. Quem quiser, mande um e-mail ou deixe um recado.)
Melhor post que li recentemente
Vou decorar, inserir na Declaração Universal dos Direitos Femininos, publicar na primeira página da Foia, da Óia, da tarde, divulgar no horário do Brasil, na Bandi, na sala de aula e em praça pública. A Dian arrasou:
Confesso que eu li!
Confesso que eu li!
Acabaram hoje as apresentações de meus alunos de jornalismo sobre os Ensaios de Risco de Otávio Frias Filho. Confesso que estou satisfeita com os trabalhos deles.
Ah, um grupinho ainda inventou de 'importunar' o autor e foi o maior barato terem recebido a resposta à mini entrevista que fizeram. Se vocês vissem a carinha de alegria, o brilho nos olhos da molecada e a importância que é para eles um autor responder às questões que fazem… Fora isso, o ineditismo de estarem trabalhando com autores vivos, já que os cânones já foram há muito.
Outros cânones virão, outra época chegou. Eles se sentiram valorizados. Estimulados a fazer sempre mais. Isso é o meu salário e por estas questões, durmo feliz com a minha profissão.




