O ILÉ ÌYÁ OMI ÀSE ÌYÁMASÉ – Gantois e a Associação de São Jorge Ebé Oxossi convidaram para o lançamento do livro Memorial Mãe Menininha do Gantois , dia 22 de julho de 2010.
Casa do Gantois Rua Mãe Menininha, Alto do Gantois n 23
Salvador Bahia
O evento transcorreu iluminado pela luz maravilhosa de Oxum. Filhos e filhas de santo, artistas e personalidades da Bahia prestigiaram a noite, emprestando também sua luz ao lançamento. Servidos diversos quitutes e iguarias nordestinas e típicas, pairava a bênção acolhedora da Mãe Menininha sob o som inesquecível da Oração a Mãe Menininha do Gantois na voz de Gal Costa.
O livro Memorial Mãe Menininha do Gantois, inspirado pelo ideal de Mãe Carmen, reúne fotografias de Claudiomar Gonçalves, resultantes de um trabalho que durou cerca de dois meses .
Mãe Carmen radiante emanava toda sua majestade ao lado de suas duas filhas e de sua neta.
Mais registros:
E:
Ari Capela, fotógrafo, pedindo a bênção de Mãe Carmen.
Fim de festa…
Fim do evento no Gantois em clima ainda de total descontração.
O vídeo abaixo mostra parte do acervo para quem quiser vê-lo. Faz parte de um documentário sobre Mãe Menininha:
Freela de última hora. Urgente. Ainda pedi meia hora para dar a resposta. Obstáculos mil. Iria desistir. Pensei: se fosse antes, aceitaria? Sim. Aceitei então.
Uma hora e meia na estrada. Vinte minutos de burocracia para entrar. Desci um elevador desnecessário – a escada era mínima – ô conforto da atualidade! E vi o que há muito não via. Há muito, muito tempo mesmo.
Uma equipe inteira de funcionários entusiasmados. Muito entusiasmados. Muito eufóricos, muito alegres, muito … entusiastas. A maioria esmagadora de mulheres. Felizes pelo evento, felizes pelas condições de trabalho, felizes pela premiação que recebiam a todo e qualquer esforço fora do óbvio padrão. E confesso que fui aos poucos me tomando por aquela alegria toda, por aqueles sorrisos todos, por aquela simpatia emanada.
Havia percalços, sim. Era óbvio. Foram dirigidos, discutidos, levantados como meta a ser superada. Explanados. E elas eram valorizadas, e a música falava de amor, falava de bem-estar, convidava a dançar. E os prêmios eram bons, eram bonitos, eram desejáveis. E o reconhecimento acontecia.
Em troca, todos trabalham para consolidar um gigante no mercado.
Então me peguei a pensar sobre o que aconteceu com algumas das empresas em que trabalhei. Grande parte delas quando cresceu deixou de ser um modelo de gestão eficiente… E ingressou na rotatividade sem fim de funcionários porque entenderam mal que os problemas aumentam quando a empresa aumenta. Cresceram e perderam a subjetividade, o reconhecimento individual. Ontem eram duzentas e cinquenta pessoas chamadas pelo nome, apresentações repetidas, ênfase a toda hora na identidade de cada um.
Eu era só mais uma convidada, anexa no salão, junto a mais um punhado de pessoas alheias (algumas tinham os olhos brilhando), assistindo de camarote àquele evento. E percebi claramente que não era a única em minha fileira a sentir (pasme!) vontade de trabalhar com aquele grupo também.
Entre as mulheres, representantes de diferentes estados. Foco na regionalização, na individualização, na musicalidade de cada grupo, na identidade. Na beleza. Eram mulheres de todas as aparências. Eu consegui enxergá-las todas lindas, gigantes. É inegável que estavam felizes.
De melhor pagamento pelo freela, a certeza de que eu preciso ser assim de novo. O sorriso é a melhor roupa que a gente veste.
Finalmente, após seis anos de negociações (incluindo os dois de atraso conforme o previsto), chegam à Bahia, em regime de comodato, as obras de Auguste Rodin. A exposição durará três anos e conta com 62 obras. Em 2007, o Museu Rodin foi inaugurado, mas o comodato não saiu como planejado. Algumas peças vieram e fui vê-las algumas vezes. Agora, poderemos, finalmente, ver mais da arte de Rodin.
Republico meu post de 2007. Depois, virá o novo.
Museu Rodin Bahia
Janeiro 8, 2007 ·
Detalhes da fachada do recém restaurado Palacete do Comendador Bernardo Martins Catharino ( 1862-1944), espaço que abriga as obras do francês Auguste Rodin:
À entrada do Museu, o transeunte já se depara com a beleza da fachada e o belíssimo jardim que abriga quatro obras originais adquiridas pelo Governo da Bahia e pela iniciativa privada. O Museu receberá, em regime de comodato com o Museu Rodin de Paris, 62 obras a partir de março de 2007, as quais serão expostas nos suntuosos salões do palacete.
Na foto acima, detalhes da área externa do Museu Rodin Bahia, o jardim e o calçamento xadrez em branco e vermelho de onde se ergue Jean de Fiènnes nu (Rodin, 1886). Abaixo, a escultura em ângulo frontal:
Na entrada, a escultura L’ homme qui marche sur colonne (Rodin, 1877):
O Torse de l’Ombre (Rodin, 1901):
E, no mesmo jardim à entrada também, La Martyre (Rodin, 1885):
Em detalhes:
Sobre o Museu, visite aqui informações sobre o baiano@ , veja o site oficial do Museu Rodin Bahia @ ou viaje aqui até o museu em Paris @.
Eu tinha vinte e seis anos quando pisei pela primeira vez o pé na terrinha. Ao sair do ar condicionado do aeroporto, lembro-me como se fosse agora, trajando uma calça cáqui e uma blusa na qual havia uma grande índia pintada, chorei ao respirar o ar português pela primeira vez. Havia algo genético: era o que parecia… Talvez eu sentisse ali a emoção da tradição que, aos poucos, foi se confirmando. Talvez ali, naquele momento, as aulas de História ecoassem aos poucos na minha mente. Talvez as palavras de Gil falando sobre encontro dos povos me impressionassem ainda. Talvez a minha avó paterna estivesse claramente agora para mim visualizada como fruto mais direto – ainda não perdido – daquela cultura que herdara dos pais.
E eu cheguei a Lisboa. A sensação primeira é que aquele momento seria o início de muitos encontros. Encontro comigo, com o meu passado, com os meus antepassados. Encontro com traços indeléveis da minha cultura que eu não saberia dizer até então o quanto eram herança de Portugal.
A ida ao hotel, os olhos atentos como os de uma criança a descobrir o mundo e a maravilha da cidade tão cosmopolita e tão histórica. O Rossio e os calçadões da baixa, o marco dos descobrimentos, a torre de Belém, os pastéis de nata, a ginjinha (com elas!), as igrejas, o castelo de São Jorge em cujas paredes voa uma donzela diáfana (juro que eu a vi a vagar!)… a nostalgia de flautistas por toda a baixa, a beleza do Tejo, a modernidade do cais, os magníficos restaurantes onde me viciei em comer muito e bem e muito e bem e muito… o parque das nações com todas aquelas bandeiras a tremular e a emoção de nos descobrir brasileiros embaixo da verde-amarelinha, o teleférico, as Tágides reconstruídas à beira do Tejo, o oceanário (!!!)… a carne de javali, os vinhos, as bodegas, o elevador de Santa Justa, o arroz de sarrabulho, a recepção acalorada ao nos saberem brasileiros pelo sotaque, a emoção de ver (eu, professorinha de literatura) o túmulo de Camões, a beleza da arte manuelina, os almoços intermináveis regados a vinho na casa do amigo Zé, as rabanadas com vinho do Porto, os amigos que fui acumulando, as prendas carinhosas que recebi, o sotaque gostoso de ouvir dos portugueses, os pães que me ensinaram o que era pão, as azeitonas as quais comi sem parar, as cerejas frescas na beira da estrada, o patê de sardinha mais maravilhoso do planeta(vício certo!), a Marisqueira com suas sentollas e a certeza de que Portugal é um país maravilhoso.
Sintra tão pertinho a nos erguer no alto da serra o magnífico palácio mouro, suas ruas tão poéticas, o litoral e seus fortes, a beleza do Oceano Atlântico ( e pensar que é o mesmo que nos banha aqui)…
Estrada rumo a Óbidos, Évora, Marvão, Serra da Estrela (que trutas!), Nazaré, Braga, Guimarães, Porto, o rio Douro, os rabelos, Coimbra (e viva a Universidade!), Valença, Viana do Castelo, o rio Minho, Covilhã, Leiria, Santarém, Portalegre, Sines, Faro, Sagres… Todas todas com post merecido a desenvolver…
Fui a Portugal a passeio em 2001, 2002, 2003, 2004, 2005 … e devo voltar lá a partir do ano que vem. Um encontro maravilhoso comigo mesma, um amor à pátria que também é minha, um reconhecimento de raízes, um encontro emocionado.
Infelizmente, para minha surpresa e vergonha, me deparei com o vídeo do programa Saia Justa no qual a Maitê Proença dá um show de estupidez, desrespeito e ignorância. O Brasil deve, no mínimo, desculpas diplomáticas a Portugal.
Publique-se o vídeo para que se tome conhecimento e um protesto mesmo nasça. Trarei aqui algumas memórias da minha relação de amor com Portugal. É o mínimo que posso fazer.
Você toma um vinho chileno perdido na sua mini adega… vá lá que não é o seu preferido, você ama muito mais os portugueses, especialmente depois que viu tanta cortiça nos campos da terrinha e mais todas as caves em Vila de Gaia, no Porto… ah, tá… mas é vinho, e “in vino in veritas” sempre.
Parece que o fato de realmente ver o sol nascer da janela do quarto significa algo muito maior. E eu sabia. Sabia que isto estava acontecendo. É um renascer… um resgate, um reviver eu mesma.
E o vinho parece que me conduz a isso, leve, livre e torpemente. Amada. Sei lá pelo quê. Talvez por mim.
E de repente dá uma saudade maluca de Gaia, Vila Nova, daquelas caves gigantes, dá saudade dos rabelos no Porto, dá saudade da blusa vermelha de gola alta que eu usava em Portugal. E ela jaz inerte aqui no armário… sei lá, talvez… Me deu saudade de minha festa de 30 anos…
E de repente eu morro de vontade de noites na varanda discutindo poesia, morro de desejo de spaguettinis, de fotografias com a minha canon…
e um desabafo inebriado…
e uma saudade de Praia do Flamengo em tempo áureo…
e vem a lembrança de um casal em Conde, Bahia, que morava dentro da areia da praia. Ele era Cláudio, ela eu não lembro… sei que eles saíram de Bsb para tentar a vida no longínquo da Bahia. E a pousada que construíram tinha uma concepção completamente gnomos… aquela coisa lindinha meio de sonho sem luxo e com um potencial humano demasiadamente humano… e eu leio agora que minha amiga recém parida está separada… que bom , eu penso, com certeza foi o melhor para ela… e vejo ontem duas surpresas em dois blogs sobre mim… e fico feliz… e as canções de Chico ecoam agora em minha casa porque o meu projeto de gente dorme e me deixa enfim blogar… e ela está embalada por nós, pelo que é nosso … por Chico… e dorme mesmo um anjo… e assim eu reconstruo o que chamo de FELICIDADE… e ela existe. Está em mim e pode estar em você se permitir.
Beba um vinho. Porque eu vou dormir com Nietzche. Ou com o travesseiro. (os)
E eu amanhã queira acordar em São Paulo, juro. Ou em Lisboa.
Mas vou ter a melhor aula do mundo. E isso basta-me . Por enquanto.
O Rio Vermelho é um dos bairros mais boêmios de Salvador. Todas as noites, a vida acontece no Red River. Teatros, excelentes pizzarias e as três disputadíssimas baianas de acarajé Cira, Dinha e Regina montam seus tabuleiros nos largos. O Mercado do Peixe funciona 24 horas e lá se come praticamente tudo.
O espaço da rua sofre, entretanto, com a falta de estrutura urbana deste país subdesenvolvido. Toaletes só na França. Poucos sanitários nas ruas e, por isso, muita gente usa a praia ou qualquer canto das muitas ruelas para urinar. O estado de abandono e saturação dos sanitários do Mercado do peixe me fez um dia pensar em nunca mais voltar ao local. Havia pelo menos uns 6 cm de urina alagando o chão de um sanitário. Melhor não pensar. Quem quiser um mínimo de civilização, que fique nos bares e restaurantes da moda porque pelo menos poderá se sentir cidadão.
Homem estátua, crianças malabaristas, vendedores de toda sorte de coisas ( de tênis coreano a queijo coalho assado na brasa), artistas de rua, poetas, sanfoneiros, motociclistas, palhaços… no Rio Vermelho se vê de tudo, inclusive as ‘celebridades’ deste mundinho brasileiro que, hospedadas nos hotéis da região, saem a pé para comer um abará ou acarajé apimentado.
Uma das sensações que tenho quando revejo as fotos de viagem à Grécia é de estupefacção. Fico parva pensando em como é mesmo que eu fui parar em Atenas.
Tudo começou, na verdade, na minha infância. Minha mãe me dava livros de presente e eu lhe pedia todos, enchendo a paciência dela como Drummond a de seu pai quando lhe pedia a Biblioteca Verde de percalina. Eu tinha o plano secreto de ler todos os livros do mundo. Naquele tempo, eu não sabia quantos eram todos-os-livros-do-mundo.
Os vendedores de livros viviam de porta em porta a vender suas obras de capa dura e recheadas de histórias das mais maravilhosas. Para uma menina que vivia na cidade grande e cuja mãe não permitia brincar na rua nem com vizinhos, criada em redoma e protegida, a descoberta dos livros foi algo assim estupefaciente. Eu amava ler. E me lembro de sair correndo pela casa com um livro recém lido, gritando toda feliz: LER É A MELHOR COISA DO MUNDO !
Por isso, por ser professora e porque eu realmente não dava trabalho deitadinha lendo sem parar, minha mãe fazia sacrifícios homéricos e comprava em não sei quantas vezes todas as coleções que os livreiros iam vender lá em casa. Lembro-me bem do dia em que o estranho chegou com a caixa cor de papelão, pesadíssima com quatro grandes volumes de capa preta. Distraí-me com os volumes infantis, mas já tinha as três outras coleções. Até que bati o olho nas letras douradas que anunciavam SÍTIO DO PICAPAU AMARELO. Compra, compra, compra! Mas mainha tomou um susto com o exorbitante preço anunciado e deu aquele suspiro sobressaltado que lhe era tão peculiar. Insisti, argumentei, convenci. Não me recordo o que lhe falei, mas sei que eu tinha oito anos. Com a gravidade que cabe a uma criança, olhos arregalados de medo do que minha me acusava de conduzi-la a fazer, gastar muiiito mais do que podia, quase me arrependi de tanto insistir pelas 1916 páginas. Ela pagou em cheques, ralhou grave comigo: Tome, pronto! E agora faça o favor de não me pedir mais nada! E saiu disparada da sala como que para não voltar atrás e tomar os cheques da mão do homem.
Fiquei culpada, mas carreguei o pesadíssimo primeiro volume para o quarto, com medo da responsabilidade de fazer minha mãe ser presa por gastar aquela fortuna e não poder pagá-la. Meu pai ralhou com ela. Ela se justificou: mas a menina gosta de ler… Fiquei com medo dele brigar com ela. E logo minha cabecinha inventiva imaginou o homem dos livros como um sujeito mau a partir de então, um sujeito capaz de levar as mães à cadeia ou à dissolução do casamento. E desejei nunca mais vê-lo na vida.
No final do mesmo dia, recordo-me de ter sentado na sala da frente da casa e de ter lhe contado maravilhada as reinações de Narizinho, de lhe ter agradecido com uma seriedade muito grande e de lhe prometer que nunca mais lhe pediria livro nenhum. Eu ia ler aqueles livros até a eternidade de ficar grande e poder comprar meus próprios livros.
Assim germinou meu primeiro pensamento anárquico-comunista-democrático(risos): por que os livros não eram de todas as pessoas e não se podia pegá-los quando bem se entendesse sem que a sua mãe precisasse ir para a cadeia por isso? Era só o que eu pensava.
Foi assim que eu comecei a ler Lobato, foi assim que eu esqueci que havia rua lá fora e mergulhei na Grécia Antiga, no País das Fábulas, no Reino das Águas Claras e em tantos outros lugares mais com o pó de pirlimpimpim.
Então, quando eu cheguei ao quarto volume, já com 11 anos de idade (época em que concluí toda a leitura do Sítio), eu me sentei séria ao lado de minha mãe no sofá, com o livro tão pesado no colo e lhe disse: -Mãe, um dia eu ainda irei à Grécia. Ao que ela respondeu com as certezas que só as mães sabem passar aos filhos: - Vai sim, minha filha, vai sim.
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Em 2005, a bordo do MSC Armonia, às 5 da matina, pude subir sozinha ao alto do navio e ver uma fina garoa a encobrir Atenas. Eu chegava ao porto de Pireus e não sabia bem se ria, se chorava, se acreditava ou duvidava, beslicava-me ou esbofeteava-me para crer que era verdade. Pireus era como eu imaginava e já fazia quase seis anos que minha mãe falecera. Então, vendo os raios de sol a iluminar a Grécia que amanhecia, eu ri e chorei:
E é bom pensar que a tal de globalização ainda não acabou com o tabuleiro da baiana. Quem vier à Bahia ou morar por aqui não pode deixar de experimentar o delicioso acarajé da Cira. Meu pai quando era criança já o comia…
foto by Alena Cairo
Para acompanhar a iguaria, uma porção de camarão de boa qualidade.
foto by Alena Cairo
E uma vatapá delicioso, que é de lamber os beiços.
foto by Alena Cairo
Há quem não goste. Mas eu que não sou besta não dispenso a saladinha e a pimenta, é claro.
foto by Alena Cairo
Tudo isso, gente, lá no Rio Vermelho, ou, se preferir, em Itapuã, onde Cira vende há mais de 50 anos. Hoje é sábado e vocês sabem que aqui não há como escapar de cerveja, acarajé, abará e amendoim cozido. Lambreta para completar.
Muitos perguntam o que é que a Bahia tem… A Bahia também tem homem-estátua. É comum em cidades de diversos países do mundo: Roma, Veneza, Paris, Lisboa… Aqui eu observei que algumas pessoas fazem cara feia ao vê-lo aproximar-se. O rapaz fica inerte por alguns minutos com a constrangedora cesta de moedas estendida. De férias, em outro país, muita gente coça o bolso e resolve agraciar o pedinte inusitado que toca sax, violino, órgão ou também se faz de homem-estátua. Ora, a vida é bela, o rapaz se caracteriza e passa a noite a tentar divertir aqueles que, no largo do Rio Vermelho, comem seu acarajé e tomam sua cervejinha despreocupados. Eu apóio a sua arte.
foto by Alena Cairo
Este senhor de lata estava em Veneza, próximo à Piazza San Marco a ganhar os seus centimos. Por que tratam mal no nosso país pessoas que sobrevivem com as mesmas estratégias de outras que , lá fora, a muitos agradam?
Estar em Praia do Forte requer tempo para saber-se vivo. Esta é a delícia que a vida nos prepara e que a urbanidade de Salvador corrói, sufoca no centro urbano de poeira, fumaça, engarrafamentos e caos estressante. Praia do Forte nos convida a sabermo-nos humanos, seres naturais, que respiram e inspiram… estar na praia a ver a vida e a paisagem de barcos que ondulam para lá e para cá nos dá tempo de expirar as mazelas diárias.
Hoje abandonamos as paredes da sala de aula e os meus alunos foram apresentar um trabalho ao ar livre, no ritmo “contar história”.
O tempo colaborou e sentamos na balaustrada da Ribeira a ver a vida passar enquanto os garotos falavam sobre Uma história da cidade da Bahia de Antônio Risério.
Uma pausa para sorvete na famosa sorveteria, claro:
A Biblioteca Central dos Barris, localizada em Salvador, está em estado lastimável. Sempre vejo nos centros acadêmicos a discussão acerca da falta de leitura dos jovens. Há que se considerar os porquês.
Uma das causas a se pensar seriamente é o tipo de ambiente que as bibliotecas oportunizam. Honestamente, qualquer praça de alimentação de shopping, mesmo dos mais populares, recebe melhor o jovem que a Biblioteca Pública do Estado da Bahia.
O espaço pensado há mais de três décadas (inaugurado em 1970) está sujo, feio e em decomposição. Não oferece conforto aos estudantes nem se configura como atrativo.
Convidei três turmas de estudantes de Jornalismo a passarem a tarde de hoje na BPEB. Grande decepção logo na entrada, quando fui mal abordada por um funcionário que, ao invés de me orientar sobre a seção de guardados obrigatória para deixar os pertences (leia-se bolsa e tudo mais que não seja uma folha de papel e caneta ou lápis, luva, máscara, lupa, carteira e câmera fotográfica), interpelou-me como se eu fosse a possível ladra a adentrar nos jardins da biblioteca.
Se tem uma coisa que me tira do sério é esta prática brasileira que parte do pressuposto de que somos todos culpados até que se prove o contrário. Irrito-me profundamente. A Constituição e o bom senso regem que somos inocentes, mas em lojas populares, supermercados e espaços públicos costuma-se crer que somos todos nós, brasileiros, uma massa ignorante e desinformada de seus direitos, feridos à queima-roupa.
Se entro em uma loja e exigem que eu ponha meus pertences dentro de um saco a ser lacrado por despreparados funcionários, por exemplo como faziam aqui nesta urbe o Bompreço e as Lojas Americanas, giro o calcanhar, dou meia volta e saio do recinto. Não freqüento lugares que não respeitam a minha cidadania.
Na Biblioteca, não posso admitir que o fato de algumas agressões ao acervo, inclusive o furto, sejam argumento suficiente para que generalizem e considerem os seus freqüentadores todos delinqüentes. Que eu saiba, este espaço é freqüentado por jovens estudantes, professores e pesquisadores. Se o meu Estado não nos respeita, difícil crer em tudo mais.
Outra questão: se temos usuários deste espaço público que furtam e depreciam obras, a educação anda falida mesmo. A solução não é criar um problema.Bogotá mudou a vida urbana pela criação de bibliotecas. Salvador afasta os jovens delas pela grosseria de parte de seus funcionários e pela estrutura defasada, decadente.
Ironicamente, fico a refletir se até não seria a esta altura neste país um crime justo roubar um livro. Mais educação e preparo para funcionários, mantenedores e usuários, sim! Não ofendam a moral de pessoas honestas indiscriminadamente nem lhes causem constrangimento.
Foi o comentário de minha irmã de 15 anos, leitora amante dos livros, ao ver a Biblioteca Pública do Estado da Bahia. Achou o lugar sujo, feio e soturno. Levei-a comigo na incursão de hoje.
Ao subir as escadas, podemos nos mal iluminados degraus ver a depreciação e a falta de conservação deste prédio público tão importante.
No pátio central, ervas daninhas crescem na terra batida. Não há grama nos jardins. E é tão fácil plantar num espaço tão pequeno algumas flores… Até um mutirão com os freqüentadores resolveria a questão. Uma escultura que eu creio ser um dos exus de Mário Cravo está lá, sem indicação, sem plaquinha, sem nada. Enferrujada ao ar livre no espaço interno da BPEB.
No quiosque, a ação do tempo, a falta de manutenção e um eterno vazamento na torneira.
Nos tetos dos banheiros, o vandalismo e a sujeira sem reforma:
Em um dos corredores, um resto de prato de plástico para plantas faz as vezes de lixeira improvisada:
Em outro sanitário feminino, o estado das pias, as marcas das infiltrações e dos vazamentos e o balde plástico quebrado que serve de lixeira sem saco:
Precisa dizer que não há papel higiênico nem higiene em quase todos os sanitários?
Começou hoje e permanecerá até o dia 22 de abril a 8a edição da Bienal do Livro em Salvador. O evento ocorre no Centro de Convenções. Registro aqui as primeiras impressões.
Estive na abertura às 10h de hoje. Decepcionou. Nenhuma programação para abrir o evento. Muitos stands ainda abarrotados de caixas e expositores ainda a arrumar estantes. Na praça de alimentação, os garçons brigam ávidos por clientes , com aquela abordagem de “morta-fome” que nos irrita.
O cantinho da Literatura de Cordel está muito lindo e organizado. O da Poesia idem. E o Espaço Jovem está muito legal também.
Professores entram gratuitamente, mas têm que pegar uma fila gigante onde se misturam diversas pessoas que esperam credenciais por motivos vários. Pedi informação a uma funcionária. Ela me deu uma ficha. Primeiro duvidou de que eu fosse mesmo professora e me pediu um catatau de documentos. Para adquirir o passe gratuito, levei 20 minutos na fila, preenchi uma ficha que não tinha mais tamanho na qual tive que informar CPF e RG (para quê?). Após todo este trabalho e a fila inteira, a garota do computador pegou minha ficha e mandou-me esperar porque era a primeira pessoa com quem falei que tinha que me dar o ingresso. Reclamei e chamei a tal moça do ingresso. Ela veio e após mais uns 5 minutos (só para ela me dar um papelzinho que já estava em seu poder desde o início)… perguntei porque a gente não recebia uma espécie de passe para todos os dias com o nosso nome…. ela disse que todos os dias eu teria que pegar a fila, preencher tudo de novo e… haja saco! Sinceramente! Se eu dependesse da Bienal, não teria lido nenhum livro na vida.
Lá dentro do Centro de Convenções, no Pavilhão de Feiras, a impressão que eu tive foi de que aquilo tudo era só um evento para as editoras venderem seus livros sem o intermédio das livrarias que também estavam lá para vender. Poucos autores. Poucos nomes. Poucas promoções.
Creio que os próximos dias serão melhores. Irei para conferir.
Os países que mantêm a malha ferroviária funcionando sabem o que é eficiência e custo no transporte de passageiros e cargas. Viajar pela Comunidade Européia de trem é um dos maiores prazeres que se pode ter. A viagem é barata e confortável, pontualíssima e aprazível devido às belíssimas paisagens que se descortinam nas janelas de vidro.
De Milano a Paris, por exemplo, pega-se um trem que vai a Turim e de lá parte pelos Alpes franceses. No inverno, é quase uma locomotiva vagarosa a raspar a neve dos trilhos e, devagarinho, cortar a paisagem exuberante saída de um desenho animado de Natal: chalés cobertos por espessa neve, emoldurados pelas montanhas ao fundo. De tirar o fôlego.
Após passar pelos Alpes, pegamos um TGV ( Trem de Grande Velocidade) e rumamos a mais de 300 km para a capital francesa. Além do conforto que se percebe na primeira classe, a velocidade é algo impressionante. Vemos os pontos irem passando ao longe, mas, por estarmos inertes, não percebemos, obviamente, a velocidade.
Distraída com a paisagem e o ineditismo da viagem no Natal de 2005, estava curtindo a novidade pela janela quando percebi que chovia há tempo, mas a janela não estava molhada. Então comecei a esperar que a nuvem chegasse onde estávamos, meio como quando começa a chover nas grandes cidades e temos tempo de ver o asfalto daqui e dali ir molhando. Passaram muitos minutos e nada da chuva chegar ao trem. Inquieta, observei que na estrada paralela os automóveis lutavam com os pára-brisas ligados e a água forte que caía do céu. Fiquei intrigada e não entendi porque estava chovendo na estrada e não na linha férrea. É que a mocinha aqui nunca tinha visto no Brasil algo tão fabuloso como um TGV.
Foi então que aconteceu: um finíssimo fio cortou a minha janela no alto em sentido horizontal. Percebi que o TGV estava ‘molhado’ pela chuva há muito tempo, mas a velocidade não permitia que a água parasse na janela. Nossa, que coisa mais incrível!.
Amanhã, a colina sagrada se enche de fiéis para a tradicionalíssima lavagem do Bonfim. A festa sincretiza o misticismo do Candomblé com a tradição Católica: as escadarias da Igreja são lavadas pelas baianas que prestam homenagem a Oxalá. Mais detalhes depois.
Ouça aqui o Hino ao Senhor do Bonfim e peça a sua benção.