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Não me fale

Não me fale

Não. Não me fale.

Não me fale no silêncio necessário.

Não me fale nesse amor clandestino.

Não, não me fale.

I need your love.

E isso é tão óbvio…

Um viño me inebria… e essa m…ú…si…ca…

essa música, es-sa músi-ca…

nem toda a inocência do mundo a impediria de tocar em meus ouvidos agora,

sim, agora, agora….

É noite.  Nem está frio. Nem estou me sentindo só.  Nem o tesão me corrompe a  alma.

Oh, sim, sim…  sim… Un-break my heart toca em meu coração e tudo que eu queria era estar agora contigo num espaço que … sei lá… nem precisa existir no tempo nem na história… mas acontece aqui.  Aqui. Neste epaço de sonhar acordada.

Ah, deixa para lá?

Não. Não. definitivamente não.

Eu sou gente.

E menina.

E Alena.

E mulher.

In vino veritas

In vino veritas

É um jeito único. Um jeito só meu. É um deslizar das mãos por todo o seu corpo muito lentamente, muito intimidador… muito descobridor, muito próximo – mas no espaço do quase-não-tocar, do passear a milímetros invisíveis de distância da sua pele, cada pedaço das suas costas… chegando ao seu peito… ao ponto que, a esta altura, você já tem os olhos semicerrados, a boca entreaberta e é inevitável que ouça essa música tocar quando cada pelo dos seus braços e toda a sua nuca já estiver arrepiada , sim, sim, apenas por este quase toque  deslizante que acaba em beijo… ou promessa de clandestinidade.

Vinho chileno

Vinho chileno

Você toma um vinho chileno perdido na sua mini adega… vá lá que não é o seu preferido, você ama muito mais os portugueses, especialmente depois que viu tanta cortiça nos campos da terrinha e mais todas as caves em Vila de Gaia, no Porto… ah, tá… mas é vinho, e “in vino in veritas” sempre.

Parece que o fato de realmente ver o sol nascer da janela do quarto significa algo muito maior. E eu sabia. Sabia que isto estava acontecendo. É um renascer… um resgate, um reviver eu mesma.

E o vinho parece que me conduz a isso, leve, livre e torpemente. Amada. Sei lá pelo quê. Talvez por mim.

E de repente dá uma saudade maluca de Gaia, Vila Nova, daquelas caves gigantes, dá saudade dos rabelos no Porto, dá saudade da blusa vermelha de gola alta que eu usava em Portugal. E ela jaz inerte aqui no armário… sei lá, talvez… Me deu saudade de minha festa de 30 anos…

E de repente eu morro de vontade de noites na varanda discutindo poesia, morro de desejo de spaguettinis, de fotografias com a minha canon…

e um desabafo inebriado…

e uma saudade de Praia do Flamengo em tempo áureo…

e vem a lembrança de um casal em Conde, Bahia, que morava dentro da areia da praia. Ele era Cláudio, ela eu não lembro… sei que eles saíram de Bsb para tentar a vida no longínquo da Bahia. E a pousada que construíram tinha uma concepção completamente gnomos… aquela coisa lindinha meio de sonho sem luxo e com um potencial humano demasiadamente humano… e eu leio agora que minha amiga recém parida está separada… que bom , eu penso, com certeza foi o melhor para ela… e vejo ontem duas surpresas em dois blogs sobre mim… e fico feliz… e as canções de Chico ecoam agora em minha casa porque o meu projeto de gente dorme e me deixa enfim blogar… e ela está embalada por nós, pelo que é nosso … por Chico… e dorme mesmo um anjo… e assim eu reconstruo o que chamo de FELICIDADE… e ela existe. Está em mim e pode estar em você se permitir.

Beba um vinho. Porque eu vou dormir com Nietzche. Ou com o travesseiro. (os)

E eu amanhã queira acordar em São Paulo, juro. Ou em Lisboa.

Mas vou ter a melhor aula do mundo. E isso basta-me . Por enquanto.

O bebê

O bebê

O bebezinho disse a que veio neste fim de semana.

Depois da jornada insandecida que tive na semana passada com trezentas consultas médicas (de praxe), horas de espera nos consultórios (como gestante vai ter prioridade em obstetras?), provas a corrigir (jááááá!), cronogramas a ajustar, casamento de irmã mais nova em outra cidade, formatura de primo-melhor-amigo, jornada alucinada para fazer material para o ensino médio, busca de agulha no palheiro (leia-se um vestido chique para grávida nesta Salvador provinciana cheia de roupas horríveis, tudo demodê), necessidade de faltar aulas, agendamento de reposições …

… ai, ai, depois disso tudo, meu baby hiperativo igual à mãe chutou sem parar por três dias e eu simplesmente parecia que havia saído de um esmagamento por rolo compressor. Falhei de ontem para hoje: o corpo pifou.

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Ainda não sei se menino ou menina… a requisição de ultra-som está na minha mão… o tempo é que não está dando para ir fazer o exame. Pode?

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Sou bacante, dionisíaca seguidora. Amo o vinho e o prazer que proporciona. Mas nesta fase não etílica da minha vida, estou viciada mesmo em suco de uva. Só não venham me falar do de caixinha que eu acho o fim. Tomo um que vem lá do RS, numa garrafa de vidro, com toda pompa que um suco pode ter, rótulo, fabricante e tal … para compensar, minhas taças continuam indo à mesa.

Enterro nunca é lindo…

Enterro nunca é lindo…

… mas o de Pavarotti foi. Que homenagem, que emoção!

A Mani publicou Nessun Dorma de Puccini que é linda!!! A morte dele me fez pensar nas críticas que fizeram ao longo de sua carreira por cantar ao lado de astros populares de diversos países. Muito pelo contrário: acho maravilhoso! Primeiro porque a ópera chega ao grande público mais facilmente; depois porque ninguém em parceria conseguia superar a maravilhosa voz dele. A atitude do tenor foi mais amor à boa música que qualquer pessoa possa imaginar.

Roberto Carlos (juro! – pausa para comentar - com um italiano sofrível) cantou a Ave Maria de Schubert (que justamente considerou um privilégio, um atrevimento e uma concessão do tenor) e  Ó sole mio!

Bryan Adams também cantou O sole mio e (de novo) ver os risinhos e a carinha sempre feliz do grande tenor só me faz pensar que a companhia dos outros artistas parecia mais um tributo de todos os coithados cantando para ele, o meu sol, o sol de todos. Darren Hayes fez o mesmo… e o risinho feliz de Pavarotti me faz conjecturar a cada novo parceiro de palco que ele realmente cantava fácil e plenamente o que os seus ‘colegas’ de ocasião se esganiçavam para conseguir.

Observem que ao final da primeira parte, todos os três (Roberto, Bryan e Darren) fazem a carinha de consegui! meio soberba e aliviada pelo desafio. Então entra o mestre, de cada vez com um tom mais ou menos grave, como se quisesse inicialmente harmonizar com o seu antecessor para depois, sem nem precisar engolir o fôlego, fazer a música estupefaciente!

Viva forever , Pavarotti! Em tua música, em tua arte, em tua carinha de bonachão (ele não parecia um papai noel disfarçado?)…

Barry White  cantou com ele My first, my last, my everything , deu seu show particular, o tecladista também, até que pára estupefacto para ver e ouvir o tenor cantar. Barry harmoniza com Pavarotti um dueto para a história da música! 

Bono cantou, Gloria Stefan cantou, Jon Bon Jovi cantou, muitos cantaram, tiveram o privilégio.  Celine Dion cantou com ele I hate you them I love you.  Andrea Bocelli cantou junto Medley sung e Ave Maria.

Pavarotti recebe em seu palco ninguém menos que Liza Minelli . Cantaram com a maestria peculiar a ambos : New York, New York. Um dos melhores duetos que já ouvi.  James Brown  cantou It´s a man’s world com o seu riso de quem sabe das coisas. Isso é música. Quem sabe, sabe. Para finalizar, a comparação justa e única, ou melhor, os três cisnes que o século passado nos ofereceu Nessun dorma.

Deixa-nos Una furtiva Lagrima.

Cuidado que a cuca vem te pegar

Cuidado que a cuca vem te pegar

Meu mais novo brinquedinho já tem uma semana de vida. Naquela onda consumista de presentear crianças com ovos de páscoa cujas surpresas são apenas o que momentaneamente interessam para logo mais no dia seguinte descartavelmente não fazerem mais sentido algum, acabei arrecadando algumas para mim – juro que eu gosto e que no ‘meu tempo’ eram bem menos interessantes.

Comprei um montão de ovos para adoçar o mundo e dois das princesas para as meninas do love. Uma quis a princesa, mas a mais velha pensou mesmo foi no sonho de valsa que eu lhe cedi gentilmente. Acabei ficando com um ovo principesco infantil e de papel rosa com gosto lá duvidoso ( meus chocolatinhos que o digam!).

Mas o melhor da história foi que arrebanhei uma princesa dançarina para enfeitar a minha mesa e me lembrar do quanto eu sou menina e mereço sonhar e ser feliz. 

Depois de duas semanas de idílio, um ovo temporão apareceu na praça e as crianças já sem saco para as surpresinhas, acabaram me dando o brinde da vez: fiquei com a cuca do sítio do picapau-amarelo.

Ótima idéia. Assim, meu lado Fiona aparece, lembro-me de que no salto posso ser princesa, mas tenho todas as garras de ogra do pântano também.

Ô delícia de viver!

Detalhe importante é perceber que a Cuca veste a Aurora, não é?

Ah, momento passado remoto:  aquele palhacinho da direita  é meu primeiro porta-lápis que comprei aos 14 anos e os vasinhos gregos atrás da princesa são de lá de Atenas mesmo( viagem 2005 ) (mooooooooorram de vontade de ir também!) .

Velhos hábitos

Velhos hábitos

Não sei porque abandonamos o que gostamos… não sei porque desistimos de nossos amores… não sei porque não bebia vinho há muitas semanas… Hoje, no 5S final que estou fazendo em minha vida, repaginação total (leia-se possível), me transportei de novo aos 14 anos, quando eu era filha ainda e arrumava meu guarda-roupa. Adoro dar as coisas. Mas só dou a quem eu acho que vai fazer uso. A gente limpa, limpa, limpa… e daqui a uns anos tem tudo entulhado de novo. A gente vai juntando de novo novas importâncias. Por quê?  Porque as coisas perdem a importância e as pessoas também enquanto outras coisas e pessoas vão surgindo.  Alguns dizem que infelizmente, outros suspiram felizes. Eu não sei.  Acho mesmo que a vida é assim. Simplesmente.

Hoje minha aluna  fez um elogio à minha roupa. Olhei-me toda e de repente percebi que era a roupa comprada para um jantar especial que ocorreu há um ano. Pulôver lilás, jeans justinho e bota preta de bico e salto finos. Tudo novinho há um ano, bonito no dia, especial para tomar uísque com pessoas importantes… Hoje aquele tempo vai longe, as pessoas continuam importantes, mas agora para os outros, não mais para mim. E a roupa? A roupa virou uma indumentária de trabalho. Bonita ainda, mas já vulgar, porque consigo não carrega a especialidade que ficou presa no outrora de um tempo em que se cria em projetos diferentes.

O cheiro de passado não voltou com a arrumação de hoje. Não houve naftalinas  no coração. Só a certeza de que os ossos são mortos. E talvez o presente também o seja. Que importa? Importa que eu estou feliz, que como queijo mineiro e tomo vinho francês em casa… vestida de menina que ainda sonha com um futuro que talvez me traga a paz que eu procuro para dormir aninhada. A ninhada.

Dia poético

Dia poético

O dia poético sempre é o dia que escolhemos para sê-lo.

Podem ser todos os dias? Não, não pode. Poesia é para ser sorvida e dias poéticos precisam de contemplação. Não dá para acordar na rotina e fazer de conta que o dia é poético.

Durante anos, quando eu era professora do ensino fundamental, elegi a quarta-feira com todo o seu azul para ser o meu dia poético. A matemática era simples: segunda, dia de horror à semana de trabalho puxado, preguiça com cara de tenho que labutar, eram 12 a 15 horas de trampo em sala de aula. Terça tinha cara de “ai, meu deus”.

Assim, Quarta era o dia P-E-R-F-E-I-T-O.

Simples, quando eu começava a trabalhar, já era sinal de que o dia ia acabar, não faltava mais um dia para o fim-de-semana. Quarta  é véspera de quinta, dia de cine-mendigo, dia de sair à noite, dar um voleio imbecil no shopping. O segredo de quarta é que é véspera de quinta. E a gente sabe a humana idiossincrasia de comemorar a véspera. E o melhor, como quarta é véspera de quinta e quinta é véspera de sexta, estava tudo em pleno estado de comemoração. Já.

O segredo era simples: fazer da quarta, pilar da semana estressante, o dia de começos de risos com cara de folga… cara de fine settimana.

E por mais que eu trabalhasse quinta, este lance de saber que era quarta já me alegrava.

O tempo passou, entretanto, e elegi a quinta. Por causa do ex-amor. Ele amava a quinta, dia de vestir verde. A gente acabou assim amando junto a quinta-feira. E era dia de comidinha árabe feita por mim. Dia de chamar os amigos e fazer jantar em casa. Dia de tomar vinho até a Lua nos cansar na varanda e as poesias de Pessoa, Saramago, Drummond nos embriagarem de vez. Dia de discutir Nietzsche, de filosofar Platão, de descobrir Aristóteles. Dia de resenhar as leituras da semana na varanda gradeada (Ó como eu quis arrancá-las, as grades)… olhando por entre as frestas e acreditando no humano sonho de Ícaro… O vinho balizou os poemas, aguçou o olfato e o sexo entre macho e fêmea. E a Heineken alegrava as horas de tertúlias amorosas e amistícias somadas às gargalhadas de quem sabe ser feliz. Llosa, Neruda, Hugo, Veloso, Sousa Tavares… todos nos acompanharam… e rimos e rimos e rimos… brindando sempre à vida e a nós dois… que eu nunca esqueço o brinde.

Hoje, o tempo passou mais uma vez… O legado ficou e não mudei para a sexta. A sexta é comum, pertence a todos, banais, humanos normais que se arrastam pelos metrôs ou  nas estações sem sequer saber que existe vida após o trabalho. E que dinheiro dá prazer, não dor de cabeça.

E porque hoje é quinta, eu chego mais tarde sim, em casa. Trabalho muito, sim. Corro de um lado para o outro… mas tenho prazer em pôr eu mesma o alho a cheirar no azeite, os tomates a cozer, a cebola a refogar e os pimentões milimetricamente cortados a despertar a acidez que me é tão doce. Depois, os mexilhões, a lula, o polvo, o kani, a lagosta e os camarões a dourar junto, banhados naquele pouco de viño bianco que aguça qualquer sabor. O molho de tomates rega o riso, arbóreo e frondoso na panela, enquanto o açafrão ou a páprica dão a pitada certa que o sal complementa. A atenção é redobrada no cozinhar do feitiço para ser feliz…

E sento à mesa, taça em riste, para brindar a doçura de viver bem… um brinde aos que assim me ensinaram e aos que poderão desfrutar destes momentos… Porque a vida só é possível reinventada, não é Cecília?

O curió nunca mais cantou

O curió nunca mais cantou

Trilha sonora do post: Aquarela 

“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo… num  instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.”

O tempo muitas vezes nos passa desapercebido. Ontem à tardinha, com o pôr-do-sol e a T.P.M. chegando, calculei-o. Faz já 11 anos. Então a sensação exata de um terço da minha vida caiu de forma bombástica sobre mim. 

Ele era o galã. Bonitão. Todas as histórias falam disso. De um homem de 1,86 de altura, loiro, olhos cor de azeitona, braços fortes, peito largo, carro bonito. É, é a cara dele falar de carro bonito. Impossível esquecer a camisa aberta e o correntão de ouro contrastando com a loirice de seu peito. E o cabelo fino voando ao vento. Se eu fosse menino, seria o seu companheirão. Só que nasci mulher. E virei a sua princesinha.

Foram só dois anos em que fui filha única, mas os mimos me estragaram para todo-o-sempre-amém. “O que você quiser, eu faço por você, minha filha”. “Qualquer coisa, pode pedir a seu pai”. Frases mágicas. “Não peça nada a ninguém, seu pai faz tudo por você”. E fez.

Bebezinha, com dois anos ou três, eu já queria que ele tirasse todas as pessoas da praia, para ela ser só minha. Imagina! O mar era todo meu, porque Deus fizera ele “só para mim”. Assim ele dizia de todas as coisas. Íamos, então, às praias desertas. Minha mãe ajeitava a feijoada ou a farofa e cia para o churrasco e nós viajávamos para longíííínquas enseadas, afastadas do centro urbano, onde eles pescavam em paz e a gente aproveitava para se sentir o centro do universo. Pai, mãe e filha. Depois, mais duas meninas. Itacimirim, Guarajuba, Barra do Jacuípe, a própria Praia do Flamengo, há 30 anos, era deserta. Lembro de irmos a Stella Maris pescar atrás do velho hotel abandonado. E não pensem que ele ficava absorto, não: cuidava da minha varinha de bambu também, que era grande (talvez por isso eu tenha esta megalomania – risos).

“Pinto um barco a vela branco, navegando, é tanto céu e mar num beijo azul”

Amava muito o mar. Os barcos. Os trens. O avião. Os discos voadores. E a pipa colorida no céu, que eu também empinei com ele.

“Tudo em volta colorindo com suas luzes a piscar. Basta imaginar e ele está partindo, sereno indo, e, se a gente quiser, ele vai pousar.”

Livre arbítrio. Com ele aprendi que muitos caminhos diferentes levam ao mesmo lugar, que a rotina pode ser diferente todo dia.  E que há também muitos diferentes lugares, porque o mundo é grande e pode caber num círculo de um compasso.

Lá em casa, era uma sinfonia de curiós, seu passarinho preferido. E as gaiolas eram lindas, todas douradas. Me lembro do som sony e do gosto por eletrônica que dele herdei. Havia um tal de um lp chamado O canto do curió que, segundo ele, servia para os bichinhos aprenderem a cantar. E a gente ouvia isso no finde a manhã inteira, quando parávamos em casa – coisa rara. Sua máquina Olivetti era só nossa. Só nós dois datilografávamos. Ganhei Atari e a criatura superou o criador: eu, moleca, vencia todas as partidas de Pitfal e River Raid. No Enduro, ele era melhor.

Ensinou-me o nome de todos os carros e brincávamos de adivinhar qual seria o próximo a passar: chevette, fiat, caravan, puma, brasília, fusca, parati, dodge… eu sabia todos. Eu gostava, por isso, era de brincar de carrinhos com meu primo da mesma idade, mas também me lembro do dia em que ele me pegou dando de mamar à feijãozinho verdinha de mão rosa e touca na fila do ferry-boat e se enterneceu. “Que bunitinho…Olhe, Ane, ela tá dando de mamar à bonequinha” . Senti tanta vergonha do peito que precisei virar mulher para deixar de senti-la.

Nós íamos à Fonte Nova torcer para o Bahia, o meu time por herança, mesmo que eu não assista hoje a um jogo sequer nem ligue para futebol. “Somos da turma campeã… somos da turma tricolor…” No meu carro, há no pára-brisa o adesivo do Baêa, pelo lado de dentro, porque só eu preciso ter as minhas recordações, não é?

Lembro que ele gostava de biquíne curto e nos ensinou que não havia imoralidade nestas coisas nem no namoro nem no sexo. Na adolescência, me levava sem ciúmes para ver meu namorado trinta vezes que eu quisesse. Festas? Fomos a todas. Ia levar e buscava sem reclamar uma vezinha sequer em qualquer madrugada e a qualquer hora. Dava carona a todas as minhas amigas, não importava onde morassem.

Imoral para ele era a mentira. “Nunca minta para seu pai.” “A pior coisa do mundo é a mentira”. Aprendi a lição, embora soubesse quando a cara descarada dele estava rindo por mentir. E que cara! Ensinou-me as malandragens da vida: sabíamos como ‘roubar’ no jogo de baralho, sabíamos que a bolinha na forminha de empada no meio da rua era um truque desonesto para pegar dinheiro dos bestas. Mas colávamos moedas com superbonder no chão de bares ou restaurantes para rir do pessoal que se abaixava (ô crueldade!)

Nunca chegava em casa de mãos vazias. A gente descia as escadas correndo e perguntava : “trouxe o que para mim, meu pai?”. Umbu, seriguela, bombom, tamarindo, um pintinho de dar corda, lápis de cor (adorava desenhar), uma tranqueira vendida por camelô… o que fosse. 

Comíamos sonhos na padaria e pão doce, algodão doce e maçã do amor nos circos. Os parques… fui a todos. A roda gigante era a nossa preferida. E o carrinho bate e volta me fez chorar, fazendo que ele entendesse que eu era mesmo menina. Para ele, o palhaço era o melhor, ria sempre de todos eles e dos programas bestas da tv. E se auto-intitulava o PAI-AÇO. Nestas horas, inchava o peito, fazia muque e careta, dizendo que era o Incrível Hulk. Juro que eu tinha medo dele ficar verde e saía correndo, acreditando mesmo que isso fosse possível.

Pintava, brincava, dançava. Rebolava se a música da moda era Requebra (Olodum). Chamava minhas amigas de macacas… e ria e ria e ria. Agora parece que eu estou vendo a gente chegando da praia, as três meninas de biquíne, mainha entrando em casa e a torneira do jardim sendo aberta. Ele lavava o carro e a gente ajudava. Nesta maluquice, daqui a pouco já estávamos todos brincando de abominável homem das neves, branquelos da espuma do sabonete. E eu aprendi com ele a fazer bolha de sabão com a boca. Até hoje faço isso!

Quantas vezes saímos de carro pelo mundo, 3, 30, 300 ou 3000km livres? Viajar era lei, curtir a vida um prazer. As coisas funcionavam assim: “vamos ali” – e as malas sempre estavam prontas lá em casa porque, de repente, o passeio virava uma viagem. “Nunca fique sem fazer xixi, peça sempre que seu pai pára o carro.” 

Bom, que mais dele herdei? O nariz, o cabelo mais claro (o de minha mãe era quase negro), o porte, a alegria, o falatório, o gosto por papéis e curiosidades. O gosto também pelas pessoas e pelos lugares.  Dou carona a quem precisa sempre, não tenho preguiça de dirigir, faço favores. E ralho com voz de trovão, como ele bem sabia fazer. Nunca me bateu. Sequer um tapa na mão. 

Com 11 anos, eu caí da escada de casa e quebrei o braço. Aquele homem gigante, em poucos minutos arrastou-se até a escada. Recém operado, sentado e impotente diante do meu braço quebrado, chorava e perguntava: “meu Deus, por que isso não aconteceu comigo? Por quê?” Foi assim que eu descobri o que é amor. E que só um pai é capaz do incondicional.    

“ E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar. Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar. Sem pedir licença muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar. Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá… numa linda passarela que um dia enfim… descolorirá”. 

Te amo e o tempo não varreu isso de mim.”

Eu, meus queijos, meu vinho

Eu, meus queijos, meu vinho

É quinta à noite e me acostumei a celebrá-la. Antes, tempo farto de amor, era dia de comida árabe ou italiana, homem chegando às seis em casa, música romântica escolhida por ele na sala.

Havia tempo para uma dança. Havia uma cerveja partilhada ou um vinho a dois. Havia uma varanda e uma Lua no céu. E o mar, mar , distante mar…

Hoje há a doçura, há o vinho, há o sonho, há a mulher. Há queijo Gruyère, Gouda, Brie e Gorgonzola.

Há boa música e quatro travesseiros me esperando.

Leio Crime e Castigo de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski. E curto a minha Felicidade transitória e Clandestina, não é Clarice?

Tim, tim.

Estes pretendentes…

Estes pretendentes…

Da série : estes pretendentes eu não pretendo!

Protagonista número 01: divorciado, pai solteiro, mora com o baby. Está doido para arranjar uma mãe para o seu filho (eu , hein! Vá parir pra lá!). Advogado, professor e dono de um cachorro. Toca violão (uia!).

Ato falho / papo:

- Oi, moça… Blá , blá bláblá…

- Blá, blá, blá…etc e tal.

- Ah, você sabia que eu gasto R$250 a 256 reais no French Quartier toda semana ? 

 Fecham-se as cortinas: DELETE!

O que faz uma mulher que mora só??

O que faz uma mulher que mora só??

Da série… madrugada!

Uia! percebi que vai fazer um ano que minha vida deu um looping total (que bom!) Chamei uma amiga inteligente para sair depois da faculdade hoje. Pretendia a deliciosa saladinha de polvo com vinho branco. Inteligente, ela resolveu ir para casa porque estava sem din din, com ressaca da última gripe e cansada. Então, às 23h, estava eu aqui, sentada, todamega arrumada.

Bem, vamos, então, ao post:

Uma mulher que mora só resolve a questão da companhia lendo uns bons blogs pela net… Uma mulher que mora só tem vontade de tomar vinho, percebe que está só, não há "ceromanos"  normais acordados e não dá para ligar para nenhum dos amigos sem que eles interpretem: ela quer trepar.

Neste caso, uma mulher que mora só escolhe um francês ordinário, saca o saca-rolha e saca a rolha sacando como é saca sacar a questão. É Bordeaux, tinto… a taça tem um desenho interessante, gosto da haste longa… a borda tine singular…legal… Viajo na recordação e vejo o campo de cortiças em Portugal. Ah, jamais serei pró-rolha sintética. Dane-se!

 Ela, a mulher que mora só, abre então o armário, descobre os pratinhos bonitinhos que comprou quando estava apaixonada, ri deles e pega a faca de cabo longo para fatiar o salame hamburguês( preciso de jamón). Tem um brie ainda na geladeira e umas castanhas frescas… Ri das tâmaras que descobriu… é capaz de não ter feijão ou farinha nesta casa… Mas ela atende a seus mimos pessoais… já que não há príncipes, nem pai, quiçá ogro do pântano!

A mulher que mora só sorve o vin de france e descobre p#%* da vida que a empregada dela impregnou o cabo da faca com o cheiro típico do alho… Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Adoro alho,mas na comida!

Lava, lava, lava a mão e volta a se embriagar do torpor típico de Dionísio. Pega no forno a torrada de pão de linhaça com queijo e presunto: canapé. (Preciso ir à Perini domani)

A mulher que mora só confirma o que já sabia há tempo: o prazer está em si. Ela é que sabe viver. ________________________________________________

Depois de rir da amiga blogueira que quer comprar um toca cd, lembro que tenho som!!! Ligo, mais uma noite, a imbecil da música Viva Forever, mas me alenta a alma, fico com aquela cara de sessão da tarde apaixonada. E vou dormir com meus quatro 'trabisseilos'.

Feliz.