Arquivo da categoria: Outras palavras

Saramago sempre

Saramago sempre
Declaração
José Saramago
 
Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
nem morto está o fruto que tombou:
dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
respiram na cadência do meu sangue,
do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
na memória doutra mão perdurará,
como a boca guardará caladamente
o sabor das bocas que beijou.

Empréstimo Saramaguiano

Empréstimo Saramaguiano
No silêncio dos olhos

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago
Os Poemas Possíveis
Lisboa, Caminho, 1999

Traduzo-me em outras palavras

Traduzo-me em outras palavras

“Se não tenho outra voz…

Se não tenho outra voz que me desdobre

em ecos doutros sons este silêncio,

é falar, ir falando, até que sobre

a palavra escondida do que penso.

(…)”

José Saramago

Calei-me por muito tempo.

Tempo necessário de luto.

Tempo necessário de escuridão.

Tempo imprescindível de silêncio particular.

Tempo cheio de medos e censuras alheias.

Tempo findo.

E o blog?

Agora vai indo.

Alena Cairo

Conselho astral: a calhar

Conselho astral: a calhar
A Torre Fulminada

eliminando o que não serve mais

“O arcano XVI emerge como arcano conselheiro para este momento de sua vida, Alena, sugerindo que é chegado um importante momento em sua existência: o tempo para romper com tudo aquilo que não lhe serve mais e que você preservava apenas por manutenção de fachadas. Estas coisas que precisam ser eliminadas podem ser (e geralmente são) internas e têm a ver com hábitos, modelos mentais e expectativas falsas. Mas podem ser também relacionamentos falidos, projetos que não dão em nada, ou seja, qualquer coisa que não faz mais nenhum sentido em sua vida e que você talvez não tenha ainda a coragem de eliminar. Todavia, é preciso agir, caso contrário a negatividade se tornará pior. Enfrente com coragem este momento de varredura radical!

Conselho: A coragem é necessária para enfrentar problemas de difícil solução.”

Vid(inha)

Vid(inha)

Vid(inha)

- Nossa, mas você fará uma “festona” para sua filha?
- Sim, por quê?
- Isso é uma bobagem! Gastar dinheiro à toa.
- Mesmo? Você acha?
- Sim! Faça uma fest(inha) que tá bom. Ela nem vai notar…
- Será?

Era sim muita grana para uma mãe professora com salário de três dígitos apenas. Era sim uma “festona” com direito à decoração diferente, animação variada, muita guloseima e lembranc(inha), e com, até, o mágico mais famoso da cidade. Era sim uma festa de aniversário para 60 crianças e quase 100 jovens e adultos. Era sim uma comemoração dos sete anos de vida de uma menin(inha) linda, preciosa, única.

- Ah! Deixa de ser boba! Você pode gastar essa dinheirama com algo mais concreto.
- É?
- Sim, mulher! Coisas que ela precisa. Roupas, um brinquedo legal ou até guardar na poupança para quando ela crescer.
- Ah…

A histor(inha) acima ilustra a época em que vivemos. Mentira. Mostra os valores que cultivamos. Melhor dizendo, aponta para onde devemos olhar e crer. Festa é para quem tem cacau “sobrando”. Festa é “desperdício” de tutu. Quem nunca ouviu falar de meninas que trocam o tradicional debute por dinheiro? Sim. Fazer festa é gastar grana para “encher” a barriga dos outros. Deixa de ser boba… Aproveite SOZ(INHA).

Comemorar um aniversário “espetacular” é praticamente uma heresia para pobres e remediados – eta palavr(inha) feia e insensata! – pois é tido por um gasto com algo sem “utilidade”. Capital jogado no lixo!


- Pense bem quanta coisa você pode comprar com essa fortuna empregada numa fest(inha) de criança?
- É, poderia sim…
- Então! Faça um bol(inho) e chame uns amigu(inhos) que já está muito bom.
- Sei…
- Ela nem vai se lembrar disso depois. Pode apostar.
- Talvez…
- Vá por mim. Faça uns doc(inhos) e uns salgad(inhos), um enfeit(inho), uma vel(inha), uns balõez(inhos) e pronto!

Investir em sonhos, fantasia, afetos e bem-quereres parece cada vez mais um investimento arriscado e fora de propósito. Festão (para não ricos) está em baixa na bolsa de valores humanos. Ter a adrenalina do coração disparado durante um jogo com o palhaço; receber convidados, ter a companhia dos amigos, comer gostosuras, encher os olhos de beleza ao brilhar da purpurina, gargalhar perto de quem se ama, explodir de alegria por que um monte de gente veio ao seu aniversário parecem privilégio de poucos afortunados. Guardar na memória cheiros e emoções só a preços baixos.

Celebrar o aniversário é investir em acolhimento. É enaltecer um ser humano que nasceu e vive por mais um ano. É desprendimento e generosidade para com o outro. É cortesia. É reverência. Uma festa de aniversário grandiosa por parte daquele que não tem “sobrando” pode ser a tradução de uma mensagem cada vez mais difícil de repassar: não tenha uma vid(inha), você é importante tanto quanto outro qualquer.

Depois que o “big é big” pára cada um retorna ao lar e a aniversariante de sete anos, que mal se contém de felicidade, deita na cama com os olhos brilhando e diz “mamãe hoje é o dia mais feliz da minha vida”. E isso não tem preço. Ou melhor, custou uma dinheirama… Mas não em vão para quem pretende ofertar um “vidão” de afetos, amizades, vínculos, e valores; para quem talvez queira mostrar aos filhos que há valores mais abstratos (do que concretos em si) que valem o cultivo.

Não era uma fest(inha) qualquer, artificial, comprada, banal, e sim um festão construído pedaço por pedaço; pensado e preparado para ser o maior, o melhor, o mais bonito, o espetacular, simplesmente por que aquele dia era para dizer à filha quanto ela é única e merece aplausos. Muitos aplausos da vida.”

________________________________________________

Texto publicado em : http://criandoespacos.blogspot.com/2008/03/vidinha.html

Não é de minha autoria.

_________________________________________________

Já faz mais de dois anos e eu até hoje choro… eu amo este texto.

É oportuno para mim de novo. Estão todos tentando me convencer a não festejar a vida de minha filha, a não bater palmas para ela, a não bater palmas para mim, para os nossos, a não me encher cercada dos meus de alegria, eu que sou a mãe dela, que a amo tanto. Tudo porque fazer um festão é jogar dinheiro fora, encher a barriga dos outros. Que outros são estes? São as pessoas que me são caras, que me são especiais, são as pessoas que se importam comigo e com a minha filha.

Bem lembrado!

Bem lembrado!

tati bernardi tati_bernardi

não tem nada mais ignorante do que me tratar com intimidade só porque leu algum texto íntimo meu.

Enviado por Ricardo Noblat -

28.07.2010

|

14h16m

“Lei das Palmadas” é uma bobagem

Do blog Balaio do Kostcho

Quanto mais converso com as pessoas, mais me convenço de que esta história de que os pais precisam de uma “Lei das Palmadas” para saber como devem educar seus filhos não passa de uma grande bobagem.

Sem nem entrar no mérito do projeto de lei enviado pelo governo federal ao Congresso no começo de julho, cabe uma simples pergunta: se por acaso esta proposta for aprovada, como poderá ser cumprida na prática?

É mais um não-assunto que está gerando uma polêmica danada no momento em que a campanha presidencial deveria discutir os rumos e as propostas para o futuro do país. Virou manchete de jornal, capa de revista, tema de pesquisa, tudo isso para quê? Como pai e avô que se orgulha da educação das filhas e dos netos, acho até graça.

Alguém pode imaginar uma criança indo à delegacia de polícia mais próxima para denunciar os próprios pais por ter levado um tapa na bunda? E o delegado vai lá prender os pais? A Justiça vai processá-los e tirar-lhes o pátrio poder?

O texto da lei defende “o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos corporais ou de tratamento cruel ou degradante”. Até aí estamos todos de acordo, mas são duas situações bem diferentes, convenhamos.

“Tratamento cruel e degradante” contra qualquer pessoa é crime já previsto em lei desde sempre. Mas de que tipo de “castigo corporal” estamos falando?

A julgar pelos resultados da pesquisa Datafolha sobre a “Lei das Palmadas” divulgados nesta segunda-feira, 72% dos pais brasileiros deveriam estar na cadeia porque foi este o percentual de entrevistados que declararam já ter sofrido algum castigo físico na vida. Eu mesmo confesso que já dei e levei algumas (poucas) palmadas.

A mesma pesquisa mostra que os pais estão batendo menos nos filhos: se 72% já levaram uns cascudos, apenas 58% declararam que também já bateram nos filhos, ou seja, de uma geração para outra, a criançada está apanhando menos para andar na linha.

Nem por isso a violência diminuiu. Ao contrário, todas as estatísticas indicam que, de ano para ano, os brasileiros estão respeitando menos a vida alheia, ficando mais violentos, matando mais por qualquer motivo ou sem motivo nenhum.

Fico pensando de que cabeça desocupada pode ter saído esta idéia, que só serve para atiçar os adversários do governo federal, dando-lhes munição para acusá-lo de querer acabar com as liberdades individuais ao intrometer o Estado na relação entre pais e filhos. Tem cabimento?

O que estamos percebendo hoje é uma clara contradição entre o mais longo período na nossa história recente de respeito às liberdades públicas _ de expressão, de organização político-partidária, religiosa e social _, enquanto se engendram restrições às liberdades individuais, como se leis deste tipo pudessem nos fazer mais felizes e saudáveis.

É claro que todos nós somos contra qualquer violência praticada contra crianças, sejam nossos filhos ou não, mas para isso já existe o Código Penal, que pune severamente estes crimes. Daí a querer tirar dos pais o direito de saber o que é melhor para educar seus filhos vai uma longa distância.

Em todas as classes sociais, o que tem acontecido é uma crescente leniência dos pais ao estabelecer parâmetros sobre o que seus pimpolhos podem ou não fazer, quais os direitos e os deveres para se viver em sociedade, respeitando as leis já existentes.

A maior prova disso é o desrespeito aos professores, vítimas até de agressões dos alunos, que se sentem protegidos pelos pais para fazer o que bem entendem. É isso que acaba levando a assassinatos como o que vitimou o filho da atriz Cissa Guimarães, atropelado durante um racha num túnel interditado no Rio de Janeiro.

Cada um tem seu jeito de educar os filhos. Isso varia muito até dentro de uma mesma família. Pais e mães muitas vezes discordam sobre os corretivos que devem aplicar quando os filhos não os obedecem, não querem estudar ou comer, não cumprem horários, não saem da frente da televisão ou do videogme.

Dar um beliscão ou um tapa na bunda, colocar de castigo ou cortar a mesada? Não existe uma receita pronta que sirva para todos. Antes de mais nada, é preciso ter bom senso, dedicar mais tempo a conversar com os filhos e educá-los pelo exemplo, o que os pais que vivem nas grandes cidades têm feito cada vez menos, deixando tudo por conta das escolas.

Assim, muitas vezes, o último recurso, que é o castigo, acaba sendo o primeiro. E as crianças vão descontar suas frustrações e revoltas em cima dos professores, que nada podem fazer, criando-se um círculo vicioso que nenhuma lei vai cortar. Não sei qual a melhor solução, mas não é, certamente, punindo os pais com a “Lei das Palmadas” que vamos melhorar o nível educacional dos nossos jovens e construir uma sociedade menos violenta, mais fraterna.

Indicação

Indicação

Uma mulher não precisa estar transando para transar.”

Tati Bernardi, autora deste livro aqui.

Mais uma:

“(…)

Todos os homens desejam loucamente a mulher misteriosa. Todas as mulheres desejam loucamente a mulher misteriosa. Sua personalidade incerta acaba se tornando uma personalidade fortíssima e seu jeito anulado acaba se tornando um espaço gigantesco para todos imaginarem o que bem quiserem.
E eu, como estava dizendo, sempre quis ser dessas mulheres imperfuráveis, inatingíveis, inaudíveis e incompreensíveis. Mas nunca consegui. Quando vou ver, já contei minha vida pra primeira pessoa que me deu um pouco de atenção. Já to rindo alto no restaurante porque não me controlei e fiquei feliz demais. Já escrevi um texto sobre o fulaninho da terça passada e publiquei numa revista. E o fulaninho ta morrendo de medo porque escrevi que gosto dele. E se alguém perguntar, vou dizer mesmo que goste dele. E se ele não gostar de mim, minha tristeza não será segredo para ninguém. E minha pasta de dente é para deixar os dentes branquinhos. E quando vou ver, lá se foi a mulher misteriosa que eu gostaria tanto de ser. Porque eu jamais poderia ser uma.
E sofri anos com isso. Até que resolvi conviver de perto com algumas mulheres misteriosas para tentar descobrir o que se passa na cabeça e na alma desses seres incríveis que nunca têm nada a dizer, a doer, a aconselhar, a cantar, a dançar, a morrer de rir, a fofocar, a detalhar, a exagerar, a sonhar, a dividir, a acrescentar. E descobri que a coisa era muito mais simples do que eu imaginava: nada. Não se passa nada de relevante nem na cabeça e nem na alma dessas mulheres.”

Tati Bernardi, trecho da crônica: “O mito da mulher misteriosa

Divulgação cininar

Divulgação cininar

CININAR leva mães e bebês para o cinema
Uma iniciativa da OCA – Oficina de Cultura e Arte, em parceria com o Circuito SALADEARTE, vai levar mais cultura e lazer para as mães de bebês recém nascidos. Com exibição de filme adulto, a fim de promover encontros socioculturais para mães com crianças de zero a 18 meses da capital baiana. A tela do cinema vai se tornar ponto de encontro de mulheres que, com seus filhos, poderão curtir com conforto um longa-metragem, já que até esta faixa etária os bebês não conseguem identificar nem absorver o que se passa na película, deixando-as mais tranquilas. No local será adaptado ainda um fraldário, além de um espaço especial para atividades relacionadas com a maternidade, como aula de shantala, yoga. Haverá um bate-papo com a Psicanalista Cláudia Mascarenhas após a sessão
Data: 18 de abril a partir das 10 horas – Horário: 10:00 Filme: CHEGA DE SAUDADE Local: SALADEARTE – Cinema da UFBA – Vale do Canela Valor: R$10 [inteira] e R$5 [meia]
______________________________________________________
Nós fomos! Depois volto para contar.

Choque de gerações

Choque de gerações

Não sei quem escreveu. É mais um destes textos que recebemos por e-mail.  Vou pesquisar a autoria, se achar, coloco-a aqui.

Não sou de ficar publicando os textos de e-mail, mas eu não resisti a este:

“Um calouro muito arrogante, que estava assistindo a um jogo de
futebol, tomou para si a responsabilidade de explicar a um senhor já maduro,
próximo dele, por que era impossível a alguém da velha geração entender esta
geração.

- Vocês cresceram em um mundo diferente, um mundo quase primitivo…

O estudante disse alto e claro de modo que todos em volta pudessem ouvi-lo.

- … nós, os jovens de hoje, crescemos com televisão, aviões a jato,
viagens espaciais, homens caminhando na Lua, nossas espaçonaves tendo
visitado Marte. Nós temos energia nuclear, carros elétricos e a hidrogênio,
computadores com grande capacidade de processamento e, …

Numa pausa para tomar outro gole de cerveja.

O senhor se aproveitou do intervalo do gole para interromper a
liturgia do estudante em sua ladainha e disse:

- Você está certo, filho. Nós não tivemos essas coisas quando nós éramos
jovens, por isso nós as inventamos… e você, bostinha arrogante, o que
você está fazendo para a próxima geração? “

Uma flor para minha professora

Uma flor para minha professora

“- Menina, onde é que você vai com essa flor?

Ela era limpinha e trazia na mão o livro e o caderno encapados. Usava duas trancinhas.

- Levo para minha professora.

- Por quê?

- Porque ela gosta. E toda aluna aplicada leva uma flor para a professora.

- Menino também pode levar?

- Gostando da professora pode.

- Ah! é?

- É.

Ninguém tinha levado uma flor sequer para minha professora D. Cecília Paim. Devia ser porque ela era feia. Se ela não tivesse uma pintinha no olho, não era tão feia. Mas era a única que dava um tostão pra mim para comprar sonho recheado no doceiro de vez em quando, quando chegava o recreio.

Comecei a reparar nas outras aulas e todos os copos sobre a mesa tinham flores. Só o copo da minha continuava vazio.

(…)

Uma manhã apareci com uma flor para minha professora. Ela ficou muito emocionada e disse que eu era um cavalheiro. (…) E todos os dias fui tomando gosto pelas aulas e me aplicando cada vez mais. Nunca viera uma queixa contra mim de lá.

(…)

A escola. A flor. A flor. A escola…

Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou a flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza.

Quando terminou a aula, me chamou.

- Quero falar uma coisa com você, Zezé. Espere um pouco.

Ficou arrumando a bolsa que não acabava mais. Se via que não estava com vontade nenhuma de me falar e procurava coragem entre as coisas. Afinal se decidiu.

- Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zezé. É verdade?

Balancei a cabeça, afirmativamente.

- Da flor? É, sim senhora.

- Como é que você faz?

- Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta.

- Sim, mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso. Isso não é um roubo, mas já é um “furtinho”.

- Não é não, D. Cecília. O mundo não é de Deus? Tudo que tem no mundo não é de Deus? Então as flores são de Deus também…

Ela ficou espantada com a minha lógica.

- Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro… E eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.

Ela engoliu em seco.

- De vez em quando a senhora não me dá dinheiro para comprar um sonho recheado, não dá?

- Poderia lhe dar todos os dias. Mas você some…

- Eu não podia aceitar todos os dias…

- Por quê?

- Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.

Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.

- A senhora não vê a Corujinha?

- Quem é a Corujinha?

- Aquela pretinha do meu tamanho que a mãe enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordão.

- Sei. A Dorotília.

- É, sim, senhora. A Dorotília é mais pobre do que eu. E as outras meninas não gostam de brincar com ela porque é pretinha e pobre demais. Então ela fica no canto sempre. Eu divido o sonho que a senhora me dá com ela.

Dessa vez ela ficou com o lenço parado no nariz muito tempo.

- A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela. A mãe dela lava roupa e tem onze filhos. Todos pequenos ainda. Dindinha, minha avó, todo sábado dá um pouco de feijão e de arroz para ajudar eles. E eu divido o meu sonho porque Mamãe ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre.

As lágrimas estavam descendo.

- Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e vou ser cada vez mais um aluno aplicado.

- Não é isso, Zezé. Venha cá.

Pegou as minhas mãos entre as dela.

- Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso, Zezé.

- Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso. A senhora diz isso porque não me conhece em casa.

- Não tem importância. Pra mim você tem. De agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma. Você promete?

- Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio?

- Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu esta flor foi o meu melhor aluno. Está bem?

Agora ela ria. Soltou minhas mãos e falou com doçura:

- Agora pode ir, coração de ouro …

(…)”

in “O Meu Pé de Laranja Lima” de José Mauro de Vasconcelos

Terminei de ler…

Terminei de ler…

O conto da ilha desconhecida e já o inseri no meu cronograma de aulas e já o enviei aos meus amigos leitores. Saramago, simplesmente, sabe o segredo. Nestes dias, quando eu termino de ler um escrito seu, tenho, simplesmente, a vontade de me sentar em Lanzarote com ele, na varanda, a vê-lo com os seus cachorros e a esperar que o mestre me diga qualquer palavra - após os minutos de um silêncio imperativo e essencial enquanto esperamos juntos que Pilar nos traga o chá.

Para falar de amor (e com amor)

Para falar de amor (e com amor)

foto by  Alena Cairo

Namorados devem ter identidade. Namorados precisam ter intimidade. Namorados precisam se conhecer. Para poder amar, para poder gostar, para sentir tesão. Uma forma importante de estreitar os laços do amor é partilhar as nossas leituras preferidas com aquele que a gente ama.  Virá o debate, o discurso do outro e a visão de mundo que se somará ao que lemos e ao que somos.

Ler as mesmas palavras e ouvir o que o outro pensa é importante para conhecermos quem amamos. De repente, talvez ‘do riso faça-se o pranto’ e descubramos não ter tanta afinidade assim com quem nos parece tão grande amor. Não é questão de concordar invariavelmente, de obter aquiescência muda ou silêncio temeroso face às discordâncias. Mas significa projetar o diálogo, construir os pilares das longas conversas que o futuro pode lhes reservar em noites longas à luz da Lua e ao sabor do vinho.

Porque relação não se constrói de aparência, mas do cotidiano comezinho, idiossincrático que inclui dor de barriga e mau humor, mas que se abre em possibilidades de amar quando há espaço para o riso, a brincadeira e o conVERSAR. Versemos, então.

 

Como sugestão de um presentinho muito acessível, meu livro preferido de Saramago: Ensaio sobre a cegueira (custa R$30,00 na Siciliano ou Saraiva).  Como o amor é cego, nem precisa dizer que vale a pena ler.

Se o seu amor é leitor assíduo e apaixonado, certamente que conhece e já leu há muito Ensaio sobre a cegueira. Para não perder o espaço da indicação, sugiro então que lhe dê Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido (pela bagatela de R$23,90), um primor de leitura, uma ode de amor à mulher , uma ode ao amor.

Se ele gosta de religião, para pensar ( e pensarem juntos), vale O Evangelho segundo Jesus Cristo.

Outra leitura imperdível: A caverna, do mesmo autor. Nem preciso dizer que sou fã, não é?

Ah, mais uma coisinha: fuja dos presentes óbvios. Se o seu amor é professor, provavelmente pode estar cansado de tantos livros e prefira algo mais pessoal, afinal ele lê todos os dias. Se é desportista, talvez ganhar um short ou bermuda de malhação não seja a melhor idéia. É preciso conhecer bem quem vamos presentear, conhecer bem quem amamos. Para falar a verdade, eu nunca entendi dizerem ser difícil presentear. Com amor, tudo fica muito mais fácil. Presente difícil é aquele dado por obrigação ou mesura social.

http://bmpr4ever.blogs.sapo.pt/  http://bmpr4ever.blogs.sapo.pt/ http://bmpr4ever.blogs.sapo.pt/ http://bmpr4ever.blogs.sapo.pt/ 

Com a palavra, Pablo Neruda:

“O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.”

Pablo Neruda

O amor está no ar!

O amor está no ar!

Angustiada com os preços nada apaixonantes do shopping?

Seus pobremas se acabaram-se (risos).

foto by  Alena Cairo

Você vai precisar de pouco dinheiro (mas de muito amor).

Uma caixinha de tamanho 11 cm X 9 cm X 3,5 cm .

 foto by  Alena Cairo

Um bloquinho de anotações tamanho de bolso. Há várias opções lindas que combinam com o estilo do seu amor, com certeza.

foto by  Alena Cairo

Papel de seda branco e laço de fita vermelha.

foto by  Alena Cairo

Na primeira página, escreva uma mensagem especial para o seu amor.

Capriche no laço e enlace o presente em carinho. Fica simplesmente muito meigo.

foto by  Alena Cairo

 foto by  Alena Cairo

(Gasto total: R$ 14,80. Viu que cabe no bolso?  Produtos da Arte em Papel)

http://bmpr4ever.blogs.sapo.pt/ http://bmpr4ever.blogs.sapo.pt/ http://bmpr4ever.blogs.sapo.pt/ http://bmpr4ever.blogs.sapo.pt/ 

Para falar de amor, convido com reverência o meu poeta Carlos Drummond de Andrade:

“Reconhecimento do Amor”
Carlos Drummond de Andrade

Amiga, como são desnorteantes
Os caminhos da amizade.
Apareceste para ser o ombro suave
Onde se reclina a inquietação do forte
(Ou que forte se pensa ingenuamente).
Trazias nos olhos pensativos
A bruma da renúncia:
Não querias a vida plena,
Tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,
Não pedias nada,
Não reclamavas teu quinhão de luz.
E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda.

Descansei em ti meu feixe de desencontros
E de encontros funestos.
Queria talvez – sem o perceber, juro -
Sadicamente massacrar-se
Sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam
Desde a hora do nascimento,
Senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História,
Ou mais longe, desde aquele momento intemporal
Em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
No caos universal

Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
Sua espada coruscante, seu formidável
Poder de penetrar o sangue e nele imprimir
Uma orquídea de fogo e lágrimas.

Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
Em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
Que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
Ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
O Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
Quando – por esperteza do amor – senti que éramos um só.

Amiga, amada, amada amiga, assim o amor
Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo
Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas.
Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos,
E a pura essência em que nos transmutamos dispensa
Alegorias, circunstâncias, referências temporais,
Imaginações oníricas,
O vôo do Pássaro Azul, a aurora boreal,
As chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos,
Todas as imposturas da razão e da experiência,
Para existir em si e por si,
À revelia de corpos amantes,
Pois já nem somos nós, somos o número perfeito: UM.

Levou tempo, eu sei, para que o Eu renunciasse
à vacuidade de persistir, fixo e solar,
E se confessasse jubilosamente vencido,
Até respirar o júbilo maior da integração.
Agora, amada minha para sempre,
Nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar
A melodia, a paisagem, a transparência da vida,
Perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.

Sem fôlego pela verdade nua

Sem fôlego pela verdade nua

O Lord arrasou nesta semana:

“Na matemática de nossos sentimentos o amor não é uma abstração. Como corpo inteiro e exato diminui ao ser compartilhado. O mais interessante é que na criança a emoção é explícita, violenta, sem possibilidade de defesa. Dá pena ver o que faz com os bichinhos. Com o tempo, adultos, nos aperfeiçoamos em ocultar o que anda pelo coração. Pensamos que não sentimos o que sentimos. Guardamos em escaninhos dissimulados a dor congênita e fingimos que estamos bem. “

Teleanálise

Teleanálise

A jornalista e professora Malu Fontes publicou este texto no domingo de carnaval. Vale conferir!

A Tarde, domingo, 18 de fevereiro de 2007

TELEANÁLISE

AS MARCAS DA DIFERENÇA

MALU FONTES

“Camarote 2222/Aqui é o novo endereço/torça para ser convidado/até olhar de fora vale a pena”. Adornadas por desenhos alusivos a motivos carnavalescos e estampando a reluzente marca de refrigerantes que figura como uma das principais patrocinadoras do camarote, as frases acima parecem convidar a duas leituras igualmente irresistíveis levando em conta os contextos sociais e políticos. A primeira delas é que essas frases curtinhas, publicitárias, despretensiosas, são, na verdade uma negação arrivista daquilo que diz a logomarca do Governo Federal, governo, inclusive, que tem como ministro da Cultura o principal anfitrião do Camarote 2222, Gilberto Gil. Para quem não lembra, a logomarca do governo estampa: Brasil/Um país de todos/Governo Federal).

Pode-se dizer que inferência apontando para a negação do slogan do governo pelas frases do camarote é um ponto de vista subjetivo, uma questão de leitura pessoal, etc. e tal. Mas a segunda leitura tem como perspectiva o bom senso. Em um país em que só os alienados não enxergam que vivemos sob a ameaça da convulsão social e da intolerância entre as classes sociais do alto e da base da pirâmide, soa no mínimo inadequado um espaço festivo montado em torno de um ministro de estado promover a distinção social, a diferença, a característica de “para poucos” que se quer imprimir ao tal camarote e que de fato o caracteriza.

EMPADAS – As frases curtinhas não querem dizer outra coisa senão reforçar o quanto aquele espaço é para privilegiados que tenham a sorte (que passa pela condição sócio-econônica, estética ou pelo viés da fama) de serem escolhidos. Assinala, embora com alguma sutileza, que a ralé sem chance de torcer para ser convidada deve se dar por muito feliz em poder, do chão da rua, olhar para cima e admirar o olimpo e os olimpianos. Quem sabe até dá para ganhar uma latinha de cerveja quente ou um restinho de empadas jogadas generosamente lá de cima, como bem diz Carlinhos Brown em entrevista ilustrativa sobre o Carnaval de Salvador em A Tarde do último domingo.

Os camarotes se tornaram onipresentes no Carnaval de Salvador e representam hoje o próprio Brown chamou o ano passado de apartheid da festa, juntamente com as cordas que separam o povo e os blocos dos grandes artistas da festa. A camarotização tem como principais referências justamente os camarotes Expresso 2222, organizado pela mulher do ministro, Flora Gil, e o de Daniela Mercury, organizado pela promoter mais incensada da Bahia, Lícia Fábio. O primeiro está ancorado em R$ 2,5 milhões em cotas de patrocínio levantadas entre marcas líderes do mercado e o segundo em R$ 2 milhões.

TAPA – As marcas que bancam esses custos querem visibilidade em imagens na TV durante a festa, fotos, notas e matérias na imprensa local, nacional e na Internet. Por isso a lógica é só convidar gente interessante (geralmente gente famosa, influente, descolada ou rica). À revista Piauí, Flora Gil definiu o perfil de seus convidados: “convido puta, viado, artista, baiana de candomblé, tudo”. Deus sabe o que cabe nesse tudo, mas a mesma revista dá uma opção de resposta sobre quem é bem vindo nos camarotes vips:”é para cliente, gostosa e famosa”, diz o dono da AmBev, Paulo Lemann, patrocinador de 9 entre cada 10 camarotes desses cujas camisas são disputadas a tapa nos bastidores do high society baiano.

O fato é que em uma cidade em que os desinteressantes, segundo a semântica da gramática dos camarotes, são cada vez mais empurrados para os becos com cheiro de xixi ou se contentam em ficar olhando para cima para ver os privilegiados, são ilustrativas as frases de efeito da fachada do camarote onde o ministro receberá seus convidados. Nesse contexto, merece aplausos a iniciativa do mesmo Carlinhos Brown que fala em apartheid na festa. Depois do Camarote Andante, este ano uma das marcas da festa é o seu Bloco Pipocão.

Em um Carnaval que caminha a passos largos acentuando as desigualdades entre as pessoas que dele participam, qualquer iniciativa que contemple os sem abadá e sem camarote soam como formas de oxigenar o modelo da festa e servem para distinguir a condição de artista da condição de mero cantor de bloco ou de trio. Mas já que é Carnaval, vamos fingir que tudo é festa e criatividade, inclusive músicas que transformam até Deus numa persona poética abilolada. Com o caos do mundo transbordando, quem foi que disse que Deus pode parar para namorar, na beira do mar, ao mesmo tempo em que desenha gente perfeitinha, num sinal que nem mesmo sua suposta namorada merece sua atenção? Socorra-nos, Deus!

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. 

Não, não li…

Não, não li…

… Quando Nietzsche chorou. Então quem me pergunta isso me olha com aquela cara de “ô, coitada, não sabe nada da vida!”

E nada adianta eu explicar que já li Nietzsche, que penso Nietzsche, que não concordo com tudo que Nietzsche disse, que penso sobre o que ele ‘filosofou’, que acho O AntiCristo o melhor até hoje. Nada. Toda vez, ouço o comentário:

“- Ah, mas você tem que ler é “Quando Nietzsche chorou”.

Ai, Jisus! Protegei-me!

—————-***—————————

De presente, então, ofereço um pouco de Nietzsche para relembrar aos que o conhecem e para ampliar o repertório dos que souberam do tempo em que ele ‘chorou’:

“Os homens trataram até agora as mulheres como pássaros que, vindos das alturas, se perderam e vieram refugiar-se ao pé deles. Enfim, como algo de mais delicado, mais vulnerável, mais selvagem, mais esquisito, mais doce, com mais alma -  mas algo que se deve engaiolar, para que não fuja.”

“A estupidez na cozinha! A mulher como cozinheira! A horripilante insensatez com que cuida da alimentação da família e do dono da casa! A mulher não percebe o que a comida significa, e quer ser cozinheira! Se a mulher fosse um ser pensante, cozinhando já há milhares de anos, teria obviamente feito as maiores descobertas fisiológicas, e ter-se-ia tornado mestra na arte de curar! Devido às más cozinheiras, pela falta total de bom senso na cozinha é que foi mais retardada, mais prejudicada a evolução do homem. Veja que isso pouco melhorou nos nossos dias. Que sirva de aviso para as jovens meninas.” 

 

 ”O que na mulher inspira respeito e muitas vezes medo é a sua natureza, “mais natural” que a do homem, a sua genuína e astuciosa agilidade de animal feroz, a sua garra de tigre sob a luva, a sua ingenuidade no egoísmo, a impossibilidade de a educar e o seu instinto selvagem, as suas paixões e as suas virtudes inconcebíveis, vastas, inconstantes… Apesar do medo, o que faz com que tenhamos pena desta gata “mulher” perigosa e bela é que ela parece ser mais sofredora, mais vulnerável, mais necessitada de amor e mais condenada à desilusão do que qualquer outro animal.

Temor e compaixão: foi com estes sentimentos que até agora o homem se encontrou frente à mulher, já com um pé na tragédia, que dilacera na medida que encanta. Como? Isso ter-se-ia acabado agora? Estaria desaparecendo o encanto da mulher? Surge lentamente a mulher entediante? Ó Europa ! Europa! Conhece-se o animal com chifres* que para ti sempre foi o mais atraente, que representou sempre a ameaça para ti! A tua velha fábula podia mais uma vez tornar-se “história” – mais uma vez uma grande estupidez poderia apoderar-se de ti e arrastar-te! Nenhum deus estaria escondido sob ela, não!, apenas uma “idéia”, uma “idéia modernista”!

* O animal com cornos é o touro branco em que Zeus se transformou para raptar Europa.

________________________

NIETZSCHE, Friedrich. Para Além do Bem e do Mal – Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. Tradução Alex Clarins. São Paulo: Martin Claret, 2005. p. 154,156,159.

________________________

Créditos das imagens:

 http://www.marciomelo.com/2004/Mulherepassaro.jpg

http://static.flickr.com/55/147798575_c3b0d4eb48_o.jpg

(O Rapto de Europa: do pintor russo Valentin A. Serov)

O rapto de Europa segundo o pintor ruso Valentin A.Serov

Os sinos dobram por mim

Os sinos dobram por mim

Hoje eu quero apenas oferecer no blog o que eu oferecerei aos meus alunos do terceiro ano na segunda -feira, no módulo de Literatura: 

“Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

(John Donne, poeta inglês)

Borges

Borges

“Cada um de nós se define para sempre, num único instante de sua vida – instante esse em que cada qual se encontra para sempre consigo mesmo”. Jorge Luís Borges

Fico a pensar… será? Somos os múltiplos de nós? As poliprojeções que se abrem em leques infinitos de nossos anseios? Ou tendendo ao reducionismo, somos sim, uma essência mais profunda que se forma num átimo de tempo, exatamente aquele tempo em que nos encontramos conosco e nos descobrimos nós?

Recortes meus da leitura do dia: Jorge Luís Borges

Recortes meus da leitura do dia: Jorge Luís Borges

“Uma forma de felicidade é a leitura”.

“Um livro não deve exigir esforço; a felicidade não deve exigir esforço.”

“Sim. A poesia é cabalística, entre tantas outras coisas. (…) A poesia é algo tão íntimo que não pode ser definida.”

“(…) penso que é melhor sentir-se herdeiro que se sentir dono de algo que se transmite. Não sei se tenho alguma coisa. Mas sei que recebi muito. Talvez eu possa dar o que não tenho: possa dar a sabedoria, a prudência que não tenho, a imaginação que não tenho. De qualquer modo, creio que os escritores somos amanuenses de algo secreto, que se pode chamar, segundo a tradição homérica, de musa; segundo a tradição hebréia, ruach, o  espírito; ou segundo a feia mitologia moderna, inconsciente ou subconsciente; ou, segundo a bela expressão do grande poeta irlandês William Butler Yeats, a Grande Memória.”

 “O importante é a poesia, essa coisa misteriosa que não podemos definir, mas que sentimos e que pode surgir a qualquer momento.  (…)  Tudo é igualmente poético. Tudo é igualmente assombroso e inexplicável.”

Em liberdade

Em liberdade

“Não sinto o meu corpo, não quero senti-lo por enquanto. Só permito a mim existir, hoje, enquanto consistência de palavras. Estas combinam-se em certas frases que expressam pensamentos meus oriundos da memória afetiva e criados pelo acaso.

(…)

Paro de combinar frases.

Estou prenhe de frases como nunca estive. Todo o meu cérebro está funcionando como um imenso útero que fabrica, sem que tenha consciência, frases e mais frases. Quero acreditar que posso escrever como nunca escrevi. Sei que não posso. A produção das frases está aqui, na cabeça, e difícil é passá-las para o papel. O problema não está tanto na dificuldade em transcrevê-las. Basta fechar os olhos e entegrar-se ao automatismo surrealista da escrita. Encontrar uma razão para a necessidade de deixá-las existir no papel e no livro: eis a questão. Fora de mim e para o outro. Para isso sempre foi preciso “fazer ficção” das minhas palavras. Ou não.

(…)

O único motivo – pelo menos o mais forte – que vejo no momento para poder deitar as minhas frases no papel é que quero não sentir o meu corpo. Quero que todo o meu eu seja- agora e hoje – apenas um emaranhado pesado, denso e consistente de frases. Elas camuflam um corpo dolorido que não quer pensar nas dores sofridas que castigam os sentidos e a memória. Escrevo para não deixar que o meu corpo doente e massacrado exista, prossiga, influa, direcione, convença-me finalmente da sua importância e da sua riqueza para mim.”

Silviano Santiago (baseado em apontamentos de Graciliano Ramos  ao sair da prisão em 1937)

Citações

Citações

“Apenas as pessoas podem participar no amor. Todavia, não o encontram já pronto e preparado em si próprias. Se uma pessoa permitir que a sua mente, os seus hábitos e as suas atitudes se impregnem de desejos sexuais não encaminhados para um amor pleno, resultará que pouco a pouco se vá deteriorando a sua capacidade de amar verdadeiramente, e estará permitindo que se perca um dos tesouros mais preciosos que todo o homem pode possuir.

Se não se esforçar por retificar esse erro, o egoísmo far-se-á cada vez mais dono da sua imaginação, da sua memória, dos seus sentimentos, dos seus desejos, e a sua mente ir-se-á enchendo de um modo egoísta de viver o sexo.

Tenderá a ver o outro de um modo interesseiro, apreciará acima de tudo os valores sensuais ou sexuais dessa pessoa e fixar-se-á muito menos na sua inteligência, nas suas virtudes, no seu caráter ou nos seus sentimentos. O despertar do prazer erótico antes do tempo costuma ocultar a necessidade de criar uma amizade profunda e pura. Aliás, uma relação baseada apenas numa atração sensual, tende a ser flutuante pela sua própria natureza, e é fácil que em pouco tempo – ao desvanecer-se esse atrativo – acabe em decepção, ou até numa reação emotiva negativa, de antipatia e desafeto.”

Alfonso Aguiló

Ainda Cicarelli

Ainda Cicarelli

Acabei de receber um e-mail depreciativo, mas admiro a criatividade do brasileiro. Não quero reproduzir a imagem aqui, mas consiste num pacote de miojo com sabor galinha, da marca Cica / Knorr. No pacote, uma foto de Daniela e outra em sombra do vídeo, com o rapaz encaixado nela e a mão naquele lugar… Os dizeres por cima da fotografia do vídeo completam a graça da imagem trabalhada possivelmente em photoshop: É só esquentar na água e comer! De mau gosto, mas engraçado.

_____________________________________

Para desbancar os moralistas de plantão e os preconceituosos depreciativos, a imagem da campanha a favor da Cicarelli:

http://inconfidenciamineira.com/wp-content/deborakerr.jpg

E o poema do grande Vinícius de Moraes que estava linkado lá no meu post:

Balada da Praia do Vidigal

A lua foi companheira
na Praia do Vidigal.
Não surgiu, mas, mesmo oculta,
nos recordou seu luar.
Teu ventre de maré cheia
vinha em ondas me puxar,
eram-me os dedos de areia,
eram-te os lábios de sal.

Na sombra que ali se inclina
do rochedo em miramar,
eu soube te amar, menina,
na praia do Vidigal…
Havia tanto silêncio
que, para o desencantar,
nem meus clamores de vento
nem teus soluços de água.
 

Minhas mãos te confundiam
com a fria areia molhada,
vencendo as mãos dos alísios,
nas ondas da tua saia.
Meus olhos baços de brumas
junto aos teus olhos de alga
viam-te envolta de espumas
como a menina afogada.

E que doçura entregar-me
àquela mole de peixes,
cegando-te o olhar vazio
com meu cardume de beijos!
Muito lutamos, menina,
naquele pego selvagem
entre areias assassinas,
junto ao rochedo da margem.
Três vezes submergiste,
três vezes voltaste à flor
e te afogaras não fossem
as redes do meu amor.
Quando voltamos, a noite
parecia em tua face,
tinhas vento em teus cabelos,
gotas d’água em tua carne.
No verde lençol da areia,
um marco ficou cravado,
moldando a forma de um corpo
no meio da cruz de uns braços.
Talvez que o marco, criança,
já o tenha lavado o mar,
mas nunca leva a lembrança
daquela noite de amores
na Praia do Vidigal.

Vinícius de Moraes

Bilhete de Dona Flor ao romancista

Bilhete de Dona Flor ao romancista

  

“Caro amigo Jorge Amado, o bolo de puba que eu faço não tem receita, a bem dizer. Tomei explicação com dona Alda, mulher de seu Renato do museu, e aprendi fazendo, quebrando a cabeça até encontrar o ponto. ( Não foi amando que aprendi a amar, não foi vivendo que aprendi a viver?)

Vinte bolinhos de massa de puba ou mais, conforme o tamanho que se quiser. Aconselho dona Zélia a fazer grande de uma vez, pois de bolo de puba todos gostam e pedem mais. Até eles dois, tão diferentes, só nisso combinando: doidos por bolo de puba ou carimã. Por outra coisa também? Me deixe em paz, seu Jorge, não me arrelie nem fale nisso.  Açúcar, sal, queijo ralado, manteiga, leite de coco, o fino e o grosso, dos dois se necessita.(Me diga o senhor, que escreve nas gazetas: por que se há de precisar sempre de dois amores, por que um só não basta ao coração da gente? As quantidades, ao gosto da pessoa, cada um tem seu paladar, prefere mais doce ou mais salgado, não é mesmo? A mistura bem ralinha. Forno quente.)

Esperando ter lhe atendido, seu Jorge, aqui está a receita que nem receita é, apenas um recado. Prove do bolo que vai junto, se gostar mande dizer. Como vão todos os seus? Aqui em casa, todos bem. Compramos mais uma quota da farmácia, tomamos casa para o veraneio em Itaparica, é muito chique. O mais, que o senhor sabe, naquilo mesmo, não tem conserto quem é torto. Minhas madrugadas, nem lhe conto, seria falta de respeito. Mas de fato e lei quem acende a barra do dia por cima do mar é esta sua servidora. Florípedes Paiva Madureira dona Flor dos Guimarães.”

( Bilhete recente de dona Flor ao romancista)

( AMADO, Jorge. Dona Flor e seus dois maridos)

__________________________________________

 - Foto da edição da editora Record, página 3.

- Texto transcrito da página 10 do romance.

O soneto que não foi escrito

O soneto que não foi escrito

Mais um pouquinho de Jorge Amado, já que a FLIP começou ontem. Que arrepio é esse de pensar no show de Bethânia?

“O soneto que não foi escrito”

        ” O poeta Antônio Bruno faleceu, vítima de fulminante enfarte – o segundo em curto prazo – , a 25 de setembro de 1940. A manhã luminosa, de atmosfera límpida e temperatura amena, trouxera-lhe à memória outra manhã assim, diáfana, entrando pela clarabóia, iluminando o estúdiu parisiense, envolvendo, rósea e transparente camisola, o corpo nu da mulher adormecida. Visão digna de um soneto, pensara, mas não o escrevera pois a moça despertou e estendeu-lhe os braços.

         Ao recordar, tomou do papel e da caneta, e com sua bela caligrafia quase desenhada traçou no alto da página o que deveria ser um poema de amor: ” A Camisola de Dormir.” A lembrança tornou-se dolorosa, a saudade cruciante, ai, nunca mais! O poeta não teve tempo para um verso sequer: levou a  mão ao peito, arriou a cabeça em cima do papel, abriu vaga na Academia Brasileira.

        O  primeiro enfarte o acometera exatamente três meses antes, ao escutar, num programa de rádio, a notícia da queda de Paris.”

(Amado, Jorge. Farda Fardão Camisola de Dormir)

Mais Amado e mais Parati

Mais Amado e mais Parati

O Navio

” O apito do navio era como um lamento e cortou o crepúsculo que cobria a cidade. O capitão João Magalhães encostou-se na amurada e viu o casario de construção antiga, as torres das igrejas, os telhados negros, ruas calçadas de pedras enormes. Seu olhar abrangia uma variedade de telhados, porém da rua só via um pequeno trecho onde não passava ninguém. Sem saber por que, achou aquelas pedras, com que mãos escravas haviam calçado a rua, de uma beleza comovente. E achou belos também os telhados negros e os sinos das igrejas que começaram a tocar chamando a cidade religiosa para a bênção. Novamente o navio apitou  rasgando o crepúsculo que envolvia a cidade da Bahia. João estendeu os braços num adeus. Era como se estivesse se despedindo de uma bem-amada, de uma mulher cara ao seu coração.”

(AMADO, Jorge. Terras do Sem Fim)

_______________________

(Mais tarde a foto do casario de Parati)

Parati Julho de 2005

Parati Julho de 2005

FLIP e Amado

FLIP e Amado

Nesta próxima quarta, terá início a Festa Internacional Literária de Parati (FLIP). Infelizmente, não estarei lá. Ano passado, em julho, estive a passeio no litoral sul carioca e no litoral norte paulista. Um dos pontos altos da viagem apaixonante foi descobrir Parati. Lembro-me com muito gosto de que meus pais pescavam e estiveram em um torneio de pesca em Parati. Herdei deles o gosto pelas viagens, literárias e mundanas, mentais e físicas… E era incrível ouvir a voz doce de minha mãe ao falar de Parati. Sempre contemplando, absorta em suas recordações idílicas. Descobri Parati e também que talvez não haja lugar melhor para esta festa.

Vindo do litoral paulista, a chegada após costear a praia presenteia-nos com uma cidadezinha colonial, incrustada no cenário belíssimo da serra que abraça o mar. O casario encanta e lembra a Minas de Ouro Preto e Mariana, a Bahia do Pelourinho, de Santo Amaro da Purificação, de Lençóis, Ilhéus ou Valença.

Neste ano, oportunamente, o homenageado pela FLIP é baiano. Assim , não há como não celebrar a fusão entre Parati e o Jorge tão amados.

 

(foto Parati, julho de 2005)

” Melodia

O mar lhe mandou os ventos mais rápidos, lhe enviou o nordeste que atira o “Valente” para o cais da Bahia. Canoas que passam, saveiros que cruzam, jangadas que levam pescadores, batelões carregados de lenha lhe desejam boa viagem:

- Boa viagem, Guma…

Boa viagem que ele vai em busca de Lívia. A lua ilumina sua rota, o mar é uma estrada larga e boa. E o nordeste sopra, o terrível nordeste das tempestadaes. Mas agora ele sopra como amigo que o ajuda a transpor mais rápido esse braço de rio. O nordeste traz as canções da beira do rio, canções de mulheres lavadeiras, cantigas de pescadores. Os tubarões saltam nas ondas da entrada da barra. Há danças no navio iluminado que entra. À luz da lua, um casal conversa. “Boa viagem”, diz Guma  e sacode a mão. Eles respondem e ficam comentando, entre sorrisos, a saudação daquele marítimo desconhecido.

Ele vai buscar Lívia, ele vai buscar uma mulher bonita para oferecer ao mar. Não demorará muito a carne de Lívia terá o gosto da água salgada do oceano, os seus cabelos serão úmidos dos salpicos do mar. E cantará, no “Valente”, as canções do cais. Saberá da história de Besouro, da história do cavalo encantado, de todas as histórias de naufrágios. Será como um saveiro, o casco de uma canoa, uma vela, uma cantiga, apenas uma coisa do mar.

O nordeste sopra, empina as velas do “Valente”. Corre, saveiro, corre, que já brilham as luzes da Bahia. Já se ouve o baticum dos candomblés, a música dos violões, o triste gemer das harmônicas. Guma parece já ouvir a risada clara de Lívia. Corre, saveiro, corre.”

(AMADO, Jorge. Mar Morto.)

______________

Todos os dias da semana, então, um post a ambos. Com direito a fotos inéditas.

Com licença, eu vou à …

Com licença, eu vou à …

… praia!

Porque hoje é sábado e o poeta cantou:

Vinãius de Moraes

O dia da criação

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens
[vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro
[das Origens, o Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes
[e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação
[da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da
[terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como
[as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois
[últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas
[cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos
[peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de
[cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do
[próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil,
[imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das
[terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos
[animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e
[estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até
[praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto
[Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

(MORAES, Vinícius de . Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro, Aguilar,1976.)

E o homem dançou.

E o homem dançou.

Este pretendente eu não pretendo. Que pretenso! PARTE II

Minha amiga me contou a conversa em que tentou seduzir o pretenso professor que a paquera:

- E aí, professor, você gosta de dança do ventre?(tom sensual, quase sussurrando )

- ô! (espanto) E  dança do ventre é para homem?

-  …

______________________________

Check list: RIIIIIIIIIIIIIIISSSSSSSSSSSSSSSSSSSCCCCCCCCCCCCCCC!