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Saramago sempre

Saramago sempre
Declaração
José Saramago
 
Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
nem morto está o fruto que tombou:
dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
respiram na cadência do meu sangue,
do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
na memória doutra mão perdurará,
como a boca guardará caladamente
o sabor das bocas que beijou.

Traduzo-me em outras palavras

Traduzo-me em outras palavras

“Se não tenho outra voz…

Se não tenho outra voz que me desdobre

em ecos doutros sons este silêncio,

é falar, ir falando, até que sobre

a palavra escondida do que penso.

(…)”

José Saramago

Calei-me por muito tempo.

Tempo necessário de luto.

Tempo necessário de escuridão.

Tempo imprescindível de silêncio particular.

Tempo cheio de medos e censuras alheias.

Tempo findo.

E o blog?

Agora vai indo.

Alena Cairo

Vid(inha)

Vid(inha)

Vid(inha)

- Nossa, mas você fará uma “festona” para sua filha?
- Sim, por quê?
- Isso é uma bobagem! Gastar dinheiro à toa.
- Mesmo? Você acha?
- Sim! Faça uma fest(inha) que tá bom. Ela nem vai notar…
- Será?

Era sim muita grana para uma mãe professora com salário de três dígitos apenas. Era sim uma “festona” com direito à decoração diferente, animação variada, muita guloseima e lembranc(inha), e com, até, o mágico mais famoso da cidade. Era sim uma festa de aniversário para 60 crianças e quase 100 jovens e adultos. Era sim uma comemoração dos sete anos de vida de uma menin(inha) linda, preciosa, única.

- Ah! Deixa de ser boba! Você pode gastar essa dinheirama com algo mais concreto.
- É?
- Sim, mulher! Coisas que ela precisa. Roupas, um brinquedo legal ou até guardar na poupança para quando ela crescer.
- Ah…

A histor(inha) acima ilustra a época em que vivemos. Mentira. Mostra os valores que cultivamos. Melhor dizendo, aponta para onde devemos olhar e crer. Festa é para quem tem cacau “sobrando”. Festa é “desperdício” de tutu. Quem nunca ouviu falar de meninas que trocam o tradicional debute por dinheiro? Sim. Fazer festa é gastar grana para “encher” a barriga dos outros. Deixa de ser boba… Aproveite SOZ(INHA).

Comemorar um aniversário “espetacular” é praticamente uma heresia para pobres e remediados – eta palavr(inha) feia e insensata! – pois é tido por um gasto com algo sem “utilidade”. Capital jogado no lixo!


- Pense bem quanta coisa você pode comprar com essa fortuna empregada numa fest(inha) de criança?
- É, poderia sim…
- Então! Faça um bol(inho) e chame uns amigu(inhos) que já está muito bom.
- Sei…
- Ela nem vai se lembrar disso depois. Pode apostar.
- Talvez…
- Vá por mim. Faça uns doc(inhos) e uns salgad(inhos), um enfeit(inho), uma vel(inha), uns balõez(inhos) e pronto!

Investir em sonhos, fantasia, afetos e bem-quereres parece cada vez mais um investimento arriscado e fora de propósito. Festão (para não ricos) está em baixa na bolsa de valores humanos. Ter a adrenalina do coração disparado durante um jogo com o palhaço; receber convidados, ter a companhia dos amigos, comer gostosuras, encher os olhos de beleza ao brilhar da purpurina, gargalhar perto de quem se ama, explodir de alegria por que um monte de gente veio ao seu aniversário parecem privilégio de poucos afortunados. Guardar na memória cheiros e emoções só a preços baixos.

Celebrar o aniversário é investir em acolhimento. É enaltecer um ser humano que nasceu e vive por mais um ano. É desprendimento e generosidade para com o outro. É cortesia. É reverência. Uma festa de aniversário grandiosa por parte daquele que não tem “sobrando” pode ser a tradução de uma mensagem cada vez mais difícil de repassar: não tenha uma vid(inha), você é importante tanto quanto outro qualquer.

Depois que o “big é big” pára cada um retorna ao lar e a aniversariante de sete anos, que mal se contém de felicidade, deita na cama com os olhos brilhando e diz “mamãe hoje é o dia mais feliz da minha vida”. E isso não tem preço. Ou melhor, custou uma dinheirama… Mas não em vão para quem pretende ofertar um “vidão” de afetos, amizades, vínculos, e valores; para quem talvez queira mostrar aos filhos que há valores mais abstratos (do que concretos em si) que valem o cultivo.

Não era uma fest(inha) qualquer, artificial, comprada, banal, e sim um festão construído pedaço por pedaço; pensado e preparado para ser o maior, o melhor, o mais bonito, o espetacular, simplesmente por que aquele dia era para dizer à filha quanto ela é única e merece aplausos. Muitos aplausos da vida.”

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Texto publicado em : http://criandoespacos.blogspot.com/2008/03/vidinha.html

Não é de minha autoria.

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Já faz mais de dois anos e eu até hoje choro… eu amo este texto.

É oportuno para mim de novo. Estão todos tentando me convencer a não festejar a vida de minha filha, a não bater palmas para ela, a não bater palmas para mim, para os nossos, a não me encher cercada dos meus de alegria, eu que sou a mãe dela, que a amo tanto. Tudo porque fazer um festão é jogar dinheiro fora, encher a barriga dos outros. Que outros são estes? São as pessoas que me são caras, que me são especiais, são as pessoas que se importam comigo e com a minha filha.

Uma flor para minha professora

Uma flor para minha professora

“- Menina, onde é que você vai com essa flor?

Ela era limpinha e trazia na mão o livro e o caderno encapados. Usava duas trancinhas.

- Levo para minha professora.

- Por quê?

- Porque ela gosta. E toda aluna aplicada leva uma flor para a professora.

- Menino também pode levar?

- Gostando da professora pode.

- Ah! é?

- É.

Ninguém tinha levado uma flor sequer para minha professora D. Cecília Paim. Devia ser porque ela era feia. Se ela não tivesse uma pintinha no olho, não era tão feia. Mas era a única que dava um tostão pra mim para comprar sonho recheado no doceiro de vez em quando, quando chegava o recreio.

Comecei a reparar nas outras aulas e todos os copos sobre a mesa tinham flores. Só o copo da minha continuava vazio.

(…)

Uma manhã apareci com uma flor para minha professora. Ela ficou muito emocionada e disse que eu era um cavalheiro. (…) E todos os dias fui tomando gosto pelas aulas e me aplicando cada vez mais. Nunca viera uma queixa contra mim de lá.

(…)

A escola. A flor. A flor. A escola…

Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou a flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza.

Quando terminou a aula, me chamou.

- Quero falar uma coisa com você, Zezé. Espere um pouco.

Ficou arrumando a bolsa que não acabava mais. Se via que não estava com vontade nenhuma de me falar e procurava coragem entre as coisas. Afinal se decidiu.

- Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zezé. É verdade?

Balancei a cabeça, afirmativamente.

- Da flor? É, sim senhora.

- Como é que você faz?

- Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta.

- Sim, mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso. Isso não é um roubo, mas já é um “furtinho”.

- Não é não, D. Cecília. O mundo não é de Deus? Tudo que tem no mundo não é de Deus? Então as flores são de Deus também…

Ela ficou espantada com a minha lógica.

- Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro… E eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.

Ela engoliu em seco.

- De vez em quando a senhora não me dá dinheiro para comprar um sonho recheado, não dá?

- Poderia lhe dar todos os dias. Mas você some…

- Eu não podia aceitar todos os dias…

- Por quê?

- Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.

Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.

- A senhora não vê a Corujinha?

- Quem é a Corujinha?

- Aquela pretinha do meu tamanho que a mãe enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordão.

- Sei. A Dorotília.

- É, sim, senhora. A Dorotília é mais pobre do que eu. E as outras meninas não gostam de brincar com ela porque é pretinha e pobre demais. Então ela fica no canto sempre. Eu divido o sonho que a senhora me dá com ela.

Dessa vez ela ficou com o lenço parado no nariz muito tempo.

- A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela. A mãe dela lava roupa e tem onze filhos. Todos pequenos ainda. Dindinha, minha avó, todo sábado dá um pouco de feijão e de arroz para ajudar eles. E eu divido o meu sonho porque Mamãe ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre.

As lágrimas estavam descendo.

- Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e vou ser cada vez mais um aluno aplicado.

- Não é isso, Zezé. Venha cá.

Pegou as minhas mãos entre as dela.

- Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso, Zezé.

- Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso. A senhora diz isso porque não me conhece em casa.

- Não tem importância. Pra mim você tem. De agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma. Você promete?

- Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio?

- Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu esta flor foi o meu melhor aluno. Está bem?

Agora ela ria. Soltou minhas mãos e falou com doçura:

- Agora pode ir, coração de ouro …

(…)”

in “O Meu Pé de Laranja Lima” de José Mauro de Vasconcelos

Terminei de ler…

Terminei de ler…

O conto da ilha desconhecida e já o inseri no meu cronograma de aulas e já o enviei aos meus amigos leitores. Saramago, simplesmente, sabe o segredo. Nestes dias, quando eu termino de ler um escrito seu, tenho, simplesmente, a vontade de me sentar em Lanzarote com ele, na varanda, a vê-lo com os seus cachorros e a esperar que o mestre me diga qualquer palavra - após os minutos de um silêncio imperativo e essencial enquanto esperamos juntos que Pilar nos traga o chá.

Não, não li…

Não, não li…

… Quando Nietzsche chorou. Então quem me pergunta isso me olha com aquela cara de “ô, coitada, não sabe nada da vida!”

E nada adianta eu explicar que já li Nietzsche, que penso Nietzsche, que não concordo com tudo que Nietzsche disse, que penso sobre o que ele ‘filosofou’, que acho O AntiCristo o melhor até hoje. Nada. Toda vez, ouço o comentário:

“- Ah, mas você tem que ler é “Quando Nietzsche chorou”.

Ai, Jisus! Protegei-me!

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De presente, então, ofereço um pouco de Nietzsche para relembrar aos que o conhecem e para ampliar o repertório dos que souberam do tempo em que ele ‘chorou’:

“Os homens trataram até agora as mulheres como pássaros que, vindos das alturas, se perderam e vieram refugiar-se ao pé deles. Enfim, como algo de mais delicado, mais vulnerável, mais selvagem, mais esquisito, mais doce, com mais alma -  mas algo que se deve engaiolar, para que não fuja.”

“A estupidez na cozinha! A mulher como cozinheira! A horripilante insensatez com que cuida da alimentação da família e do dono da casa! A mulher não percebe o que a comida significa, e quer ser cozinheira! Se a mulher fosse um ser pensante, cozinhando já há milhares de anos, teria obviamente feito as maiores descobertas fisiológicas, e ter-se-ia tornado mestra na arte de curar! Devido às más cozinheiras, pela falta total de bom senso na cozinha é que foi mais retardada, mais prejudicada a evolução do homem. Veja que isso pouco melhorou nos nossos dias. Que sirva de aviso para as jovens meninas.” 

 

 ”O que na mulher inspira respeito e muitas vezes medo é a sua natureza, “mais natural” que a do homem, a sua genuína e astuciosa agilidade de animal feroz, a sua garra de tigre sob a luva, a sua ingenuidade no egoísmo, a impossibilidade de a educar e o seu instinto selvagem, as suas paixões e as suas virtudes inconcebíveis, vastas, inconstantes… Apesar do medo, o que faz com que tenhamos pena desta gata “mulher” perigosa e bela é que ela parece ser mais sofredora, mais vulnerável, mais necessitada de amor e mais condenada à desilusão do que qualquer outro animal.

Temor e compaixão: foi com estes sentimentos que até agora o homem se encontrou frente à mulher, já com um pé na tragédia, que dilacera na medida que encanta. Como? Isso ter-se-ia acabado agora? Estaria desaparecendo o encanto da mulher? Surge lentamente a mulher entediante? Ó Europa ! Europa! Conhece-se o animal com chifres* que para ti sempre foi o mais atraente, que representou sempre a ameaça para ti! A tua velha fábula podia mais uma vez tornar-se “história” – mais uma vez uma grande estupidez poderia apoderar-se de ti e arrastar-te! Nenhum deus estaria escondido sob ela, não!, apenas uma “idéia”, uma “idéia modernista”!

* O animal com cornos é o touro branco em que Zeus se transformou para raptar Europa.

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NIETZSCHE, Friedrich. Para Além do Bem e do Mal – Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. Tradução Alex Clarins. São Paulo: Martin Claret, 2005. p. 154,156,159.

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Créditos das imagens:

 http://www.marciomelo.com/2004/Mulherepassaro.jpg

http://static.flickr.com/55/147798575_c3b0d4eb48_o.jpg

(O Rapto de Europa: do pintor russo Valentin A. Serov)

O rapto de Europa segundo o pintor ruso Valentin A.Serov

Borges

Borges

“Cada um de nós se define para sempre, num único instante de sua vida – instante esse em que cada qual se encontra para sempre consigo mesmo”. Jorge Luís Borges

Fico a pensar… será? Somos os múltiplos de nós? As poliprojeções que se abrem em leques infinitos de nossos anseios? Ou tendendo ao reducionismo, somos sim, uma essência mais profunda que se forma num átimo de tempo, exatamente aquele tempo em que nos encontramos conosco e nos descobrimos nós?

Recortes meus da leitura do dia: Jorge Luís Borges

Recortes meus da leitura do dia: Jorge Luís Borges

“Uma forma de felicidade é a leitura”.

“Um livro não deve exigir esforço; a felicidade não deve exigir esforço.”

“Sim. A poesia é cabalística, entre tantas outras coisas. (…) A poesia é algo tão íntimo que não pode ser definida.”

“(…) penso que é melhor sentir-se herdeiro que se sentir dono de algo que se transmite. Não sei se tenho alguma coisa. Mas sei que recebi muito. Talvez eu possa dar o que não tenho: possa dar a sabedoria, a prudência que não tenho, a imaginação que não tenho. De qualquer modo, creio que os escritores somos amanuenses de algo secreto, que se pode chamar, segundo a tradição homérica, de musa; segundo a tradição hebréia, ruach, o  espírito; ou segundo a feia mitologia moderna, inconsciente ou subconsciente; ou, segundo a bela expressão do grande poeta irlandês William Butler Yeats, a Grande Memória.”

 “O importante é a poesia, essa coisa misteriosa que não podemos definir, mas que sentimos e que pode surgir a qualquer momento.  (…)  Tudo é igualmente poético. Tudo é igualmente assombroso e inexplicável.”

TPM

TPM

Navegando sem destino por aí, ri de me acabar agora. Veja os quadrinhos do Angeli do blog azeitona na empadalheia .

Vamos ao texto:

Alguém aí tem TPM? Não, não, não falo da tradicional, da que a maior parte das mulheres tem. Enquanto todas viram bicho, no pré-menstrual, eu, simplesmente, fico linda, me acho, não caibo em mim… sou gentil e feminina, tenho apetite sexual, alegria e o diabo a quatro. Aí vem a  benedeta! Chega, não tenho cólica, não me incomoda, nem ligo… fora este ou aquele incoveniente de sentir vontade de tomar 32 banhos.

Então a fulana vai embora… Primeiro dia, tudo oba! No segundo ou terceiro depois que ela zarpa… ETA! Começa o problem. Eu tenho Tensão PÓS-MENSTRUAL. Alguém já estudou isso? Definho, definho, definho… como 25 chocolates, encho de espinhas uns três dias, fico intolerante, me dá uma  megahiperinconsolável depressão…Choro, me sinto feia, a pior de todas, nenhuma roupa presta, olho-me no espelho e me dá vontade de fazer uma plástica para mudar tudinho… até o crânio pra outro formato. Olhar a barriga nem se fala, as coxas? Piorou. Se pudesse, não saía, me intocava para sempre pelos 4 dias do processo. Às vezes, dura seis ou sete. Uia!

Nem amiga, nem aluno, nem love, nada… fico incomunicável…e já percebi que ainda tem mais: se for na Lua cheia, sai de baixo, aí eu provoco só para brigar.

Demorei anos a perceber… pensava ser temperamental apenas, não havia associado aos hormônios e às fases lunares. Neste período, só uma coisa ameniza o processo: caminhar na orla ou fazer ginástica. O diabo é eu em TPM(pós) entender isso…

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Tive uma idéia: vou incluir no lattes a minha segunda pós: pós-menstrual. Sou doutora já.  Quase PhD.

Eliana, minha mãe

Eliana, minha mãe
    Minha mãe... às vezes , triste , me pergunto se ela realmente existiu... Noutras, saudosa, não tenho dúvida nenhuma pelo seu gigantismo. 
    Minha mãe… às vezes , triste, me pergunto se ela realmente existiu… Noutras, saudosa, não tenho dúvida nenhuma pelo seu gigantismo.
    Ela sorria, trabalhava, suava,
    Ela cantava, ninava, consolava.
    Ela fazia carinho, ralhava se fizéssemos ou pensássemos besteiras (sim, ela lia os nossos pensamentos).
    Ela não chorou na nossa frente, ela não mostrou dor, não mostrou medo. Não foi fraca nem pequena: super heroína de nossa história.
    Um dia, vi que minha mãe ia morrer e quis que fosse logo ou fosse eu. Descobri então como é ruim pedir a morte de quem eu amava tanto. Mas ela, gigante, já não vencia o câncer. Na última noite, saí do hospital, peguei as meninas e fui para a nossa casa. Banho e sono: todas dormindo porque eu sabia que só assim ela iria embora. Às 4h55, o telefone tocou. Fechei os olhinhos apertados como quando eu tinha medo. Rezei por ela um Pai Nosso e uma Ave Maria. Levantei-me e precisei abreviar a cara de desespero de minha prima assistente social: talvez a pior vez em que deu a derradeira notícia. Eu disse as palavras que ela engoliu.
    Depois de tudo encaminhado, nenhuma lágrima até então. Meu coração sangrava eterno. Eu sabia que a falta seria para sempre. Um dia, anos antes, entendi: a minha avó velhinha chorava. Perguntei-lhe o porquê das lágrimas e ela me disse: ô, minha neta, hoje eu acordei com saudades de minha mãe. Eu nem conhecera a bisavó, mas percebi que se minha avó ainda chorava por ela, quarenta anos após sua morte, a falta era eterna. Como a que eu sentiria.
    o dia em que me diplomaram leitora. Só as mães têm três filhos e ainda usam salto alto. 
    Eu descobrira, no tempo em que eu nem sonhava que a minha mãe morreria, na biblioteca empoeirada da faculdade, a canção do poeta que para sempre estaria em mim:
    Para sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.


Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

"Roubei o poema e a declamação de Drummond acima desta página: clique aqui.

Esta música é também um lamento… Clique na canção POEMA, leia sua letra e ouça a canção. Basta seguir o link.

Poema
Cazuza
Frejat

Eu hoje tive um pesadelo / E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo / E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho /E lembrei de um tempo Porque o passado me traz uma lembrança
De um tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço, um consolo

Hoje eu acordei com medo / Mas não chorei nem reclamei abrigo / Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro /
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim /                      E que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado / Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás