Arquivo da categoria: Poema

Metáfora ou não

Metáfora ou não

Descobri há pouco que meu relógio parou.

Se o relógio parou, parou meu tempo de coisas ruins.

Parei um tempo para cuidar de mim.

Parei no tempo com uma taça de vinho e tagliarini com gambas feito por mim em papo dez com amiga de infância.

Parei um tempo para curtir o descanso, desacelerar, sentir o tempo passar bom.

Parei para boiar na piscina.

Parei deitada de costas no deck molhado só sentindo a fluidez de ser humano.

Parei para ver minha filha sorrir.

Parei para ver as crianças brincando.

Parei para andar de bicicleta.

Parei e senti o vento no rosto.

Parei e tomei banho de rio, fiz ecoturismo e andei em turma.

Parei e vi que algumas coisas não se encaixam mais, não prestam mais, venceram a validade.

Tudo para o lixo.

Parei para tomar providências legais que há muito deveriam.

Parei o tempo e cuidei de mim.

Parei meu tempo e sorri.

Parei e nem percebi.

E foi muito bom.

Pressa? Nenhuma.

Há tempo. Sempre.

Carpe Diem

Carpe Diem

 

O desejo é irracional.  E ele pulsa. Pulsa. Pul…sa.

Dispensa explicações.

Coração em descompasso.

O sangue correndo tão vida em meu corpo.

Olfato aguçado, buscando o teu cheiro másculo.

Os ouvidos? Surdos por causa do coração batendo uterinamente – e tão alto.

É a boca entreaberta desejando explorar seu corpo, senti-lo próximo.

Sobrancelhas arqueadas como desafio,

prescrutando a correspondência do que se sente,

indagando inquisidoras se seus olhos tão miúdos me enxergam com o véu turvo do desejo.

Então olvido o mundo.

O exterior.

O outro.

As ideias e os conceitos.

Também as culpas que agrilhoam o meu suor, este que só quer, como rio para o mar, ir ao encontro do teu.

Olvido os então questionamentos racionais que tentam – em vão! – estancar meus fluidos… impedir a vida de fluir. E fruir.

Carpe Diem.

Traduzo-me em outras palavras

Traduzo-me em outras palavras

“Se não tenho outra voz…

Se não tenho outra voz que me desdobre

em ecos doutros sons este silêncio,

é falar, ir falando, até que sobre

a palavra escondida do que penso.

(…)”

José Saramago

Calei-me por muito tempo.

Tempo necessário de luto.

Tempo necessário de escuridão.

Tempo imprescindível de silêncio particular.

Tempo cheio de medos e censuras alheias.

Tempo findo.

E o blog?

Agora vai indo.

Alena Cairo

Proibido ser mulher

Proibido ser mulher

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É proibido ter passado.

 É proibido ser quem você é.

 

É proibido não ser virgem.

É proibido ter amado.

É proibido ter morado junto.

É proibido ter sentido desejo.

Na mente, no corpo, no sexo.

 

 

É proibido gozar.

Gozar é feio.

Mulher não goza.

Mulher não trepa.

 

 

É proibido fazer dieta.

É proibido fazer escova.

É proibido pintar as unhas de vermelho.

É proibido usar decote.

É proibido receber os amigos em casa.

É proibido ter casa se não se casa.

 

 

É proibido sair à noite sozinha, voltar para casa tão tarde.

 

Mulher não deveria beber.

Mulher não deveria saber.

Mulher não deveria querer.

Nem trabalhar.

Nem pagar suas contas.

Nem trepar.

 

Mulher abaixa a cabeça.

Mulher fala manso.

Mulher não diz palavrão.

Mulher não sente tesão.

 

Mulher é educada.

Mulher é mosca morta.

Mulher não se vinga.

Mulher não grita, não quebra prato, não se irrita.

 

Mulher não bebe muito.

Mulher não bebe cerveja.

Mulher nem bebe.

Só água, sucos e coquetéis sem álcool.

 

Mulher não vai ao estádio.

Mulher não vê jogo.

Mulher não anda em bar.

Mulher não conta piada.

Mulher é a piada na cabeça de machistas anacrônicos de plantão.

 

 

Conte-me outra.

Se assim é,

não posso ser uma mulher.

 

Mulher, meu caro, é tudo que se quer.

Ser.

 

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Ser

Ser

Você é aquilo que é.

E mais um pouco do que pensam de você.

Você é a projeção de seus fantasmas.

A loucura de suas desconfianças.

A explosão da revolta adulta que a sua infância impotente não lhe permitiu.

Você é o que o mundo lhe cobra e por isso é também o sufoco de seus quereres.

Eu vi a cara da morte

Eu vi a cara da morte

A cara da morte é desfiguração.

Os olhos ficam embaçados e perdem o viço.

Uma nuvem quer apagar a vida enquanto o corpo ainda resiste,

relutante, a aceitar que  perece.

A névoa apaga o olhar.

Tira-lhe o brilho, tira-lhe as lembranças.

O corpo fenece lentamente, treme um pouco, sua.

Frio, muito frio.

.

Um gemido agoniado,

um revirar de olhos,

um suspiro de quem não queria ir.

É findo. Terminou.

.

Os vasos entopem, o líqüido derrama.

Pinga do corpo estendido: necrotério de sonhos.

Mãe.

Um dia

Um dia

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Um dia a gente se cansa

de ter sido tantas vezes girassol:

rodar em torno de si,

com raízes fincadas na terra

a mirar um sol que se põe distante

porque ilumina outros planetas.

.

Neste dia, leoa, leonina,

mulher e menina

se descobrem sol,

astro, luz, força, fogo e calor.

E renasce criança, moça de dourados sonhos.

E é a vida

E é a vida

Previsão

Premonição

Estratégia

Reflexão

Planos

Projetos

Sonhos

Tentativa de manipulação.

Não, a vida não está na palma da mão.

                        Além da esquina, há o que não sabemos.

Sem que se espere, cratera, tsunami, tempestade, furacão.

Os ventos alísios alisam os sonhos,

embalam o homem,

adormecem a mulher.

A vida é mais que sol e chuva fresca.

Cinzas

Cinzas

No convento,

elas vestem o hábito.

O cabelo se esconde,

o corpo não se delineia.

Nos pés, as sandálias de couro

ou as sapatilhas.

A repressão não cheira,

não tem odor.

Descubro-me a pensar

que são mulheres…

Deus, a cor da roupa é

o fim do fogo feminino?

__________

Alena Cairo

Renascer

Renascer

Renascer a cada rasgo, a cada dor, a cada morte consumada.

Renascer para viver hoje , agora e daqui a pouco.

Renascer, apesar do cansaço, da ferida, do trauma, da desesperança.

Renascer mesmo com a desordem. O caos. A lama. O medo. A solidão.

Renascer para não morrer, desistir, abandonar-me.

Renascer, embora cansada de ser eterna fênix de mim mesma.

Que louco imperativo é a vida…

Livre ?

Livre ?

Não gosto de correntes,

de censuras,

de olhares que repreendem,

de canto de boca reprovador,

de vetos,

de falta de dinheiro,

de tempo

e de espaço.

Não gosto de falta de planos,

de jejum,

de horários insanos, 

de cobranças,

de agendas opressoras,

estressantes,

sem tempo para lazer.

Não gosto da obrigatoriedade,

da rotina que enfada,

da solidão que amarga,

de um prato sozinho na mesa.

Não gosto de camisinha,

da pílula que enjoa,

do sexo sem afeto,

pago

ou apenas casual.

Para brincar na gangorra: dois

Para brincar na gangorra: dois

Para o sofá: colo.

Para rir: companhia. 

Para cheirar: pescoço. 

Para deitar: cama larga. 

Para gozar: nós. 

Para dormir: a paz do depois.

Para a noite inteira: certeza de você comigo. 

Para o acordar: sorriso.

Para o celular: mensagem matinal.

Para a manhã: lembranças…

Para depois do almoço: um alô.

Para a tarde inteira: saudades.

Para todas as noites: sua chegada.

Para arrancar dos olhos o riso: chocolate.

Para fazer surpresa: sorvete.

Para apaixonados: uma rosa.

Para a sala: nossa música.

Para olhar e olhar e amar: você.

À deriva

À deriva

Sem rédeas.

Barra de direção quebrada.

Combustível na reserva.

Descarrilamento.

Manche emperrado.

Corrente travada.

Burro empacado.

Carro sem boi.

Pneu furado.

Vela rasgada.

Injeção entupida.

Blecaute no bonde elétrico.

Pernas cansadas.

Braços sem nado.

Sem nada.

Com licença, eu vou à …

Com licença, eu vou à …

… praia!

Porque hoje é sábado e o poeta cantou:

Vinãius de Moraes

O dia da criação

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens
[vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro
[das Origens, o Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes
[e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação
[da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da
[terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como
[as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois
[últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas
[cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos
[peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de
[cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do
[próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil,
[imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das
[terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos
[animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e
[estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até
[praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto
[Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

(MORAES, Vinícius de . Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro, Aguilar,1976.)

Pedaços

Pedaços

Hoje sou um pedaço de família:

mulher-ilha sozinha em minhas decisões.

Hoje precisei de um pedaço de homem:

seus braços fortes para me envolver.

Desejei outro pedaço, este atitudinal:

“pode deixar, minha filha, que eu resolvo tudo para você”.

Um pedaço do meu carro pifou:

o alarme encrecou e eu fiquei à deriva

no banco da frente, pedaço de mim,

esperando o seguro com motor bloqueado às 23 horas.

Um pedaço de meu cérebro lembrou

que eu tenho a mania de ler manuais

e tentei todos os pedaços de decisões

que os garanhões de plantão não conseguiram resolver.

Aperta daqui e dali, abre o capô, o painel de fusíveis,

gira a chave com pé na embreagem, gira a chave sem o pé na embreagem,

acelerei assim e assado, apertei botão, soltei botão, fiz isto, isso e aquilo…

Até que parei, pensei e decidi, sozinha:

pedaço de papel colado no vidro. Disquei o seguro.

Relaxei, tranqüilizei-me… Lembrei então o pedaço certo do manual…

tática aplicada, desbloqueio do motor do carro ativado!

Feliz, auto-suficiente e mulher.

Faculdade deserta, mais ninguém àquela hora.

Dispensei o seguro, voltei para casa.

Subi a escada escura meio melancólica.

Em casa, faltava o pedaço que eu queria.

Olhei a torta de nozes…

um pedaço, dois pedaços, três e quatro pedaços.

Depois de um terço da doçura digerido serotoninamente,

a dieta foi para o espaço… mais três morangos…

A essa altura,

e o coração?

Simples: está em pedaços.

 

 

Relicário desse amor

Relicário desse amor

O abraço anseia alcançar a inatingível

sensação do outro conosco.

Os olhos ora se fecham, entregues.

O peito convida a mão,

as costas oferecem-se fortes,

largos espaços de aconchego.

- É meia-noite, Cinderela.

A casa está silente e vazia.

Acorda de teu sonho.

Teu colchão  é macio, tua cama está limpa,

teus quatro travesseiros te esperam:

latifúndio de teus quereres.

- Não, não… volta, menina.

Volta aqui que ainda há ele.

Deita-te no sofá e procura

a inegável ternura de há pouco.

 

Teus olhos brilham, menina.

____________________________________________

Foto por mim  em 06/2006.

Fotografias

Fotografias

Eu nunca precisei dizer que fui feliz com ele:

as fotos sorriem todas.

E o olhar é doce, apaixonado.

As feições leves.

Paira amor em cada 10 por 15,

em cada 13 por 18,

nas raras 20 por 25.

São mais de seis mil alegrias legendadas.

Hoje acabou o tempo desse amor tão real.

Só as fotos o guardaram para contar a história.

Manhã

Manhã

A manhã seguinte

tem cheiro de beijo no cangote,

gosto de riso espalhado,

langor de pernas na cama.

Tem suspiro e sorriso,

lembrança da paz em teus olhos,

tão infinita, tão infinita…

que invade o azul da manhã e

se espraia pelo dia inteiro.

______

Alena Cairo

12/07/2006

Acalento-te…

Acalento-te…

Olhos que se perdem no infinito,

a sombra perpassa tua história

e tu pensas: o que fazer agora?

Se vislumbras outros caminhos,

há então pedras que te amarram ao passado.

Já não caminhas, talvez arrastes a sola cansada.

Há outros horizontes

talvez maiores ou melhores do que a nesga de céu que

tu podes ver agora.

Para enxergá-los, tu não precisas, olhos meus de oceano, de ninguém.

Precisas de que tuas pálpebras se fechem,

de que teu coração se sinta,

de que tua voz te fale e

de que possas , enfim,

ouvir quem és tu.

________________________

Alena Cairo 23h13

04/07/2006

Pequei

Pequei

Estudei em colégio de freiras, o que me rendeu um bom conhecimento bíblico. Mas não foi suficiente para me cegar. Não, ao contrário, depois de ter lido, criança, toda a obra de Lobato, eu só poderia ter o inconformismo da Emília. E pensei muito durante muito tempo se eu não estava querendo trocar abóboras de lugar com jabuticabas.

No Ensino Médio, que antes era segundo grau, conheci a obra do Boca do Inferno, pela qual passaram voando, voando, devido aos fundamentos religiosos, e do qual os professores disseram ser um poeta menor, um louco desbocado, acreditem.

Meus pais, entretanto, me disseram que a educação era o que de mais importante havia na vida e eu os amava tanto que acreditei sem hesitações. Sempre ia a fundo e, como eu já conhecia a Biblioteca Central naquele tempo, fui um sábado vadio passar a tarde lá. Encontrei o que queria: mais sobre Gregório. Depois disso, descobri, na casa de meu avô, homem culto do sertão nordestino, um exemplar da obra gregoriana. E me fascinei com a linguagem que tentaram me fazer crer descabida. Sozinha, entendi o que vinha a ser conceptismo e cultismo.

Depois das incursões gregorianas, virei professora e fui à luta. Ter que dar com 20 anos aulas no cursinho me fez estudar muito. E mais conheci de Gregório. A formação religiosa dará outro post, breve. Vamos ao que interessa: a culpa.

Minha mãe era extremamente rigorosa, de boa família e pautada pela decência, moral e pelos bons costumes. Por outro lado, viveu a geração paz e amor e lia demais, portanto não deixou de nos criar com o cerne da inquietação. Casa de tês filhas, bebemos a revolução e a anarquia que ela mesma cuidava de podar para que não desvairasse em galhos muito acintosos. Seus olhos reprovadores eram o super ego de qualquer uma de nós.

Livrei-me da cegueira religiosa, da cegueira de família latifundiária interiorana casada-para-todo-o-sempre-amém, da cegueira do que-é-que-os-outros-vão-pensar… Li O Anticristo, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Para Além do Bem e do Mal, e mais: poesia, contos machadianos, literatura universal etc etc etc… Se aquele que tinha Guerra no nome me influenciou em idade perigosa, aos 14, e mais tantos outros, como é que o Ministério de Educação diz que ler não faz mal (risos)?

Assim pude me libertar também dos olhos incriminadores dela, da luta entre o anjo e o diabo na minha consciência que se percebeu, simplesmente, humana e animal.

Deste modo, extirpo qualquer sombra de culpa e, ao meu pecado, brindo na Boca do Inferno onde talvez eu vá me aquecer do frio soteropolitano, bebendo o vinho de Baco:

A Jesus Cristo Nosso Senhor

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

Gregório de Matos Guerra ____________________________________________________________________

Genial, não? Pequem, ovelhas, Deus que nos venha salvar então!

Ah, nessa mesma escola, APRENDI o silogismo: Deus é amor. Quem ama perdoa. Então…

:) Ó divina desculpa !

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Evil o pecado veio à porta. E agora bate na aorta.

Duas Ismálias? Duzentas.

Duas Ismálias? Duzentas.

Ismálias…

Que tanto sonhas , ó louca criatura?
Em qual torre te prenderam? Em qual quarto picaste o dedo numa roca?
És adormecida, mulher?
És tecelã, Marina, morena?
Ou és Rapunzel, com tranças que te condenam e libertam?

Que tanto sonhas, Ismália?
Que luas são satélites de teu céu? Louca de ti que vês Luas ao léu.
Só Saturno, ELE, as tem.

Fica na Terra Ismália, pensa em ti.
Que teu canto seja alento, seja grito e seja guerra.

Voa Ismália, voa. Liberta-te de ti mesma.
Não esperes os engodos,
não sufoques os gemidos,
ama, Ismália, ama.

Ama-te, Ismália.
Ícaro é falso pássaro,
Dédalo o advertiu.
Se te puseram na torre, Ismália,
Desce de lá, desce já.

A vida, Ismália, é cá.

Alena Cairo 05/06/2006