Arquivo da categoria: Quem mandou eu falar???

Não me fale

Não me fale

Não. Não me fale.

Não me fale no silêncio necessário.

Não me fale nesse amor clandestino.

Não, não me fale.

I need your love.

E isso é tão óbvio…

Um viño me inebria… e essa m…ú…si…ca…

essa música, es-sa músi-ca…

nem toda a inocência do mundo a impediria de tocar em meus ouvidos agora,

sim, agora, agora….

É noite.  Nem está frio. Nem estou me sentindo só.  Nem o tesão me corrompe a  alma.

Oh, sim, sim…  sim… Un-break my heart toca em meu coração e tudo que eu queria era estar agora contigo num espaço que … sei lá… nem precisa existir no tempo nem na história… mas acontece aqui.  Aqui. Neste epaço de sonhar acordada.

Ah, deixa para lá?

Não. Não. definitivamente não.

Eu sou gente.

E menina.

E Alena.

E mulher.

In vino veritas

In vino veritas

É um jeito único. Um jeito só meu. É um deslizar das mãos por todo o seu corpo muito lentamente, muito intimidador… muito descobridor, muito próximo – mas no espaço do quase-não-tocar, do passear a milímetros invisíveis de distância da sua pele, cada pedaço das suas costas… chegando ao seu peito… ao ponto que, a esta altura, você já tem os olhos semicerrados, a boca entreaberta e é inevitável que ouça essa música tocar quando cada pelo dos seus braços e toda a sua nuca já estiver arrepiada , sim, sim, apenas por este quase toque  deslizante que acaba em beijo… ou promessa de clandestinidade.

PREOCUPAÇÕES MAIORES NO MOMENTO

PREOCUPAÇÕES MAIORES NO MOMENTO

A grande questão que me tem levado a não escrever muito é o excesso de trabalho e as adaptações necessárias ao novo emprego. Não que o trabalho seja exaustivo, ao contrário, mas é a ideia exata de organizar os procedimentos, percerber a burocracia, atender às demandas prontamente.

* * *

Outra questão é a grande dúvida se faço como a Ticcia, que expôs maravilhosamente bem a sua dieta no Megeras Magérrimas; ou a Nalu, que escreve no Pense Leve… ou mesmo se viro uma madame fininha e acabo escrevendo em outro blog, desta vez anonimamente. Estou meio sem saber se devo ou não expor minhas agruras para emagrecer o que um tempo com baixa autoestima me legou: muitos quilos extraordinários.

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Fase, por outro lado, de recomeço, de reencontro comigo, de redefinição de planos. Muita alegria interior e sensatez. S-E-N-S-A-T-E-Z. Não sabia bem que aprenderia realmente o significado calmo, lúcido, de sensatez.

Falta de pressa.

E, ao mesmo tempo, vontade de que fique logo tudo pronto.

* * *

Muitas leituras partidas, fracionadas. E eu, que menina, jamais supus que leria um meio livro na vida. Tenho hoje uma fila de cerca de 20 meios livros. Prioridades distintas. Filha. Trabalho. Falta de saco.

Prioridade de leitura: dietas, receitas, métodos milagrosos ou não para emagrecer e mais(pasme!) autoajuda da boa (tenho uns 12 meio lidos). (se é que existe)

* * *

De presente de uma amiga (que me é muito cara): “Pare de se sabotar e dê a volta por cima” de Flip Flippen (é nome mesmo de autor?) Li o primeiro capítulo. Estou gostando. Ah, tá: eu só leio com marca texto fosforescente. Tudo marcadinho. E anotações a lápis.

* * *

Meu nome é dúvida quando as decisões importantes têm chegado. E eu que nunca fui assim. Isso se chama medo, se chama temer tomar na cara de novo, se chama cautela. Sim, eu , tão decidida e destemida, aprendi a ter cautela. ou hesitação.

* * *

Certeza: de que o mundo é mesmo muito diferente de mim. Ou ao menos o mundo das pessoas com quem convivi nos últimos três meses. Por isso = mudanças já. De pessoas, de companhias, de amizades.

Orbito em outra galáxia distinta da de minha família. Ovelha negra. Certeza.

* * *

Necessidade: de amor. Cada dia mais latente.

* * *

Vontades: todas supérfluas. E resolvíveis. Graças.

*

Bobeira total

Bobeira total

Momento burrice absoluta: lendo estes ridículos, mas tão úteis (neste específico momento), textos sobre como paquerar (é verdade mesmo que eu esqueço como depois de uma longa monogamia), descubro que faço mesmo tudo errado. Ao invés de elogiar o fulano, faço o inverso: elogio todos os cicranos ao redor, todos. Tática da provocação. Pode até dar certo com alguns… tsc tsc, mas com pessoas tímidas o tiro pode sair pela culatra.E agora?

Banana!

Férias e… algo mais

Férias e… algo mais

Desde que tive Alice, ainda não parei para respirar. Digamos que agora, quase um ano depois, eu estou começando a me centralizar de novo (ou seria descentralizar?).

Desde que engravidei, a’ficha’ de ter um filho ainda não havia caído. Foi tudo muito mágico como se eu própria estivesse na tela de um filme assistindo a mim mesma. Meio onírico, surtado, sei lá. O fato é que eu ainda não conseguia me dar conta de que estava grávida ou, depois,  de que tinha uma filha. É lógico que eu saBIA. Mas o estado consciência e contemplação ainda não chegara. Não.
Até este mês pelo menos.

É que agora eu percebi que tenho uma filha e estou tão apaixonada por ela, por mim, por nós, nossa família,  e pela vida que eu só penso em comemorar, festejar, alegrar-me.

Para completar o brinde, estou de férias na faculdade.

Então, digamos, meu mês de julho vão ser sonhos diários. Muitos.

E, para completar, eu estou apaixonada por cupcakes.

Morte cerebral

Morte cerebral

Já foi anunciada a morte cerebral de Clodovil. Não tenho nenhuma simpatia por ele, mas também não cultivo qualquer antipatia. Morreu uma figura brasileira, para mim é isto. Mas, ao ver decretada a sua morte cerebral, embora saiba o quão criteriosas são as equipes médicas em casos de homens públicos, fiquei preocupada após o que vi há poucos dias nos hospitais particulares em termos de atendimento e acompanhamento médico aqui nesta capital.

Minha avó também sofreu um A.V.C. ( aos 84 anos ). É pagante de plano de saúde há tempos, mais de trinta anos, nem sei precisar exatamente.  O caos instalado no Hospital Salvador, em sua emergência, e a incompetência de alguns funcionários, me fizeram ter a certeza de que, em pleno terceiro milênio, para uma sociedade que se diz civilizada, é exdrúxulo pensar que se precise gritar para ser atendido como se deve, que não se vejam técnicos em enfermagem e enfermeiros usando luvas nos procedimentos habituais da emergência – como colocação de sonda urinária, que um fax solicitando autorização para o plano de saúde de um paciente em estado grave leve 4 horas para ser passado simplesmente porque o funcionário não reparou no papel que lhe foi entregue e que ficou durante todo o tempo em cima de sua mesa (foi preciso a família gritar) e outras barbaridades do gênero.

Então, como ela está na UTI de um outro hospital agora, após conseguirmos a sua remoção, fiquei pensando no caso de morte cerebral e em como isto é atestado aqui no país. Preocupada, honestamente, porque ela ainda dá sinais de atividade cerebral , fala embolada, mexe os olhos e aperta as mãos das pessoas em sinal de reconhecimento e aprovação ou desaprovação, fiquei temerosa contra negligências usuais no nosso Brasil.

Aqui descobri o que faz a morte cerebral ser confirmada, instigada pelo caso de Clodovil. As famílias deveriam ser bem esclarecidas porque, em caso de um atestado como este, é preciso que não haja sequer uma dúvida. Se possível, parecer de mais de um médico -embora aqui no Brasil não seja uma exigência.

Boicote à mulher

Boicote à mulher

Existem muitas formas de se destruir uma mulher. Muitas.
Uma delas consiste em dia após dia boicotar sua auto-estima, depreciá-la parte a parte, diminuí-la em tudo que sabe fazer, compará-la e menosprezá-la com frases sarcásticas e tiranas.

Bombardeada, muitas vezes ela se esquece de si mesma, carente que esteja de um amor que nunca virá. Não deste homem. E vai entristecendo, silenciosamente a cada aquiescência, tecendo a teia em que ela mesma se perderá. Noutras vezes, brada alto, grita também, despeja os dejetos de sua alma estropiada, de sua auto-estima vilipendiada em ofensas que buscam responder às grosserias que a agridem no cotidiano comezinho. Assim também ela se perde. Perde-se de si mesma.

“Você não sabe gerenciar uma casa.” “Você é a pior dona-de-casa que eu já vi”. “Sua empregada é a pior  e mais incompetente com que já lidei.” “Você é tão boa mãe que dorme de tarde e deixa seu filho com a babá.” “Seu trabalho é fútil”. “Seu hobby  é imbecil, é perda de tempo”.”Para que vai fazer este curso? Não adianta mesmo…” “Isso não vai gerar dinheiro…” “por que saiu de casa?” “Não estava aqui na hora em que precisei”. “Não conto com você”. “Você nunca faz quando é para mim…” ” Vou dormir feliz porque seu time perdeu”.

Se ela não perceber, envereda-se nesta rede de sutis ou explícitos boicotes que, inevitavelmente, a conduzirão, simplesmente, à infelicidade. É que assim, aquiescendo, ela pode esquecer que os parâmetros são outros, esquecer que quem ama cuida, é parceiro, zela por ela e deseja-lhe o progresso, a ascensão, a vitória sem sair do seu lado e apoiá-la nos momentos difíceis e delicados a que a vida expõe toda mulher.

Este boicote é um crime. Mata em vida. Incapacita. Traumatiza. E os efeitos são muito perversos. Às vezes  incuráveis.

Próximo post

Próximo post

De vez em quando aparece em minha vida uma pessoa que me faz ter dúvida de onde é mesmo que fica a linha tênue entre a idiotice  e a bondade. É que eu tenho uma inclinação para ser ‘boazinha’ e, às vezes, muita gente sacana suga.

Tenho sempre receio de julgar mal uma pessoa e aí então aparece uma tendência para crer que a pessoa teve um ataque de regeneração e simplesmente me valoriza ou gosta de mim… mas a danada da dúvida martela a cabeça e fico pensando se não estou mesmo é fazendo papel de otária.

Minha avó sempre disse: ” dá a quem te dá. A quem não te dá, não dá, não. ” Diz ela que os sinos tocam esta canção.

Mas a droga da culpa cristã ou a porcaria da síndrome de mulher boazinha que vai para o céu muitas vezes me faz escolher a outra máxima: ” fazei o bem sem olhar a quem”.

Toco fogo ou passo o bálsamo?

Primeiro dia de aula

Primeiro dia de aula

De novo você se dirige à sala de aula. De novo você se apresenta. De novo são rostos e mais rostos desconhecidos. Cerca de 60 a cada 100 minutos. Salas superlotadas.

Espera caderneta. Pede para refazer algumas. Acrescenta nomes de alunos. Marca presença e ausência até descobrir aos poucos umas matrículas canceladas. Abandonos.

E começa a coletar papéis. Uma informação, um impresso, um e-mail, um calendário, um manual, um texto, mais outro, outro e outro… ( e você que levou quase um ano tentando deixar sua casa mais magra de papéis)

Então tem que acessar a caderneta on line. Tem que registrar parâmetros de avaliação. Tem que registrar pesos. Datas. Freqüência. E tem que escrever tudo isso de novo no papel – que a tecnologia chegou, mas o papel é documento.

Daqui a uns dias chegam os diagnósticos. As avaliações. As correções exaustivas para qualquer professor. As notas. A segunda chamada. A prova final.

E, depois, mais um semestre.

Acordo com as editoras

Acordo com as editoras

Sei não…mas já estou com maus olhos… Depois do acordo, meus livros (e os seus) estão caducos.

Passeando os olhos pelas listas de material escolar, já vejo a exigência de  gramáticas, dicionários e cia, atualizados pelo acordo ortográfico. Cada livrinho destes custa em média 90 reais. E o mini pai-dos-burros, a bagatela de 30 .

Gosto sempre de considerar o valor do salário mínimo como referência. E de pensar em toda a classe média sufocada com os custos, inclusive os da escola particular para os filhos – em Salvador, entre 700 e 950 reais a mensalidade do fundamental e  do médio.

Agora, todos os “livrinhos” não valem mais. Todo mundo troca tudo. Não dá nem para passar de um irmão ou primo para o outro. Nem para comprar no sebo.

Creio, sim, que educação seja investimento. Mas juro que não percebo como as pessoas pagam estas contas.

Pessoas insuportáveis

Pessoas insuportáveis

Existem pessoas que não se contentam em ser chatas. Precisam ser insuportáveis.

Conheço uma senhora que faz questão de ser intragável. Ela não consegue ser feliz sem marcar no seu caderninho diário a dose de encheção de saco alheio. Fico a imaginar ela sentada na cama, com sua caneta preta e uma lista (tenho certeza de que ela a tem) de pessoas (parentes, amigos e conhecidos) no seu rodízio semanal de perturbação da paz alheia.

A vida já não é fácil para todos nós. Todos temos problemas, contas, chateações, tpm’s e aborrecimentos bancários ou seja lá o que for que preocupe cada um de nós, humanos. Mas não. Não basta. Mala sem alça é pouco. Carrapato sanguessuga talvez seja mais apropriado. Não basta grudar: tem que usurpar toda a sua energia, tem que lhe causar uma irritação – mínima que seja, tem que destruir seus estoques de serotonina.

Gente assim vive só. E reclama muito. E faz-se de vítima. E arquiteta, de todas as maneiras possíveis, formas de fazer você se sentir culpada pelas suas dores. Sai pra lá. Que nessa eu não caio. Mas que me aborrece, ah, isso me aborrece mesmo. E muito.

Amigo oculto ou presente designado

Amigo oculto ou presente designado

Eu confesso que não consigo aceitar a prática que anda se espalhando entre os jovens. No Natal e em outras épocas comerciais, como a páscoa, inventa-se o amigo secreto. Legal fazer amigo secreto, dar a oportunidade a alguém de me presentear e a mim mesma a oportunidade de presentear também. Escolher presentes é uma das coisas mais gostosas de se fazer. Pensar no outro, escolher para o outro, doar ao outro.

O caso é que aqui é costume inventar amigo secreto de presente determinado. Ou melhor, com presente encomendado. Nesta semana, por exemplo, estão acontecendo, em quase todas as salas de aula, amigos secretos de ovo de páscoa. Cada participante escolhe a marca, o tipo, o tamanho e se o chocolate deverá ser branco ou preto. Ora, quem quiser ganhar um ovo x, do tamanho y e das características z… que vá ao comércio e o compre!

Trocar dinheiro? “Só valem ovos entre R$15,00 e R$20,00″, “Todos têm que ser número 16″… me deixem.

A mesma coisa é um tal de amigo secreto de sandália havaiana. A pessoa escolhe o designe, a cor, o tipo e faz a encomenda a alguém que só vai chegar à loja e pagar. Eu não participo destas trocas. Eu não gosto delas.

Há quem participe, não receba o que PEDIU e saia ainda chateadíssimo porque gastou o seu dinheiro e não ganhou o que quis. Até assembléia para decidir o que fazer com o revoltoso que não comprou o que a lista indicava eu já vi acontecer. De novo: quem quiser suas coisas que as compre.

Dou presentes aos meus amigos, escolho com detalhes, penso na pessoa. Depois saio feliz por tê-los agradado e assim me sinto quando recebo gentilezas de quem gosta de mim. Trocar dinheiro só no câmbio, se eu for ao exterior.

O dia do saco preto

O dia do saco preto

Gente , quando morre, recebe um lugar na terra e vai embalada em um caixão às vezes simples, às vezes pomposo… a depender da situação econômica. Dizem que indigente nem caixão recebe, vai embalado no saco preto para o seu calvário que nem pós morte tem fim.

* * *

Semana passada, quase eu breco o carro a 80 km num ato reflexo em plena avenida Paralela. Voltava da faculdade à noite e, ao passar pelo memorial Luís Eduardo Magalhães, tomei um susto daqueles…

É que em tempos de pai vivo, havia flores novas todos os dias a enfeitar uma estátua que o homenageava e, no local onde se diz que colocaram o tal do coração do homem, havia sempre dois policiais civis a tomar conta para que vândalos ou pombos ou sabe-se lá o que mais não pertubasse a paz da estátua que estava em pé eternamente em berço esplêndido.

Pai morto, outro rei posto. Ou reis. Já dizia Camões : “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. O fato é que os herdeiros andam aqui pela Bahia se digladiando pela dinheirama e a mídia está repleta de escândalos, rachas, achismos, conjecturas e… fatos.

Semana passada, o novo governador parece que atinou… qual era a estátua de Salvador que recebia vigilância 24h diárias? Nem Vinícius, sozinho lá em Itapuã nem Jorge Amado lá no meio da praça do Iguatemi nem o caboclo lá no alto do Campo Grande… tsc tsc tsc

E Wagner suspendeu o uso da polícia como mantenedora da paz da estatueta, devolvendo seus dois homens à paz estatal.

* * *

As flores continuam. Eu não sei quem as paga. Deve ser ainda a fortuna do pai. A grande fortuna do pai. Que eu também não levanto hipótese para saber como se multiplicou tanto. Deve ter sido pelo seu trabalho.

* * *

O caso do saco preto é que me intrigou. Era 22h40 de um dia de semana qualquer e eu voltava distraída da faculdade quando vi uma grande lona preta ou um conjunto de sacos pretos amarrados no monumento. Neste mesmo, no monumento ao filho do homem. A estátua estava toda embalada em um saco preto ou o que parecia sê-lo.

Não entendi, não compreendi, não vi notícia, não vi comentários e, somente 24 horas depois, já estava lá de novo a estátua reluzente , guardada por dois seguranças particulares, de roupas simples e mochila igualmente.

Só pude pensar que no tempo do pai isso jamais aconteceria. E que os tempos mudam (ainda bem). O enigma talvez não seja solucionado . Mas que me intrigou, ah, isso me intrigou. Fiquei estupefacta. Nunca havia visto estátua nenhuma embalada, ainda mais daquele jeito, em plena praça pública por assim dizer.

Up date: Segundo um transeunte, a estátua estaria em reforma e por isso foi embalada. 

O que é mesmo que a maternidade faz com as mulheres?

O que é mesmo que a maternidade faz com as mulheres?

Eu sempre fui sensível. Tá. (tsc tsc) Tá.

Eu sempre me emocionei. Tá. E daí?

Também endureci. Virei cética. Guardei arroubos de lirismo, que minha alma é viva. Vocês sabem. Tá.

E daí?

Perdi meu pai. Triste demais.

Perdi minha mãe. Morri também. E viva.

Amei. Chorei. Sofri. Sorri. Sonhei. É . Ainda sonho. Ainda.

Mas eu estava tão cética, tão triste, tão só, tão vazia… ainda que você não percebesse, ainda que você não soubesse, ainda que você não notasse ou sequer quisesse reparar.

Mas que coisa é esta que está acontecendo comigo que me deu de novo uma dimensão diferente do real, que me fez eu me sentir transcendente, à parte, ‘encasulada’ em mim mesma, feliz, sensível e gigante?

Que coisa é esta que me plantou a dúvida de novo, que me tirou das incertezas em que eu boiava, que me redirecionou ao futuro? Que me fez sorrir sozinha e chorar de mansinho só de ler um texto bonitinho?

Que alegria é esta que me faz chorar, que medo é este que me faz comum? Que sonhos são estes que me fazem tão clichê, tão mãe-igual?

Que redescoberta de mim, do corpo, da voz, dos sonhos? Que consciência é esta do colo, do peito, do ventre ?

Que universo é este que habita em mim?

É você, meu filho, é você.

É você que me faz querer amanhecer.

Férias frustradas

Férias frustradas

Você viaja com a grande família (dele), leva suas trezentas e oitenta e nove coisas indispensáveis (do desktop ao abridor de coco)  para passar um mês ou dois na casa de praia e na primeira semana já está pensando no que foi que decidiu fazer… no porquê de ter carregado este pc… no porquê de ter parado com sua dieta… no porquê de ter resolvido trocar a filha da p… da placa-mãe do seu computador …  no porquê de não estar de férias num spa.

Seu trabalho a convidou a comparecer trezentas vezes na semana, o pc deu mais trezentos problemas, na casa a que você foi nem sombra de velox, a internet discada é pré-histórica, seu dinheiro foi para as cucuias, tem mais trezentas contas para pagar, engordou um quilo, não foi um dia sequer à praia, estressou-se todos os dias, foi a Salvador todos os dias também, foi a cinema que não queria, comeu porcarias (leia-se guloseimas), não trabalhou, não leu nenhum livro, nenhuma revista… e você ainda ouviu o que não queria.

Se Maomé não vai à montanha…

Se Maomé não vai à montanha…

… o puteiro vem à sua casa.

Antigamente(“nos primórdios”), quando eu era adolescente, saber que existia um lugar para fazer sexo onde só os homens entravam me deu uma curiosidade danada. Primeiro, achava injusto. Por que é que as mulheres também não poderiam ir? Aí descobri que as mulheres iam sim, mas na condição de prato principal.  O silogismo era lógico na minha cabecinha: a mulher é objeto então. E me revoltei.

Ora, cresci com as possíveis castradoras doutrinas católicas e familiares. Ai de minha mãe ao me ouvir falar assim. E ela ouvia. Porque eu conversava e dizia o que pensava. Na condição de mãe, tentava purificar a minha cabeça, mas cada vez mais me dava livros e me estimulava a estudar. Então não teve jeito.

Desde a época em que tomei consciência da condição existencial da putas, fiquei fascinada e deprimida. Fascinada porque pensava na possibilidade de uma mulher fazer sexo com quem quisesse, libido pura, desejo e prazer. Então descobri que não era bem assim. As mulheres putas ou eram escravas do dinheiro ou de sua condição social (às vezes de ambos).

Então percebi que putas não fazem sexo apenas com quem querem, mas com quem paga.

Das putas pobres, eu sempre tive dó. Não creio que a pobreza leve irremediavelmente à prostituição. Há quem seja pedinte, esmolé ou mesmo indigente. Mas é fato que há mulheres de vida difícil que dão o corpo em troca do alimento. Ou do dinheiro para comprá-lo. No âmbito da ficção, por exemplo, a cena mais chocante do filme “O nome da rosa” é para mim a que uma pobre medieva faz sexo com um monge franciscano para receber um frango. A equação é óbvia: sexo = a comer para não morrer de fome .

Outra situação é a da menina, moça ou mulher seduzida pelo novo celular ou pelo jantar ou hotel de luxo, que vende o produto a fim de gozar o dinheiro. É difícil do meu lugar social entender que o valha. O fato é que não se pode comparar ambas garotas. Que fique claro que não estou a atirar pedras, até porque a incompreensão para mim envolve é os freqüentadores das putas.

A mesma cabeça adolescente e anárquica que eu sempre tive perguntava-se desde jovem: mas por que é então que todo mundo não transa com todo mundo para se evitar o sexo pago? Na verdade, evitar-se o nojo de ter INTIMIDADE com quem não se quer? A condição de mulher traída já doía tardiamente (se considero o passado de minhas avós) e precocemente ( se entendo que tinha ainda 14 anos e já pensava assim) em mim. Sim, sentia a dor das putas que copulavam com homens que não desejavam e a dor das mulheres traídas em casa. Até eu entender que não ia salvar a humanidade inteira e que não era Madre nenhuma quanto mais Teresa.

Uma vez um amigo de quase 60 anos me explicou uma coisa: “Alena, a gente paga as putas para depois se ver livre delas”. Minha cabeça deu um nó e eu tinha 26 anos. Pensei, pensei e senti compaixão. Dele. Na varanda, várias conversas com o grisalho me levaram à conclusão triste: estes homens satisfazem o desejo biológico e depois querem ficar a sós. Pagam para ir embora. O gostoso do abraçar e dormir depois não havia. Nem com a esposa em casa, que o casamento estava falido, nem com as moças de aluguel.

***

Mas esta é só uma versão de um longo assunto sobre o qual ainda quero ensaiar bastante. Para ver se eu mesma entendo algumas coisas.

***

O fato é que, como não vejo televisão quase nunca, só hoje tomei conhecimento do vídeo no you tube da novela Duas Caras. E aquele lugar mágico, misterioso, proibido e ‘sujo’ que povoou minha imaginação durante anos foi simplesmente revelado tal e qual na novela das oito a todas as famílias que a ela assistem. A minha curiosidade de saber como era um puteiro, uma casa de show, não é mistério hoje para qualquer criancinha ou senhora de idade. Estou doida ou é vídeo erótico esta cena?

Nenhum puritanismo, por favor. Eu era criança e via novelas e achava as putas maravilhosas: eram mulheres maquiadas e exuberantes, sempre alegres e vestidas de forma exótica. Vedetes. Minha mãe precisou de muita castração para me ensinar que aquilo não era maravilhoso (kkkkk) . Eu era criança e o bordel de “Roque Santeiro” era a melhor parte da novela.

O realismo de certas cenas feitas para a família brasileira ultrapassa minha compreensão como no caso da cena protagonizada por Flávia Alessandra. E a necessidade de uma trama como essa também. É o quê? Necessidade de perdoar as belas enfermeiras (eta! lá vão estigmatizar uma profissão) que fazem programa para completar a renda e sustentar os filhinhos?

Qual o benefício sociopolítico destas ditas novelas engajadas? Creio que a ficção não precise de tanta verossimilhança. Em tempos de BBB, Casa dos Artistas, pornografia on line ou via webcam e cia, talvez seja eu mesma a antiquada.

Vazio de cortar (meu) coração

Vazio de cortar (meu) coração

Tá.

Ré confessa.

Tem alguma coisa muito estranha acontecendo quando você sonha com umas urucubacas horríveis, acorda no meio da noite de domingo, triste, triste. Vê tv, assiste às péssimas resenhas esportivas, nenhum filme que valha, uma bagunça inimaginável de provas a corrigir… resta o pc, s.o.s. solidão, procuro no orkut, converso no msn, marco uns encontros com amigas, relembro o dia… e estou aqui a descobrir novos blogs (pasmem!) ouvindo aquelas melodias infanto juvenis de Sandy e Júnior com um vazio daqueles no peito. Merda!

Tô doida.

Falta o coração bater de novo.

Só pode.

Só pai e mãe

Só pai e mãe

Há momentos na vida em que ser órfã é mais difícil. Mais difícil ainda do que é ser todo dia.

Não ter pai e mãe vivos significa um sucessão de vazios. Desde o vazio maior que é o afeto e o colo (im)possível diário ao vazio de rememorar o seu passado. Como rememorar?

Quem é que vai contar a meus filhos (que eu ainda nem tive) as travessuras e gracinhas que cometi na infância? Parece irrelevante, mas o conhecer-se, o autoconhecer e o construir de nossa identidade requerem, sim, a imagem que eles (nosso pai e nossa mãe) têm de nós. Freud explica.

O mais f*da ainda ocorre quando você precisa de um tipo de auxílio que só pai e mãe dão. Tipo arranjar um fiador. Pai e mãe são fiadores naturais de filhos honestos e desonestos. A paternidade e a maternidade (quase) sempre suplantam quaisquer obstáculos que o capitalismo impõe (leia-se DINHEIRO $$$).

Um dia você acorda toda feliz, dá um passo na sua vida, tem dinheiro sacrificadinho para pagar – fruto do seu suor… passou por seleção, tirou fotocópia de trezentos documentos, assinou cinqüenta papéis, carimbou todos eles, reconheceu firma, pegou n filas e… então se depara com a pedra no meio do caminho. Os contratos exigem fiador. Às vezes, mais de um.

E você é um pássaro livre sem ninho e as portas se fecham. Só negativas. Recusas. Nem adianta falar como deus da instituição. Nem com todos os chefes daqui e dali. Educação é um grande negócio. E negócio é negócio. E exige contrato. Com fiador.

Sua avozinha não ganha o suficiente. Salário federal vergonhoso. Sua irmã ainda é estudante com salário de brasileira: droga. A outra é professora. Já viu, né? O tio está complicado. O primo nem pensar. Aí seu dedo aflito busca todos os números do celular e você escolhe umas vítimas mais próximas e, para não acabar a amizade para sempre, começa logo com o discurso de que dá a ele ou a ela, amigo ou amiga, a oportunidade livre e sem zangas de lhe dizer não. E ouve um não. Outro não. Outro e mais outro. Uns não querem e outros não podem. Normal. Sem zangas mesmo. Sua melhor amiga que faria isso sem pestanejar está a mais de 1000 km.

Mas aí bate uma orfandade sem limites e você faz beicinho porque as coisas para você não são simples e você é uma guerreira mesmo e não vai desistir ainda que com lágrimas nos olhos.

Aí cata a agenda dos tempos arcaicos, aquela manuscrita que guarda em casa e recorre aos consanguíneos. Liga para um. Para dois. Para três. E respira aliviada porque uma prima de alma boa se solidariza sem problema algum. ufa, enxuga a lágrima. Passa as costas da mão na bochecha e ouve os dados preciosos de que precisa para dar este passo em sua vida. E vai ser grata até a morte.

É . Agora você já pode se matricular. Vai trabalhar, vai estudar, vai se virar. É honesta, paga com sufoco, não está inadimplente. Nem pretende ficar.

Não há incentivo para estudar neste país de particulares. 

E você se resigna, pega o material das aulas. Filou hoje a academia na maratona pelo fiador. Nem almoçou com tanto assunto indigesto. Vai trabalhar aqui e ali. E mais ali. Talvez acolá.

E não vai se esquecer nunca da carinha alegre dos calouros que conduziam seus pais à fila de matrículas. Os fiadores natos. Eles os têm. São ricos de verdade.

PAIXÃO POR CARROS

PAIXÃO POR CARROS

Exposição Shopping Salvador

Fotos: Alena Cairo

Eu sempre fui apaixonada por carros. Sim. E não deixei de ser mulher por causa disso. Detesto generalizações, embora confesse também incorrer em algumas vez ou outra: é a força da cultura nos traindo.

No shopping Salvador, recentemente, houve uma exposição de carros antigos. Daquelas pessoas que curtem muito automóveis e passam a vida a exibir o que resgataram dos tempos idos: verdadeiras jóias que – se não possantes pelo motor desta ou daquela cilindrada – são possantes pela sua história e pelo que representaram na época.

Exposição Shopping Salvador

Fotos: Alena Cairo

Eu adoro exposições de automóveis, eu adoro carros antigos e atuais. Curto muito dirigir um carro, o meu carro. Nestas horas, sinto-me senhora de mim mesma e recordo prazerosamente com o pé na estrada que muitas mulheres – gerações inteiras – não puderam ir e vir. Hoje eu posso e celebro esta conquista.

Exposição Shopping Salvador

Fotos: Alena Cairo

Dirigir me dá a noção de ir e vir, este direito constitucional e universal que todos temos, mas muitos esquecem. Dirigir me dá a sensação de que posso tomar outra estrada, aprender novo caminho, escolher espaços diferentes na vasta geografia da Terra. Ou da minha Vida. É a metáfora do assumir o controle, do curvar e seguir reto quando necessário.

É por isso que sinto muito quando mulheres escrevem textos nos quais associam os carros apenas ao universo masculino, ou pior: quando os limitam aos ‘patriarcas’, estigmatizando e estereotipando ainda mais as mulheres.

 

 

Fotos: Alena Cairo

A autora seria capaz de repetir a máxima: “mulher no volante perigo constante”?

Perigo sim!

Mulher no volante: perigo porque assume o controle, decide onde vai, pode escolher inclusive abandonar um casamento que não a satisfaz ou a deixa feliz. Mulher no volante pode ir ter com o amante. Mulher no volante pode desvendar o universo masculino, pode empatar com o homem na liderança, na atitude de escolha, na descoberta de caminhos e na opção por eles. Mulher no volante era um perigo porque ela não deve(ria) saber onde o homem estava, onde se escondia ou onde se achava.

Frase mantenedora DOS COSTUMES DE OPRESSÃO à mulher, de REFORÇO da sociedade patriarcal, de EXCLUSÃO do gênero, de SABOTAGEM da vontade feminina de assumir o controle de sua história.

Mulher no volante pode mudar de direção. Este era o problema. E o perigo constante.

Fotos: Alena Cairo

 

Auto-retrato

Auto-retrato

Eu era uma menina quando li Pessoa pela primeira vez. E tinha uma professora que ficava estupefacta com a possibilidade dos heterônimos. Eu, na minha simplicidade infantil à época (que a idade traz muita complexidade), não entendia o maravilhamento dela:

- Oxi, professora, é simples. A gente é tantas pessoas ao mesmo tempo! Esse homem aí só fez escrever como se fosse cada uma desta gente toda que a gente é.

Assim eu aprendi pequena ainda quantas de mim eu posso ser e sabia que eu poderia ser o que quisesse. “Nada tem que ser. Tudo pode ser.”

Já faz um tempo que eu queria escrever sobre mim, tipo auto-retrato mesmo. O universo conspirou e a gentil Meg me encomendou o post apositivamente me apelidando de a refinada encantadora de palavras. Derreti, claro. Uma coisa muito linda de se dizer a alguém.

Então eu sou isso: estas muitas Alenas que existem em mim.

O post “Proibido ser mulher” diz mais de mim, muito mais. Na verdade, o A vida em palavras é minha história, meus pedaços, minhas versões de mim mesma, das pessoas e do mundo.

Eu sou… (resisto a cantar Raul)

Sou a Penélope que espera o seu Ulisses a tecer histórias e fantasias, sou a gata borralheira que adora cozinhar, sou Julieta capaz de morrer por quem amo enlevada que fico nas palavras de amor a mim dedicadas, sou Blimunda que junto minhas mãos ao Sete-sóis que me acompanha, sou Palas que se embriaga com o conhecimento, sou Aurora e adormeço sem picar o dedo quando muito me aborrecem para não envenenar meu corpo com tanta raiva.

Sou Olívia e deixo Eugênio partir quando não há mais lírios em nosso campo. Sou Aurélia Camargo e espezinho os pretendentes que de mim se aproximam de forma vil. Sou Fiona, ogra e princesa (depois da maquiagem e do salto alto), pronta para ser feliz com o ogro-príncipe da minha história.

Quando parece não haver mais nada e a vida me derruba, pego minhas armas de Maria Moura e luto. Eu não me conformo. Sou a ousada Emília, acredito que é possível (fazer-de-conta) ao menos quando se quer algo.

Já fui o bebê mais esperado, já fui a princesa de meu pai, a coisa linda de meu avô. Todos mortos. Sou eu mesma também e a antítese de mim mesma . Viva sou ainda parte do que minha mãe projetou mais uma parte da audácia do gene de minha avó que se separou do marido com dois filhos pequenos porque ele não a entendia e quis infernizar a vida de uma mulher ‘intelectual’ em 1949. Mas também já fui Mulher de Atenas.

Eu fui a Frida que chorou a traição do primeiro amor ainda na minha adolescência, fui também a Mulher do Médico que compreendeu o cego em busca da satisfação carnal com a rapariga dos óculos escuros. E doeu tanto. Também fui Ariadne abandonada por um Teseu que nem era um tesão assim…

Como Iracema, já esperei pelo Martim que viajava. Como Zélia, já fotografei meu Jorge.

Sou a professora maluquinha de Ziraldo ainda hoje que acredita na felicidade clandestina dos livros e na autonomia.

Sou a versão feminina de Aquiles: Iansã enraivecida a soltar trovões e raios se ferem o meu calcanhar.

Já me despi como a Vênus de Sandro. Já fui amada como Raquel de Labão. Já fiz suspirarem amores platônicos juvenis. Já levantei suspeitas ao Casmurro que encontrei. Já ouvi os cânticos de Salomão.

Já fui Madalena e me escondi quando tive depressão. Já fui Madalena e me arrependi.

Já fui Bradamante e me apaixonei pelo cavaleiro inexistente. Já fui Morgana e fiz feitiço. Já fui carola e rezei ajoelhada como a Dulce. Sou mulher: bruxa e santa, deusa e diaba.

Falo como a nega do leite. Rio como criança solta.

Já fui Cachinhos de Ouro e tentei encontrar uma cama em que não houvesse um abraço de urso. Já fui Yemanjá e roubei o homem da moça que chorou no cais enquanto ele nadou no meu mar. Já fui a mãe dos filhos que não eram meus. Sou a Oxum na maior parte do tempo: pacata, tranqüila e maternal. Mas carrego a fúria e a assertividade do rio.

Sou megera e não sou magérrima. Sou madrasta e também mãe emprestada, adotiva. Sou tia de aluguel. Sou neta ocupada, afilhada sempre amante, prima engraçada. Sou chata quando quero, intransigente quase nunca, mas teimosa quando ‘tenho certeza’. Sou leal aos meus amigos.  Gosto de elogiar. Peço desculpas sempre que estou errada e assim que identifico o meu erro. Prefiro sempre não brigar, mas brigo. E sou boa nisso. Detesto incompetência e gente  muito devagar. Sou acelerada e é difícil acompanhar meu pique. Admiro quem consegue fazer bem alguma coisa: da unha no salão a um projeto de míssel. Gosto de milhares de coisas diferentes. De livros diferentes. De pessoas diferentes. De cantores diferentes.

Sou …

Terminei de ler…

Terminei de ler…

O conto da ilha desconhecida e já o inseri no meu cronograma de aulas e já o enviei aos meus amigos leitores. Saramago, simplesmente, sabe o segredo. Nestes dias, quando eu termino de ler um escrito seu, tenho, simplesmente, a vontade de me sentar em Lanzarote com ele, na varanda, a vê-lo com os seus cachorros e a esperar que o mestre me diga qualquer palavra - após os minutos de um silêncio imperativo e essencial enquanto esperamos juntos que Pilar nos traga o chá.

Putódromo

Putódromo

Na Bahia, tem de tudo. Na cidade de Camaçari, em junho, uma ilustre vereadora (J. Ferreira ) propôs na Câmara criar um putódromo para evitar que as putas e os puteiros andassem se espalhando pela cidade como estão… A concentração dos puteiros no referido local seria uma ótima pedida para a fiscalização, conforme argumenta a ilustre representante popular.

 Já está dandoo que falar!

Aborrecimentos

Aborrecimentos

Aborrecimentos ocorrem quando as coisas não acontecem como queremos, ocorrem quando as pessoas revelam faces que não nos são aprazíveis, aborrecimentos ocorrem quando o espelho nos cobra mais do que somos, mas a imagem refletida é apenas o que pode ser… Creio que nos aborrecemos porque vemos uma realidade diferente daquela que idealizamnos, daquela que sonhamos e isso é um problema nosso, isso é uma limitação nossa, sim, porque nós, seres humanos, sabemos o quão pouco somos, o quão pouco o outro é ou tem para nos dar e ambicionamos o máximo, as alturas…. nos escondemos em desculpas e sensações de que podemos ter mais, receber mais, sentir mais; egocentricamente nos vemos como o centro do universo e não o somos.

Não, o outro não é grande, é isso mesmo. Porque nós também não somos. Se um monge qualquer estivesse a ler este escrito ou um fazedor de slide xaroposo ia logo protestar que o outro é grande, que nós somos grandes, que somos imagem e semelhança de qualquer criador ou de um criador… mas não. Insisto. Nós somos falíveis, pequenos e sós. E nossas carências são do tamanho do universo inteiro. Um buraco negro que nos devora a todos e cospe depois em forma de lágrimas vilipendiadas o resto dos nossos sonhos.

Eu vi a cara da morte

Eu vi a cara da morte

A cara da morte é desfiguração.

Os olhos ficam embaçados e perdem o viço.

Uma nuvem quer apagar a vida enquanto o corpo ainda resiste,

relutante, a aceitar que  perece.

A névoa apaga o olhar.

Tira-lhe o brilho, tira-lhe as lembranças.

O corpo fenece lentamente, treme um pouco, sua.

Frio, muito frio.

.

Um gemido agoniado,

um revirar de olhos,

um suspiro de quem não queria ir.

É findo. Terminou.

.

Os vasos entopem, o líqüido derrama.

Pinga do corpo estendido: necrotério de sonhos.

Mãe.

Dia Internacional da Mulher

Dia Internacional da Mulher

Hoje é um dia diferente. Às vezes, penso-o triste. Seria melhor que não precisasse havê-lo. Depois da estupidez de um mundo patriarcal consolidada por dois milênios, a luta feminina se tornou necessária devido à opressão que as mulheres sofreram (e sofrem). É controverso, mas necessário que haja o 8 de março.

Da perseguição na Idade Média, quando eram acusadas de bruxas, ao casamento imposto pelos pais, chegando ao tempo em que, nas fábricas de um mundo recém industrializado foram exploradas e dobraram turnos até os triplicarem como mão-de-obra barata e dita “desqualificada”, ao mundo atual, quando ainda sofremos os efeitos de uma sociedade machista e cega que estupidamente insiste na guerra entre os sexos… nós, mulheres, precisamos mesmo é de que nos restituam a nossa condição de mulher. Ou que a conquistemos. De volta.

Li muitas homenagens, vários apelos publicitários, alguns piegas, outros comoventes, mensagens sem sal e outras com sal. Ou açúcar. Mas confesso que acordei incomodada. Incomodada pelo dia. Incomodada pela importância que temos nós todos, seres humanos, e pela necessidade que temos de saber e ouvir isso sempre, não só num dia específico. E por sermos tão sensíveis, nós, mulheres, tão emotivas a ponto de manifestarmos o desejo de ouvir palavras doces. Que deveriam ser espontâneas amiúde.

Liguei para minha avó agora à tarde. Ela nasceu em 1924. Conversei com ela pelo dia, prestei-lhe a homenagem devida, reconheci o seu valor de ‘guerreira’, lamentei que tivesse que ser. Ela foi pioneira num Brasil patriacal e machista. Casou-se com um charmoso descendente de árabes, sonhando o príncipe encantado. Descobriu um tirano que jogava, bebia  e impunha seu comportamento e suas vontades. Fazendeiro e abastado, moço da cidade da Bahia, o meu avô não foi lá um bom companheiro.

De moça educada no Instituto Feminino da Bahia, leitora de livros franceses e do melhor da literatura brasileira, inclusive a de vanguarda modernista, conhecedora das artes e da música erudita, de origem nobre e fina, viu-se sujeita às condições medievas do pensamento  masculino dominador. A gota d’água ocorreu em 1949, quando,  depois de voltar de uma jogatina regada a uísque na cidade de Paulo Afonso onde se perdia a fortuna e a racionalidade, ele , na fazenda, queimou no quintal os livros dela porque não queria mulher intelectual. Ela, de nariz em pé, lhe disse que queimasse os livros porque o conhecimento ela carregaria consigo para sempre, ele jamais lhe poderia tirá-lo (não é  à toa que eu digo isso na sala de aula). Trancou-se no banheiro com os dois filhos pequenos, de quatro e dois anos, e chorou assustada a noite interia.

Em Salvador, um tempo depois, voltando das farras no Cassino Tabaris na praça Castro Alves, meu avô jogara as jóias dela, de herança familiar. Questionadora, ela bebera nos livros os ideais de um novo tempo e, infelizmente, sofreu a agressão dele que lhe queria impor o seu poder. “Chorou de ficar com a cara inchada” no quarto trancada, as crianças também choravam no banheiro. O dia amanheceu e pelo telefone chamou os irmãos e o pai para resgatá-la do casamento condenado ao fracasso. Meu bisavô Alexandre questionou-a, mas acolheu a filha que quisera princesa e não cinderela.

Não era fácil ser desquitada na Bahia dos anos cinqüenta. Perdeu amizades, ouviu gracinhas, sem-gracices e piadinhas, mas se manteve trabalhando em emprego federal, nos Correios e Telégrafos, morando com seus pais.  O doutor Josaphat Marinho lhe fez o desquite. E assegurou ao pai dela que tomara a decisão certa. Anos mais tarde, minha avó engajou-se na campanha pelo divórcio promovida pelo doutor Nelson Carneiro (http://pt.wikipedia.org/wiki/Nelson_Carneiro).

Foi por isso que hoje eu lhe dei dois parabéns. O primeiro, porque ela é mulher. O segundo porque eu me orgulho do que ela fez. Optou pela dignidade num tempo em que isso significava correr o risco de perdê-la socialmente. 

Carnaval em Salvador

Carnaval em Salvador

Não dá para deixar de falar do Carnaval de Salvador. Até tentei, não queria o assunto, mas aí está.

* * *

A festa 

Imaginar o carnaval de Salvador é completamente impossível para quem não conhece a realidade do carnaval baiano. Só quem já passou um ano aqui pode ter a dimensão do que é a festa.

Nos corredores da cidade, três, quatro pistas ficam pequenas para o trio, a corda e a multidão dentro e fora do bloco.  As avenidas foram todas loteadas e os camarotes de vários andares dominam os circuitos da Barra a Ondina e do Campo Grande. O apartheid é óbvio: as castas mais ricas têm local privilegiado em camarotes vip’s disputadíssimos nos quais tudo é free. Em cima do trio, os artistas conduzem o circo enquanto aqueles que não têm pão se espremem do lado de fora das cordas ou segurando-as para dar segurança aos que ainda têm condições de pagar um bloco (de 500 a 2500 reais por três dias – há os mais baratos e um ou outro que até extrapola).

A pipoca 

A graça do folião comum, aquele que vai à pipoca curtir (fora das cordas, livre, nas ruas, no meio do povo) quase acabou. Aficcionado pelo Chiclete, por Ivete ou pelo Asa que “arrêa”, arrisca a diversão popular, a ‘pseudo maior festa grátis do planeta’. Dizer que se acotovelam é mentira das maiores: é praticamente impossível subir ou mexer os braços na multidão. O vai para lá e para cá na maior parte do tempo envolve um empurra-empurra  do qual ninguém escapa. Suores, banhos de cerveja, agarra-agarra e respingos da imensa quantidade de urina que alaga o “chão da praça” são inevitáveis. Pense em jogar seu tênis fora depois do primeiro dia (eu sempre adquiro um baratinho só para abandoná-lo tão logo acabe o carnaval).

Os camarotes

Nos camarotes, ar-condicionado, borrifos de água pulverizada para diminuir o calor e aumentar a umidade do ar, música para os intervalos entre os blocos, piso até com grama sintética, rede conectada ao mundo todo, bares e restaurantes, infra-estrutura de fazer inveja.  Parece mais uma praça de alimentação de um grande shopping dos melhores centros urbanos.

O homem é um animal

O problema ocorre na hora em que as necessidades fisiológicas nos lembram a condição humana animal. Nos megacamarotes repletos de loiras escovadas de salto alto (acreditem!), mesmo naqueles que se erguem na frente dos hotéis da orla, a fila do banheiro feminino chegava a ter 40 mulheres à espera do reservado (geralmente sujo, respingado e alagado). Nas ruas, caminhe cerca de 20 a 30 minutos sem pôr os pés no chão algumas vezes, levada pela massa que se desloca, encontre na rua detrás do circuito (por exemplo, a Sabino Silva) cerca de 20 sanitários químicos, insuficientes, óbvio, e fique numa fila absurda à espera de manter um pouco a sua dignidade social.  Muitos não agüentam e, infelizmente, você vai se deparar com homens com o pênis de fora por todo o caminho a ‘mijar’ nas ruas e mulheres agachadas ao lado de qualquer carro ou atrás de qualquer poste. Há também homens e mulheres defecando nas vias transversais ao circuito oficial. 

Fazer uma festa para mais de 2.000.000 de pessoas  é quase um suicídio municipal. Havia sanitários em vários lugares ao longo do percurso, sim, mas imagine a quantidade que serviria para atender a este número de pessoas.  E eu não estou falando em conforto porque se alguém conhece um sanitário químico na Bahia, conforto é tudo em que não se pode pensar jamais. A cena da Sabino Silva me fez lembrar Ensaio sobre a cegueira de Saramago.

Providências urgem

Ou a organização do carnaval da Bahia entende que o espaço deve ser algo como a av. Paralela, mesmo que percamos o glamour da avenida Sete e da Praça Castro Alves ou do Farol da Barra, ou a festa terá que acabar. Há seis anos era tudo muito diferente, há dois anos ainda era possível brincar melhor. Rua hoje é difícil, honestamente.

Fazer muitos circuitos alternativos é um caminho também, mas é preciso deslocar o Chiclete com Banana para estes lugares porque o povo não abre mão de vê-lo. O percurso  Barra-Ondina surgiu como uma alternativa para descongestionar a avenida, mas estão ambos absurdamente superlotados.

A violência

Quando vejo os números da violência, respiro aliviada. As mortes são poucas se considerarmos a multidão.  A quantidade de pessoas aglomeradas poderia gerar uma catástrofe que a festa da alegria não permite, graças.

Assaltado, entretanto,  é certo que você será. Mesmo que não leve nada. Na multidão, enfiam a mão em seu bolso, afanam sua corrente e partem suas pulseiras. Ainda que não leve nada de valor e nas orelhas carregue uma bijuteria barata, seus bolsos serão revistados e é por isso que nós, baianos, distribuímos o dinheiro pelas meias, lateral da calcinha e  bolsos diferentes. Na minha bermuda, eu carregava no bolso traseiro a carteira do plano de saúde no primeiro dia: voltei sem ela para casa. Deve ter passado uns dias no chão da avenida à espera dos lixeiros desde o instante em que o bandido folião percebeu que não era de valor já que pessoal e intransferível.

A música

Sim, apesar de tudo, é contagiante o ritmo, é fantástico o povo junto pulando, é maravilhosa a sensação de alegria, brincadeira e curtição da vida. A vontade que dá é a de que o carnaval não acabe nunca. Por isso mesmo, precisa mudar a atual estrutura.

Crise e caos

Crise e caos

Este é meu exato problema.

Embriago-me deveras estudando, adoro os livros, amo-os!

Vivo mil vidas na Literatura, sofro, choro, sorrio, amo para sempre e morro. Mas chega um dia em que me dou conta de que pode ser que a vida esteja passando e eu aqui…

O que fiz? O que faço? O que farei?

Não sou nenhum eremita. Saio, passeio, me distraio. Mas meus programas são tão torta com chocolate que eu apavoro quando vejo esta Bahia fervilhando de ensaios e festas mil.  É difícil andar na contramão da história. 

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Créditos das imagens: http://www.magazine-litteraire.com/images/045-01-108010.jpg

http://i5.photobucket.com/albums/y170/Nimby33/Eremita_Nimbypolis.jpg

Sobre mentiras

Sobre mentiras

                                      

Mentiras atordoam.

Quem mente cria um espaço e um tempo para viver algo que julga não poder viver falando a verdade. É uma narrativa capciosa que busca enredar o outro, testar a própria capacidade de sedução e faz, por instantes, aquele que mente se sentir onipotente. É um teatro em que se representam vários personagens, partes do que é o ser humano. Talvez os heterônimos que coabitam em nós.

Como valores são relativos, existe um termômetro de aceitação das mentiras. Dentre as tantas com que convivemos, abominamos algumas, ignoramos outras e aceitamos tantas mais. Aceitamos muitas vezes a mentira para nos autopreservar, para preservar o outro. Abominamos quando nos ferem, especialmente no quesito confiança.

Existem relações nas quais mentiras não cabem, ou melhor, existem mentiras absolutamente desnecessárias  e extremamente prejudiciais ao cotidiano de amigos ou de duas pessoas que se amam. O impacto da descoberta de uma mentira é, muitas vezes, avassalador, como o raio com que Deus destruiu Babel.

O casal que constrói a relação pautada em argamassa de papéis representados, que ferem a própria essência, constrói uma Babel de mil línguas com as quais não se entende nem se comunica. A desconfiança, o ciúme, o desafeto, o jogo de culpas os conduzem à destruição do sentimento. O sexo falha, a ternura fica maculada, o amor se gasta. Muitas vezes, acaba. 

Ninguém no mundo está isento dos efeitos ou da necessidade da mentira. Aquele que escuta a mentira está também construindo a sua torre de ilusões.  Aprisionado fica até que a verdade o liberte.

A imaginação fértil e o potencial ilusório, ficcional, do ser humano facilitam as mentiras; é muito mais difícil falar a verdade. Autoconfiança é o requisito essencial para a verdade. O mentiroso cativa porque encanta em ilusões, mas, essencialmente, porque prende o outro e a si mesmo em uma imagem irreal de si. Dificilmente faz laços, dificilmente se entrega.

Sobre o inocente sorriso da figura de Pinóquio, cresce o nariz do personagem, símbolo da mentira. É rica a metáfora. O boneco é punido através do espelhamento físico do vício que projeta uma conseqüência para suas atitudes e palavras. O nariz que cresce aponta ao mundo aquele que mente. A inocente, pueril e risonha aparência do boneco nos conduz a crer nele, a minimizar os efeitos da mentira. O castigo do mundo das fadas faz com que a sua aparência se modifique. Na vida como ela é, a imagem que temos do outro também sofre: após a descoberta da mentira, o exdrúxulo do nariz da ficção que deforma o rosto do brinquedo equivale à deformação da imagem do outro para nós.

O ressentimento dói, machuca, fere. Ao mentir ou falar a verdade, precisamos ter clareza de seus efeitos. Existem limites para nos relacionarmos com o outro. Como lembra Freud, a vida mental é contínua, nada ocorre ao acaso e os nossos pensamentos, sentimentos, as nossas atitudes ocorrem porque existem motivos.  A interação entre o consciente e o inconsciente conduz aos eventos mentais, a partir da influência de fatos que o precedem. Há sempre elos ocultos entre os eventos conscientes.

A despeito de qualquer coisa, todo ato nosso provoca sempre perdas e ganhos. Precisamos fazer o balanço, verificar conscientemente os benefícios e os prejuízos a que nos estamos conduzindo.

Assumir as conseqüências, se eu não me engano, é uma questão de caráter.

Existem homens *…

Existem homens *…

… que não deveriam existir!

Houve uma novela e  um tempo em que eu via novelas.  Lembro-me de que Mário Lago interpretava o jovem doutor Molina, havia o Tadeu, personagem do Jairo Matos e a Clara, interpretada pela Cláudia Abreu. Em uma certa cena (inesquecível) , o velhinho Molina discursa para o Tadeu e lhe diz, após este destruir o coração de Clara, que assassino não é só aquele que pega uma faca e a enfia no coração de uma pessoa ou um revólver e dá cinco tiros. O pior assassino é aquele que destrói os sonhos de alguém.

Nossa, me lembrei disso neste instante por causa de um personagem que me apareceu… Sabemos nós que somos todos a multiplicidade de heterônimos que habitam em nós. Ninguém é somente bom ou apenas mau. Mas há sacanas, cafajestes, seduzidos pela arte de seduzir, que se empenham em descobrir os anseios mais profundos desta ou daquela mulher… E a cortejam, embalam, levam-na às nuvens de algodão ou aos frágeis palácios d’ouro de seus anseios… Prometem-lhes os lírios do deserto e, com o peito, por um tempo, lhe aplacam a solidão.

Fazem isso de forma sádica, satisfeitos em seduzir, em conquistar, em exercer a sua torpe macheza para, logo em seguida, ter a mulher presa pelo preeenchimento de suas próprias carências. Então lhe arrancam o tapete debaixo de seus pés. Geralmente, ela, a moça ou menina nem tem tempo de ver o trem que lhe passou por cima… Enreda-se num sofrimento que inclui autocomiseração, impotência e culpa. Sangra fêmea ferida sem confiança,  na lama de seus restos.

O bonitão? Sorri e parte para a próxima. Vítima.

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* Não falo do homem nem dos homens, mas de um tipo específico que, convenhamos, não deveria mesmo existir.

Seis coisas sobre mim

Seis coisas sobre mim

Resisti horrores a escrever este post, a  Anna V.  , a Meg e a Nalu me indicaram e aqui estou eu, cumprindo o rito. Vamos lá.

http://www.olucas.blogger.com.br/raiva.jpg

1. Eu viro a maior fera quando pegam minhas coisas sem avisar. Empresto a depender da pessoa e do cuidado que ela demonstrar ter, entretanto dou muitas coisas, não me apego ao material. Para mim, coisas são passageiras, mas sinto como uma traição ou invasão de privacidade pegarem o que é meu sem me pedir.

2. Detesto ter comprado aquele biscoito ou iogurte ou chocolate ou qualquer banana que seja e chegar em casa desmaiando de desejo de comer para descobrir, tarde da noite, que , simplesmente, alguém comeu tudinho sem deixar nem farelo para mim.

3. Tenho uma tolerância gigantesca, uma paciência enorme, mas também um calcanhar de Aquiles. Na hora em que me magoam, eu perco o interesse pela pessoa, a amizade… os sentimentos vão morrendo e pronto. Não admito injustiças e pessoas que se aproveitam de outras para se beneficiar, obter vantagens.

http://www.humboldt1.com/~gralsto/einstein/pictures/newyork.jpg

4. Acredito, realmente, que TUDO É RELATIVO.

5. Sou muito extrovertida, mas também absolutamente introspectiva. A mesma que ri e fala alto a maior parte do tempo, em dadas situações, fica no canto, quieta, à espreita, observando as pessoas e as coisas.

6. Todo mundo pode contar comigo, sou muito prestativa, desde que perceba necessidade e boa índole na pessoa. Se eu sacar exploração, bau bau.

7. Não gosto de limites (leia-se imposição porque respeito as pessoas e os limites de cada um. E sei pedir desculpas e não repetir o erro). Isto de seis coisas me oprime. Então vou escrever mais…

8. Burocracias são necessárias, mas não devem oprimir para não matar a criatividade, a espontaneidade. Não consigo ser enquadrada.

9. Rotina para mim é o fim. A minha ‘rotina’ é ser diferente todos os dias. Adoro as possibilidades de recriar todas as coisas, de rever o mundo, de descobrir as pessoas, de reinventar. Vivo a olhar os outros ângulos e possibilidades. Por isso, sou também ponderada.

10. Críticas que não constróem, que são apenas perjorativas, para denegrir o outro, humilhá-lo, diminuí-lo, inferiorizá-lo, são , para mim, ofensas DESNECESSÁRIAS. Se não apontar soluções ou não desejar melhorar, guarde sua opinião. Penso isso. Odeio indelicadezas.

11. Sou capaz de encher os olhos de água com gestos pequenos e simples. Hoje, meu aluno me deu passagem na porta da sala a fim de que eu saísse antes dele. Simples delicadeza masculina. Emocionei.

12. Tudo que eu faço tem que ser com amor e tesão. Sou emotiva e produzo muito quando gosto. Forçada, não tenho prazer e não consigo produção relevante.

13. Sinto muita falta de meus pais. Muita.

14. Quando eu estou zangada, sai de baixo!

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Quanto às indicações de pessoas, escolham-se , leitores. Digam-me depois que eu linko aqui.

1- Solange é a primeira candidata!!!

Opressão empaca a produção

Opressão empaca a produção

Ainda há, infelizmente, empresas que trabalham apostando na opressão e no medo como formas de manter a ordem e o controle. Os funcionários tolhidos não desenvolvem sua criatividade e nem investem no seu potencial para conseguir soluções criativas para a empresa funcionar melhor e a produtividade de todos aumentar.

Em ambientes regidos pela fiscalização excessiva, desenvolve-se, paralela à insegurança por causa do desemprego, a delação. Empregados que sofrem rigoroso controle acabam não assumindo suas falhas, tendem a incriminar colegas que estejam em nível hierárquico inferior. Ambientes que prezam a produtividade, o elogio, a promoção e a recompensa salarial geram funcionários satisfeitos com sua função, motivados a dar o melhor de si e empenhados em desenvolver estratégias que aprimorem as condições de trabalho. Pessoas felizes trabalham com maior produtividade.

A fofoca tende a diminuir em ambientes que prezam a competência e a liberdade. O respeito entre as pessoas é maior e também a eficácia do trabalho em grupo. 

Medo e opressão não geram crescimento, empacam o serviço e  paralisam a energia potencial do trabalhador, que se restringe a fazer o que lhe é ordenado, solicitado, sem inovar ou tentar outras soluções mais funcionais. Infelizmente, ainda há lugares que apostam na tirania do chefe, no papel inquisidor de supervisores disfarçados de ‘coordenadores’ e na delação como atitude para demonstrar fidelidade à ‘camisa’. 

Não há possibilidade de crescimento no medo. O chefe-carrasco transforma os bons funcionários que a empresa captou em potenciais fugitivos em busca de melhor oportunidade em outras empresas e mantém, sob sua guarda improdutiva, mecanicista, capachos descartáveis que nada de significativo criam ou produzem.

Divagações

Divagações

Amar é … gostar de fazer sopa sem gostar de sopa só porque o outro gosta de sopa. E pôr um pouquito no prato raso só para disfarçar e fazer-lhe companhia na mesa. É engraçado como eu aprendi isso. Então eu descobri que tenho um ‘potencial sopístico’ enorme. E que todo o amor que eu tenho precisa de alguém para que eu o distribua. Com sopa ou sem sopa. Mas não há muito homem dando sopa. Talvez muitos também já estejam de saco cheio da sopa de todo dia. Por isso vivo aprendendo a cozinhar novas delícias ( de ervilha, de sururu, de aspargos, de feijão – esta é a clássica etc.)

* * * * * * * * * * * * * * * 

Desde a minha adolescência já era moda ficar. Mas eu confesso nunca ter gostado. A gente já vai morrer como as alfaces, virar adubo, reciclável na terra que nos espera e eu ainda ter que encarar o descartável das relações? Não, meninos e meninas, sinto muito, mas eu não gosto.

Gosto de vínculos.  Não brincava só quando era criança, se não havia outras crianças, eu lia. Nos livros, encontrava a companhia dos personagens. E meu cotidiano foi povoado de família cigana. Gostava de primos e primas para brincar, não de bonecas sem vida. É por isso que me chateio hoje quando cozinho para um.

Quem está sozinho, consegue uma individualidade fantástica. Falta, entretanto,  alguém para ver filme junto, achar bom ou ruim depois, concordar e discordar. O contraponto existencial que nos faz realmente viver. Eremita é exceção.

Por isso, conviver, companhia, consorte, contente.

Um dia tabacudo – parte I

Um dia tabacudo – parte I

De todos os dias da viagem, o último foi o mais inusitado, por isso, o melhor. O resto, perfeitinho demais, dias normais. De última hora, lá em João Pessoa, achei uma carona para Recife. Teria que voltar a Recife para pegar o vôo para Salvador. A carona significou acordar às seis da matina, tomar café, fechar a conta do hotel e enfiar a mala, a sacola, o saco, mais uma sacola e uma bolsa numa van. R$37,50 e, às nove e vinte, eu já estava dentro do aeroporto Guararapes. Beleza. Despachei todos os meus pertences. No limiiiiiiiiite do embarque: 23,2kg. 

Uma pausa para eu dizer que adoro isso de um aeroporto ter um nome regional, algo que valha a pena. Guararapes é lindo e sonoro. E qualquer baiano sabe a que discussão eu aludo nas entrelinhas : adeus Dois de Julho

Aí, despachadas a mala e a sacola grande, inventei a maior maluquice: tirei a calça jeans no sanitário, a blusa, vesti o biquíne e um camisão, troquei o tênis e as meias por havaianas (que sempre me marcam o peito do pé), enfiei tudo no saco e guardei por R$5,00 no guarda-volumes. Peguei um transporte para a praia da Boa Viagem e fui com o kit maluquice na bolsa para a praia dos tubarões tomar um solzinho.

Amendoim daqui e dali, há vendedores ambulantes  em todos os lugares. Parece que brotam da areia. Pipoca de todos os tipos, especialmente a doce que chamam de Pipocão. Dezenas de vendedores ofereciam aos berros amendoim, ovo de codorna, pipoca, camarão. Amendoim torrado, olha o amendoim torrado. Tem também o amendoim cozinhado…Amendoim torrado, olha o amendoim torrado. Com casca e descascado. Tem também o amendoim cozinhado… Amendoim torrado, olha o amendoim torrado. Tem também o amendoim cozinhado… Amendoim torrado, olha o amendoim torrado. Tem também o amendoim cozinhado… Esta era a letra da canção na praia pernambucana.

Famílias , moças solteiras… Homens, rapazes… a praia estava lotada devido ao feriado. Nenhuma foto na praia , que a violência lá é meio soteropolitana, paulista e carioca… nada de arriscar. Logo, logo eu concluí que a idéia tinha sido lá meio de jerico, porque eu não gosto de praia cheia. O bom é que deu para curtir o anonimato.

Sol tomado, refrigerante e água na barriga, amendoins também, resolvi sacudir a areia e fui ao shopping de Recife. Apenas seis reais de táxi.

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A palavra que mais ouvi no Recife foi tabacudo e tabacuda… na Bahia, isso lá tem um significado esdrúxulo… sabe deus com que significado os pernambucanos queriam adjetivar tanta coisa…

O estranho caso do cotonete

O estranho caso do cotonete

Tenho a maior certeza de que quem ganha ilicitamente o seu dinheiro não se incomoda com preços. Já pude observar pessoas desonestas consumindo. E qualquer trabalhador ficaria no mínimo indignado se visse o desperdício e a soberba daqueles que não sabem o que é o suor de cada dia.

Aos outros, os que trabalham para ganhar o seu salário, seja ele suficiente ou mínimo, lembro as enrascadas dos supermercados modernos. Os templos de consumo cada vez mais estrategicamente se armam para nos iludir. E vender, óbvio. Há a disposição das gôndolas e dos produtos nelas, a própria arrumação das seções, que prioriza na entrada do mercado os supérfluos e as mercadorias mais caras. Às vezes, em nome do seu orçamento, vale começar as compras pelo outro lado. Há muito o que se pensar ao fazer uma rotineira visita ao supermercado para adquirir o pão nosso.

Dizem os especialistas em economia que devemos levar sempre listinhas. Comigo até hoje não funcionaram bem. Não me eduquei para comprar assim. Tenho boa memória e – o problema – sou volitiva, então escolho no dia o que quero ou não. Um dia ainda tentarei a disciplina da lista. Nos últimos 7 anos sem mãe, acabei aprendendo a não me encher de supérfluos e a pensar se preciso realmente deste ou daquele produto. Mas não dá para não colocar na lista mexilhão e chegar aos frios, ver a qualidade e o preço bom e deixar de pensar na hora no spaghetti que aquilo ali pode virar… É muita racionalidade e o meu estômago não pensa. Deseja.

Entretanto, comecei a observar uma série de coisas, como as estratégias para lucrar mais. Que um sabão custa mais e outro menos, todo mundo sabe. Estas questões de marca e qualidade interferem no preço final do produto. Mas daí a pensar que 1kg em uma embalagem custe mais que dois pacotes de meio quilo em duas embalagens… Ora, se usamos 1 quilo de sabão no mês, a tendência é pegarmos o pacote grande e não dois pequenos. Hoje, entretanto, voltei para casa com duas caixinhas ao invés de uma grande. Foi mais barato assim e o produto era o mesmíssimo. 

As maiores armadilhas que tenho visto, contudo, envolvem o famoso leve tanto e pague menos. Para ilustrar o serviço “dona de casa”, vejam o caso dos cotonetes. O produto era os da marca Johnson & Johnson. A matemática que aprendi não me permite entender : 75 cotonetes custam R$ 1,49. O pacote leve 75 e pague 60 custa R$1,55. E o pacote com 150 hastes flexíveis sai a R$3,45. Fizeram as contas do custo/benefício? Levar dois pacotinhos de 75 custa mais barato que um de 150. E a promoção é embromação. Leve 75 e pague 60? Como? Se sai mais caro que a embalagem que não é promocional? Supermercado a que fui hoje? G Barbosa do Costa Azul.

Eis a prova!

BR 324

BR 324

Alguém pode me dizer quando o governo federal vai resolver privatizar logo o Brasil inteiro?  A ingerência está me irritando a ponto de eu me tornar resmungona insuportável.

Segunda viagem a Feira em apenas 1 mês = menos dois pneus. No mesmo trecho, cinco carros no pseudo acostamento com o pneu ou furado ou rasgado. Por isso é preciso ter atenção na estrada para você não cair nos poucos pedaços de rua que existem entre os buracos.

Postos de gasolina típicos de países de oitavo mundo. Sanitários públicos? Pastos são mais limpos. Deu vontade de voltar ao primitivismo do paraíso e encarar as moitas e folhas das estradas. Papel higiênico? O que é isso? Na Bahia, só se viaja com papel no porta-luvas ou na bolsa. Os mais toscos improvisam com guardanapinhos do projeto submundo de lanchonete.

Segurança? Só a do cinto.  

Policiamento, patrulhamento? Maus elementos.

Ô, meu Deus, por que eu nasci aqui? Juro que pensei. Ficam pregando para lá e para cá as maravilhas naturais do Nordeste, que realmente existem, e se esquecem de avisar ao povo que já inventaram a CIVILIZAÇÃO. Tive vontade hoje de solicitar uma aula pública, magna e depois em série, tipo no mínimo um semestre de EDUCAÇÃO BÁSICA, para TODA a população brasileira. Obrigatória. 

Durma com um barulho destes

Durma com um barulho destes

Minha amiga papeou hoje à tarde por muitos inquietantes minutos comigo. A história era a de um homem interessante, bonito e inteligente. Ela se apaixonou, mesmo sem querer. E alguém lá consegue escolher essas coisas do coração?

Então, qual o furúnculo perturbador? Vulgar, comum, ordinário, cotidiano: o cara é casado. Ihhhhhhhhhhhhhh…

Eu fui logo lhe dizendo, queira nada sério com ele, não. Porque você o verá desabafar em seu colo o horror de conviver com a esposa macabra, malévola, bruxa do mal. Em todas as horas de riso de vocês, haverá piadinhas sobre a dita cuja insensível e implacável. Depois do sexo. No jantar à luz de velas. No sofá deitados ou no cinema à meia-noite. Na hora da sua carência (leia-se exigência), a bruxa será você. Ela, coitadinha, será a frágil menina que não sabe viver sem a proteção dele, macho provedor. A irada esposa ofendida que ataca, agride, o faz desfazer-se em lágrimas – que serão choradas todas em seu colo. Minutos depois, quando a arma fatal da mulher oficial for posta estrategicamente entre vocês, e ela chorar as lágrimas sentidas de beicinho que saberá fazer melhor do que você, já que depois de tantos anos é PhD em lidar com ele, hoho, filhinha , amiguinha, você vai sofrer. Preterida.

Ah, e tem mais, amiga, poupe-se da dor de saber que nas noites em que você toma café vendo a droga da programação na tv, sem ter com quem comentar, ele estará lá, na casa dela. Na cama deles. E sua cabeça insana de mulher apaixonada vai pensar por horas e horas na cena provável de carinho entre os megeros pombinhos.

- Ah, Alena, mas está difícil achar o desimpedido … o liberto …  A vida apronta com a gente.

- Não, honey, não. A gente apronta com a gente. Vá lá, se jogue, como dizem os meus alunos. Mas leve as cordas e deixe a equipe de resgate a postos para te retirar do fundo do poço depois. (Buáááá… eu queria protegê-la, mas ninguém pode contra um insensato coração).

Cercas

Cercas

Durante muitos anos, eu comprei briga com as “puladas de cerca”. Se não fosse esse tal de amor a querer exclusividade em todo o seu potencial egoísmo… talvez de forma leve todos os casais pudessem estar mais tempo juntos… ou talvez outros estivessem há mais tempo separados.
Hoje prefiro, como mulher, não pensar muito nisso. E entender que os desejos aparecem. Não podemos crucificar-nos e nem guilhotinar os outros.
Mas a liberdade é melhor quando não se ama. Amando, estamos em cárcere da consciência. E da culpa que o outro tenta nos impingir.

“Lata d’água na cabeça” – parte I

“Lata d’água na cabeça” – parte I

Sabe quando você se excede? Sabe quando você fala besteira para uma pessoa muuuuuuuuuuuuuuito importante? Sabe quando você fica à noite, depois de acordar da bebedeira, sem dor de cabeça física, mas com consciência pesada, pensando em como vai pedir desculpas e com vontade de atrapalhar a madrugada alheia com um meloso telefonema do tipo vem-para-cá-correndo? Sabe quando você sente falta? Sabe quando você é malucamente louca e afasta quem você quer cada vez mais perto? Sabe quando a banana do personare te avisou para não falar besteira, mas você falou porque afinal é (ir)racional e tenta não acreditar nestas coisas astrológicas que sempre dão certo com você? Sabe quando você fica com cara de cachorro arrependido e bico de criança?  Pois é: tô assim.

Se… parte II

Se… parte II

… o pecado bate na porta, a gente sorri. Se traz sorvete, os orgasmos são múltiplos!

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Aproveito aqui para lançar a minha mais escandalosa revelação (risos). Desde que eu descobri isso, quando conto a um namorado, o olho dele fica miudinho, com aquela cara de impotência do tipo: e agora? O que é que eu vou fazer com uma mulher destas? Eu brinco e digo: nem se preocupe, jamais reclamarei. Existe sorvete! 

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Vamos ao post:

Quando éramos crianças, o pai e a mãe eram vivos e os domingos eram cheios. Saíamos ao clube, banho de piscina, coxinhas, acarajés, refrigerantes, etc. Almoço na churrascaria etc etc etc . Nada disso interessa agora, porque o grand finale do dia era a coroação : depois do passeio no Farol da Barra, na Avenida Sete (sim, fazíamos city tour em Salvador no Monza dourado aos domingos) ou na Ribeira, as três meninas alegres desciam do carro alvoroçadas, não menos que a menina-mor ( minha mãe) e que o menino-mor (meu pai).

Parávamos na Cubana ou na Sorveteria Amaralina ou na Sorveteria da Ribeira naqueles doces domingos hoje da memória. Então minha mãe, autoritária que só ela, fazia questão de escolher o melhor para as três filhas e para si mesma : quatro sorvetes de coco e manga, por favor,  e um de ameixa com coco ou com amendoim (esse era o de meu pai,  que sujava a cara larga todinha e lambia os cantinhos das suas próprias bochechas até  limpá-las com a língua.). Por isso, a gente aprendeu a tomar dois sorvetes, para ter o direito de escolher uma bola do segundo, que uma sempre tinha de ser o de coco porque ELA determinava e porque era, realmente, o melhor.

Minha gula megalomaníaca infantil sonhava com o dia em que eu namoraria um dono de sorveteria – tipo a Magali desejando o Quinzinho apenas por causa dos sonhos e doces – só para poder comer de colher todos os sorvetes que eu bem entendesse, retirando as porções sem cerimônia daquele pote de 20 litros que fica exposto nas vitrines.

E a palavra convida:  sorvete. Sorve-te. Sorver-te. Sorver… Eu sorvo o sabor, o teu divino sabor…  Te sorvo assim… huuummm… a pazinha raspando o cremoso gelato, a língua entrando em contato com o frio que vai se derretendo em mim… A minha nuca se arrepia então… Se tiver uma colher, eu viro-a do avesso e lambo a forma côncava pelo lado de dentro, roçando a língua com uma precisão  quase científica a ponto de nada lhe sobrar do creme precioso… faço isso até hoje, como só as crianças sapecas sabem fazer!

Então aquele gelo gostoso, derretido, frio ainda, mistura-se à saliva que já me inunda a boca e  desce lenta e prazerosamente pela garganta. Sinto as curvas do frio em mim, invadindo-me o início do sistema digestivo até desaparecer de minha ainda quase nula sã consciência do processo alimentar.

A essa altura, as ondas de prazer já me tomaram o corpo e o arrepio subiu de novo à nuca, espalhou-se pelas costas e, juro(!) aqueceu-me o sexo. Como o movimento se repete ainda muitas vezes, sinto, realmente, um prazer orgásmico ao sorver-te, sorvete.

Como  respeito o sexo e muito, não tomo sorvetes à toa. Uso-os como válvula de escape para minhas tensões cotidianas ou como recompensa por tarefas exaustivas que cumpro. Ou para os dias em que a Liberdade realmente se faz para mim. Nestes momentos, caminho lépida e faceira, quase saltitante, com uma leveza de mulher e uma pureza de menina, absorta em meu sorvete como estaria ao partilhar a intimidade com outro alguém.

Assim termina minha noite: ganhei um pote de sorvete e um beijo inocente.

Deu para tirar uma casquinha?

Pequei

Pequei

Estudei em colégio de freiras, o que me rendeu um bom conhecimento bíblico. Mas não foi suficiente para me cegar. Não, ao contrário, depois de ter lido, criança, toda a obra de Lobato, eu só poderia ter o inconformismo da Emília. E pensei muito durante muito tempo se eu não estava querendo trocar abóboras de lugar com jabuticabas.

No Ensino Médio, que antes era segundo grau, conheci a obra do Boca do Inferno, pela qual passaram voando, voando, devido aos fundamentos religiosos, e do qual os professores disseram ser um poeta menor, um louco desbocado, acreditem.

Meus pais, entretanto, me disseram que a educação era o que de mais importante havia na vida e eu os amava tanto que acreditei sem hesitações. Sempre ia a fundo e, como eu já conhecia a Biblioteca Central naquele tempo, fui um sábado vadio passar a tarde lá. Encontrei o que queria: mais sobre Gregório. Depois disso, descobri, na casa de meu avô, homem culto do sertão nordestino, um exemplar da obra gregoriana. E me fascinei com a linguagem que tentaram me fazer crer descabida. Sozinha, entendi o que vinha a ser conceptismo e cultismo.

Depois das incursões gregorianas, virei professora e fui à luta. Ter que dar com 20 anos aulas no cursinho me fez estudar muito. E mais conheci de Gregório. A formação religiosa dará outro post, breve. Vamos ao que interessa: a culpa.

Minha mãe era extremamente rigorosa, de boa família e pautada pela decência, moral e pelos bons costumes. Por outro lado, viveu a geração paz e amor e lia demais, portanto não deixou de nos criar com o cerne da inquietação. Casa de tês filhas, bebemos a revolução e a anarquia que ela mesma cuidava de podar para que não desvairasse em galhos muito acintosos. Seus olhos reprovadores eram o super ego de qualquer uma de nós.

Livrei-me da cegueira religiosa, da cegueira de família latifundiária interiorana casada-para-todo-o-sempre-amém, da cegueira do que-é-que-os-outros-vão-pensar… Li O Anticristo, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Para Além do Bem e do Mal, e mais: poesia, contos machadianos, literatura universal etc etc etc… Se aquele que tinha Guerra no nome me influenciou em idade perigosa, aos 14, e mais tantos outros, como é que o Ministério de Educação diz que ler não faz mal (risos)?

Assim pude me libertar também dos olhos incriminadores dela, da luta entre o anjo e o diabo na minha consciência que se percebeu, simplesmente, humana e animal.

Deste modo, extirpo qualquer sombra de culpa e, ao meu pecado, brindo na Boca do Inferno onde talvez eu vá me aquecer do frio soteropolitano, bebendo o vinho de Baco:

A Jesus Cristo Nosso Senhor

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

Gregório de Matos Guerra ____________________________________________________________________

Genial, não? Pequem, ovelhas, Deus que nos venha salvar então!

Ah, nessa mesma escola, APRENDI o silogismo: Deus é amor. Quem ama perdoa. Então…

:) Ó divina desculpa !

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Evil o pecado veio à porta. E agora bate na aorta.