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AMOR ?

AMOR ?

O filme AMOR ? de João Jardim simplesmente incomoda.  AMOR ? incomoda porque, de forma íntima expõe os bastidores de casais que se encontraram por causa do amor, do gostar, de afinidades e de tesão. O problema é que ninguém nunca sabe onde é que acaba a linha tênue entre o afeto e começa a agressão.

Onde parar? Quando dizer não à relação antes que ela se desencaminhe para o desrespeito, a dor e a mutilação física ou psicológica dos envolvidos?

Relações doentes, passionais, permeadas de afeto, mas fora do padrão saudável de normalidade. João Jardim, sensível, consegue o que nenhum outro filme alcançou: sem expor a cena brutal da agressão, trazê-la totalmente à tona através dos depoimentos dos personagens, numa narrativa psicológica verossímil e tensa – por vezes tímida ou constrangida. E constrangedora. 

É uma narrativa construída através da encenação de depoimentos reais, transcritos e entregues a nomes de peso da dramaturgia brasileira como Lília Cabral e Du Moscovis. O sucedâneo de depoimentos que aborda as histórias pessoais de casais dilacerados pela agressividade de um ou outro cônjuge ou de ambos, na tela, nos causa a sensação de que todas as histórias são, na verdade, uma só.

Sempre pensei que filmes bons me causam a vontade de falar. Amor ? foi diferente. Silenciou-me.

Leitura sofrível

Leitura sofrível

E escrita também. Pense num livro que não alcança o interesse do leitor : O clube do filme. Uma história insossa que talvez pudesse até convencer se fosse contada por outra pessoa ou de outra maneira. Mas a narrativa é tão monótona que a leitura só prosseguiu porque eu tinha o otimismo de que, em algum momento, alcançasse um clímax.  Nada. Não chega a canto algum.

Um pai resolve dar a seu filho adolescente entediado com a escola e com rendimento baixo a oportunidade de abandonar a sala de aula e nada fazer em troca – nem trabalhar nem pagar aluguel – mas apenas se comprometer em assistir a alguns filmes com ele, no mínimo três por semana.

Fora duas relações amorosas um tanto traumáticas para o garoto Jesse, o fato de tocar numa banda e fazer uma viagem para assistir a um show – até então nada contagiante ou fora do lugar-comum – bem como o envolvimento rápido do garoto com cocaína, que não chegou a ser um vício… ademais, nada há na narrativa a não ser as próprias impressões do autor, David Gilmour, sobre os filmes a que assistiu na vida (ele próprio crítico de cinema). A vida comum pode ser excelente pauta de livros, mas a impressão que fiquei foi a de que em nada me acrescentaram. Nada. Tudo muito óbvio, muito nhenhenhém.

O problema prossegue: as opiniões de Gilmour sobre as  películas aparecem de forma superficial, ressaltando um momento um tanto quanto óbvio em cada filme, um ator ou diretor e o garoto não consegue também nos entusiasmar embora por vezes discorde do pai. A narrativa das escolhas de filmes que vai fazendo é cansativa, um roteiro, um manual. Chato demais. Parece um diário de anotações sobre a experiência que depois foi impresso. Mas um diário sem emoções. Sem vida. Como uma lista de supermercado.

Tipo de livro que vai parar num sebo rapidinho. Aos montes.

Universo feminino?

Universo feminino?

No meu aniversário, ganhei alguns livros muito legais dos amigos. Um deles foi o da blogueira Tati Bernardi :

Li no sábado após a festa, rapidinho. Fiquei com um mau humor incrível e cheia de vontade de descascar o meu namorado. Adorei algumas crônicas, outras nem tanto. Gostei de rever o estilo franco que a vida de mesuras romanescas imprescindíveis à sobrevivência de qualquer relação ‘normal’ me fez atirar nas entrelinhas de mim mesma e afogar no riso pecaminoso dos encontros com as amigas.

O outro livro foi a menina que roubava livros de Marcos Zusak (Sidney, Austrália). Achei o título genial e não passei incólume por ele. Gastei meus 39,90 reais e vim para casa feliz, carregando o livro, Liesel Meminger e a sua história com a morte. Três dias depois, uma facada: a Saraiva me mandou um e-mail anunciando a fantástica compra da obra por R$22,90 (quase tive um infarto). Mas vamos lá: não se ganha sempre.

A passagem mais tocante para mim de a menina  que roubava livros foi a  seguinte:

“Uma pequena definição não encontrada no dicionário

Não ir embora: ato de confiança e amor, comumente decifrado pelas crianças.” (p. 37)

A estratégia narrativa é maravilhosa e o título genial. A morte é a narradora. Parabenizo o autor pela idéia, mas… não sei se foi questão de tradução ou de adaptação para a nossa língua ou se a história deixou mesmo a  desejar. Não mudei nada após ler o livro, senti que foi entretenimento apenas. E olhe que eu reservei para ele uma tarde fria de sábado ( a capa é a morte andando na neve) na qual eu devorei 405 de suas 495 páginas.

A narrativa na voz da morte é piegas em diversos trechos da história doce de uma menina pobre adotada por uma família um pouco menos miserável que a sua mãe – que desaparece. Liesel viveu na Alemanha da Segunda Grande Guerra e viu os horrores do nazismo do alto de seus olhos inocentes e feridos pela perseguição aos judeus, pela ida de seus novos parentes à guerra e pela morte (claro) de muitos dos seus conviventes. O romance, apesar de tudo, não convence. O ponto de vista narrativo da morte enfraquece e torna um fio tênue a ligação do leitor com a personagem. Não conseguiu atingir a força das emoções de Liesel, há um distanciamento que nos faz sentir apenas meros espectadores de um filme que se passa lááááááá na tela da tv, com todo o metro entre o aparelho e o sofá atestando que não foi conosco, aquela sensação de ah, tá, e daí?

É uma pena. A idéia foi instigadora.

Ó paí, ó!

Ó paí, ó!

Quem usa sapato alto, anda apenas na praça de alimentação do shopping Iguatemi e mora nas ilhas prediais de luxo da cidade de Salvador pode estar incomodado com o resultado na tela da filmagem de Ó paí, ó.

A preocupação de alguns é que se firme o estereótipo de baiano que aparece na telona no estilo Casseta & Planeta.

Terça-feira à noite, fui ao cinema conferir o resultado. Pasma, na cadeira, adorei ver a reprodução imagética da minha Bahia. Senti o filme como um recorte da cidade de Salvador. Andar pelo Pelô e na Feira de São Joaquim ou no Porto da Barra é realmente deparar-se com uma realidade que o cinema captou de forma quase documental, embora haja a recriação artística e a adaptação da ficção. 

 

Olhe para aí, olhe (Ó paí, ó). Porque, cegos em seus guetos vigiados, os privilegiados da nossa cidade e do nosso mundo não vêem ou fingem não enxergar o que tanto incomoda na tela. 

A Salvador que se incomoda com o que o filme apresenta é a mesma que fecha os olhos para o apartheid do carnaval baiano, a mesma que ignora com vidros fechados nas sinaleiras os menores pedintes, a mesma Salvador que despreza o negro, o pobre, o marginalizado. É uma Salvador que não se importa que haja cordeiros (seguradores de corda) no carnaval para os ricos pularem com conforto e segurança. É a Salvador que dá de ombros para os R$14,00 que cada cordeiro recebe. É a Salvador que não percebe a concorrência entre os catadores de lata que precisam de crachá e credencial para no carnaval arranjar um sustento.

Existem outras cidades que não aparecem no filme. A cidade da Mc Donald’s, do Horto Florestal, dos shoppings e condomínios de luxo. Não aparece no filme o menino de barriga cheia, nem o estudante das escolas particulares, os empresários da Tancredo Neves.

Mas a realidade de que trata Ó paí, ó é a vida cotidiana de moradores do Pelourinho, de Coutos, do Trobogy, de Paripe, do Subúrbio Ferroviário, da Ribeira… 44% da população de Salvador vive abaixo da linha da pobreza. Isso significa que não vai ao cinema, não tem emprego, moradia, dignidade garantida. 

O filme só pode mesmo incomodar às ilhas de intelectualidade que gritam em cima de bancas universitárias num chilique que combate o estereótipo de um baiano que ri e dança apesar de. Tanta coisa.

Convido os preocupados com o recorte do filme a visitar São Joaquim, a andar pelo Pelourinho, olhando para além das portas e fachadas turísticas dos casarões. A visitar na Saúde os cortiços repletos de excluídos. Esta cidade  faz festa, tem futebol e carnaval. Também tem tóxico, tráfico, vendedores de café, meninos na rua …

Gostei do resultado, tive vontade de aplaudir o filme ao final da sessão. Não me preocupo com aqueles que acharão que a Bahia é apenas isso nem com o preconceito de sulistas que se julgam superiores. Porque mais forte do que tudo para mim foi a divulgação de que a Bahia também é o que nos faz estupefactos exclamar: Ó paí, ó!

***
Quarta, nas Faculdades Jorge Amado, recebemos parte do elenco do Bando de Teatro Olodum e  Márcio Meirelles e outros convidados para um debate. Depois, mais informações e a resenha do evento.

300 de Esparta

300 de Esparta

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Leônidas nas Termópilas (David, Jacques-Louis Musée du Louvre)

Histórias gregas sempre atiçaram a minha imaginação de menina. Entre as opções de filmes que havia no sábado, escolhi, portanto, assistir a 300 de Esparta.  Àquela altura, não tinha noção dos quadrinhos nem da concepção original do filme.

Luzes apagadas e extensos minutos de cansativos traillers, intrigou-me, inicialmente, a imagem em sépia. Desejei muito ver o mar azul da Grécia na telona, como nas cenas de Capitão Corelli. Por isso durante vários minutos estive atenta ao segundo plano das cenas. Até que a ‘ficha caiu’: nenhum grande homem ou guerreiro ganharia atenção dos espectadores em detrimento do azul do mar grego.

Eu vi o mar de Santorini na Grécia

 A narrativa nos remete a 480 anos a.C. quando o rei Leônidas (interpretado por Gerard Butler), espartano de grande honra e destemido guerreiro, luta contra o Império Persa do rei-deus Xerxes (Rodrigo Santoro) no desfiladeiro das Termópilas. Se o figurino de ambos os personagens deixa a desejar porque adereços de guerra foram desconsiderados tanto na concepção fílmica quanto nos quadrinhos e o rei da Pérsia aparece, por exemplo, cheio de piercings,  não posso deixar de aplaudir a caracterização do Leônidas enquanto grego. Ao ver a projeção do espartano, imediatamente fui levada ao Museu Nacional de Atenas, onde está exposta a estátua de Poseidon. Compare:

Se o Leão de Esparta foi tão bem representado por um lado, por outro há hipérboles imagéticas que me decepcionaram. Embora a licença ficcional do cinema permita o inverossímil  e gere o efeito de realidade,  infelizmente não mergulhei no efeito do real porque os inimigos persas estavam tão caricatos e alguns humanos tão monstruosos (como um grandão brutamontes deformado e acorrentado e o traidor e miserável Ephialtes) que só pude pensar na subliminar e pobre visão maniqueísta do mundo. Se Platão dicotomizou as forças do Bem e do Mal, é fato que a filosofia moderna já superou as falhas de um mundo tão estoicamente organizado. “Para além do Bem e do Mal” ( Nietzsche)  talvez seja uma leitura para os autores/diretores da atualidade que ainda insistem em um ponto de vista partidário ao extremo. 

Na linha do inverossímil, as bestas apocalípticas que como feras encarnam todo o mal inimigo  (os elefantes e o rinoceronte) parecem mais saídos de um filme de terror que daqueles navios depois de dias no mar: improvável que fossem domesticadas para atacar apenas o inimigo grego. A história conta outra versão e não há registros da presença destes animais na referida batalha, mas apenas em outra 200 anos após. 

Ainda a descortinar a crítica, embora assuma o ritmo de game moderninho na luta e apresente um Xerxes (Rodrigo Santoro) com 3 metros de altura, o filme agradou-me. Fez-me recordar os idos do colégio quando o professor de história em 1992 contou-nos na sala a Batalha das Termópilas. A aula do mestre Miguel Dratovinsk foi repassando na minha cabeça e adorei ver, no cinema, a representação daquilo que imaginei no passado (melhor ainda -uh lá lá – porque, na época, eu não tinha conhecimento do belíssimo corpo dos gregos).

O expansionismo persa nos lembra a estupidez da sanha humana pelo poder, assim como os EUA ainda hoje revelam ao ocupar o lugar do grande Império do século XX, já ameaçado no terceiro milênio pela China. Terras e mais terras com suas riquezas em  troco de vidas que são sacrificadas pela vaidade de ditadores insadecidos pela supremacia tão ansiada.

Por outro lado, a honra dos espartanos me deixa saudosa dos tempos épicos e também líricos em que os homens defendiam a sua pátria, as suas mulheres e crianças. 300 de Esparta nos traz valores há muito usurpados pelo torpe capitalismo. Nos tempos de agora, homens moderninhos se vendem a qualquer preço, traem valores, instituições e a família por qualquer ‘trezentos’ que lhes molhe o bolso. É uma pena.

Mestre Haroldo… e os meninos

Mestre Haroldo… e os meninos

Mestre Haroldo… e os meninos  está em cartaz de sexta a domingo às 20 horas na Sala do Coro do Teatro Castro Alves. A peça de Athol Fugard conta a história de Reri, um adolescente branco filho da dona de uma lanchonete onde trabalham Samuel, um garçom negro de 50 anos, e Valney, faxineiro negro  de aproximadamente 45 anos.

O velho Samuca criou Reri, muitas vezes fazendo-lhe o papel de pai uma vez que este, na verdade, era um alcoólatra inveterado. Estudou com o menino, ajudou-lhe com as lições, empinou pipa e carregou-o no colo nos momentos difíceis. O menino cresce e, adolescente impiedoso, diz impropérios ao velho Samuca, cospe-lhe na cara e exige que o trate por Mestre, assim como o Valney já fazia.

O clímax da peça ocorre em meio às gargalhadas do adolescente que repete ao velho Samuca a piada racista que o seu pai biológico lhe contava repetidamente no lar. A revolta de Samuca faz da tensão grotesca que se forma um momento lírico de libertação do preconceito, da discriminação. Uma lição de moral e amor.  

Gideon Rosa, no papel de Samuca, emociona uma sala inteira e rouba, literalmente, a cena, protagonizando o conflito que Athol Fugard, autor africano, transpôs para o teatro num ato único. Como Mestre Haroldo, o ator Igor Epifânio e, como Valney, José Carlos Ngão.

A peça, ambientada numa lanchonete dos anos 50 na África do Sul, nos remete ao Brasil que também discriminou nas fazendas escravocratas as amas de leite e os pajens. Um Brasil que gerou filhos brancos preconceituosos capazes de humilhar aqueles que mesmos que os criaram na infância.

Ao final do espetáculo, os atores bateram um papo conosco. 

O diabo veste Prada

O diabo veste Prada

Crédito da imagem: http://www.cinemacomrapadura.com.br/filmes/img/1937-2006-06-21-19:06:09_8.jpg

A maior recompensa de O DIABO VESTE PRADA é, realmente, ver o esbanjamento de charme e classe de Meryl Streep, magnífica no papel de Miranda, editora de moda da revista Runway, a mais importante de NY. O filme revela os bastidores do mundo da moda. O enredo é fraquinho,  cansa o espectador e faz a coluna sentir o incômodo da cadeira. Interessa a poucos e não chega a ser nem politicamente correto nem incorreto. Meio constatações de como são as coisas no mundo fashion.  Anne Hathaway interpreta a recém-formada em jornalismo que consegue o seu primeiro emprego , justamente como assesssora da terrível Miranda, misto de deusa da moda e diabo de chefe.

Soube agora que o filme é uma adaptação do livro homônimo, de Lauren Weisberger. Admira-me esta obra virar best seller com tanta literatura precisando de leitores no mundo, mas vamos lá, metáforas não são mesmo para todos e o mundinho fashion das celebridades é o norte dos valores vigentes então. A autora foi assistente da editora da Vogue americana e parece que a voz d‘a vida como ela é’ acabou por apimentar mais ainda a vendagem do livro.

Mito ou realidade, se o diabo veste Prada, todos podem concluir que ele é um show de elegância. E se o diabo veste Armani, Gabbana, Dior, Valentino e o que mais do gênero, além de endinheirado – não dizem que foi ele que inventou o $$$? – o tinhoso é  de muito bom gosto. O que me atraiu ao longo do enredo, que deu sono realmente, foi o mundo de faz-de-conta e a tirania das editorias. Miranda é realmente espelho de muitos editores , capazes de vender até a alma ao diabo para ter certas benesses. Uma troquinha de favores aqui, uma puxação de saco ali, e milhões de dólares gerados pela indústria da moda. É o espelho de pessoas que vivem de flashes e sorrisos, diplomáticas, mas , na verdade, toleram-se umas às outras.

Nada contra a moda, nada contra os estilistas. Aliás, os melhores momentos do filme são realmente os desfiles de modelitos. O diálogo de Miranda com a subalterna explicando-lhe sobre a cor do suéter dava uma aula de análise crítica muito boa. Aliás, o clímax do filme para mim. A secretária de Miranda entra no manequim  do papel. Ótimo pensar que a moda crucifica quem veste 40. Acima disso, nem existe! Paradoxo é ver a própria Miranda exibir com elegância quilos a mais e a mais e a mais do que o restrito padrão de 34 a 38. Quem tem um pouco de massa encefálica, entende a crítica que perpassa levemente satírica o enredo. Os demais? Deslumbra-se-ão e considerarão a  heroína Andrea tola.

Paris em flashes vale a pena: dá para quem a conhece sentir o frio gostoso da saudade. Mas o final, diante do desenrolar dos fatos: pouco provável. Sem contar no editor que paquera Andrea… tsc tsc tsc… personagem mais improvável impossível.  A relação de Andrea com o love também … tsc tsc tsc…

Bom, só para não dizer que não falei dela,  Gisele Bündchen faz uma mini ponta no filme. Bela como sempre, mas nada que chegue a lhe dar algum sal a ponto de a considerarmos  como algo mais que uma figurante. Foi ela, mas poderia ter sido qualquer outra ali.

É inútil o filme? Não. Mas também não chega a ser bom.

Xeque-mate, o filme

Xeque-mate, o filme

Excelente filme! A narrativa consegue ter coesão do início ao fim. Considerando-se o que andamos vendo no cinema recentemente, há que se aplaudir a seqüência realmente lógica das idéias. A sucessão de cenas aleatórias a que assistimos no início, aos poucos, vão fazendo sentido e são recuperadas ao longo da história, encaixando-se coerentemente na trama dos fatos. A ‘trapaça Kansas City’ é o elemento condutor da história.

O enredo é aparentemente simples: um garoto é confundido com outro rapaz: estava na hora errada, no lugar errado e caiu nas mãos de poderosos chefões do crime e do jogo de New York. Sem opção, enfrenta um e outro, sabe de ambos o que deve fazer e parte para cumprir sua missão.

Interessantíssimo o poder que a arte tem de projetar nossos sentimentos e nos conduzir a sensações várias. Adversamente à moral social comum, como justiceiros que aguardam ansiosos o acerto de contas, a platéia termina por sentir o bem doce sabor de vingança pelas mãos de Slevin Kelevra (Josh Hartnett). Nada de esperar pela polícia ou pelo juízo final : justiça feita, filme com ares de ‘é melhor agir por conta própria’, porque o Estado ou a Providência deixam, infelizmente, muitos bandidos impunes.

A ação garante atenção do início ao fim, mas as almas mais sensíveis não devem arriscar seu estômago: as cenas de morte  exploram desde cabeças estilhaçadas por explosivos tiros de armas potentes, passando por asfixia e chegando até mocinhas assassinadas à queima-roupa. O personagem de Willis desde o princípio deixa muito claro que a Trapaça Kansas City será uma ótica que reverterá a nossa visão: quando pensamos que o inimigo está de um lado, ele, na verdade, estará do outro.

Bruce Willis, além de charmosíssimo na pele do GoodKat, esbanja maturidade e charme na interpretação do assassino por encomenda que é encarregado de matar o filho do Rabino, (Ben Kingsley) arquiinimigo adversário do Chefe (Morgan Freeman – também espetacular na frieza do papel do gângster).

Nas entrelinhas da história, ainda um final moralizante. Os temidos rivais do submundo do crime novaiorquino terminam por destruir-se a si mesmos em vida: encarcerados em prédios de segurança máxima, passam a vida a odiar-se e vigiar-se mutuamente. Do cárcere privado em vida, chegam à auto-destruição: à armadilha que os conduz à presa fácil dos assassinos que eles próprios contrataram.

Envolvente, emocionante, boa diversão nas telonas. Vale o bilhete e a pipoca.

Trair e coçar

Trair e coçar

Trair e coçar: é só começar, o filme, tem, como elenco, Adriana Esteves (Olímpia), Cássio Gabus Mendes (Eduardo), Otávio Müller (Cláudio), Bianca Byington (Inês), Mônica Martelli (Lígia), Mário Schoemberger (Cristiano), Aílton Graça (Nildomar), Fabiana Karla (Zefinha), Márcia Cabrita (Vera), Lívia Rossi (Salete), Thiago Fragoso (Carlos Alberto), Mário Borges (Ricco), Cristina Pereira ( D. Orávia), Chris Amorim (Gorete), Leandro Firmino (Mecânico), Miguel Nadir (Homem da mudança), Paulão Duplex (Homem da mudança), Ed Oliveira (Homem da mudança).

O filme deixa a desejar em vários aspectos. Primeiro, não vi a peça e não tenho, portanto, elemento de comparação. Cheguei a pensar que talvez no palco a fórmula dê certo, mas na telona peca em diversos aspectos de seqüência e verossimilhança. É entretenimento barato, arranca algumas risadas ao longo do enredo, mais pela atuação de um ou outro consagrado ator ou atriz do que pela história propriamente dita. Adriana Esteves mostra sua versatilidade, sai do papel de mocinha, que a trouxe ao conhecimento do público nas novelas, e encarna a atrapalhadíssima empregada Olímpia no filme. Consegue convencer.

A doméstica interpreta equivocadamente a ironia e brincadeira do patrão Eduardo ao lhe responder sobre uma outra mulher com quem falara ao telefone e se confunde ao mentir por causa de um jantar surpresa da esposa Inês em comemoração aos seus 15 anos de casados. Eduardo volta mais cedo de viagem para casa e as confusões começam todas “ao mesmo tempo agora”. Lígia, amiga de Inês, conhece um joalheiro há muitos anos e o marido Cristiano pega um cartão dele, Ricco, para ela, interpretando-o como uma declaração de amantes. Até aí, interessante pensar em como a comunicação realmente causa ruídos e nos faz transformar hipóteses em certezas.

Entretanto, se no teatro a comédia se consagrou, no cinema deixa a desejar certamente. Teatro e cinema exigem recursos distintos e a fórmula que dá certo no palco, pela ação e performance dos atores, no cinema,  exige outros elementos de coesão e melhor interpretação porque a ação é projetada na telona.

Erros de seqüência, captei-os ainda no cinema, enquanto assistia ao filme: os dois maridos supostamente corneados, por exemplo, estão trancados no escritório e ouvem a conversa das mulheres pelo buraco da fechadura. A empregada os trancou lá dentro. Depois, em outra cena, eles olham pela fresta da porta entreaberta e, na cena seguinte, estão lá trancados de novo. Como abriram a porta se não possuíam as chaves? E depois, logo seguidamente, aparecem trancados por fora?

Na cena em que Vera ouve a confissão do marido síndico de que se apaixonara por outra, no caso Inês, a descompostura de Márcia Cabrita (como Vera) e a péssima qualidade de sua atuação ficam evidentes. Ao sair do espaço no play onde conversavam, concluindo que está sendo traída e que vai se separar, levando tudo de casa, Vera sai saltitante como se fosse uma criança a buscar o sorvete na esquina com os dez reais que ganhara do pai. Nenhuma expressão corporal, diga-se. Nenhuma mulher se separa saltitante, nem sai de uma confissão de paixão do marido por outra com a leveza que ela caminha para se retirar. Até hoje, estou certa de que ela é um caso típico de atriz por QI (Quem Indica). Nunca convenceu no Sai de Baixo e em nada mais que fez e pude ver.

A aspirante a síndica, D. Orávia, não diz a que veio. Cristina Pereira desperdiça seu talento e simplesmente sobra no filme. É, no filme, elemento totalmente secundário e dispensável. Não precisava constar. Assim também ocorre com Salete, personagem de Lívia Rossi. Encontrar o cardiologista Eduardo no avião é verossímil e interessante. Situação plausível. Mas o filme projetado na aeronave ser o dela dançando num congresso e o jornal que ela lê ter a foto de Eduardo… coincidência demais para poucas horas de avião. Ao final da história, ela ainda aparece na casa dele para lhe devolver o seu celular que perdera. Nenhum problema nesta situação, mas ela ir à casa de um quase estranho vestida para dançar e subir no apartamento dele não é nada comum.

Ao final do filme, a empregada tranca todos em salas, quartos, lavabo, área de serviço. O detalhe é que ela guarda todas as chaves na própria roupa, arrancando-as das portas. Quando os homens que fizeram a mudança da esposa do síndico invadem o apartamento, em busca de reaver seus prejuízos, saem destrancando todos. E as chaves? Não houve a cena deles pegando a chave. Abrem simplesmente as portas como se lá na fechadura as chaves estivessem. 

Outra questão me deixa sem paciência para o engraçado que poderia haver na circunstância: a esposa do síndico se enerva com a possibilidade dele a estar traindo e resolve se separar. Os trogloditas da mudança chegam e, simplesmente, sob protestos do síndico, saem carregando toda e qualquer coisa que haja dentro do ap. O síndico nem consegue impedir, pela força bruta os homens levam o que querem. Como isso pode ocorrer? Nem mandato eles tinham …  E olha que tenho experiência em mudança e é simplesmente impossível que se carregue tudo tão rápido, em poucas horas,  inclusive que se arranque o lustre da sala e nenhum biscuit mais haja pela casa, ou milhares de caixas.

Depois, mais um erro de seqüência: o síndico se esconde no armário ou guarda-roupa que os homens carregam e, na cena que sai do ap, eles realmente demonstram a força física extra necessária para acarregar o móvel com um homem (gordo) dentro. Ao saírem do elevador, entretanto, os homens , apenas dois, carregam-no sem o menor esforço. O homem saiu do armário ou eles tomaram espinafre? Em poucas horas, a mudança vai e volta.

Adriana Esteves, Cássio  Gabus Mendes e Aílton Graça são os atores responsáveis por sustentar toda a trama e garantir que ainda a classifiquemos como comédia. Eles impedem que o filme caia na “sem-gracisse” absoluta. Ainda há que se ressaltar que o perdão coletivo dos patrões e demais pessoas envolvidas na confusão de Olímpia não desce na garganta de ninguém em sã consciência. Além do mais, o título do filme não diz a que veio. Nada o justifica. Não houve sequer uma traição no filme, é preciso registrar. E ninguém se coçou (estou sendo mordaz).

Penso que os autores e diretores de  filmes, livros e peças têm de escolher o grau de verossimilhança que pretendem imprimir às obras. Não dá para oscilar tanto sob pena de cair no ridículo do mau gosto e decepcionar o leitor ou espectador que se sentem subestimados. O inverossímil de filmes como Top Gang, Corra que a polícia vem aí ou do Casseta e Planeta são exatamente a medida certa de sua graça. Mas Trair e coçar não consegue situar-se nem em um campo nem em outro. O filme não ganha força, não alavanca como comédia, proporcionando apenas risos aqui e ali , e vira mera sessão da tarde. Não oportuniza o riso largo ao sair da sala de exibição e nem nos faz comentá-lo depois em mesas de bar ou sessões com amigos. Simplesmente, um filme que esqueceremos.

Ontem à noite

Ontem à noite

 

Ontem fui surpreendida pelo convite inesperado para o show de Nando Reis na Fashion Club às 23 horas. O concerto com o ex-Titã durou 1h30min. A casa estava lotada de gente bonita e interessante, cerveja e roska livres (refrigerante também) na festa de comemoração do aniversário da Globo Fm. Os sucessos agitaram o público, especialmente Marvin e All Star, que fizeram a platéia cantar bem alto. Relicário e O segundo Sol deixaram o lirismo à flor da pele. A hora exata em que os beijos começaram a acontecer e puderam ser notados pelos observadores de plantão: gente jovem, curtindo o ficar sem compromisso, quiçá o embrião de um novo amor. 

Sábado, na Concha Acústica, novo show de Nando, desta vez aberto ao público, em produção de Irá Carvalho.

Mais fotos no meu fotoblog.

Leia, leia, leia mais.

Leia, leia, leia mais.

O melhor da Folha ontem foi a reportagem e entrevista com Ángela Pérez Mejía, diretora da Biblioteca Luis Ángel Arango(BLAA), sobre as bibliotecas em Bogotá. ” Nós, colombianos, temos vergonha de ser olhados como país violento. Nascemos na escassez, somos pobres. E nos surpreendemos em como a cultura pode mudar nossa realidade”.

Acrescente-se: a BLAA na Colômbia  é uma das mais visitadas do mundo, com média diária de 9000. Bogotá será a primeira capital da América Latina a ser a Capital Mundial do Livro (UNESCO). Rede de ciclovias e transportes urbanos servem a  todas as bibliotecas. O projeto “Livros ao vento” é o que há de mais delícia para uma prefeitura fazer e os “biblioburros” são inteligentíssimos! O primeiro consiste em livros de bolsos distribuídos para leitura nas ruas, em ponto de ônibus, praças e etc com a inscrição “Deixe que este livro voe” na contracapa para que as pessoas leiam e os repassem. O segundo é o trabalho na floresta Amazônica de agentes que levam, em lombos de burros, livros para serem distribuídos nas localidades mais distantes.

O país hoje tem apenas 5% de analfabetismo. Quando Ángela disse que em Bogotá as bibliotecas são lugares não apenas para ler, mas para se encontrar, por isso são projetadas como espaços públicos… que roubam o público de shoppings e tal e que estão, pela leitura, mudando a atitude e a vida da cidade, eu me emocionei, juro. Vislumbrei logo os namoradinhos marcando sábado à tarde na Biblioteca. Os velhinhos, as mães com os filhos.

Quando o Brasil vai aprender?

King… a paciência nossa !!!

King… a paciência nossa !!!

Meu Deus !!
Fui ver ontem King Kong… e não levantei antes do cinema para ir embora porque tive a expectativa de que o filme melhorasse. O cinema americano surtou de vez ! Fora o doce olhar do personagem interpretado pelo Adrien Brody (Jack Driscoll – vale a pena o charme !), o filme deixa a desejar apesar das “maravilhas” da realidade virtual moderna, dos efeitos do  computador.

Ficção é ficção… mas daí a ver o vale dos dinossauros numa ilha perdida na névoa…Parece o filme uma clonagem de vários outros quanto à possibilidade dos monstros ( Parque dos dinossauros, Aracnídeos, Indiana Jones , O exterminador do futuro…). Insetos gigantes, mega aranhas e cia povoam de um suposto “terror” a narrativa. O Kong monstruoso acaba sendo preferível não só para a mocinha , mas para o telespectador em geral.

O melhor é descobrir que, mesmo depois de cair de uma ribanceira na floresta, a doce garota mantém intactos o seu robe de seda e a sua camisola sexy que, além de lhe conferirem um ar mais sensual, reforçavam a sua fragilidade (apelativo para todas as cenas que se passam na ilha). Não é demais depois de ela ter enfrentado os piores monstros “à lá tiranossauro”, ter voado em asa de morcego gigante, despencado de um precipício e ficado emaranhada em super cipós, além de ter corrido desvairada pela selva inteira, sair ilesa da aventura? Quase no final do filme, lembraram de deixar escorrer um fio sutil de sangue em seu belo rosto. Nem uma unha quebrada, o pé não ficou escalavrado ( corria descalça ), o rosto não se feriu nas plantas, o labirinto não a fez desmaiar mesmo depois de ter sido incessantemente sacudida nos corre-corres de Kong… Francamente, se a mulher maravilha existisse, morder-se-ia de inveja. E olha que  Ann Darrow (Naomi Watts) sequer portava um cinto mágico !

O modelo do longa, entretanto, deverá agradar aos aficcionados por games modernos. A cada fase (sim, a aventura na ilha se assemelha às fases de um game), depois de vencidas as batalhas, de algumas vidas perdidas, os personagens se livram dos monstros que, simplesmente, desaparecem na seqüência narrativa.Os gigantes pré-históricos voadores somem, os dinossauros somem, os insetos gigantes somem, as aranhas somem… vai tudo desaparecendo a cada fase. Os heróis são imbatíveis ! Um ou outro personagem secundário vai perdendo a vida ao longo da trama… A respeito, não reparei bem se havia dois orientais no navio, mas um morre e depois aparece de novo no final (era o mesmo e foi lapso da produção e da seqüencia de cenas ou havia mais de um??? ). Não sei. Como só assisti ao longa (três horas de duração) uma vez, não tive como conferir inequivocamente.

Além disso, fiquei estupefacta de ver os hominídeos tribais reforçando um conceito discriminativo que se arrasta por séculos. Os negróides de uma tribo também perdida na Ilha da Caveira, após combatidos na “primeira fase”, também somem simplesmente … Não mais aparecem!!! Só uma fala descabida de um dos personagens no final faz alusão aos tribais-desapareceram com medo… Então entendi bem porque “mais é menos”. O estereótipo do mal aparece em cada um dos selvagens. Cabelos assanhados, pele carcomida, rugas exageradíssimas, olhos brancos em transe eterno, rituais aparentemente macabros… Selvageria pura. Alertam para a presença do Kong, dão a mocinha ao  macacão desvairado em um ritual supostamente concebido para acalmar a besta fera  e depois desaparecem da trama. Nova fase, gam’aníacos… Será que entendi bem ou o macacão de 7 metros era como um deus para os primitivos negros – daí a  justificativa da oferenda?

Por falar em coerência, Noé, Noé… só havia um kong na ilha ! Nem um parentezinho, uma companheira sequer !
Se tudo era gigante na ilha, inclusive as lesmas, por que os humanos eram de tamanho compatível com o normal ?

E como é que  Ann estava tão bem amarrada naquela ponte suspensa que ligava um lado ao outro do despenhadeiro e Kong puxa seus braços e solta  a corda com força…? Não questiono a força do primata, óbvio (7 metros !!!) mas ela não teve nem um deslocamentozinho de pulso, nem um ossinho fraturado…

Ah, meu Deus !!! Me poupem, aliás, todos os deuses… Depois desta, vou correndo tentar encontrar o filme antigo… Certamente, é melhor ficção .
 
 
Alena Cairo

18/12/2005