Já é carnaval , cidade!!!

Em Salvador,

já é carnaval… Os blocos estão na rua, a praia esteve vazia, os cidadãos comuns lentamente esmorecem em frente à tv… Alguns, precavidos, fugiram da cidade. Talvez buscando outras aventuras e opções. Outros , deslumbrados, chegam sem parar no aeroporto e na rodoviária. A BR está lotada, tanto para quem vai como para quem vem. Não há passagens.

Houve mais batidas na Paralela, muitos carros sofreram prejuízos. O som dos adolescentes ou muito jovens ecoa como um trio em plena av. ACM. Muita velocidade, abadás coloridos, cerveja na mão. Alegria em risos quase desvairados. As coxas estão de fora, o verão tinindo e nem parece ainda que as águas de março estão para chegar. A expectativa toma conta de todos. No banco 24h, olhares furtivos para as quantias que cada um retira da conta. Um certo medo de assalto, um zelo a mais e precaução.

Há expectativas, muito dinheiro foi investido. É preciso que se beije muito, que se dance muito, que se grite  e pule cada vez mais alto. Os shorts escondem além do dinheiro da bebida e do táxi ou estacionamento na volta, um vidrinho clandestino de lança-perfume. Os lenços vão amarrados nos pulsos ou dentro de bolsos. O velho tênis, amanhã imundo, também será testemunha do quanto se andou, correu, brincou, ficou.

A libido anda solta, os amantes já se encontraram, as camisinhas são distribuídas nas ruas. O corpo clama pela liberdade que anseia o ano inteiro para, desprovida de freios, arrasar na avenida como a apoteose de um instante incomum. Muitos passam a mão, outros agarram mesmo, umas sorriem convidativas, outras em seu radar escolhem o próximo contemplado. Todos só querem saber de excessos.

Em casa, aos que não agradam a expansão catártica de si mesmo, resta a poltrona encardida, a medíocre programação da tv e a possibilidade de uns dias longe do trabalho. Uma outra libertação também… não? 

Alguns, alugam suas casas, se empilham na de parentes e dividem o suposto lucro que os salvará de mais um cheque sem fundo. Aquela menina pediu um empréstimo para comprar chiclete com banana e pagará em 10 vezes no banco. Os abastados, nada gastaram: foram todos convidados. São todos importantes, todos requisitados e, pela oferta, terminam por desperdiçar as pulseirinhas ou vestimentas que lhes garantem passe livre, enquanto outros dariam muito para tê-las.

É festa também, é muita festa. É muita alegria, é muito arrepio, é a certeza de que é preciso exagerar para fugir do medíocre cotidiano, da medíocre certeza de que se é apenas mais um ser humano. Anônimos, na multidão, sentem exatamente este prazer: o de se manterem ocultos no meio da rua… ninguém se preocupa com ninguém, nem consigo. Cada um é todo tudo aquilo que anseia reconditamente.

Olha-se para cima, para o trio, não para a trindade: divina só Daniela, Ivete ou outra celebridade que surja. É bom, pouco se olha para os lados, para baixo, para dentro de si. É momento de expor-se, mostrar-se. Não se deve pensar (pensar para quê?) , não se deve parar, não se deve sofrer. A vida é bela e a multidão arrepia com o canto uníssono. Os atabaques embalatimbalam todo o gueto espremido nas ruas de Salvador. Os camarotes apreciam privilegiadamente o espetáculo. Se há brigas, 21.000 policiais estão nas ruas. Cacetetes, armas, capacetes. Respeito e truculência. Segurança utópica.

Famílias inteiras se esbaldam enquanto assam queijos proibidos pela brasa, calabresas de um real, churrasquinhos de vale (e passe…). É picolé, cerveja, água mineral, refrigerante… A renda aumenta, a mãe ganha um beijo de Tatau, rebola com o Psirico e aplaude aquele cantor Bono de quem ela nunca ouviu falar, mas que deve ser bom porque passou na Globo depois da novela. Dormem na rua, demarcando sem terra o seu pedaço de avenida conquistado a duras penas e madrugadas em fila atrás da licença da prefeitura.

É carnaval… Pode haver pierrots, pode haver colombinas, há palhaços com certeza. Há também público, de um lado e de outro. Vale a pena sim. Vale a pena não. O pão está caro, mas o circo abriu-se em tenda onde cabem todos na rua.

É hora. Vou dormir? Não, vou sair também. Da cidade? Não. Cantaram que atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu. Vou lá ver. Depois eu conto.

 

Alena Cairo

24/02/2006

 

Hoje eu sou lua

Hoje me descubro Lua
metáfora errante de mim mesma. 
Horas ando cheia,
horas minguo sem parar.
Noutras, sinto-me nova e
cresço em buscas.
Plena, sinto-me feliz, mulher, realizada
Consciente de que sou Lua e que
a fase agora é boa, é minha
Nem a sóis nem a planetas devo devoção
embora pressinta a existência deles.
Se me descubro Lua,
encaro o sol, ilumino-me e resplandeço
Percebo órbitas e entendo que
aos planetas tenho poesia a oferecer   
A poesia que vem de mim
que emana do meu cheiro
que pulsa em meu sexo
que me invade inteira e
exala
Agora então ciente de mim
descubro as inconstâncias como fases…
Reservo-me, ao minguar,
cônscia de que outra hora está por vir.
Cheia, expando-me menina, mulher
e ofereço a todos o melhor de mim.
Alena Cairo   20/01/2006

Soletro senhas sozinha

Soletro senhas sozinha na madrugada

Esperança de um poema de amor

Um grito desesperado: volte !

Te quero!

Te amo!

Você é a mulher da minha vida …

Só você.


Só eu. Eu sozinha.

Pairo no ar de meus 30 anos.

Há trinta anos tanto, muito, sinônimo de solidão

Talvez eterna

Hoje só certezas e frustrações.

Constatações.

Mulheres de 30.


Trinta sonhos.

Trinta anseios.

Trinta desejos.

Três amores idos.

Um amor latente.

Um amor ainda possível.

Um ser só.

Só ser.


Três decepções vezes três quereres.

Tri logia Tri patia Trepa trepa?

Três vezes não.


Tresejos tântricos

Quiçá ternura apenas

 E nada mais.


Ser  ou não ser sendo-se só.

Terceiros girassóis.

Gira gira ou gira o girassol?

Só o segundo sol dirá.

Será o quarto?


 
 
 
 
 
05/11/2005

Reflexões de uma leitora desinformada

Reflexões de uma leitora desinformada

 
Amo os jornais e, mais ainda, o jornalismo !! ! Entretanto, por questões íntimas, passei quase 6 meses sem acompanhar as notícias, o cotidiano da urbe em que vivo e do mundo no qual habito. Curioso que detesto a tv, só os impressos me atraem… Então você já está imaginando que, na falta do mensageiro diário do mundo, passei meio ano a-l-i-e-n-a-d-a . É verdade… Duas estações sem saber o que ocorria no globo a não ser o que vi da janela de meu apartamento ou do meu carro, a não ser o que senti  ao caminhar nos lugares meio que de sempre da minha cidade, a não ser o que experimentei pela literatura, estressei no trânsito a caminho do trabalho ou vivi do cotidiano mesquinho dos humanos.

O fato é que se sucedeu algo curioso : não tremi de medo do mundo acabar, não me apavorei com a gripe do frango, não soube que o vírus sofreu mutações… Não vi o último atentado a bomba, não me preocupei com o superávit , não tive pânico por conta do aumento assombroso da violência. Trabalhei tranqüilamente, investi em minha formação, procurei ser mais eficiente sem nervosos por conta do aumento das demissões em empresas privadas. Li bons livros ao chegar em casa, senti que sonhar era possível, fiz planos, tracei metas e alcancei objetivos. Consegui estruturar minha contabilidade, não me levei pela onda consumista, entusiasmada com as cores da nova estação ou a moda flash com que nos bombardeiam os cadernos de tendências… Não comi demais nem me pesei repetidas vezes , apavorada com qualquer grama a mais que pudesse significar a distância(real) do jeito barbie de ser.
Aí, estava hoje on line e descobri pela internet, esta nova máquina de informação, que a Globo assedia os atores da concorrente, que há novas doenças descobertas na Ásia, que comer um frango pode ser mortal, que vamos gastar mais no Natal , que o comércio espera que nosso décimo seja torrado em futilidades das repetidas prendas natalinas, que Lula, PT, agregados e companhia estão cada vez mais enrascados…
Viver alienada não é bom, não faz bem à consciência nem à cidadania. Não é apologia à alienação que pretendo fazer. À margem do mundo “de verdade” que se mostra nas preocupações factuais dos jornalistas nas redações alucinadas de cada grande capital, entretanto, eu , simplesmente, vivi. Vivi esta vida que acontece enquanto nos preocupamos  e preocupamos e preocupamos… Não tive sobressaltos a não ser aqueles de amor, mal que nos acompanha até o fim da existência e desde o princípio dos tempos !
Lembrei-me, hoje, inequivocamente, de Rubem Braga: a impressão que nós temos, muitas vezes, é que os jornais falsificam a realidade ! Ou , ao menos, revela apenas uma de suas facetas: talvez a mais sórdida, a mais trágica, a que vende. Ora, nem só de alarde, tragédia e desespero ou pânico vive o homem. O cidadão comum dorme, acorda, trabalha, almoça e janta . Também passeia, namora, fica entregue ao ócio…
Não mudem o jornalismo, não o transformem em notícias piegas ou apenas que propagandeiem o bel prazer da existência. Mas é preciso lembrar que a vida acontece nos intervalos dos noticiários da tv, que há pulsação e beleza e não só crimes a cada página de periódico virada.
A importância do existir precisa achar espaço na crônica jornalística, na poesia daquela página de cultura ou entretenimento, na resenha daquele bom filme ou na indicação de uma reprise imperdível na tv. A ênfase dada àquela cura de uma doença até então fatal, os avanços científicos e tecnológicos, os prazeres diários precisam de mais espaço bem como os alentos e consolos que nos impulsionam a crer (ainda) na humanidade. Nem só de males é feita a vida nem só catástrofes ocorrem.
O banal não aparece no jornal, mas que é nisto que consiste a vida, ah, isso é.
 
 

Alena Cairo
 
 
28/11/2005