Reflexões de uma leitora desinformada

Reflexões de uma leitora desinformada

 
Amo os jornais e, mais ainda, o jornalismo !! ! Entretanto, por questões íntimas, passei quase 6 meses sem acompanhar as notícias, o cotidiano da urbe em que vivo e do mundo no qual habito. Curioso que detesto a tv, só os impressos me atraem… Então você já está imaginando que, na falta do mensageiro diário do mundo, passei meio ano a-l-i-e-n-a-d-a . É verdade… Duas estações sem saber o que ocorria no globo a não ser o que vi da janela de meu apartamento ou do meu carro, a não ser o que senti  ao caminhar nos lugares meio que de sempre da minha cidade, a não ser o que experimentei pela literatura, estressei no trânsito a caminho do trabalho ou vivi do cotidiano mesquinho dos humanos.

O fato é que se sucedeu algo curioso : não tremi de medo do mundo acabar, não me apavorei com a gripe do frango, não soube que o vírus sofreu mutações… Não vi o último atentado a bomba, não me preocupei com o superávit , não tive pânico por conta do aumento assombroso da violência. Trabalhei tranqüilamente, investi em minha formação, procurei ser mais eficiente sem nervosos por conta do aumento das demissões em empresas privadas. Li bons livros ao chegar em casa, senti que sonhar era possível, fiz planos, tracei metas e alcancei objetivos. Consegui estruturar minha contabilidade, não me levei pela onda consumista, entusiasmada com as cores da nova estação ou a moda flash com que nos bombardeiam os cadernos de tendências… Não comi demais nem me pesei repetidas vezes , apavorada com qualquer grama a mais que pudesse significar a distância(real) do jeito barbie de ser.
Aí, estava hoje on line e descobri pela internet, esta nova máquina de informação, que a Globo assedia os atores da concorrente, que há novas doenças descobertas na Ásia, que comer um frango pode ser mortal, que vamos gastar mais no Natal , que o comércio espera que nosso décimo seja torrado em futilidades das repetidas prendas natalinas, que Lula, PT, agregados e companhia estão cada vez mais enrascados…
Viver alienada não é bom, não faz bem à consciência nem à cidadania. Não é apologia à alienação que pretendo fazer. À margem do mundo “de verdade” que se mostra nas preocupações factuais dos jornalistas nas redações alucinadas de cada grande capital, entretanto, eu , simplesmente, vivi. Vivi esta vida que acontece enquanto nos preocupamos  e preocupamos e preocupamos… Não tive sobressaltos a não ser aqueles de amor, mal que nos acompanha até o fim da existência e desde o princípio dos tempos !
Lembrei-me, hoje, inequivocamente, de Rubem Braga: a impressão que nós temos, muitas vezes, é que os jornais falsificam a realidade ! Ou , ao menos, revela apenas uma de suas facetas: talvez a mais sórdida, a mais trágica, a que vende. Ora, nem só de alarde, tragédia e desespero ou pânico vive o homem. O cidadão comum dorme, acorda, trabalha, almoça e janta . Também passeia, namora, fica entregue ao ócio…
Não mudem o jornalismo, não o transformem em notícias piegas ou apenas que propagandeiem o bel prazer da existência. Mas é preciso lembrar que a vida acontece nos intervalos dos noticiários da tv, que há pulsação e beleza e não só crimes a cada página de periódico virada.
A importância do existir precisa achar espaço na crônica jornalística, na poesia daquela página de cultura ou entretenimento, na resenha daquele bom filme ou na indicação de uma reprise imperdível na tv. A ênfase dada àquela cura de uma doença até então fatal, os avanços científicos e tecnológicos, os prazeres diários precisam de mais espaço bem como os alentos e consolos que nos impulsionam a crer (ainda) na humanidade. Nem só de males é feita a vida nem só catástrofes ocorrem.
O banal não aparece no jornal, mas que é nisto que consiste a vida, ah, isso é.
 
 

Alena Cairo
 
 
28/11/2005
 

3 comentários sobre “Reflexões de uma leitora desinformada

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