Águas de março

Prometi ontem um texto… mas a famosa ressaca do carnaval associada à também famosa gripe me deixaram a ver lençóis…  Nada que uns comprimidos e um bom sono não resolvam !!!

Ontem fiquei a pensar no balancete de 2005… Sim, talvez o mundo inteiro o faça nas proximidades do reveillon… mas aqui, na Bahia, se o fazemos antes, é importantíssimo que o façamos novamente ao final das festas momescas. Esta quinta e sexta adicionam-se, após a quarta de cinzas, ao final de semana e tudo ainda é muita maresia em Salvador.

Ontem pela manhã pude ver, ao voltar para casa, saindo do Campo Grande, o mutirão de limpeza dos garis . Talvez, passado o carnaval,  devêssemos assumir esta fantasia agora: a de varredores. Poderíamos, então, vivenciar o papel de sujeitos ativos e preocupados com a ordem da urbe. Caso assim na ficção mergulhássemos, neste vai-e-vem de metáforas, entenderíamos que é preciso olhar os restos que se espalham nas ruas do nosso existir. Catar o que foi de valor em meio à lama que escorre nas valas que margeiam nossas histórias. Continuar a varrer para os bueiros os caldos sujos de tudo aquilo que não presta mais. Ir, na beleza de uma quarta de cinzas, limpando a nossa alma de todas as coisas que sobraram de forma negativa.

É preciso agora que cada um busque a sua mangueira, que entenda qual o carro-pipa que lhe dá o líqüido precioso, a essência mais profunda… Assim, torneiras abertas, estejamos dispostos a deixar a alma ser lavada. Façamos com que flua em nós o espírito revigorante.

Saldos de carnaval, saldos da vida: qual o beijo que valeu? Qual a música que nos fez dançar? Qual(is) a(s) pessoa(s) com quem realmente gostamos de ficar? Dançamos ou “dançamos” ? Quanto de dinheiro investimos bem? Em quais momentos da avenida biográfica perdemos o que havia de valor ??? Lucros e danos… Danos e lucros…

É hora de fazer como aquela ou aquele adolescente e deitar na cama olhando para o teto absorta(o) … Rememorar os incríveis momentos que passamos em 2005… Deixar por instantes quase intermináveis que as sensações boas nos invadam… Pensar qual foi a nossa música, o nosso momento, a nossa vitória… Diante do que poderemos cantar “Então, diga que valeu…” ?

Também é hora de abrir os olhos a meia pálpebra, sentir a cabeça pesada pela ressaca das frustrações, dos excessos ou talvez da falta deles. Entender o que não fizemos, o que deveríamos ter feito diferente e o que ainda está por realizar. É hora de ver o fundo de poço em que também nos metemos ( talvez a metáfora ideal seja a das faturas dos cartões de crédito que chegarão em março).

Se  o ano  realmente começa no pós carnaval, a hora de festejarmos o nosso reveillon e nos recolhermos em nosso deserto espiritual é agorinha. Hora de repensarmos muita coisa. De planejarmos. Criarmos expectativas. Traçarmos metas. Buscarmos alvos.

Penso de novo no varredor, na vassoura, na água e na mangueira… Sinto-me, então, gari de meu passado, de minhas sobras e penso que esta avenida que se apresenta na estrada de 2006 é também minha, as ruas serão minhas por mais um ano. O que eu vou fazer por elas? Ou com elas?

Não, terei o cuidado de não varrer os sólidos para os bueiros, não sufocarei os sentimentos negativos. Chorarei se for preciso, gritarei se quiser, retirar-me-ei caso seja insuportável. É hora de separar o lixo, fazer como os catadores e enviá-lo para os departamentos de mágoas ou casos mal resolvidos. Talvez  a reciclagem os faça passar ao departamento de questões superadas, problemas resolvidos ou “bolaprafrentequeatrásvemgente” . Restarão resíduos, tóxicos ou não. Decidirei, logo, o que fazer com eles.

O importante, neste momento de início, de reencontro comigo mesma, deve, realmente, ser o de me redescobrir por trás de todas as  máscaras, de todos os risos gratuitos e todos os olhares furtivos. Entender, especialmente, que a força dirigente da limpeza não se encontra na prefeitura ou na gerência da instituição de limpeza urbana. Serei eu, com minha vassoura, meu balde, meu caminhão, minha mangueira… eu, sozinha com meu uniforme de ser humano, que cuidarei dos meus canteiros, podarei as minhas árvores ou quiçá os arbustos… cuidarei dos espinhos, rasgarei papéis, fotografias encharcadas, retirarei os banners do passado e limparei o chão … até perceber que o céu está muito azul , logo acima, basta que eu vire a minha cabeça.

Destarte, da quarta de cinzas, espero uma Fênix.

Alena Cairo

02/03/2006