Gulodices de criança…

A Cam postou no blog dela uma provocação acerca das porcarias que a gente comia… Olha o texto que acabei publicando:

Na Bahia, minha mãe também cozinhava muito bem!! Para vocês terem uma idéia, ela organizava festas e tinha um buffet… bolos confeitados, glacês, todos os docinhos da face da Terra e salgadinhos que vocês imaginarem… Lá em casa, sábado e domingo eram os únicos dias de tomar coca-cola(arght! que eu nem gostava… então ela comprava fanta uva e fanta laranja…) A gente sentava para ver tv, dar risada e havia sempre uma festa extra… sim, porque a minha mãe não conseguia fazer encomendas com apenas a quantidade certinha que o pessoal pedia … Pensava: é melhor sobrar do que faltar… Então, por conta disso, nós lá em casa tínhamos cerca de umas três bandejas sortidas de saltenhas, coxinhas, quibes, enroladinhos, salgadinhos de assadeira, cariocas, risoles, pastéis, barquetes, bolivianos… cajuzinhos, brigadeiros, lolós, beijinhos, casadinhos, delícia de uvas, de passas e de nozes… Sacaram? O detalhe: somos três meninas em casa e nossos amigos e amigas viviam lá…

Então, o que ocorria é que a gente nem precisava inventar aniversário de boneca…
Bolo de chocolate? Eca… Era desprezado pela gente… Nós tínhamos que fazer o sacrifício de doá-lo todo aos nossos amigos… Minha mãe fazia cerca de 10 bolos na batedeira no fim de semana… Aquele barulhinho da planetária Arno ficava zunindo na nossa cabeça… Íamos para as festas e nem ligávamos para o tal do bolo(até hoje sou assim). Mas como era ritual estarmos juntos após o fim da encomenda, não resisto até hoje aos docinhos e salgadinhos… Dia destes, na formatura de minha prima, só de moranguinhos eu comi 17 (e não é hipérbole!).

Quanto às porcarias, Cam, lá em casa tinha tanta coisa dita saudável ( de todas as 500 mil frutas que o Nordeste é capaz de produzir até cada verdurinha que o Sul nos exporta ) que viramos todas “gourmets” – risos, muitos risos…

Os maiores pecados porqueiros que fazíamos eram as tais das coxinhas (ô, mãe, hoje vai sobrar umas trinta?), quibes…

Lanjal e tanjal e uvajal… acho que tomei todos que havia. Pipoca doce de saquinho rosa: confesso que não posso nem ver(devoro)…Deu nojo o cuspe do ômi… desde pequena minha mãe me convenceu, nunca gostei de algodão-doce. Maçã-do-amor no circo era sagrada! Pirulito do Zorro, balas soft(aquelas que a gente ia morrer se engolisse), buballoo, dip lik(sei lá como se escreve isso)…
Nós não éramos magérrimas, mas também não éramos baleias graças à bicicleta e à hiperatividade que os anos 80 permitiam às crianças… Brincávamos sempre de correr, pega-pega…
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk (Tô adorando as lembrança)

Ah, sim, quanto aos hábitos de infância, eu até hoje como banana amassadinha com açúcar( abacate e mamão também com leite ninho e açúcar) e adoro potinho de bebê… (aqueles Nestlè).

Tomo todos os iogurtes, mas não sou fã de nenhuma bolacha ou biscoito recheado. Acho que nem tinha tempo de me dedicar muito aos biscoitos do mercado. Ah, lembrei! A gente devorava mesmo era Mirabel. Biscoitos Waffles.

A suco não resisto, mas não gosto de nenhum artificial. Na infância, tomava todos os Q-sucos radioativos do supermercado(ou eram Ki-sucos?) de abacaxi, morango, uva, groselha…

Lá em casa era também a casa do misto… Todo dia, pão, queijo derretido e presunto. Nunca faltou pizza uma vez por semana à noite, cachorro-quente no outro dia para jantar e mais na noite seguinte: hambúrguer para todos… Minha prima magérrima torcia o nariz, achava que Tia Ane exagerava em tudo… mas os demais primos, Mó, Liu, Piu, Sila, Guinho, Tica, Kinha e Lora, amavam ir para lá porque sempre tinha muita comida.

Engraçadíssimo mesmo era ir à praia. Havia um isopor em casa, uma caixa de uns 30 litros e meu pai enchia de picolé na fábrica de picolé para “as meninas chuparem”… (todos de fruta, óbvio que tinha coco e amendoim, que ninguém dispensava, manga, cajá, tamarindo). O carro ia entupido de amigos e parentes. Minhas amigas, ele chamava todas de “macaca”. Sei que a gente ria e ria e ria… O som ia alto, todo mundo cantando dentro do carro e a gente dando tchau a quem passasse…

A gente era feliz… Casa cheia, pai e mãe, amigos muitos, primos até não poder mais… Uma galera. As ditas monstrinhas, A, E e I, depois de passarem o sabadão inteiro na piscina do clube, iam almoçar na churrascaria ( onde só queríamos calabresa e maionese de batata e batata frita e farofa e feijão tropeiro). O detalhe era que antes, no clube, devorávamos as deliciosas coxinhas, o acarajé, o abará, um quibe para não perder a viagem, batata-frita(de novo!), peixe frito, cocadinhas, picolés chicabom  e mais o que viesse…

Depois de almoçar no Rincão, aos domingos, a gente ia passear de carro em Salvador, e era também sagrado o sorvete de fim de tarde na Ribeira, na Cubana ou então na sorveteria da avenida 7.

Voltávamos para casa à noitinha, reclamando da locução do futebol (BAxVI) que meu pai não dispensava aos domingos. Tapávamos mal educadamente os ouvidos com os dedinhos enfiados nas orelhas enquanto mainha dizia: deixem seu pai ouvir o jogo dele, meninas…

Ele voltava para casa, a gente já estava exausta àquela altura, sempre chegávamos à noitinha. Dormíamos então cansadas, com as bochechas rosinhas do sol sem protetor e a pele morena do Rayito de sol paraguaio que se vendia por aqui. Os cabelinhos ficavam loirinhos do sol. Naquele tempo, às vezes mainha ainda nos contava uma historinha para dormirmos.

Eu me lembro muito bem, nunca vou esquecer, quando ele dizia orgulhoso na rua aos amigos “vejam só: estas são as quatro mulheres de minha vida”.