Estereótipos à parte ou incluídos !!!

Hoje eu conversava com um amigo intelectual(segundo ele). Sinceramente, socorra-me Sartre: ” O inferno são os outros!”

Versávamos sobre as amigas complicadas dele e seus problemas afetivos… O diabo foi o comentário capcioso sobre os homens que usam cinto de couro com fivela de boiadeiro, têm pick-up, usam chapéu e tal… Segundo o meu dileto amigo, estes seriam incapazes de fazer uma mulher feliz e por isso, obviamente, a amiga dele sofria. Deus! Se a indumentária ou a tribo a que pertencemos vestisse a nossa alma ou o nosso caráter, que pensaríamos então dos ´empaletozados´ governantes sujeitos à CPI, recebedores de mensalões e investidores dos cuecões? Abaixo todo terno no mundo? Seguindo tal raciocínio, é possível pensar então que os índios por estarem “vestidos de uma nudez emplumada”(Viva Darcy!), mostrar-se-iam, portanto, despidos de caráter?

Nossa, me assusta a Universidade hoje! Acadêmicos teorizam sobre identidade nacional, sobre ética, cultura e cidadania, sobre inclusão social e também acerca de igualdade humana. Isso para não citar a utópica Declaração Universal dos Direitos Humanos (para mim um dos mais belos textos) recitada às vezes de cor pelos mestres nos centros acadêmicos. 

Como podemos nós, míseros mortais impregnados de idéias preconcebidas, herdadas do cruel processo histórico de formação da identidade brasileira, entrar numa sala de aula e professar algo? Muita maturidade é necessária, leitura, informação, mas, principalmente, é preciso que cada um cheque suas concepções, seu ideário, seu conjunto de valores. “Todo ato humano é político!”

De nada adianta a teoria se, na prática de nossas atitudes refletimos, e, nas conversas despreocupadas vomitamos um catatau de estereótipos. Estes nos cegam(obrigada Saramago pela obra), alienam, mas também revelam quem somos.

Rindo, o amigo dizia que, se, um dia, eu o pegasse namorando uma bailarina country, poderia zoar com a cara dele. EEUUUUUUUUUU!?!?!?!?!??!

Provavelmente, não me recordaria das suas taxativas palavras, mas seria realmente capaz, sem ser piegas(talvez sendo), de observá-lo e perceber se estava realmente feliz ou se mantinha aparências. Acho INCRÍVEL (no sentido literal) pessoas prorrogarem ou manterem uniões pautadas pela aparência e às custas de dinheiro, status e satisfações sociais porque observo que estas, geralmente, implicam dividendos graves, vazios existenciais, neuras compensatórias, manias compulsivas e infelicidade latente, quase sempre.

Ponho-me a refletir… Então, qual o “padrão da felicidade” hoje?  Devemos manter o esquema “escola-cinema-clube-televisão”? A namorada deve ser loira; os casamentos, heterossexuais? O “príncipe encantado” deve ser dono de um haras ou ter uma mercedes e aparecer propondo o poético “felizes para sempre” ou o religioso “até que a morte nos separe”? Negro é vagabundo? Índio é preguiçoso? Mulher tem que fingir que todo cara é o segundo (já que a virgindade caiu mesmo)? Português é burro? Judeu é usurário? Árabe não presta? Políticos são todos corruptos? Não se pode confiar em quem tem dente separado? Secretária é tudo puta? 

Noooooooossaaaaaaaaaaa! Preciso urgente de um país ideal, de um mundo de mentirinha porque o de verdade está me matando!

Os incautos intelectuais da academia são capazes de falar por duas  horas ou 100 minutos de aula sobre as mais belas teorias (O que é cultura? Qual o conceito de Arte? O que diz o Código Civil? Ética e Cidadania…), mas me parecem incapazes de entendê-las. Demonstram uma prática absurdamente controvertida. Vejo-os hoje ilhados, sozinhos na sua soberba solidão “intelectual”(mas não a verdadeira, derivada do saber ouvir, ver e sentir o mundo, as coisas e, especialmente, as pessoas). Só se entendem entre si e passam horas a dissertar sobre a ignorância dos educandos, a frustração dos salários, a irritação cotidiana de perceber a alienação social… depois, arrotam os saberes que dizem ter e, sorrindo, cheios de si pela vaidosite aguda, retornam às suas casas onde dormem em paz até o dia seguinte.

Começo a pensar então na pobre condição humana… estamos relegados à diversidade ! (Confesso que fico por isso aliviada)

Contei ao dito cujo então em tom absurdamente sincero que eu não me sinto apenas uma, que admiro Pessoa mais pela sua condição de projetar os eus para além das máscaras – ainda que todos eles o sejam também. E também que eu adoro me vestir das múltiplas personagens que sou.

Gosto de Capra, mas desejo um dia namorar um surfista, destes bem estereotipados, que só pensam em prancha, mar e onda. Ao lado dele, um dia deitarei na praia, nada conversaremos, nada debateremos, nada polemizaremos. Mergulhados no profundo e absurdamente simples mistério de existir, talvez sem nem nos tocar, olharemos o céu. Nesta hora, estarei imersa na consciência profunda de todas as coisas.

O meu interlocutor, no papel de advogado do diabo, me perguntou: ora, Salvador está cheia de surfistas, por que não está namorando ainda um deles?

Ainda não encontrei o homem que será, além de humano e não medíocre, também estereotipadamente surfista. Mas já fui motogirl e bad girl usando casacão de couro e montando na garupa de moto… vivendo a plena liberdade de existir na estrada do Brasil. Na plenitude do estereótipo cápsula.

Também vesti as idéias da caminhante solitária, despojada de escovas, maquiagem e cílios postiços: só tênis, jeans e camiseta… Pernas para que te quero pelas cidades deste mundão…

Outrora, fui Cinderela ou Branca-de-neve em meio a paetês e lantejoulas bordadas nos alinhados vestidos de noite, elegantemente equilibrada no salto fino…

Lembro a gincana do meu colégio, quando tresloucadamente fui a criança do show da Xuxa que chorava ao vê-la pela primeira vez e também em outra ocasião dos desafios, a parceira pintada de tinta guache do ‘negomaluco’ mais engraçado que já vi… E da unha à testa, dos pés ao pescoço, eu era toda ‘negamaluca’ também… 

Rio quando me pego sendo a doce professorinha… a amiga leal, a filha bem comportada… E também sorrio ao ver o chifrinho de diabinha despontar toda a maldade quando resolvo sacanear alguém…

Divirto-me com os papéis sexuais a depender do parceiro… sim, parece que somos não o que somos, mas o que os outros querem que sejamos… Uns dizem que nos amam comportadas… outros que nos projetam prostitutas… Delícia (?!) é perceber que o chavão permanece: ‘lady na mesa e puta na cama’…assim se justificam as perversões masculinas. Sinceramente, eu me divirto com os seres humanos… Rio destas e mais outras idiossincrasias. Poucos se assumem como são ou se projetam corajosamente múltiplos… Mergulham numa pseudo bonomia que só nos descortina a perversidade do mito de príncipe encantado quando há tantos ogros do pântano capazes de bufar, arrotar…e também de se fantasiar de príncipes quando lhes convém!

Sinceramente, os mais radicais, aqueles que se pensam UNOS, INDIVISÍVEIS, MAIORAIS, convido-os a uma reflexão e a um passeio:

1. na História, veja a questão do ponto de vista oficial – sempre o da elite- e não se esqueça de que há outras versões possíveis;

2. na Religião, lembre-se de que a maioria do Ocidente crê num Deus que é trindade;

3. na Física, até o átomo é divisível;

4. na Biblioteca, encontramos pensamentos convergentes  e divergentes em múltiplos livros;

5. entre os seres humanos, embora toda a igualdade, estamos expostos à individualidade que nos torna plurais … etc, etc , etc.

Eu não sou de esquerda nem de direita nem estou no centro. Eu penso e avalio. Também erro.

Torço para o Bahia, mas não desprezo o Vitória: entendo que, sem ele, não haveria o campeonato nem jogo nem rivais nem adversários nem comemorações nem superação de dificuldades e derrotas… Somos opostos, somos discordantes, mas também concordamos e somos iguais.

Avalio com cautela aqueles que desprezam os movimentos de massa porque se dizem intelectualizados à parte da ojeriza social… Estes declaram, muitas vezes, sua admiração pela música clássica, enaltecem sua virtude e importância, mas não têm um cd sequer ou sequer conhecem A primavera, Ária (Cantilena), Pour Elise, A nona… ( e olha que só falei das populares!) Escarnecem alguns dos arrochas que espocam às sextas-feiras em Salvador nos bares de periferia especialmente.

Eu? Sabe de uma? Ouço Villa-Lobos ou Wagner, mas, muitas vezes, desligo o som do carro ao passar na Madereira Brotas retornando sexta à noite da Faculdade porque me delicio com a expressão dos agarrados arrocheiros que ao som do brega de Candeias simplesmente fruem esta tal de  existência tão teorizada e racionalizada nas academias.

E viva as setecentas mil vidas que podemos ter, não é Caetano???

Carpe diem a todos.