O curió nunca mais cantou

Trilha sonora do post: Aquarela 

“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo… num  instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.”

O tempo muitas vezes nos passa desapercebido. Ontem à tardinha, com o pôr-do-sol e a T.P.M. chegando, calculei-o. Faz já 11 anos. Então a sensação exata de um terço da minha vida caiu de forma bombástica sobre mim. 

Ele era o galã. Bonitão. Todas as histórias falam disso. De um homem de 1,86 de altura, loiro, olhos cor de azeitona, braços fortes, peito largo, carro bonito. É, é a cara dele falar de carro bonito. Impossível esquecer a camisa aberta e o correntão de ouro contrastando com a loirice de seu peito. E o cabelo fino voando ao vento. Se eu fosse menino, seria o seu companheirão. Só que nasci mulher. E virei a sua princesinha.

Foram só dois anos em que fui filha única, mas os mimos me estragaram para todo-o-sempre-amém. “O que você quiser, eu faço por você, minha filha”. “Qualquer coisa, pode pedir a seu pai”. Frases mágicas. “Não peça nada a ninguém, seu pai faz tudo por você”. E fez.

Bebezinha, com dois anos ou três, eu já queria que ele tirasse todas as pessoas da praia, para ela ser só minha. Imagina! O mar era todo meu, porque Deus fizera ele “só para mim”. Assim ele dizia de todas as coisas. Íamos, então, às praias desertas. Minha mãe ajeitava a feijoada ou a farofa e cia para o churrasco e nós viajávamos para longíííínquas enseadas, afastadas do centro urbano, onde eles pescavam em paz e a gente aproveitava para se sentir o centro do universo. Pai, mãe e filha. Depois, mais duas meninas. Itacimirim, Guarajuba, Barra do Jacuípe, a própria Praia do Flamengo, há 30 anos, era deserta. Lembro de irmos a Stella Maris pescar atrás do velho hotel abandonado. E não pensem que ele ficava absorto, não: cuidava da minha varinha de bambu também, que era grande (talvez por isso eu tenha esta megalomania – risos).

“Pinto um barco a vela branco, navegando, é tanto céu e mar num beijo azul”

Amava muito o mar. Os barcos. Os trens. O avião. Os discos voadores. E a pipa colorida no céu, que eu também empinei com ele.

“Tudo em volta colorindo com suas luzes a piscar. Basta imaginar e ele está partindo, sereno indo, e, se a gente quiser, ele vai pousar.”

Livre arbítrio. Com ele aprendi que muitos caminhos diferentes levam ao mesmo lugar, que a rotina pode ser diferente todo dia.  E que há também muitos diferentes lugares, porque o mundo é grande e pode caber num círculo de um compasso.

Lá em casa, era uma sinfonia de curiós, seu passarinho preferido. E as gaiolas eram lindas, todas douradas. Me lembro do som sony e do gosto por eletrônica que dele herdei. Havia um tal de um lp chamado O canto do curió que, segundo ele, servia para os bichinhos aprenderem a cantar. E a gente ouvia isso no finde a manhã inteira, quando parávamos em casa – coisa rara. Sua máquina Olivetti era só nossa. Só nós dois datilografávamos. Ganhei Atari e a criatura superou o criador: eu, moleca, vencia todas as partidas de Pitfal e River Raid. No Enduro, ele era melhor.

Ensinou-me o nome de todos os carros e brincávamos de adivinhar qual seria o próximo a passar: chevette, fiat, caravan, puma, brasília, fusca, parati, dodge… eu sabia todos. Eu gostava, por isso, era de brincar de carrinhos com meu primo da mesma idade, mas também me lembro do dia em que ele me pegou dando de mamar à feijãozinho verdinha de mão rosa e touca na fila do ferry-boat e se enterneceu. “Que bunitinho…Olhe, Ane, ela tá dando de mamar à bonequinha” . Senti tanta vergonha do peito que precisei virar mulher para deixar de senti-la.

Nós íamos à Fonte Nova torcer para o Bahia, o meu time por herança, mesmo que eu não assista hoje a um jogo sequer nem ligue para futebol. “Somos da turma campeã… somos da turma tricolor…” No meu carro, há no pára-brisa o adesivo do Baêa, pelo lado de dentro, porque só eu preciso ter as minhas recordações, não é?

Lembro que ele gostava de biquíne curto e nos ensinou que não havia imoralidade nestas coisas nem no namoro nem no sexo. Na adolescência, me levava sem ciúmes para ver meu namorado trinta vezes que eu quisesse. Festas? Fomos a todas. Ia levar e buscava sem reclamar uma vezinha sequer em qualquer madrugada e a qualquer hora. Dava carona a todas as minhas amigas, não importava onde morassem.

Imoral para ele era a mentira. “Nunca minta para seu pai.” “A pior coisa do mundo é a mentira”. Aprendi a lição, embora soubesse quando a cara descarada dele estava rindo por mentir. E que cara! Ensinou-me as malandragens da vida: sabíamos como ‘roubar’ no jogo de baralho, sabíamos que a bolinha na forminha de empada no meio da rua era um truque desonesto para pegar dinheiro dos bestas. Mas colávamos moedas com superbonder no chão de bares ou restaurantes para rir do pessoal que se abaixava (ô crueldade!)

Nunca chegava em casa de mãos vazias. A gente descia as escadas correndo e perguntava : “trouxe o que para mim, meu pai?”. Umbu, seriguela, bombom, tamarindo, um pintinho de dar corda, lápis de cor (adorava desenhar), uma tranqueira vendida por camelô… o que fosse. 

Comíamos sonhos na padaria e pão doce, algodão doce e maçã do amor nos circos. Os parques… fui a todos. A roda gigante era a nossa preferida. E o carrinho bate e volta me fez chorar, fazendo que ele entendesse que eu era mesmo menina. Para ele, o palhaço era o melhor, ria sempre de todos eles e dos programas bestas da tv. E se auto-intitulava o PAI-AÇO. Nestas horas, inchava o peito, fazia muque e careta, dizendo que era o Incrível Hulk. Juro que eu tinha medo dele ficar verde e saía correndo, acreditando mesmo que isso fosse possível.

Pintava, brincava, dançava. Rebolava se a música da moda era Requebra (Olodum). Chamava minhas amigas de macacas… e ria e ria e ria. Agora parece que eu estou vendo a gente chegando da praia, as três meninas de biquíne, mainha entrando em casa e a torneira do jardim sendo aberta. Ele lavava o carro e a gente ajudava. Nesta maluquice, daqui a pouco já estávamos todos brincando de abominável homem das neves, branquelos da espuma do sabonete. E eu aprendi com ele a fazer bolha de sabão com a boca. Até hoje faço isso!

Quantas vezes saímos de carro pelo mundo, 3, 30, 300 ou 3000km livres? Viajar era lei, curtir a vida um prazer. As coisas funcionavam assim: “vamos ali” – e as malas sempre estavam prontas lá em casa porque, de repente, o passeio virava uma viagem. “Nunca fique sem fazer xixi, peça sempre que seu pai pára o carro.” 

Bom, que mais dele herdei? O nariz, o cabelo mais claro (o de minha mãe era quase negro), o porte, a alegria, o falatório, o gosto por papéis e curiosidades. O gosto também pelas pessoas e pelos lugares.  Dou carona a quem precisa sempre, não tenho preguiça de dirigir, faço favores. E ralho com voz de trovão, como ele bem sabia fazer. Nunca me bateu. Sequer um tapa na mão. 

Com 11 anos, eu caí da escada de casa e quebrei o braço. Aquele homem gigante, em poucos minutos arrastou-se até a escada. Recém operado, sentado e impotente diante do meu braço quebrado, chorava e perguntava: “meu Deus, por que isso não aconteceu comigo? Por quê?” Foi assim que eu descobri o que é amor. E que só um pai é capaz do incondicional.    

“ E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar. Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar. Sem pedir licença muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar. Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá… numa linda passarela que um dia enfim… descolorirá”. 

Te amo e o tempo não varreu isso de mim.”

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Mais uma da T. Pós M.

Quem lê o A vida em palavras sabe… tenho tensão pós e não pré.

Pois é : agüentem o auge aí!

Vinho francês, queijos mil, lembrando minha mãe que dizia que ” o melhor: para mim!”. Boa música e …

… de repente eu tenho cinco anos de idade, choro compulsivamente, bebo a taça, brindo a mim. E quero o colo daquele que, daqui a seis dias, fará 11 anos que nos deixou. Ah, às favas tudo o mais. Hoje eu sou a filha e choro. E sou pequenininha do tamanho de um botão.

Amanhã eu acordo outra. Os otimistas não se irritem. Os educados me permitam. Estou chata, estou grossa, estou eu…sei lá o quê: o espaço é meu e eu posso. Estou grandinha, mas se fosse mesmo pequena, hoje eu chuparia o dedo. Pra dormir.

Eu, meus queijos, meu vinho

É quinta à noite e me acostumei a celebrá-la. Antes, tempo farto de amor, era dia de comida árabe ou italiana, homem chegando às seis em casa, música romântica escolhida por ele na sala.

Havia tempo para uma dança. Havia uma cerveja partilhada ou um vinho a dois. Havia uma varanda e uma Lua no céu. E o mar, mar , distante mar…

Hoje há a doçura, há o vinho, há o sonho, há a mulher. Há queijo Gruyère, Gouda, Brie e Gorgonzola.

Há boa música e quatro travesseiros me esperando.

Leio Crime e Castigo de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski. E curto a minha Felicidade transitória e Clandestina, não é Clarice?

Tim, tim.

Se… parte II

… o pecado bate na porta, a gente sorri. Se traz sorvete, os orgasmos são múltiplos!

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Aproveito aqui para lançar a minha mais escandalosa revelação (risos). Desde que eu descobri isso, quando conto a um namorado, o olho dele fica miudinho, com aquela cara de impotência do tipo: e agora? O que é que eu vou fazer com uma mulher destas? Eu brinco e digo: nem se preocupe, jamais reclamarei. Existe sorvete! 

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Vamos ao post:

Quando éramos crianças, o pai e a mãe eram vivos e os domingos eram cheios. Saíamos ao clube, banho de piscina, coxinhas, acarajés, refrigerantes, etc. Almoço na churrascaria etc etc etc . Nada disso interessa agora, porque o grand finale do dia era a coroação : depois do passeio no Farol da Barra, na Avenida Sete (sim, fazíamos city tour em Salvador no Monza dourado aos domingos) ou na Ribeira, as três meninas alegres desciam do carro alvoroçadas, não menos que a menina-mor ( minha mãe) e que o menino-mor (meu pai).

Parávamos na Cubana ou na Sorveteria Amaralina ou na Sorveteria da Ribeira naqueles doces domingos hoje da memória. Então minha mãe, autoritária que só ela, fazia questão de escolher o melhor para as três filhas e para si mesma : quatro sorvetes de coco e manga, por favor,  e um de ameixa com coco ou com amendoim (esse era o de meu pai,  que sujava a cara larga todinha e lambia os cantinhos das suas próprias bochechas até  limpá-las com a língua.). Por isso, a gente aprendeu a tomar dois sorvetes, para ter o direito de escolher uma bola do segundo, que uma sempre tinha de ser o de coco porque ELA determinava e porque era, realmente, o melhor.

Minha gula megalomaníaca infantil sonhava com o dia em que eu namoraria um dono de sorveteria – tipo a Magali desejando o Quinzinho apenas por causa dos sonhos e doces – só para poder comer de colher todos os sorvetes que eu bem entendesse, retirando as porções sem cerimônia daquele pote de 20 litros que fica exposto nas vitrines.

E a palavra convida:  sorvete. Sorve-te. Sorver-te. Sorver… Eu sorvo o sabor, o teu divino sabor…  Te sorvo assim… huuummm… a pazinha raspando o cremoso gelato, a língua entrando em contato com o frio que vai se derretendo em mim… A minha nuca se arrepia então… Se tiver uma colher, eu viro-a do avesso e lambo a forma côncava pelo lado de dentro, roçando a língua com uma precisão  quase científica a ponto de nada lhe sobrar do creme precioso… faço isso até hoje, como só as crianças sapecas sabem fazer!

Então aquele gelo gostoso, derretido, frio ainda, mistura-se à saliva que já me inunda a boca e  desce lenta e prazerosamente pela garganta. Sinto as curvas do frio em mim, invadindo-me o início do sistema digestivo até desaparecer de minha ainda quase nula sã consciência do processo alimentar.

A essa altura, as ondas de prazer já me tomaram o corpo e o arrepio subiu de novo à nuca, espalhou-se pelas costas e, juro(!) aqueceu-me o sexo. Como o movimento se repete ainda muitas vezes, sinto, realmente, um prazer orgásmico ao sorver-te, sorvete.

Como  respeito o sexo e muito, não tomo sorvetes à toa. Uso-os como válvula de escape para minhas tensões cotidianas ou como recompensa por tarefas exaustivas que cumpro. Ou para os dias em que a Liberdade realmente se faz para mim. Nestes momentos, caminho lépida e faceira, quase saltitante, com uma leveza de mulher e uma pureza de menina, absorta em meu sorvete como estaria ao partilhar a intimidade com outro alguém.

Assim termina minha noite: ganhei um pote de sorvete e um beijo inocente.

Deu para tirar uma casquinha?

Todos os dias são meus

Há dois dias, publiquei um post sobre um delicioso dia que tive. Hoje, acordei preguiçosa, às 7 da matina, depois de ter rolado na cama algumas horas com o pensamento em desalinho.  O ato de calçar a meia, o ritual de amarrar os cadarços do tênis, a delícia de sentir o cotton justo na pele, a trança indisciplinada no cabelo … e, especialmente, a possibilidade de deixar o carro na garagem de casa, descer as escadas andando e abrir o portão do prédio para ganhar a orla, a pé, me deram a exata sensação da delícia de ser o que se é.

Amo a liberdade, gosto de sorrir… Hoje corei pelo sol tímido de inverno. E pelas recordações. O céu azul enganava, entretanto a névoa no mar me confirmava que não era verão ainda. Caminhei oito quilômetros, livre, sem tempo para voltar, sem telefone para atender, sem desculpas para apresentar.  Na volta, o dinheiro trocado, tão pouco, não parecia fazer jus ao prazer indelével que a água de coco é capaz de proporcionar.

Voltar para casa devagar, divagando, sorrindo sozinha…

E, então, ligar o pc, receber uma mensagem esperada, reencontrar via skype uma grande amiga paulista e  sentar à mesa para degustar o tabule, o quibe de forno e a saladinha árabe…  Esse é o tom da vida, esse degustar infinito que minha mãe me ensinou. Delícia.

Indico

Forneria Quintana no Rio Vermelho.

Delícia de lugar, gente descolada, bonita e alto astral. O canapé de carpaccio é uma boa pedida, o coco espumante e o creme de papaia valem a academia no dia seguinte. O vinho da casa consegue ser decente e, em se tratando de Salvador, é uma ótima recomendação. Dos mais acessíveis vinhos aos mais refinados, incluindo champagne Moet & Chandon, chops e cervejas geladíssimas, dá para fazer uma ótima tarde ou noite etílica.

Paquera, bom papo e boa cozinha. Excelente!