Pequei

Estudei em colégio de freiras, o que me rendeu um bom conhecimento bíblico. Mas não foi suficiente para me cegar. Não, ao contrário, depois de ter lido, criança, toda a obra de Lobato, eu só poderia ter o inconformismo da Emília. E pensei muito durante muito tempo se eu não estava querendo trocar abóboras de lugar com jabuticabas.

No Ensino Médio, que antes era segundo grau, conheci a obra do Boca do Inferno, pela qual passaram voando, voando, devido aos fundamentos religiosos, e do qual os professores disseram ser um poeta menor, um louco desbocado, acreditem.

Meus pais, entretanto, me disseram que a educação era o que de mais importante havia na vida e eu os amava tanto que acreditei sem hesitações. Sempre ia a fundo e, como eu já conhecia a Biblioteca Central naquele tempo, fui um sábado vadio passar a tarde lá. Encontrei o que queria: mais sobre Gregório. Depois disso, descobri, na casa de meu avô, homem culto do sertão nordestino, um exemplar da obra gregoriana. E me fascinei com a linguagem que tentaram me fazer crer descabida. Sozinha, entendi o que vinha a ser conceptismo e cultismo.

Depois das incursões gregorianas, virei professora e fui à luta. Ter que dar com 20 anos aulas no cursinho me fez estudar muito. E mais conheci de Gregório. A formação religiosa dará outro post, breve. Vamos ao que interessa: a culpa.

Minha mãe era extremamente rigorosa, de boa família e pautada pela decência, moral e pelos bons costumes. Por outro lado, viveu a geração paz e amor e lia demais, portanto não deixou de nos criar com o cerne da inquietação. Casa de tês filhas, bebemos a revolução e a anarquia que ela mesma cuidava de podar para que não desvairasse em galhos muito acintosos. Seus olhos reprovadores eram o super ego de qualquer uma de nós.

Livrei-me da cegueira religiosa, da cegueira de família latifundiária interiorana casada-para-todo-o-sempre-amém, da cegueira do que-é-que-os-outros-vão-pensar… Li O Anticristo, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Para Além do Bem e do Mal, e mais: poesia, contos machadianos, literatura universal etc etc etc… Se aquele que tinha Guerra no nome me influenciou em idade perigosa, aos 14, e mais tantos outros, como é que o Ministério de Educação diz que ler não faz mal (risos)?

Assim pude me libertar também dos olhos incriminadores dela, da luta entre o anjo e o diabo na minha consciência que se percebeu, simplesmente, humana e animal.

Deste modo, extirpo qualquer sombra de culpa e, ao meu pecado, brindo na Boca do Inferno onde talvez eu vá me aquecer do frio soteropolitano, bebendo o vinho de Baco:

A Jesus Cristo Nosso Senhor

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

Gregório de Matos Guerra ____________________________________________________________________

Genial, não? Pequem, ovelhas, Deus que nos venha salvar então!

Ah, nessa mesma escola, APRENDI o silogismo: Deus é amor. Quem ama perdoa. Então…

🙂 Ó divina desculpa !

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Evil o pecado veio à porta. E agora bate na aorta.

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