Se… parte II

… o pecado bate na porta, a gente sorri. Se traz sorvete, os orgasmos são múltiplos!

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Aproveito aqui para lançar a minha mais escandalosa revelação (risos). Desde que eu descobri isso, quando conto a um namorado, o olho dele fica miudinho, com aquela cara de impotência do tipo: e agora? O que é que eu vou fazer com uma mulher destas? Eu brinco e digo: nem se preocupe, jamais reclamarei. Existe sorvete! 

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Vamos ao post:

Quando éramos crianças, o pai e a mãe eram vivos e os domingos eram cheios. Saíamos ao clube, banho de piscina, coxinhas, acarajés, refrigerantes, etc. Almoço na churrascaria etc etc etc . Nada disso interessa agora, porque o grand finale do dia era a coroação : depois do passeio no Farol da Barra, na Avenida Sete (sim, fazíamos city tour em Salvador no Monza dourado aos domingos) ou na Ribeira, as três meninas alegres desciam do carro alvoroçadas, não menos que a menina-mor ( minha mãe) e que o menino-mor (meu pai).

Parávamos na Cubana ou na Sorveteria Amaralina ou na Sorveteria da Ribeira naqueles doces domingos hoje da memória. Então minha mãe, autoritária que só ela, fazia questão de escolher o melhor para as três filhas e para si mesma : quatro sorvetes de coco e manga, por favor,  e um de ameixa com coco ou com amendoim (esse era o de meu pai,  que sujava a cara larga todinha e lambia os cantinhos das suas próprias bochechas até  limpá-las com a língua.). Por isso, a gente aprendeu a tomar dois sorvetes, para ter o direito de escolher uma bola do segundo, que uma sempre tinha de ser o de coco porque ELA determinava e porque era, realmente, o melhor.

Minha gula megalomaníaca infantil sonhava com o dia em que eu namoraria um dono de sorveteria – tipo a Magali desejando o Quinzinho apenas por causa dos sonhos e doces – só para poder comer de colher todos os sorvetes que eu bem entendesse, retirando as porções sem cerimônia daquele pote de 20 litros que fica exposto nas vitrines.

E a palavra convida:  sorvete. Sorve-te. Sorver-te. Sorver… Eu sorvo o sabor, o teu divino sabor…  Te sorvo assim… huuummm… a pazinha raspando o cremoso gelato, a língua entrando em contato com o frio que vai se derretendo em mim… A minha nuca se arrepia então… Se tiver uma colher, eu viro-a do avesso e lambo a forma côncava pelo lado de dentro, roçando a língua com uma precisão  quase científica a ponto de nada lhe sobrar do creme precioso… faço isso até hoje, como só as crianças sapecas sabem fazer!

Então aquele gelo gostoso, derretido, frio ainda, mistura-se à saliva que já me inunda a boca e  desce lenta e prazerosamente pela garganta. Sinto as curvas do frio em mim, invadindo-me o início do sistema digestivo até desaparecer de minha ainda quase nula sã consciência do processo alimentar.

A essa altura, as ondas de prazer já me tomaram o corpo e o arrepio subiu de novo à nuca, espalhou-se pelas costas e, juro(!) aqueceu-me o sexo. Como o movimento se repete ainda muitas vezes, sinto, realmente, um prazer orgásmico ao sorver-te, sorvete.

Como  respeito o sexo e muito, não tomo sorvetes à toa. Uso-os como válvula de escape para minhas tensões cotidianas ou como recompensa por tarefas exaustivas que cumpro. Ou para os dias em que a Liberdade realmente se faz para mim. Nestes momentos, caminho lépida e faceira, quase saltitante, com uma leveza de mulher e uma pureza de menina, absorta em meu sorvete como estaria ao partilhar a intimidade com outro alguém.

Assim termina minha noite: ganhei um pote de sorvete e um beijo inocente.

Deu para tirar uma casquinha?

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10 comentários sobre “Se… parte II

  1. Nossa, tô toda arrepiada rsss.
    lindo
    maravilhoso
    estonteante
    que bela escritora vc é!
    haja talento!
    menina publica logo seu livro! rss
    Amei o texto, e tirei uma casquinha…

    bjao
    solange

    _________________________

    Amigos editores eu já tenho – risos… Vou convencê-los! Mais risos… Nas salas de aula, divulgo os textos porque estes escritos são resultado do que penso e do que falo. E dou aulas há 13 anos. Ou mais, se contar o tempo em que eu ensinava às crianças em curso particular. Valeu pelo link!

    Beijo   Alena

  2. Você tem o dom de fazer fluir a leitura…
    Nota 10!
    Você é uma espécie de medium, consegue comunicar o não palpável, o abstrato, muito bem.
    Beijo grande!

    __________

    Cris, amo você!!! Estou esperando para “amadrinhar” o seu blog!

  3. Puxa, Alena, que lindo. Deu para sentir a emoção da sua família toda reunida, aproveitando um belo dia de sol. Que delícia, e que delícia também o sorvete, também adooooro! Beijo.

    __________________

    E as entrelinhas também!

    :^)

  4. Ô “A”,

    Acho que agora começo a perceber que não somos tão diferentes. Sempre pensei como duas pessoas sao criadas na mesma casa, tudo igual e são completamente divergentes. A tara, o respeito (não é um prato pra todas as horas!) e o prazer por sorvete deve ter sido genético, minha mãe também era louca. Sinto a mesma sensação.

    Beijos

    ____________

    Smac, smac!

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