“Sou eu mesma a charada sincopada”

Dezesseis anos de conversa com uma grande amiga foram melhores que qualquer terapia. Hoje senti falta dela, que está a mais de 8000 km de mim, porque cinco minutos foram suficientes para me dar vontade de deitar no colo e praguejar contra toda a vida. Sorte que passa.

Depois de nossas terapias malucas, cujos divãs foram as cadeiras de bar, do shopping ou das docerias que freqüentamos, chegamos até a fazer terapia ratificada por diploma, embora por pouco tempo. A conclusão de Lu, nossa adorável psicotomajuízo, meninas, concluiu que a gente não era lá muito certa não: ríamos de tudo, inclusive das nossas desgraças. Há histórias memoráveis, que há anos nos fazem gargalhar. A categoria Love end se encarregará disso ao longo dA Vida em Palavras. Talvez devêssemos ter chorado mais. Ou não, como diria Caetano.

Um dia, inteligentemente (risos), concluímos que éramos a geração que ficou no meio. Nossas avós eram muito reprimidas, machistas, casadas-para-todo-o-sempre-amém. Nossas mães foram a geração paz e amor. Elas, entretanto, depois de toda a maconha ideológica, que nunca soubemos se chegaram a fumar pela impecável postura apresentada socialmente, e de muito ieé ié iéiéééé dos Beatles e dos Rolling Stones, muita maluquice beleza, acabaram por ser as impolutas “namoradinhas do Brasil”. E assim nos criaram. Crendo na revolução, mas puxando as rédeas e colocando o cabresto. O resultado, até antes dos 30, na nossa ainda declarada meninice, só poderia ser o sufocante embate entre o-que-eu-sou, o-que-eu-penso-que-quero-ser porque há o-que-minha-mãe-quer-que-eu-seja. É um p-q-p lidar com isso.  Sorte que os livros nos libertaram. E essa humana racionalidade tão doce e necessária e tão cruel.

Precisou o tempo passar, as lágrimas lavarem a lama, insucessos ocorrerem e , no meu caso, até mesmo aprender a lidar com a presença marcante de minha mãe-super-ego no meu inconsciente. Libertar-me. Demorou… mas aconteceu. Foi um processo e não dá para precisar a exata hora em que cada paradigma caiu, em que cada revolta nasceu, em que cada fogo apagou. E a hora em que eu me descobri.

Ouvir Maricotinha (M-a-r-a-vi-l-h-o-s-o dvd) hoje me fez ter estas recordações.  Quando ela canta O QUERERES me lembra imediatamente o onde queres o livre, decassílabo; onde buscas o anjo, sou mulher… Ah! Bruta flor do querer!

Mas a vida é real e de viés…

E por causa da relaidade, os viés aparecem. Digo sempre que o princípio da felicidade começa por estar ciente das coisas que a gente não quer. Mas o que fazemos  se vestimos a calça e o cós aparece de repente, sem que esperemos por revelada intromissão tão inoportuna?  Sou Eu, sou Eu, grita o anseio dentro de mim. E por isso chorei cinco minutos como num velho folhetim. Não fui A Viuvinha, nem sou Aurélia Camargo, embora, Senhora de mim , entenda que não é bom ser escrava, ainda que a tal da Isaura.

“Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.” Se somos tantas Pessoa’s em nós…

Sou Eu

Álvaro de Campos 

 Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, 
 Espécie de acessório ou sobressalente próprio, 
 Arredores irregulares da minha emoção sincera, 
 Sou eu aqui em mim, sou eu. 

 Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. 
 Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
 Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

 E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
 Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
 De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
 Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

 E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua, 
 Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda, 
 De haver melhor em mim do que eu.

 Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa, 
 Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores, 
 De haver falhado tudo como tropeçar no capacho, 
 De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas, 
 De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida. 

 Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
 Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
 De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
 A impressão de pão com manteiga e brinquedos
 De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
 De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
 Num ver chover com som lá fora
 E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

 Baste, sim baste!  Sou eu mesmo, o trocado,
 O emissário sem carta nem credenciais,
 O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
 A quem tinem as campainhas da cabeça
 Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

 Sou eu mesmo, a charada sincopada
 Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

 Sou eu mesmo, que remédio!  …

E este clima de sábado com cara de pipoca e cinema, passeio no shopping de marido e mulher com crias, um mimo chorado com dengo, atendido mesmo que mordida no orçamento represente… Esse ar de felicidade explícita que só uma família consegue ter, com cara de bigode de milk shake e a pequenininha fazendo cócegas na barriguinha, de confusão de gente, de sacola de presente que quase nos lembra o natal e de mais um pirulito ou sorvetinho… Esta merda de possibilidade me lembrou que eu também queria hoje ter isso. E penso em minha amiga resoluta, lá no Porto tão distante, com certeza a sonhar o mesmo também. Por que nascemos meninas?

Já falei que os livros me libertaram. Mas a droga foi que havia uns românticos lá pelo meio da biblioteca. Já que esta sou eu mesma e não tem remédio para isso, com licença, que há caranguejo e cerveja no meu sábado. Por que não apenas o poeta percebeu que “um rei que sonha ser artista é tão feliz quanto um artista que sonha ser rei”.

Um brinde às lágrimas que passaram. Eu respeito muito mais a minha risada.

Receita para um domingo feliz

Orelha de porco, rabo suíno, toucinho, costelinha e bacon.

Paio, lingüiça portuguesa, calabresa defumada.

Charque. Músculo. Ossobuco.

Feijão preto.

Alho, cebola, pimentão.

Uma noite de sabadão tomando uma cervejinha enquanto a panela cozinha.

Cerveja para gelar, água tônica diet (que é para não engordar- hahahahaha), coca-cola, guaraná antártica.

Farinha de Nazaré, da BOA: amarelinha bem fina, comprada no mercado do Ogunjá.

Alface, rúcula, tomate, cebola e pimentões em rodelas bem finas. Azeitona para enfeitar.

E aquela pimenta de matar qualquer um.

Junte a tudo isso um bom dvd e um punhado de amigos interessantes. E sorria.