Cortesia

Raul Cortez morreu nesta semana aos 73 anos. A notícia já caducou, mas eu preciso comentá-la porque penso nele desde que soube de seu falecimento, ontem pela manhã, bem cedinho.

Os brasileiros perderam um grande ator, isso já é clichê repetir. Sentiremos falta de sua atuação nas telinhas, de seu carisma, de sua capacidade de nos fazer odiar ou amar uma personagem. Todas estas palavras são outros clichês. Eu não sou noveleira, não vejo as globais há muito (as outras, nunca as experimentei mais tempo do que um mero capítulo só para conferir que não prestavam mesmo e pronto). Entretanto, embora eu não tenha o hábito de acompanhar as novelas, nunca vou esquecer a capacidade que Raul teve de despertar-me uma ternura enorme pelo “Francesco”, aquele que se enamorou da Paola (a belíssima Maria Fernanda Cândido). Também não esqueço o quão significativo foi o resultado de sua atuação.

Em tempo de novelas com pretensões didáticas, exatamente a falta de “didatismo forjado” desses atores foi que alcançou, pela naturalidade da espetacular atuação de Raul, o objetivo maior e subliminar, registre-se, de fazer a sociedade pensar e rever arcaicos preconceitos. Sem aulinhas de isso é certo ou errado, sem recadinhos ou depoimentos “verídicos” em fim de capítulo, sem precisar de discursos moralizantes, de verificação de IBOPE ou de adaptações e mudanças bruscas de roteiro, sem nenhuma destas mercantilizações dos comportamentos socialmente aceitos ou do que professam os novos psicólogos da atualidade, apenas pela arte de ser (excelente) ator, Raul me convenceu. A mim e a muitos mais, estou certa.

Lembro que eu era mais menina, menos madura e, àquela época, ainda atormentada pelos não-podes da rigorosa educação familiar que ainda me relegavam ao senso comum das massas preconceituosas as quais consideravam descaração ou interesse pelo dinheiro a relação entre una bella ragazza e un’ uomo vecchio. Mas Raul encantou. Pôs o bonitão do Antonny, do Lacerda e o resto do elenco no chinelo.

Não precisou roubar a cena, porque esta já era dele há muitos anos, muitos mesmo.

No palco verossímil da fantasia televisiva, o seu olhar, o olhar do ator Raul Cortez na pele do Francesco, demonstrou tanto amor à bela Paola que convenceu o público renitente e talvez a mim primeiro, de que, realmente, são estúpidas as convenções sociais e os estereótipos. 

Não houve charlatanismo, não houve falsificação da realidade no roteiro. Era uma vez um homem, era uma vez uma mulher. Simplesmente. E entre eles, macho e fêmea, surgiu o sexo, o sentimento e uma família. E Raul era o mestre na encenação. Ele é que seduziu a moça, que dobrou o público, que encantou as pessoas e enterneceu os corações. O casal superou os bonitões escalados para protagonizar as idas e vindas do amor, os altos e baixos afetivos que fazem a trama noveleira cair no gosto popular. Em final de novela, o filho deles foi o mais esperado, superando as expectativas que cercavam , inclusive, o casal protagonista. Tornaram-se companheiros em uma relação pautada pelos sentimentos, que começara, contudo, como se costuma dizer: como amor-bandido, já que ele era “bem” casado

Depois do humano e simples, tão simples Francesco, eu abri os olhos para ver melhor os homens mais velhos, para entender o quanto de amor simples e com cheiro de dedicação e colo lhes falta tantas vezes nessa vidinha de casamentos falidos, de manutenção das aparências sociais, de hipocrisia das relações. Passei a observá-los melhor, a enxergar no fundo dos seus olhos o quanto de incompreensão as dignas-esposas-de-papel-passado muitas vezes lhes oferecem. O silêncio velado que mantém um casamento de prestar satisfações sociais faz com muitos homens o que fez ao seu Francesco: sentir falta de uma companhia, de sorrisos, de segredinhos e de idiossincrasias. Falta de coração batendo alegre no peito e de motivos para desejar longa vida.

Nada é tão simples. Não subestimem os grilhões que uma sociedade é capaz de usar nos condenados sujeitos da vida real. Haja pedras atiradas aos que rompem os paradigmas do faz-de-conta que os Irmãos Grimmm e Andersen talvez tenham plantado juntamente com o catolicismo no inconsciente coletivo: o “até que a morte nos separe” e o “foram felizes para sempre”. A qualquer preço.

Por isso eu me lembro de outro Raul: o Seixas. Eu tinha 14 anos quando ouvi a letra da canção que revela o quanto nos traimos e nos fazemos escravos de amores que existem sim, no tempo e no espaço que lhes é reservado, mas não no infinito do para sempre. Àquela época, eu amava demais o meu primeiro namorado-de-amor-para-sempre para entender  a canção de Raul ou o soneto de fidelidade de Vinícius com toda a veracidade que carregam. Só o passar do tempo é que me trouxe a sensibilidade de que eu precisava para entender a força dos versos das “pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”.

Há casais bem sucedidos economicamente, com filhos saudáveis, inteligentes e bonitos. Há esposas bem cuidadas e altivas, decentes, mulheres excelentes ao lado de homens bons provedores e bons pais. Todos estes ingredientes estão em diversos lares, em diversos tetos onde, infelizmente, co-habitam de papel assinado os casais encarcerados no labirinto da solidão a dois.

Nunca esqueço o depoimento de um amigo, quase sessentando, que me disse dormir “de valete” por mais de dez anos ao lado de sua digníssima e linda esposa. Fiquei pasma quando o ouvi conversando isso comigo. Um outro me disse ter se perguntado na noite de núpcias de um casamento que durou 35 longos anos, nos quais marido e mulher se revezaram no papel de algozes um do outro, o que era que ele estava fazendo com aquela mulher ali, naquele quarto de hotel. Por que se casar? Os motivos são muitos… um deles a tal questão de honra entre as famílias. Os exemplos são muitos, e eu os tenho não de pesquisas do Datafolha ou da psicóloga tal. Coleciono-as das mesas de bares, dos almoços domingueiros em minha casa, da convivência com pessoas comuns como eu e você.  

“Não posso entender tanta gente aceitando a mentira” que a Janete tanto quis manter (se não me engano, era esse o nome da personagem de Ângela Vieira, esposa de Francesco). Hoje não posso entender tantas “pedras sonhando sozinhas no mesmo lugar”, tanta gente negligenciando a própria existência, abrindo mão do próprio arbítrio, da escolha, da autonomia. No jogo de fazer-se de vítima e de representar o feitor, ambos, marido e mulher, amarram-se ao pelourinho das insatisfações e sobrevivem graças àquele jogo de culpas que faz tanto mal. Ela se submete comumente em troca de ter sua caverna aquecida e provida de alimentos. Também em troca da garantia de não precisar freqüentar as ferinas festas de família sozinha. Ele, da garantia de uma governanta de seus ternos bem passados e de sua comida bem feita, bem como de sua prole bem criada.

Amor, companheirismo, pés juntinhos nas noites de calor ou peito quente para aconchego, sorvete dividido, cartinha de amor, música para embalar as noites ou a famosa macarronada da madrugada: há muito tempo são detalhes esquecidos por tantos ou então se constituem dos surrupiados momentos nos encontros furtivos com os verdadeiros mantenedores dos casórios para sempre, os sinceros amantes. A escravidão por espontânea vontade por que muitos optam torna a sopa amarga, o café da manhã estressante, o almoço um estorvo. Este, graças à modernidade e ao seu corre-corre imperativo, já foi substituído pelos insonsos pratos solitários da comida a quilo nas cidades grandes.

Ambos, o Seixas cantando, mas, especialmente, o Cortez atuando, me fizeram perceber algo simples, embora um segredo da vida.  Por isso, não vacilei em viver os amores que a vida me trouxe, não tive medo da chuva, não fiquei imóvel na praia, pedra que chora sozinha no mesmo lugar. E a lição do sonho fictício da telinha se traduz na felicidade que talvez esteja no brilho dos olhos da moça Paola, mas, com certeza, na TERNURA que vi nos olhos do Raul Cortez. Porque seu personagem estava, simplesmente, FELIZ.

Hoje, saudades dele. E, como cortesia, uma homenagem ao GRANDE ATOR que foi.

2 comentários sobre “Cortesia

  1. É amiga aqui vc disse tudo sobre CASAMENTO PARA SEMPRE SEMEADO NOS CONTOS DE FADAS
    PARA SEMPRE…

    Ela se submete comumente em troca de ter sua caverna aquecida e provida de alimentos. Também em troca da garantia de não precisar freqüentar as ferinas festas de família sozinha. Ele, da garantia de uma governanta de seus ternos bem passados e de sua comida bem feita, bem como de sua prole bem criada.

    NESTA VIDA LOUCA ALGUÉM SE HABILITA A IR SOZINHO PARA A SELVA?

    POUCOS, BEM POUCOS. COMO EU, COMO VC E O RAUL…

    ________________

    ai, ai… (suspiro)

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