Pra não dizer que não falei das flores

“Se tens dois pães, vende um e compra um lírio”. Demorei na adolescência a entender. Nada ipse litteris. Adentrar o ciclo das rosas leva tempo, exige experiência e alma predisposta… A subjetividade desenvolve-se, a emoção aguça-se, o olhar aprimora-se, o lirismo lapida-se e sente-se até que, finalmente, irrompe em espasmos de êxtase e beleza…

Há que se entender a unicidade da rosa em Saint- Exupèry, depois não esquecer a anti-rosa de Vinícius e espantar-se com a flor de Drummond, aquela que nasceu na rua, furando tudo: o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio… 

Há que se ler a rosa de Eco e ver o filme. Também é preciso assistir à Daniela cantando a rosa do Olodum com o público inteiro emocionado, com lágrimas nos olhos. Deve-se também deitar na cama e ouvir a rosa de Pixinguinha na voz de Marisa… Cantar alto como um mantra Pra não dizer que não falei das flores em momentos de fraqueza, de solidão, de busca ou de ‘suspiros poéticos e saudades’… Ainda é preciso andar cantarolando ao descobrir que “eu sou eu e você é você”, que ainda assim se pode dizer que “eu vejo flores em você”… Também se deve entender a efemeridade de todas as coisas (que justifica o carpe diem tão proclamado pelos ventos no mundo) depois de chorar no espelho até ficar cansada por constatar pasma a descoberta de que só “as flores de plástico não morrem”…

É necessário que muitas primaveras passem até que a compreensão exata das flores nos chegue e nos arrebate em jardins… assim conseguimos entender a majestade dos lírios do campo e contemplar a riqueza dos Canteiros.

Que bom então perceber que, de todos os aniversários, este foi o mais primaveril :

 

 Um aluno querido me enfeitou a alma com suas margaridinhas matizadas…

As meninas da 5a série me abraçaram com as margaridinhas amarelas. Oraieiê!

Uma aluna e minha avó entenderam que mulheres precisam de rosas…

E eu, um relicário de sonhos e romantismos, me dei estas orquídeas tão doces…

… e, como Érico me impressionou desde o passado adolescente, aquele Veríssimo, eu me lembrei de trazer  para a minha sala também os lírios do campo…

…porque, finalmente, aprendi que há aves no céu.