Pedaços

Hoje sou um pedaço de família:

mulher-ilha sozinha em minhas decisões.

Hoje precisei de um pedaço de homem:

seus braços fortes para me envolver.

Desejei outro pedaço, este atitudinal:

“pode deixar, minha filha, que eu resolvo tudo para você”.

Um pedaço do meu carro pifou:

o alarme encrecou e eu fiquei à deriva

no banco da frente, pedaço de mim,

esperando o seguro com motor bloqueado às 23 horas.

Um pedaço de meu cérebro lembrou

que eu tenho a mania de ler manuais

e tentei todos os pedaços de decisões

que os garanhões de plantão não conseguiram resolver.

Aperta daqui e dali, abre o capô, o painel de fusíveis,

gira a chave com pé na embreagem, gira a chave sem o pé na embreagem,

acelerei assim e assado, apertei botão, soltei botão, fiz isto, isso e aquilo…

Até que parei, pensei e decidi, sozinha:

pedaço de papel colado no vidro. Disquei o seguro.

Relaxei, tranqüilizei-me… Lembrei então o pedaço certo do manual…

tática aplicada, desbloqueio do motor do carro ativado!

Feliz, auto-suficiente e mulher.

Faculdade deserta, mais ninguém àquela hora.

Dispensei o seguro, voltei para casa.

Subi a escada escura meio melancólica.

Em casa, faltava o pedaço que eu queria.

Olhei a torta de nozes…

um pedaço, dois pedaços, três e quatro pedaços.

Depois de um terço da doçura digerido serotoninamente,

a dieta foi para o espaço… mais três morangos…

A essa altura,

e o coração?

Simples: está em pedaços.