Day after

Depois de muuitos dias julinos de farra, cerveja, vinho e muita comida boa, resolvi acordar light. Senão…

Primeira providência: dispensar a empregada. Sim, porque cozinhar para um é chato. Aí evitei as panquecas deliciosas, a moqueca de camarão ou de peixe, que era isso que eu comeria hoje se achasse uma vítima para compartilhar. 

Abri a geladeira e saquei logo uns pimentões vermelhos, que eu adoro, alface, rúcula, pão integral e duas finas fatias de peito de peru defumado. Comi o sanduíche com mostarda  Maille. Um guaraná antarctica diet.

Duas horas depois, o buraco negro na barriga gostaria de sugar queijos e vinho português (preferível aos argentinos). Mas resisti bravamente. Um potinho de palmito me convidou. Pensei em salsichão alemão com chucrute. Dispensei e des-pensei.

Tem uma coisa na cozinha que eu adoro, que são as facas. Desde pequena tenho fascínio por elas. Sempre ia ao supermercado e colocava uma nova no carrinho de minha mãe. Quando ela dava conta, a faca estava lá e eu argumentaaaaaava que era uma beleza, para que ela a adquirisse. Muitas vezes, a empreitada dava certo e lá ia eu ajudá-la no buffet com minha faca nova. Só ajudava se a faca tivesse pouco tempo de uso e se eu a inaugurasse ( filha cruel!). Haja vontade feita!

Então, peguei minhas facas com aquele fio preciso de cortar fui fatiando o palmito compridinho… depois em rodelas que eu odeio rotinas e monotonia. Mussarella de búfala, uma bolota apenas. Quatro tomates secos. Um pacote de rúcula lavadinha no vinagre.  Uma cenoura. Aí fui fazer experimento com meu jeito MacGuiver… não achei o descascador de legumes e resolvi pegar o fatiador de queijos. Menina, funciona que é uma maravilha! A lâmina é perfeita. Descasquei a cenoura e resolvi que a queria em palitinhos finos também (acredita que em rodelas me dão enjôo?). Outra maluquice: cenoura ralada me dá fome porque só penso naqueles dias insanos de dieta e nos sanduíches naturebas mal feitos. Aí não é todo dia que eu gosto de cenoura ralada.

Então fui arrumando o prato, polvilhei um mínimo de orégano no  queijo, bem pouquinho, quase nada. Acrescentei alcaparras e três míseras azeitonas (senão como todas que houver). Para dar pompa ao negócio, em cima do palmito em rodelas pus a mostarda e inventei de comer tudo de pauzinho (japonês é magro porque dá trabalho comer de pauzinho) (estes são lembranças de viagem. Só os encontrei aqui em casa com a ajuda do meu santo predileto: São Longuinho.) Lembrei-me do molho shoyo, que eu detestava e aprendi a gostar com o último amore. E, antes de comer tudo, preparei duas xícaras de chá verde com pêssego.  Dei os três pulinhos devotados, fotografei e sentei-me para o ritual do almoço.

Tudo então resolvido se eu não ficasse pensando depois do prato de salada: sim, a que horas vão trazer o churrasco?

Bilhete de Dona Flor ao romancista

  

“Caro amigo Jorge Amado, o bolo de puba que eu faço não tem receita, a bem dizer. Tomei explicação com dona Alda, mulher de seu Renato do museu, e aprendi fazendo, quebrando a cabeça até encontrar o ponto. ( Não foi amando que aprendi a amar, não foi vivendo que aprendi a viver?)

Vinte bolinhos de massa de puba ou mais, conforme o tamanho que se quiser. Aconselho dona Zélia a fazer grande de uma vez, pois de bolo de puba todos gostam e pedem mais. Até eles dois, tão diferentes, só nisso combinando: doidos por bolo de puba ou carimã. Por outra coisa também? Me deixe em paz, seu Jorge, não me arrelie nem fale nisso.  Açúcar, sal, queijo ralado, manteiga, leite de coco, o fino e o grosso, dos dois se necessita.(Me diga o senhor, que escreve nas gazetas: por que se há de precisar sempre de dois amores, por que um só não basta ao coração da gente? As quantidades, ao gosto da pessoa, cada um tem seu paladar, prefere mais doce ou mais salgado, não é mesmo? A mistura bem ralinha. Forno quente.)

Esperando ter lhe atendido, seu Jorge, aqui está a receita que nem receita é, apenas um recado. Prove do bolo que vai junto, se gostar mande dizer. Como vão todos os seus? Aqui em casa, todos bem. Compramos mais uma quota da farmácia, tomamos casa para o veraneio em Itaparica, é muito chique. O mais, que o senhor sabe, naquilo mesmo, não tem conserto quem é torto. Minhas madrugadas, nem lhe conto, seria falta de respeito. Mas de fato e lei quem acende a barra do dia por cima do mar é esta sua servidora. Florípedes Paiva Madureira dona Flor dos Guimarães.”

( Bilhete recente de dona Flor ao romancista)

( AMADO, Jorge. Dona Flor e seus dois maridos)

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 – Foto da edição da editora Record, página 3.

– Texto transcrito da página 10 do romance.