Cansada de notícias

Ontem me obriguei a ter uma  vida saudável. Isso inclui desligar o computador. Prometi a mim mesma que só o religaria hoje à noite. Quebrei a promessa antes do tempo. Como não sou adepta da televisão, fico alienada até abrir o jornal de SP ou ligar o pc. Acontece que, em tempos modernos, é quase impossível estar alienada. Minha amiga me ligou umas três vezes nesta manhã. Quando, finalmente, conseguiu falar comigo, me contou sobre a queda do avião da Gol. Meu Deus!  Eu não sabia de nada. Sem ver tv desde ontem e com o pc desligado, nada sabia.

Fui conferir a lista on line de passageiros, nenhum conhecido. Mas isso não nos impede de sentir a impotência da frágil vida humana ao perceber o quanto tudo pode acabar agorinha mesmo. A gente acorda viva e não sabe se assim continuará até o amanhã.

De repente, pode até haver culpa da companhia, ou não, mas agora, agora, não creio ser isso o importante. Há que se averiguar ainda a causa, não quero especular.

O que  me deixa sempre a pensar é a instataneidade da morte. Pá. De repente, pronto, não estamos mais vivos. Seja ataque cardíaco, bala perdida, aneurisma cerebral, câncer, febre, virose, acidente de carro, ônibus, trem, avião , navio… Um segundo e já não estamos mais vivos.

É por isso que os sábios disseram: carpe diem. É só isso.

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Eu não quero falar sobre eleição

Não. Eu não quero falar sobre eleição. Eu não quero dizer a ninguém que vi cavalos em plena avenida Paralela (importante em Salvador porque une o aeroporto à cidade) carregando homens com bandeiras de candidatos. Os paladinos do rei voltaram? Uns têm ideal partidário, outros esperam os trocados que os fará comprar o pão da sua Dulcinéia e dos seus herdeiros de miséria.

Não. Eu não quero falar sobre eleição. Eu não quero dizer a ninguém que vi um homem ao meio-dia de anteontem com uma corda amarrada na cintura. Ele servia de contrapeso a uma bola inflável gigante que voava na avenida Paralela para que todos vissem o nome daquele candidato. O homem era o contrapeso. O peso era a bola da vez. Era meio-dia. O sol queimava os miolos de qualquer nordestino. O homem escolheu um arbusto e se deitou na parca sombra dele. No chão, amarrado pela cintura e a bola no céu a balançar com o vento. Não, eu não quero dizer que vi isso. O homem feito pedra. O homem contrapeso da eleição. O homem que pouco ou nada vale para quem o contratou.

Não. Eu não quero falar sobre eleição. Eu não quero dizer a ninguém que vi uma mulher servir de contrapeso também. Ela se deitou no mesmo gramado da mesma avenida sob o mesmo sol. E com uma sombrinha matizada de rosas, protegia a cara – pobre não tem rosto – do astro-rei que a escaldava. Ou será que dos transeuntes que nos carros passavam?

Não. Eu não quero falar sobre eleição. Eu não quero dizer a ninguém que vi uma instituição de ensino convidar seus funcionários e professores para um almoço de confraternização no qual os funcionários receberam a comida  após duas horas de palestras políticas para apoiar x, y e z. COMício. Pão e circo. Teve música depois. E o povo sambou.

Não. Eu não quero falar sobre eleição. Eu não quero dizer a ninguém que vi a avó da minha amiga pedir-me votos para fulano porque ele é legal: fretou um ônibus, levou as beatas velhinhas para um piquenique e pediu-lhes o apoio e o da sua sagrada família. E “tudinho de graça, foi uma beleza!”. Não, eu não quero dizer isso porque moro na terceira maior capital do país e meu calendário me diz que eu estou no terceiro milênio.

Não. Eu não quero falar sobre eleição. Eu não quero dizer a ninguém que vi umas mulheres formadas, pós-graduadas, dizerem que vão votar naquela candidata velhinha só porque ela é uma velhinha.  E outros senhores dizerem que vão votar em fulano porque ele é negro. E em cicrano, porque é gay.

Não. Eu não quero falar sobre eleição. Eu não quero dizer a ninguém que vi uns homens em que eu acreditava dizerem que vão esculhambar nestas eleições : votar em todos os piores candidatos e naqueles que vão perder.

Não. Eu não quero falar sobre eleição. Eu não quero dizer a ninguém o que vi, mas, meninos e meninas, eu não sou Juca-Pirama, mas vi!  E vi tudo que eu não queria mais ver e mais o que eu nem pensava ser possível ainda ver. Eu não estou cega. Eu vi. Por isso eu não quero falar sobre eleição. 

Existem homens *…

… que não deveriam existir!

Houve uma novela e  um tempo em que eu via novelas.  Lembro-me de que Mário Lago interpretava o jovem doutor Molina, havia o Tadeu, personagem do Jairo Matos e a Clara, interpretada pela Cláudia Abreu. Em uma certa cena (inesquecível) , o velhinho Molina discursa para o Tadeu e lhe diz, após este destruir o coração de Clara, que assassino não é só aquele que pega uma faca e a enfia no coração de uma pessoa ou um revólver e dá cinco tiros. O pior assassino é aquele que destrói os sonhos de alguém.

Nossa, me lembrei disso neste instante por causa de um personagem que me apareceu… Sabemos nós que somos todos a multiplicidade de heterônimos que habitam em nós. Ninguém é somente bom ou apenas mau. Mas há sacanas, cafajestes, seduzidos pela arte de seduzir, que se empenham em descobrir os anseios mais profundos desta ou daquela mulher… E a cortejam, embalam, levam-na às nuvens de algodão ou aos frágeis palácios d’ouro de seus anseios… Prometem-lhes os lírios do deserto e, com o peito, por um tempo, lhe aplacam a solidão.

Fazem isso de forma sádica, satisfeitos em seduzir, em conquistar, em exercer a sua torpe macheza para, logo em seguida, ter a mulher presa pelo preeenchimento de suas próprias carências. Então lhe arrancam o tapete debaixo de seus pés. Geralmente, ela, a moça ou menina nem tem tempo de ver o trem que lhe passou por cima… Enreda-se num sofrimento que inclui autocomiseração, impotência e culpa. Sangra fêmea ferida sem confiança,  na lama de seus restos.

O bonitão? Sorri e parte para a próxima. Vítima.

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* Não falo do homem nem dos homens, mas de um tipo específico que, convenhamos, não deveria mesmo existir.

Sabe?

Sabe quando você resolve tomar conta de si? Sabe quando vira prioridade na própria vida? Sabe quando as suas decisões mais recentes foram todas acertadas? Quando você percebeu que há pessoas que não são para o convívio diário? Quando você nota que o passado PASSOU?

Quando você afasta de si aquela amiga que torrava a $ua grana ? Quando se demite do emprego de que não gostava? Quando passa a fazer o que gosta? Quando come de forma saudável e deliciosa porque optou viver assim? Quando tem tempo para fazer o próprio almoço mais de três vezes na semana? Quando não precisa de namorado só porque está só? Quando passa a se curtir mais, a entender de novo que gerencia a própria vida?

Sabe quando você tem tempo para, simplesmente, dormir? Quando você tem um projeto para os próximos quatro anos, mas que podem mudar… mudar… mudar…? Quando você descobre que não precisa ter a religião da sua família, a subserviência de seus colegas, a falsidade dos puxa-sacos, a hipocrisia das mocinhas que fazem de conta ?

Sabe quando você sabe o que quer e , o mais importante, o que não quer para si? Sabe quando você descobre – Freud explica- que metade dos seus quereres que a angustiaram a vida inteira não eram seus? Mas de seus pais? Sabe quando você percebe que você pode ser amada simplesmente pela pessoa que é? Que não precisa ser boazinha, cordata ou submissa o tempo todo? Sabe quando você aprende que pode dizer não? Eu não gosto? Eu não quero? Isso eu não admito?

Sabe quando, finalmente, você se sabe?

Eu sei. 

Xeque-mate, o filme

Excelente filme! A narrativa consegue ter coesão do início ao fim. Considerando-se o que andamos vendo no cinema recentemente, há que se aplaudir a seqüência realmente lógica das idéias. A sucessão de cenas aleatórias a que assistimos no início, aos poucos, vão fazendo sentido e são recuperadas ao longo da história, encaixando-se coerentemente na trama dos fatos. A ‘trapaça Kansas City’ é o elemento condutor da história.

O enredo é aparentemente simples: um garoto é confundido com outro rapaz: estava na hora errada, no lugar errado e caiu nas mãos de poderosos chefões do crime e do jogo de New York. Sem opção, enfrenta um e outro, sabe de ambos o que deve fazer e parte para cumprir sua missão.

Interessantíssimo o poder que a arte tem de projetar nossos sentimentos e nos conduzir a sensações várias. Adversamente à moral social comum, como justiceiros que aguardam ansiosos o acerto de contas, a platéia termina por sentir o bem doce sabor de vingança pelas mãos de Slevin Kelevra (Josh Hartnett). Nada de esperar pela polícia ou pelo juízo final : justiça feita, filme com ares de ‘é melhor agir por conta própria’, porque o Estado ou a Providência deixam, infelizmente, muitos bandidos impunes.

A ação garante atenção do início ao fim, mas as almas mais sensíveis não devem arriscar seu estômago: as cenas de morte  exploram desde cabeças estilhaçadas por explosivos tiros de armas potentes, passando por asfixia e chegando até mocinhas assassinadas à queima-roupa. O personagem de Willis desde o princípio deixa muito claro que a Trapaça Kansas City será uma ótica que reverterá a nossa visão: quando pensamos que o inimigo está de um lado, ele, na verdade, estará do outro.

Bruce Willis, além de charmosíssimo na pele do GoodKat, esbanja maturidade e charme na interpretação do assassino por encomenda que é encarregado de matar o filho do Rabino, (Ben Kingsley) arquiinimigo adversário do Chefe (Morgan Freeman – também espetacular na frieza do papel do gângster).

Nas entrelinhas da história, ainda um final moralizante. Os temidos rivais do submundo do crime novaiorquino terminam por destruir-se a si mesmos em vida: encarcerados em prédios de segurança máxima, passam a vida a odiar-se e vigiar-se mutuamente. Do cárcere privado em vida, chegam à auto-destruição: à armadilha que os conduz à presa fácil dos assassinos que eles próprios contrataram.

Envolvente, emocionante, boa diversão nas telonas. Vale o bilhete e a pipoca.