Hipoglós tem cheiro de mãe

A minha um dia sorriu,

levantou-me as pernas com dobrinhas,

limpou-me as sujeiras

e conversou comigo enquanto punha as fraldas brancas

arrematadas por alfinetes de bichinhos.

Lembro um rosa que minhas bonecas herdaram e que me promoveu à condição de mãe de brinquedo pelos doces e saudosos longos anos de infância.

A pomada existe ainda e, se normalmente seu cheiro de óleo de fígado de bacalhau me repele a maioria das horas, hoje me transportou a um tempo quando havia abraço, segurança e ninar de sonhos.

Ela cantava o “faz três noites que eu não durmo, ô, Lalá , pois perdi o meu galinho, ô, Lalá…” Eu sei que eu era bebê e sorria, prestando muita atenção àquele olhar umbilical que até hoje vejo no espelho, nas lembranças, nas fotografias, nos guardados da memória.

Ela usava trança e trançava o cabelo com um lenço de seda colorido. Cheirava gostoso, não a perfume francês ou a qualquer um dos baratos. Tinha o cheiro que só as mães sabem ter. E eu, já moça, deitava em seu colo, inventava que achava que tinha pegado piolhos (aos 24 anos!) só para sentir o eterno deslizar de sua mão em meus cabelos.

Assisti tantas vezes às novelas no sofá estampado, juro, apenas para estar perto dela e ver-lhe o riso, o olhar marejado ou a incontida indignação.

Eu nunca a soube humana, limitada, nem animal. Minha mãe é de uma perenidade que só ‘a dona de tudo’ , a que ‘vale mais para mim que o céu , que a Terra, que o ar’, poderia alcançar. E como faz falta!

Peguei a pomada. Li o modo de usar: ‘limpe cuidadosamente a pele do bebê e aplique uma camada da pomada sobre a área a proteger, massageando suavemente’. Passei um tanto no meu rosto hoje com espinhas. Porque a criança que ainda sou precisava dormir com o cheiro de proteção que só a sua mãe lhe poderia dar.

Renascer

Renascer a cada rasgo, a cada dor, a cada morte consumada.

Renascer para viver hoje , agora e daqui a pouco.

Renascer, apesar do cansaço, da ferida, do trauma, da desesperança.

Renascer mesmo com a desordem. O caos. A lama. O medo. A solidão.

Renascer para não morrer, desistir, abandonar-me.

Renascer, embora cansada de ser eterna fênix de mim mesma.

Que louco imperativo é a vida…