Leituras da cidade: Zaca Oliveira

Na tradicionalíssima sorveteria da Ribeira em Salvador, o artista Zaca Oliveira expõe seus quadros. As paredes simples do espaço ostentam a arte moderna da cidade da Bahia. Numa galeria assim inusitada, entre as bolas tentadoras de sorvete de diversos sabores, podemos nos deparar com diversas pinturas expostas, as quais, em cores fortes e vibrantes, são como um grito de alerta diante da realidade em que vivemos.

A realidade urbana contemporânea é a temática desta série de pinturas. No primeiro quadro, um menino malabarista é fechado na rua por carros que, certamente, se não o atropelam de verdade, são a metáfora do quanto nós, de classes privilegiadas, passamos por cima da realidade dos que agonizam por um sustento mínimo.

Observa-se a tendência de retratar as pessoas como extraterrestres, talvez numa clara alusão aos estranhos que são à nossa terra ou ao nosso mundo os excluídos e marginalizados por uma sociedade injusta. O fio de sangue que escorre do rodo diz muito…

O tema da velhice solitária no quadro acima, acompanhada pela televisão e uma janela da qual se descortina o mundo hostil , é para nós um pungente sofrimento, expresso nos traços doloridos do rosto da senhora.

A mulher de roupas curtas que evidenciam o sexo talvez seja uma das tantas moças que precisam da prostituição para sobreviver. No bar que se mostra em tons frios, há um crucifixo a alentar as ‘almas’ que, lá dentro, penam em sua vida de desesperanças. Cá fora, excluída, a moça olha desconfiada para nós. Na parede externa do bar, os panfletos que prometem a salvação, o fim do sofrimento e que vendem produtos. Onde estará a esperança, afinal?

A cidade parece ser a sombra ou as cinzas de igrejas que se projetam pelos esmaecidos contornos que podemos ver.  A tristeza e o desalento do palhaço vendedor de brinquedos a crianças anônimas comportam as cores que se destacam na pintura. É interessante perceber que as crianças, as quais carregam mochilas nas costas, têm nas mãos o conhecido recipiente para as brasas dos vendedores de queijo. A única criança com rosto é o retrato da desesperança e da tristeza de um mundo onde nem os palhaços nos transmitem alegrias.

As moças vendedoras de porta de bar também são o rosto de ‘cegas inexatas’. A frieza do ambiente reflete a sua hostilidade e a fumaça do braseiro de queijos parece levar embora a alma feminina vilipendiada por condições subumanas de sobrevivência. Não, não é um mundo cor-de-rosa que Zaca expõe em seus quadros.

Na fila para o parque de diversões, adultos sem rosto se opõem às crianças vendedoras que precisam deles para sobreviver. A harmonia da cena se dá pela antítese exata: a fila que cansa não combina com o parque que prometeria nas cidades divertir. As crianças ao invés de estarem nos brinquedos, sentam-se desanimadas e cansadas nas calçadas a esperar o dinheiro que talvez as possa levar um dia ao parque, mas certamente, lhes assegurará , se vier, o prato de comida. Não, não é este o mundo no qual gostaríamos de estar.

O quadro da noiva representa de modo muito significativo para mim a  hipocrisia do casamento. Uma mulher com o rosto encoberto por um véu (ou personalidade) conduz um homem ao altar. Na mão da aliança, seus dedos não aparecem. Será que ela é incapaz de fazer a verdadeira aliança que o casamento promete?

Uma cobra negra como fumaça de forma nefasta envolve a noiva, talvez a alertar sobre a perfídia de mulheres que fazem os noivos perderem a cabeça ao enlaçar-se em compromisso tão hipócrita para tantos modelos cujos ecos se vêem facilmente nas uniões ‘sacramentadas’. A mulher, vestida de roxo, paira no ar, como um fantasma que assombra o homem e o faz sofrer. A mão do noivo, por sua vez, segura o imponderável de uma realidade que se esvai. Um cão a cheirar as flores… uma alma exaurida no topo da cena… Símbolos e símbolos e símbolos…

Este foi, particularmente, o meu preferido. E você? O que tem a dizer?

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Os quadros estão à venda por cerca de R$300,00 .

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Alena Cairo

 29 de novembro de 2006 (fotos tiradas na sorveteria da Ribeira em 27/11 , onde estão expostos os quadros)

Borges

“Cada um de nós se define para sempre, num único instante de sua vida – instante esse em que cada qual se encontra para sempre consigo mesmo”. Jorge Luís Borges

Fico a pensar… será? Somos os múltiplos de nós? As poliprojeções que se abrem em leques infinitos de nossos anseios? Ou tendendo ao reducionismo, somos sim, uma essência mais profunda que se forma num átimo de tempo, exatamente aquele tempo em que nos encontramos conosco e nos descobrimos nós?

Recortes meus da leitura do dia: Jorge Luís Borges

“Uma forma de felicidade é a leitura”.

“Um livro não deve exigir esforço; a felicidade não deve exigir esforço.”

“Sim. A poesia é cabalística, entre tantas outras coisas. (…) A poesia é algo tão íntimo que não pode ser definida.”

“(…) penso que é melhor sentir-se herdeiro que se sentir dono de algo que se transmite. Não sei se tenho alguma coisa. Mas sei que recebi muito. Talvez eu possa dar o que não tenho: possa dar a sabedoria, a prudência que não tenho, a imaginação que não tenho. De qualquer modo, creio que os escritores somos amanuenses de algo secreto, que se pode chamar, segundo a tradição homérica, de musa; segundo a tradição hebréia, ruach, o  espírito; ou segundo a feia mitologia moderna, inconsciente ou subconsciente; ou, segundo a bela expressão do grande poeta irlandês William Butler Yeats, a Grande Memória.”

 “O importante é a poesia, essa coisa misteriosa que não podemos definir, mas que sentimos e que pode surgir a qualquer momento.  (…)  Tudo é igualmente poético. Tudo é igualmente assombroso e inexplicável.”