Compras fantasmas

Trabalhamos tanto que fazemos quase todas as outras coisas automaticamente, sem prestar atenção… ‘Tempo é dinheiro’. Ir ao supermercado, por exemplo, é um exercício de autoflagelo. Vamos com uma lista minimalista em mãos ou um resumo absoluto de nossas necessidades percorrer os corredores infindáveis onde se põem à mostra centenas de itens que nos tornariam, conforme a propaganda reza, seres humanos melhores, mais bonitos, saudáveis, sorridentes… felizes, enfim!

Nossos olhos traem nossos planos iniciais e atiçam o desejo de acrescentar ao carrinho este e aquele mimo que nos fará tão bem… Claro que o resto do supermercado inteiro é um exercício de questionamento filosófico que nos coloca em xeque: o que ficará na cesta dos enjeitados ao lado do caixa para que caiba no orçamento o que colocamos no carrinho? Dúvida cruel e pensamos em consumir menos papel higiênico, escovar os dentes com menos pasta e lavar o cabelo menos vezes a fim de poder comer queijo ou tomar iogurte.

O fato é que não estava eu fazendo as famosas e temíveis – para o orçamento – compras do mês. Só entraram, no carrinho, os itens de necessidade maior e que já faziam falta: frutas, legumes, verduras. Comida mesmo. Parece que planejavam secretamente me ver dura. Apenas uns dois itens de limpeza e, de supérfluo, só a coca-cola básica. Dirigi-me ao caixa suspirante, pensando na comida nossa dos próximos dias, na carne e no peixe que também levava.

Qual não foi a minha surpresa, após metodologicamente expostas na esteira rolante as compras, descobrir que só as folhagens e frutinhas e verdurinhas arrancavam de mim já 110 reais. Pára, pára, pára tudo. Um terço do salário mínimo e eu nem havia passado carne e peixe! Como os tempos são de recessão absoluta e a conta teria em minutos as últimas moedinhas raspadas pelo visa eletron, pedi à moça que esperasse eu conferir quanto de dinheiro trazia na carteira. Respirei aliviada porque ainda havia uns micos e duas onças, que me livrariam do mico maior de ter que devolver as compras e cancelar a nota sob os protestos dos que atrás de mim esperavam impacientes a sua vez. ‘Time is money‘.   

Cento e setenta reais a menos na carteira, lá ia eu para casa, curtir o exílio de final de mês raspando a despensa e futucando os armários em busca dos heróis da resistência que ainda houvesse do último dia cinco.   Sabe-se lá por que motivo, do meu tempo tão importante lancei mão, e parei, abri a bolsa e passei o olho na nota fiscal que levaria para casa.

Li estupefacta as compras fantasmas: 2,5 kg de maracujá, 2,34 kg de chester, 1,75 kg de salmão, couve-flor, couve-flor, couve-flor e couve-flor. Como eu não comprara maracujá, nem chester e sabia que duas postas de salmão não poderiam jamais pesar quase dois quilos, percebi que havia algo de muito errado. O milagre da multiplicação das couves talvez tenha decorrido também, sabe-se lá por que cargas, do deus do copo d’água que deveria nos socorrer face ao susto do gastronômico gasto astronômico.

Três gerentes e mais dois assistentes depois, informaram-me que meu dinheiro não poderia ser totalmente devolvido porque a pequenina parte que saiu on line da conta só retornaria para ela 48h úteis depois. (rá…piada… débito on line; crédito off line). Conferidas e reconferidas as compras, saco para lá e para cá, do carrinho para a esteira, passa e repassa, da esteira para o carrinho, todos os funcionários a me olharem com aquela cara de “o que foi que ela roubou?”… o saldo da história foi: eu traria para casa 58 reais em compras fantasmas.

Estou light, mas não tanto! Pensei na hora: dava para levar para casa 77 latinhas de guaraná.

Aborrecida, depois de me sentir lesada, com duas horas vespertinas do meu sábado de sol pós-praia enfiadas no ar do moderníssimo e recém inaugurado supermercado, desisti de todas as compras, peguei o dinheiro, ficarei a esperar que quarta-feira o resto volte à minha conta e passei o fim de semana sem ver pimentões, batatas, couves e brócolis…

De olho! Porque se tempo é dinheiro, a pressa e a desatenção nos têm levado a perdê-lo.