Teleanálise

A jornalista e professora Malu Fontes publicou este texto no domingo de carnaval. Vale conferir!

A Tarde, domingo, 18 de fevereiro de 2007

TELEANÁLISE

AS MARCAS DA DIFERENÇA

MALU FONTES

“Camarote 2222/Aqui é o novo endereço/torça para ser convidado/até olhar de fora vale a pena”. Adornadas por desenhos alusivos a motivos carnavalescos e estampando a reluzente marca de refrigerantes que figura como uma das principais patrocinadoras do camarote, as frases acima parecem convidar a duas leituras igualmente irresistíveis levando em conta os contextos sociais e políticos. A primeira delas é que essas frases curtinhas, publicitárias, despretensiosas, são, na verdade uma negação arrivista daquilo que diz a logomarca do Governo Federal, governo, inclusive, que tem como ministro da Cultura o principal anfitrião do Camarote 2222, Gilberto Gil. Para quem não lembra, a logomarca do governo estampa: Brasil/Um país de todos/Governo Federal).

Pode-se dizer que inferência apontando para a negação do slogan do governo pelas frases do camarote é um ponto de vista subjetivo, uma questão de leitura pessoal, etc. e tal. Mas a segunda leitura tem como perspectiva o bom senso. Em um país em que só os alienados não enxergam que vivemos sob a ameaça da convulsão social e da intolerância entre as classes sociais do alto e da base da pirâmide, soa no mínimo inadequado um espaço festivo montado em torno de um ministro de estado promover a distinção social, a diferença, a característica de “para poucos” que se quer imprimir ao tal camarote e que de fato o caracteriza.

EMPADAS – As frases curtinhas não querem dizer outra coisa senão reforçar o quanto aquele espaço é para privilegiados que tenham a sorte (que passa pela condição sócio-econônica, estética ou pelo viés da fama) de serem escolhidos. Assinala, embora com alguma sutileza, que a ralé sem chance de torcer para ser convidada deve se dar por muito feliz em poder, do chão da rua, olhar para cima e admirar o olimpo e os olimpianos. Quem sabe até dá para ganhar uma latinha de cerveja quente ou um restinho de empadas jogadas generosamente lá de cima, como bem diz Carlinhos Brown em entrevista ilustrativa sobre o Carnaval de Salvador em A Tarde do último domingo.

Os camarotes se tornaram onipresentes no Carnaval de Salvador e representam hoje o próprio Brown chamou o ano passado de apartheid da festa, juntamente com as cordas que separam o povo e os blocos dos grandes artistas da festa. A camarotização tem como principais referências justamente os camarotes Expresso 2222, organizado pela mulher do ministro, Flora Gil, e o de Daniela Mercury, organizado pela promoter mais incensada da Bahia, Lícia Fábio. O primeiro está ancorado em R$ 2,5 milhões em cotas de patrocínio levantadas entre marcas líderes do mercado e o segundo em R$ 2 milhões.

TAPA – As marcas que bancam esses custos querem visibilidade em imagens na TV durante a festa, fotos, notas e matérias na imprensa local, nacional e na Internet. Por isso a lógica é só convidar gente interessante (geralmente gente famosa, influente, descolada ou rica). À revista Piauí, Flora Gil definiu o perfil de seus convidados: “convido puta, viado, artista, baiana de candomblé, tudo”. Deus sabe o que cabe nesse tudo, mas a mesma revista dá uma opção de resposta sobre quem é bem vindo nos camarotes vips:”é para cliente, gostosa e famosa”, diz o dono da AmBev, Paulo Lemann, patrocinador de 9 entre cada 10 camarotes desses cujas camisas são disputadas a tapa nos bastidores do high society baiano.

O fato é que em uma cidade em que os desinteressantes, segundo a semântica da gramática dos camarotes, são cada vez mais empurrados para os becos com cheiro de xixi ou se contentam em ficar olhando para cima para ver os privilegiados, são ilustrativas as frases de efeito da fachada do camarote onde o ministro receberá seus convidados. Nesse contexto, merece aplausos a iniciativa do mesmo Carlinhos Brown que fala em apartheid na festa. Depois do Camarote Andante, este ano uma das marcas da festa é o seu Bloco Pipocão.

Em um Carnaval que caminha a passos largos acentuando as desigualdades entre as pessoas que dele participam, qualquer iniciativa que contemple os sem abadá e sem camarote soam como formas de oxigenar o modelo da festa e servem para distinguir a condição de artista da condição de mero cantor de bloco ou de trio. Mas já que é Carnaval, vamos fingir que tudo é festa e criatividade, inclusive músicas que transformam até Deus numa persona poética abilolada. Com o caos do mundo transbordando, quem foi que disse que Deus pode parar para namorar, na beira do mar, ao mesmo tempo em que desenha gente perfeitinha, num sinal que nem mesmo sua suposta namorada merece sua atenção? Socorra-nos, Deus!

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. 

Carnaval em Salvador

Não dá para deixar de falar do Carnaval de Salvador. Até tentei, não queria o assunto, mas aí está.

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A festa 

Imaginar o carnaval de Salvador é completamente impossível para quem não conhece a realidade do carnaval baiano. Só quem já passou um ano aqui pode ter a dimensão do que é a festa.

Nos corredores da cidade, três, quatro pistas ficam pequenas para o trio, a corda e a multidão dentro e fora do bloco.  As avenidas foram todas loteadas e os camarotes de vários andares dominam os circuitos da Barra a Ondina e do Campo Grande. O apartheid é óbvio: as castas mais ricas têm local privilegiado em camarotes vip’s disputadíssimos nos quais tudo é free. Em cima do trio, os artistas conduzem o circo enquanto aqueles que não têm pão se espremem do lado de fora das cordas ou segurando-as para dar segurança aos que ainda têm condições de pagar um bloco (de 500 a 2500 reais por três dias – há os mais baratos e um ou outro que até extrapola).

A pipoca 

A graça do folião comum, aquele que vai à pipoca curtir (fora das cordas, livre, nas ruas, no meio do povo) quase acabou. Aficcionado pelo Chiclete, por Ivete ou pelo Asa que “arrêa”, arrisca a diversão popular, a ‘pseudo maior festa grátis do planeta’. Dizer que se acotovelam é mentira das maiores: é praticamente impossível subir ou mexer os braços na multidão. O vai para lá e para cá na maior parte do tempo envolve um empurra-empurra  do qual ninguém escapa. Suores, banhos de cerveja, agarra-agarra e respingos da imensa quantidade de urina que alaga o “chão da praça” são inevitáveis. Pense em jogar seu tênis fora depois do primeiro dia (eu sempre adquiro um baratinho só para abandoná-lo tão logo acabe o carnaval).

Os camarotes

Nos camarotes, ar-condicionado, borrifos de água pulverizada para diminuir o calor e aumentar a umidade do ar, música para os intervalos entre os blocos, piso até com grama sintética, rede conectada ao mundo todo, bares e restaurantes, infra-estrutura de fazer inveja.  Parece mais uma praça de alimentação de um grande shopping dos melhores centros urbanos.

O homem é um animal

O problema ocorre na hora em que as necessidades fisiológicas nos lembram a condição humana animal. Nos megacamarotes repletos de loiras escovadas de salto alto (acreditem!), mesmo naqueles que se erguem na frente dos hotéis da orla, a fila do banheiro feminino chegava a ter 40 mulheres à espera do reservado (geralmente sujo, respingado e alagado). Nas ruas, caminhe cerca de 20 a 30 minutos sem pôr os pés no chão algumas vezes, levada pela massa que se desloca, encontre na rua detrás do circuito (por exemplo, a Sabino Silva) cerca de 20 sanitários químicos, insuficientes, óbvio, e fique numa fila absurda à espera de manter um pouco a sua dignidade social.  Muitos não agüentam e, infelizmente, você vai se deparar com homens com o pênis de fora por todo o caminho a ‘mijar’ nas ruas e mulheres agachadas ao lado de qualquer carro ou atrás de qualquer poste. Há também homens e mulheres defecando nas vias transversais ao circuito oficial. 

Fazer uma festa para mais de 2.000.000 de pessoas  é quase um suicídio municipal. Havia sanitários em vários lugares ao longo do percurso, sim, mas imagine a quantidade que serviria para atender a este número de pessoas.  E eu não estou falando em conforto porque se alguém conhece um sanitário químico na Bahia, conforto é tudo em que não se pode pensar jamais. A cena da Sabino Silva me fez lembrar Ensaio sobre a cegueira de Saramago.

Providências urgem

Ou a organização do carnaval da Bahia entende que o espaço deve ser algo como a av. Paralela, mesmo que percamos o glamour da avenida Sete e da Praça Castro Alves ou do Farol da Barra, ou a festa terá que acabar. Há seis anos era tudo muito diferente, há dois anos ainda era possível brincar melhor. Rua hoje é difícil, honestamente.

Fazer muitos circuitos alternativos é um caminho também, mas é preciso deslocar o Chiclete com Banana para estes lugares porque o povo não abre mão de vê-lo. O percurso  Barra-Ondina surgiu como uma alternativa para descongestionar a avenida, mas estão ambos absurdamente superlotados.

A violência

Quando vejo os números da violência, respiro aliviada. As mortes são poucas se considerarmos a multidão.  A quantidade de pessoas aglomeradas poderia gerar uma catástrofe que a festa da alegria não permite, graças.

Assaltado, entretanto,  é certo que você será. Mesmo que não leve nada. Na multidão, enfiam a mão em seu bolso, afanam sua corrente e partem suas pulseiras. Ainda que não leve nada de valor e nas orelhas carregue uma bijuteria barata, seus bolsos serão revistados e é por isso que nós, baianos, distribuímos o dinheiro pelas meias, lateral da calcinha e  bolsos diferentes. Na minha bermuda, eu carregava no bolso traseiro a carteira do plano de saúde no primeiro dia: voltei sem ela para casa. Deve ter passado uns dias no chão da avenida à espera dos lixeiros desde o instante em que o bandido folião percebeu que não era de valor já que pessoal e intransferível.

A música

Sim, apesar de tudo, é contagiante o ritmo, é fantástico o povo junto pulando, é maravilhosa a sensação de alegria, brincadeira e curtição da vida. A vontade que dá é a de que o carnaval não acabe nunca. Por isso mesmo, precisa mudar a atual estrutura.

Há quase um ano

O blog faz aniversário dia 23. Um aninho.

Há um ano atrás, eu estava aqui escrevendo sobre o carnaval e abrindo o A vida em palavras.

Na quarta de cinzas passada, eu só pensava no dia de Fênix, na reconstrução, na mudança, no ressurgimento de mim mesma… As vassouras entraram em ação mesmo em 2006. Planejar vale a pena, sim. Aconteceu , ufa!

Hoje, um ano após, me vejo aqui com novos planos e metas. Ainda bem.

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Mesa de bar fez um post com links maravilhosos! Para quem está iniciando a blogosfera vale ver, clicar e descobrir; para quem já é assíduo, vale conferir!

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Este menino Zeca  escreve bem!