Carnaval em Salvador

Não dá para deixar de falar do Carnaval de Salvador. Até tentei, não queria o assunto, mas aí está.

* * *

A festa 

Imaginar o carnaval de Salvador é completamente impossível para quem não conhece a realidade do carnaval baiano. Só quem já passou um ano aqui pode ter a dimensão do que é a festa.

Nos corredores da cidade, três, quatro pistas ficam pequenas para o trio, a corda e a multidão dentro e fora do bloco.  As avenidas foram todas loteadas e os camarotes de vários andares dominam os circuitos da Barra a Ondina e do Campo Grande. O apartheid é óbvio: as castas mais ricas têm local privilegiado em camarotes vip’s disputadíssimos nos quais tudo é free. Em cima do trio, os artistas conduzem o circo enquanto aqueles que não têm pão se espremem do lado de fora das cordas ou segurando-as para dar segurança aos que ainda têm condições de pagar um bloco (de 500 a 2500 reais por três dias – há os mais baratos e um ou outro que até extrapola).

A pipoca 

A graça do folião comum, aquele que vai à pipoca curtir (fora das cordas, livre, nas ruas, no meio do povo) quase acabou. Aficcionado pelo Chiclete, por Ivete ou pelo Asa que “arrêa”, arrisca a diversão popular, a ‘pseudo maior festa grátis do planeta’. Dizer que se acotovelam é mentira das maiores: é praticamente impossível subir ou mexer os braços na multidão. O vai para lá e para cá na maior parte do tempo envolve um empurra-empurra  do qual ninguém escapa. Suores, banhos de cerveja, agarra-agarra e respingos da imensa quantidade de urina que alaga o “chão da praça” são inevitáveis. Pense em jogar seu tênis fora depois do primeiro dia (eu sempre adquiro um baratinho só para abandoná-lo tão logo acabe o carnaval).

Os camarotes

Nos camarotes, ar-condicionado, borrifos de água pulverizada para diminuir o calor e aumentar a umidade do ar, música para os intervalos entre os blocos, piso até com grama sintética, rede conectada ao mundo todo, bares e restaurantes, infra-estrutura de fazer inveja.  Parece mais uma praça de alimentação de um grande shopping dos melhores centros urbanos.

O homem é um animal

O problema ocorre na hora em que as necessidades fisiológicas nos lembram a condição humana animal. Nos megacamarotes repletos de loiras escovadas de salto alto (acreditem!), mesmo naqueles que se erguem na frente dos hotéis da orla, a fila do banheiro feminino chegava a ter 40 mulheres à espera do reservado (geralmente sujo, respingado e alagado). Nas ruas, caminhe cerca de 20 a 30 minutos sem pôr os pés no chão algumas vezes, levada pela massa que se desloca, encontre na rua detrás do circuito (por exemplo, a Sabino Silva) cerca de 20 sanitários químicos, insuficientes, óbvio, e fique numa fila absurda à espera de manter um pouco a sua dignidade social.  Muitos não agüentam e, infelizmente, você vai se deparar com homens com o pênis de fora por todo o caminho a ‘mijar’ nas ruas e mulheres agachadas ao lado de qualquer carro ou atrás de qualquer poste. Há também homens e mulheres defecando nas vias transversais ao circuito oficial. 

Fazer uma festa para mais de 2.000.000 de pessoas  é quase um suicídio municipal. Havia sanitários em vários lugares ao longo do percurso, sim, mas imagine a quantidade que serviria para atender a este número de pessoas.  E eu não estou falando em conforto porque se alguém conhece um sanitário químico na Bahia, conforto é tudo em que não se pode pensar jamais. A cena da Sabino Silva me fez lembrar Ensaio sobre a cegueira de Saramago.

Providências urgem

Ou a organização do carnaval da Bahia entende que o espaço deve ser algo como a av. Paralela, mesmo que percamos o glamour da avenida Sete e da Praça Castro Alves ou do Farol da Barra, ou a festa terá que acabar. Há seis anos era tudo muito diferente, há dois anos ainda era possível brincar melhor. Rua hoje é difícil, honestamente.

Fazer muitos circuitos alternativos é um caminho também, mas é preciso deslocar o Chiclete com Banana para estes lugares porque o povo não abre mão de vê-lo. O percurso  Barra-Ondina surgiu como uma alternativa para descongestionar a avenida, mas estão ambos absurdamente superlotados.

A violência

Quando vejo os números da violência, respiro aliviada. As mortes são poucas se considerarmos a multidão.  A quantidade de pessoas aglomeradas poderia gerar uma catástrofe que a festa da alegria não permite, graças.

Assaltado, entretanto,  é certo que você será. Mesmo que não leve nada. Na multidão, enfiam a mão em seu bolso, afanam sua corrente e partem suas pulseiras. Ainda que não leve nada de valor e nas orelhas carregue uma bijuteria barata, seus bolsos serão revistados e é por isso que nós, baianos, distribuímos o dinheiro pelas meias, lateral da calcinha e  bolsos diferentes. Na minha bermuda, eu carregava no bolso traseiro a carteira do plano de saúde no primeiro dia: voltei sem ela para casa. Deve ter passado uns dias no chão da avenida à espera dos lixeiros desde o instante em que o bandido folião percebeu que não era de valor já que pessoal e intransferível.

A música

Sim, apesar de tudo, é contagiante o ritmo, é fantástico o povo junto pulando, é maravilhosa a sensação de alegria, brincadeira e curtição da vida. A vontade que dá é a de que o carnaval não acabe nunca. Por isso mesmo, precisa mudar a atual estrutura.

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15 comentários sobre “Carnaval em Salvador

  1. É hoje o aniversário dA Vida em Palavras. Parabéns, parabéns, parabéns!!!

    Ai, eu não aguento multidão. Acho o fim me sentir espremida, amassada e principalmente apalpada por estranhos, hahahaha. Adoro dançar, mas tem que ter um espaço mínimo, um raio de meio metro pelo menos pra ser divertido.
    Mas não deixa de ser muito interessante ver tudo isso pela televisão.

    Muitos beijos da amiga,
    Meg

  2. Nossa acho que preciso me preparar psicologicamente para passar o carnaval na bahia, sempre tive essa vontade, mas não suporto esse multidão, e o lance do banheiro….ai….que pena, por que na TV a festa parece maravilhosa.

    Beijos

  3. eu até tentei nao ficar em casa… pensei em dá uma saidinha… mas quando vinha na minha cabeça aquela imagem de um monte enorme de gente pulando, empurrando… aquela massa se deslocando para o meu lado… desisti!!!
    nunca fui num banheiros desses… fiquei com medo ¬¬ e me senti muito sortuda, imagina uma dor de barriga no meio daquela fila???

    realmente o carnaval de salvador precisa de muitos reparos…

    beijos alena!!

  4. Alena, muito bom seu texto-reportagem. Engraçado (triste?) é que outro dia mesmo eu estava lendo no blog do Allan Sieber um post sobre a falsa idéia de que na praia os cariocas se misturam… Ele citava uma matéria do Larry Rohter (o jornalista do NY Times que falou que o Lula gostava de encher a cara) sobre o assunto…

  5. concordo plenamente com sua opniao em transferir o carnaval pra paralela,pois descongestionaria o transito do centro(todos teriam acesso via orla e via iguatemi)e favoreceria o foliao em termos de espaço. APROVADO!!!!!!

  6. eu amoo o carnaval de ssa pra mim é o melhor carnaval de todos pois é um ritmo maravilhoso eu adoroo e curto axé e pagode….
    salvador eu amoooo minha terra predileta…
    amo minha bahia tenho orgulho de ser bahiana

  7. SE NÃO GUENTA, PRA QUE VEIO??
    ta lah eh pra curtir, e nao vai ter empurra-empurra ou pisoes no pe que nao se compensa em ver ivete ou chiclete arrastando multidões de fiéis.
    Precisa melhorar? sim, claro. mas isso não eh só a prefeitura de salvador nao, são todas as pessoas que participam do carnaval fazer a sua parte, asim já melhora demais.
    aqui entre nós, mesmo com todos os problemas, existe pipoca melhor do que a de salvador?
    é um mar de gente pulando atras de um caminhao.
    e como dia o poeta: ATRAS DO TRIO ELETRICO SÓ NÃO VAI QUEM JÁ MORREU.

  8. amei a postagem…e todos os comentários…está claro a diversidade e a tolerância social do povo brasileiro…”cada um no seu quadrado”
    desta forma entendo que o sábio Criador plasmou a criatura (nós) com os mais variados tipos psicológicos…
    individuos que apesar de estarem na massa se diferenciam por seus diversos gostos…uns querem sua casa, outros querem a folia…amo os dois…cada um na sua medida…
    mas quem vai pra SSA, mesmo sem saber o que espera toma um banho é de despreconceitualização…lá o teu sovaco também vai feder…e você percebe que sendo rico ou sendo menos favorecido…você se liberta ao ter que se molhar com a própria urina, lavando o teu tênis da Puma ou aquela Conguinha de promoção…um banho de liberdade…de igualdade apesar de ter uma corda…não somos melhores nem piores…somos gente…que trabalha um dou dois anos inteiros pra juntar dinheiro pra realizar um sonho…

    Pra aguentar SSA, com um dente arrancado por uma bala Mentos, sem voz, nariz entupido, ressaca, um tornozelo estourado por ter caido no trio,e ser ajudado por um cordeiro que ainda te pergunta…filha vc tá bem…não tem preço…chorei chorei por observar a beleza que há no interno do ser humano…

    “Acredito que o homem somente irá se unir quando for para lutar pela preservação da própria especie…”

    enquanto isso…tira o pé do chããããoooo!
    e vamo pra Bahiaaa em 2010!

  9. Bom, não identifiquei a origem da autora do post, mas gostaria de fazer alguns comentários a cerca da festa criticada, apesar de não gostar e nunca querer chegar próximo dela[festa]. 😀

    A primeira série de comentários refere-se ao trecho: “O apartheid é óbvio”.

    Ninguém vai para o sambodromo do Rio ou de Sampa gratuitamente. Para entrar, tem de pagar. Ok, assim como em Recipe, o Rio tem uma parte da festa que é gratuita. Mas, não é toda a festa. Se quer ver as alegorias sem ser pela TV, tem desembolsar.

    Quem financia as escolas de samba e o sambodromo ? Aqui em Salvador, tirando a publicidade, que é paga, é a festa que tem de se pagar. Nada mais justo do que cobrar pelo show. Se você paga R$ 40 a + de R$2500 por um show [U2 para não citar outros], quer o melhor lugar, etc e está disposto a pagar de R$120 a R$500 por 6 à 7 horas de show em 1/2 a uma multidão, está disposto a ser pisoteado, empurrado, etc. É problema de quem paga. Vivemos em um mundo capitalista e com divisão de classes. Cada um paga pelo que quer e pode.

    Já sobre a estrutura da festa: Em uma festa com 100 pessoas, já é previsível a ocorrência de transtornos. Imagina os 2 milhões citados, distribuídos e movimentando-se em KMs de festa. Quem vai a um lugar destes, está disposto a enfrentar tudo. Se vai pensando que vai encontrar sombra e água fresca, é muito ingênuo(a).

    Concordo que devemos exigir melhor estrutura para amenizar os problemas. Já que a cidade pára, um novo trecho como a Av. Paralela seria interessante. Mas o local em si não é muito apropriado, ainda mais quando o povo já é capaz de praticar sexo nos locais atuais [área de mata atlântica protegida]. A violência aumentaria, se não for bem vigiado.

    Como já era de se esperar, vai quem gosta, e gosto não se discute! Se é isso que quer, assuma as consequências.

    No geral, a festa funciona e bem. Se não fosse assim, ninguém voltaria.

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