Dia Internacional da Mulher

Hoje é um dia diferente. Às vezes, penso-o triste. Seria melhor que não precisasse havê-lo. Depois da estupidez de um mundo patriarcal consolidada por dois milênios, a luta feminina se tornou necessária devido à opressão que as mulheres sofreram (e sofrem). É controverso, mas necessário que haja o 8 de março.

Da perseguição na Idade Média, quando eram acusadas de bruxas, ao casamento imposto pelos pais, chegando ao tempo em que, nas fábricas de um mundo recém industrializado foram exploradas e dobraram turnos até os triplicarem como mão-de-obra barata e dita “desqualificada”, ao mundo atual, quando ainda sofremos os efeitos de uma sociedade machista e cega que estupidamente insiste na guerra entre os sexos… nós, mulheres, precisamos mesmo é de que nos restituam a nossa condição de mulher. Ou que a conquistemos. De volta.

Li muitas homenagens, vários apelos publicitários, alguns piegas, outros comoventes, mensagens sem sal e outras com sal. Ou açúcar. Mas confesso que acordei incomodada. Incomodada pelo dia. Incomodada pela importância que temos nós todos, seres humanos, e pela necessidade que temos de saber e ouvir isso sempre, não só num dia específico. E por sermos tão sensíveis, nós, mulheres, tão emotivas a ponto de manifestarmos o desejo de ouvir palavras doces. Que deveriam ser espontâneas amiúde.

Liguei para minha avó agora à tarde. Ela nasceu em 1924. Conversei com ela pelo dia, prestei-lhe a homenagem devida, reconheci o seu valor de ‘guerreira’, lamentei que tivesse que ser. Ela foi pioneira num Brasil patriacal e machista. Casou-se com um charmoso descendente de árabes, sonhando o príncipe encantado. Descobriu um tirano que jogava, bebia  e impunha seu comportamento e suas vontades. Fazendeiro e abastado, moço da cidade da Bahia, o meu avô não foi lá um bom companheiro.

De moça educada no Instituto Feminino da Bahia, leitora de livros franceses e do melhor da literatura brasileira, inclusive a de vanguarda modernista, conhecedora das artes e da música erudita, de origem nobre e fina, viu-se sujeita às condições medievas do pensamento  masculino dominador. A gota d’água ocorreu em 1949, quando,  depois de voltar de uma jogatina regada a uísque na cidade de Paulo Afonso onde se perdia a fortuna e a racionalidade, ele , na fazenda, queimou no quintal os livros dela porque não queria mulher intelectual. Ela, de nariz em pé, lhe disse que queimasse os livros porque o conhecimento ela carregaria consigo para sempre, ele jamais lhe poderia tirá-lo (não é  à toa que eu digo isso na sala de aula). Trancou-se no banheiro com os dois filhos pequenos, de quatro e dois anos, e chorou assustada a noite interia.

Em Salvador, um tempo depois, voltando das farras no Cassino Tabaris na praça Castro Alves, meu avô jogara as jóias dela, de herança familiar. Questionadora, ela bebera nos livros os ideais de um novo tempo e, infelizmente, sofreu a agressão dele que lhe queria impor o seu poder. “Chorou de ficar com a cara inchada” no quarto trancada, as crianças também choravam no banheiro. O dia amanheceu e pelo telefone chamou os irmãos e o pai para resgatá-la do casamento condenado ao fracasso. Meu bisavô Alexandre questionou-a, mas acolheu a filha que quisera princesa e não cinderela.

Não era fácil ser desquitada na Bahia dos anos cinqüenta. Perdeu amizades, ouviu gracinhas, sem-gracices e piadinhas, mas se manteve trabalhando em emprego federal, nos Correios e Telégrafos, morando com seus pais.  O doutor Josaphat Marinho lhe fez o desquite. E assegurou ao pai dela que tomara a decisão certa. Anos mais tarde, minha avó engajou-se na campanha pelo divórcio promovida pelo doutor Nelson Carneiro (http://pt.wikipedia.org/wiki/Nelson_Carneiro).

Foi por isso que hoje eu lhe dei dois parabéns. O primeiro, porque ela é mulher. O segundo porque eu me orgulho do que ela fez. Optou pela dignidade num tempo em que isso significava correr o risco de perdê-la socialmente. 

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22 comentários sobre “Dia Internacional da Mulher

  1. MAS SÃO JUSTAMENTE ESSAS MULHERES COMUNS, MÃES, ESPOSAS FILHAS E ATÉ AS AMANTES QUE DÃO SENTIDO A ESSE DIA. SEXO FRÁGIL?????

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    “Dizem que a mulher é o sexo frágil, mas que mentira absurda… Eu que faço parte da rotina de uma delas, sei que a força está com elas…”

  2. Porque é que nos lembramos dos direitos das mulheres apenas um dia por ano? Será que nós homens continuamos hoje com a mesma mentalidade que há 200 anos? Se fossemos honestos com a nossa mulher e passássemos essa educação aos nossos filhos eles aprenderiam a respeitar a sua mãe e irmãs. Por consequência o dia da mulher tornar-se-ia obsoleto.

  3. Parabéns pelo blog (pouco visitado ele, não?).
    Linda homenagem à sua avó. É sempre bom conhecer histórias assim. Se todos conseguirmos nos reconhecer como semelhantes, com o mesmo valor, o mundo estará a um passo de ser único.

  4. Parabéns pra sua avó! Que mulher sensacional!
    Tô vendo a quem vc puxou!

    beijos, Meg

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    Meg, a coragem de romper com a infelicidade eu tenho mesmo. Não nasci para ser infeliz. Nem quero. Mas quem disse que é fácil?

  5. Querida Alena,
    Que avó maravilhosa! Minha avó paterna era assim, tão linda e tão certa de suas ideias que se separou de meu avô ( mulherengo, boemio) em 1969, e criou sozinha os nove filhos, que a amaram muito até sua morte!!! Beijos…Manda um beijo pra sua vó também, e diz obrigada por mim!!!

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    Parabéns para estas mulheres que nos deram a história e a possibilidade de ser diferentes.

  6. Fiquei emocionada com o seu texto em homenagem as mulheres. Sua avó é uma mulher de fibra! Corajosa e decidida.
    abraços…

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    Obrigada, Chica. E olha que a decisão era dificílima e houve preços.

  7. Nossa. Grande avó essa! Vai soar clichê professora, mas além das aulas massa, os textos do blog também estão massa!

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    “Soar clichê ” foi ótimo (risos)! Um beijo
    e obrigada pela rasgação de seda.

  8. Muito digna e bela a trajetoria da sua avo, parabéns pra ela, transmita os meus votos também.
    E é isso, como voce resumiu muito bem o desejo baixinho…que cada mulher encontre um homem que lhe respeite e lhe deixe ser quem é, sem mascaras, mulher, menina e criança, a vontade, sem condenaçao, opressao ou mentiras.
    Bj no coraçao, adoro esse seu blog!
    Martinha

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    Ah, Martinha! Você entendeu o desejo! Ufa ! Era exatamente isso.

    Um beijo especial

    🙂

  9. Pingback: Auto-retrato « A vida em palavras

  10. Estava na internet procurando artigos sobre o “Cassino Tabaris” e acabei lendo essa interessante e comovente história acompanhada de uma grande coincidência. Minha mãe nasceu em 1922 e estudou também no Instituto Feminino da Bahia (assim como eu) quem sabe podem ter sido até colegas – e o meu avô era o dono do cassino Tabaris.

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