Sem fôlego pela verdade nua

O Lord arrasou nesta semana:

“Na matemática de nossos sentimentos o amor não é uma abstração. Como corpo inteiro e exato diminui ao ser compartilhado. O mais interessante é que na criança a emoção é explícita, violenta, sem possibilidade de defesa. Dá pena ver o que faz com os bichinhos. Com o tempo, adultos, nos aperfeiçoamos em ocultar o que anda pelo coração. Pensamos que não sentimos o que sentimos. Guardamos em escaninhos dissimulados a dor congênita e fingimos que estamos bem. “

Biblioteca Pública do Estado da Bahia

A Biblioteca Central dos Barris, localizada em Salvador, está em estado lastimável. Sempre vejo nos centros acadêmicos a discussão acerca da falta de leitura dos jovens. Há que se considerar os porquês.

Uma das causas a se pensar seriamente é o tipo de ambiente que as bibliotecas oportunizam. Honestamente, qualquer praça de alimentação de shopping, mesmo dos mais populares, recebe melhor o jovem que a Biblioteca Pública do Estado da Bahia.

O espaço pensado há mais de três décadas (inaugurado em 1970) está sujo, feio e em decomposição. Não oferece conforto aos estudantes nem se configura como atrativo.

Convidei três turmas de estudantes de Jornalismo a passarem a tarde de hoje na BPEB. Grande decepção logo na entrada, quando fui mal abordada por um funcionário que, ao invés de me orientar sobre a seção de guardados obrigatória para deixar os pertences (leia-se bolsa e tudo mais que não seja uma folha de papel e caneta ou lápis, luva, máscara, lupa, carteira e câmera fotográfica), interpelou-me como se eu fosse a possível ladra a adentrar nos jardins da biblioteca.

Se tem uma coisa que me tira do sério é esta prática brasileira que parte do pressuposto de que somos todos culpados até que se prove o contrário. Irrito-me profundamente. A Constituição e o bom senso regem que somos inocentes, mas em lojas populares, supermercados e espaços públicos costuma-se crer que somos todos nós, brasileiros, uma massa ignorante  e desinformada de seus direitos, feridos à queima-roupa.

Se entro em uma loja e exigem que eu ponha meus pertences dentro de um saco a ser lacrado por despreparados funcionários, por exemplo como faziam aqui nesta urbe o Bompreço e as Lojas Americanas, giro o calcanhar, dou meia volta e saio do recinto.  Não freqüento lugares que não respeitam a minha cidadania.

Na Biblioteca, não posso admitir que o fato de algumas agressões ao acervo, inclusive o furto, sejam argumento suficiente para que generalizem e considerem os seus freqüentadores todos delinqüentes.  Que eu saiba, este espaço é freqüentado por jovens estudantes, professores e pesquisadores. Se o meu Estado não nos respeita, difícil crer em tudo mais.

Outra questão: se temos usuários deste espaço público que furtam e  depreciam obras, a educação anda falida mesmo. A solução não é criar um problema. Bogotá mudou a vida urbana pela criação de bibliotecas. Salvador afasta os jovens delas pela grosseria de parte de seus funcionários e pela estrutura defasada, decadente.

Ironicamente, fico a refletir se até não seria a esta altura neste país um crime justo roubar um livro. Mais educação e preparo para funcionários, mantenedores e usuários, sim! Não ofendam a moral de pessoas honestas indiscriminadamente nem lhes causem constrangimento.

Leiam mais. Talvez seja a solução.

“Dá pena!”

“Dá pena!”

Foi o comentário de minha irmã de 15 anos, leitora amante dos livros, ao ver a Biblioteca Pública do Estado da Bahia. Achou o lugar sujo, feio e soturno. Levei-a comigo na incursão de hoje.

Ao subir as escadas, podemos nos mal iluminados degraus ver a depreciação e a falta de conservação deste prédio público tão importante.

 

No pátio central, ervas daninhas crescem na terra batida. Não há grama nos jardins. E é tão fácil plantar num espaço tão pequeno algumas flores…  Até um mutirão com os freqüentadores resolveria a questão. Uma escultura que eu creio ser um dos exus de Mário Cravo está lá, sem indicação, sem plaquinha, sem nada. Enferrujada ao ar livre no espaço interno da BPEB.

No quiosque, a ação do tempo, a falta de manutenção e um eterno vazamento na torneira. 

Nos tetos dos banheiros, o vandalismo e a sujeira sem reforma:

Em um dos corredores, um resto de prato de plástico para plantas faz as vezes de lixeira improvisada:

 

 Em outro sanitário feminino, o estado das pias, as marcas das infiltrações e dos vazamentos e o balde plástico quebrado que serve de lixeira sem saco:

Precisa dizer que não há papel higiênico nem higiene em quase todos os sanitários?

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(Todas as fotos tiradas hoje à tarde na BPEB).

Nem tudo está perdido!

 

Passei um momento agradabilíssimo na sala de leitura infantil da Biblioteca Pública do Estado da Bahia. Embora tenha me decepcionado com o pequeniníssimo acervo de livros e revistinhas (HQ), voltei à infância com a  leitura que amo tanto até hoje: a dos livros ditos infantis. Uma barata entrou lá em casa! de Cláudio Martins (São Paulo: Geração Editorial, 2000) me divertiu por alguns preciosos minutos. As ilustrações do autor são uma deliciosa viagem que revelam a confusão de uma barata numa casa onde moram três gerações.  Indico e recomendo.

O melhor da Biblioteca sempre serão os livros.

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Ah, o livro custa R$16,00 . Boa pedida de presente.

Mudanças na língua

O nosso alfabeto passará a ter 26 letras quando entrar em vigor a Unificação da Língua Portuguesa até o final do ano. O acordo ortográfico da L. P. atingirá os países lusófonos Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Haverá um período de transição para as ratificações no idioma, revisão e reimpressão de livros, gramáticas, dicionários etc. Em Portugal, 1,6% do vocabulário será modificado enquanto no Brasil cerca de 0,45%. As pronúncias típicas de cada país não se alterarão obviamente porque a fala é soberana e como ela é que consagra o uso, pode demorar muito para que a população incorpore as mudanças, se é que as incorporará.

No Brasil, por exemplo, se considerarmos a falta de uso corrente do trema, a sua extinção não fará lá muita diferença para a massa que já não o emprega. Apenas uma pequena parcela da população ainda está atenta a ele. O acento em vogais dobradas como em vôo e lêem fará mais falta, mas também se considerarmos a tendência consagrada pelo uso dos PC’s pelos jovens, a falta do acento atingirá apenas a população mais velha ou conservadora.

Se Portugal sentirá a falta do h de húmido e do c e p mudo de acto e baptismo, por exemplo, cá nas nossas terras nada se alterará porque já são mudanças estabelecidas há muito.

Acentos de ditongos também desaparecerão como o de assembléia, mas também creio que não vão lá fazer muita falta neste mundo que já não acentua mesmo muitas palavras.

Já estava mais do que na hora de entender que k, w e y fazem parte do nosso cotidiano, especialmente por causa do uso freqüente da língua inglesa.

Por outro lado, o interessante é, para mim, pensar nas prateleiras de livros com escrita arcaica que terei a partir da entrada em vigor do acordo que espera desde 1990 a assinatura de todos os países. Que venha o futuro então! Eu já faço mesmo parte do século ( e do milênio!) passado.

* * *

Leia mais aqui: http://www.brasilportugal.org.br/nacional/content.php?sec=300&ctg=noticias

F a c u l d a d e d a Felic IDADE

Assim eu li na traseira do ônibus no bem apregoado busdoor: F a c u l d a d e  d a  F e l i c i d a d e.

O slogan diz: On de ser fe liz é u ma con quis ta da me lhor i dade.

Achei interessante a proposta e fiquei imaginando os velhinhos como minha avó para quem a  vida já perdeu o sabor há muito… Seria uma renovação geral de propósitos, um estímulo, uma injeção de qualidade de vida, alegria, amizades.

Até então, tudo bem, tudo muito interessante… Mas me intrigaram os ‘modelos’ da propaganda. A faculdade  fica aqui no Rio Vermelho em Salvador, nesta Bahia tão negra que conhecemos. Estes alunos virão dos países nórdicos para cá? Ou é mais um deslize dos publicitários que julgaram que a classe que ainda pode pagar por estudos e atividades nesta idade é ‘branca‘ (44% da população de Salvador vive abaixo da linha da pobreza)? É um caso (re)’velado’ de preconceito? Deslize? Banco de imagens?

Chá das cinco na Bahia

Quando entardece no Hemisfério Sul, não nos dirigimos nós, madames nordestinas, às mesas de chá nem nos digladiamos por biscoitinhos finos. Na boa e velha Bahia, o encontro fica em torno do tabuleiro, sentadas todas(e todos) em banquinhos de plástico a degustar o que é que a baiana tem:

Alena Cairo

Pode apostar numa coca-cola. Guardamos o chá verde para mais tarde.

Ó paí, ó!

Quem usa sapato alto, anda apenas na praça de alimentação do shopping Iguatemi e mora nas ilhas prediais de luxo da cidade de Salvador pode estar incomodado com o resultado na tela da filmagem de Ó paí, ó.

A preocupação de alguns é que se firme o estereótipo de baiano que aparece na telona no estilo Casseta & Planeta.

Terça-feira à noite, fui ao cinema conferir o resultado. Pasma, na cadeira, adorei ver a reprodução imagética da minha Bahia. Senti o filme como um recorte da cidade de Salvador. Andar pelo Pelô e na Feira de São Joaquim ou no Porto da Barra é realmente deparar-se com uma realidade que o cinema captou de forma quase documental, embora haja a recriação artística e a adaptação da ficção. 

 

Olhe para aí, olhe (Ó paí, ó). Porque, cegos em seus guetos vigiados, os privilegiados da nossa cidade e do nosso mundo não vêem ou fingem não enxergar o que tanto incomoda na tela. 

A Salvador que se incomoda com o que o filme apresenta é a mesma que fecha os olhos para o apartheid do carnaval baiano, a mesma que ignora com vidros fechados nas sinaleiras os menores pedintes, a mesma Salvador que despreza o negro, o pobre, o marginalizado. É uma Salvador que não se importa que haja cordeiros (seguradores de corda) no carnaval para os ricos pularem com conforto e segurança. É a Salvador que dá de ombros para os R$14,00 que cada cordeiro recebe. É a Salvador que não percebe a concorrência entre os catadores de lata que precisam de crachá e credencial para no carnaval arranjar um sustento.

Existem outras cidades que não aparecem no filme. A cidade da Mc Donald’s, do Horto Florestal, dos shoppings e condomínios de luxo. Não aparece no filme o menino de barriga cheia, nem o estudante das escolas particulares, os empresários da Tancredo Neves.

Mas a realidade de que trata Ó paí, ó é a vida cotidiana de moradores do Pelourinho, de Coutos, do Trobogy, de Paripe, do Subúrbio Ferroviário, da Ribeira… 44% da população de Salvador vive abaixo da linha da pobreza. Isso significa que não vai ao cinema, não tem emprego, moradia, dignidade garantida. 

O filme só pode mesmo incomodar às ilhas de intelectualidade que gritam em cima de bancas universitárias num chilique que combate o estereótipo de um baiano que ri e dança apesar de. Tanta coisa.

Convido os preocupados com o recorte do filme a visitar São Joaquim, a andar pelo Pelourinho, olhando para além das portas e fachadas turísticas dos casarões. A visitar na Saúde os cortiços repletos de excluídos. Esta cidade  faz festa, tem futebol e carnaval. Também tem tóxico, tráfico, vendedores de café, meninos na rua …

Gostei do resultado, tive vontade de aplaudir o filme ao final da sessão. Não me preocupo com aqueles que acharão que a Bahia é apenas isso nem com o preconceito de sulistas que se julgam superiores. Porque mais forte do que tudo para mim foi a divulgação de que a Bahia também é o que nos faz estupefactos exclamar: Ó paí, ó!

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Quarta, nas Faculdades Jorge Amado, recebemos parte do elenco do Bando de Teatro Olodum e  Márcio Meirelles e outros convidados para um debate. Depois, mais informações e a resenha do evento.