300 de Esparta

Jacques-Louis David 004.jpg

Leônidas nas Termópilas (David, Jacques-Louis Musée du Louvre)

Histórias gregas sempre atiçaram a minha imaginação de menina. Entre as opções de filmes que havia no sábado, escolhi, portanto, assistir a 300 de Esparta.  Àquela altura, não tinha noção dos quadrinhos nem da concepção original do filme.

Luzes apagadas e extensos minutos de cansativos traillers, intrigou-me, inicialmente, a imagem em sépia. Desejei muito ver o mar azul da Grécia na telona, como nas cenas de Capitão Corelli. Por isso durante vários minutos estive atenta ao segundo plano das cenas. Até que a ‘ficha caiu’: nenhum grande homem ou guerreiro ganharia atenção dos espectadores em detrimento do azul do mar grego.

Eu vi o mar de Santorini na Grécia

 A narrativa nos remete a 480 anos a.C. quando o rei Leônidas (interpretado por Gerard Butler), espartano de grande honra e destemido guerreiro, luta contra o Império Persa do rei-deus Xerxes (Rodrigo Santoro) no desfiladeiro das Termópilas. Se o figurino de ambos os personagens deixa a desejar porque adereços de guerra foram desconsiderados tanto na concepção fílmica quanto nos quadrinhos e o rei da Pérsia aparece, por exemplo, cheio de piercings,  não posso deixar de aplaudir a caracterização do Leônidas enquanto grego. Ao ver a projeção do espartano, imediatamente fui levada ao Museu Nacional de Atenas, onde está exposta a estátua de Poseidon. Compare:

Se o Leão de Esparta foi tão bem representado por um lado, por outro há hipérboles imagéticas que me decepcionaram. Embora a licença ficcional do cinema permita o inverossímil  e gere o efeito de realidade,  infelizmente não mergulhei no efeito do real porque os inimigos persas estavam tão caricatos e alguns humanos tão monstruosos (como um grandão brutamontes deformado e acorrentado e o traidor e miserável Ephialtes) que só pude pensar na subliminar e pobre visão maniqueísta do mundo. Se Platão dicotomizou as forças do Bem e do Mal, é fato que a filosofia moderna já superou as falhas de um mundo tão estoicamente organizado. “Para além do Bem e do Mal” ( Nietzsche)  talvez seja uma leitura para os autores/diretores da atualidade que ainda insistem em um ponto de vista partidário ao extremo. 

Na linha do inverossímil, as bestas apocalípticas que como feras encarnam todo o mal inimigo  (os elefantes e o rinoceronte) parecem mais saídos de um filme de terror que daqueles navios depois de dias no mar: improvável que fossem domesticadas para atacar apenas o inimigo grego. A história conta outra versão e não há registros da presença destes animais na referida batalha, mas apenas em outra 200 anos após. 

Ainda a descortinar a crítica, embora assuma o ritmo de game moderninho na luta e apresente um Xerxes (Rodrigo Santoro) com 3 metros de altura, o filme agradou-me. Fez-me recordar os idos do colégio quando o professor de história em 1992 contou-nos na sala a Batalha das Termópilas. A aula do mestre Miguel Dratovinsk foi repassando na minha cabeça e adorei ver, no cinema, a representação daquilo que imaginei no passado (melhor ainda -uh lá lá – porque, na época, eu não tinha conhecimento do belíssimo corpo dos gregos).

O expansionismo persa nos lembra a estupidez da sanha humana pelo poder, assim como os EUA ainda hoje revelam ao ocupar o lugar do grande Império do século XX, já ameaçado no terceiro milênio pela China. Terras e mais terras com suas riquezas em  troco de vidas que são sacrificadas pela vaidade de ditadores insadecidos pela supremacia tão ansiada.

Por outro lado, a honra dos espartanos me deixa saudosa dos tempos épicos e também líricos em que os homens defendiam a sua pátria, as suas mulheres e crianças. 300 de Esparta nos traz valores há muito usurpados pelo torpe capitalismo. Nos tempos de agora, homens moderninhos se vendem a qualquer preço, traem valores, instituições e a família por qualquer ‘trezentos’ que lhes molhe o bolso. É uma pena.

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15 comentários sobre “300 de Esparta

  1. Pense em um filme que fiquei tensa do começo ao fim? Foi esse. Nossa, realmente gostei da produção. Tanto dos efeitos especiais, quanto da sensação de voltar às recentes aulas de história no colégio.
    É verdade que historicamente, o filme pode deixar um tanto a desejar. Já tinha lido críticas que basicamente colocavam esses mesmos pontos em questão (os espartanos como bonzinhos e os persas como malvados) – mas como nada é perfeito, produção aprovada! =)
    Vale destacar a excelente atuação do Gerard Butler como Leônidas.
    Bom filme!

    ____________________________________________

    A atuação dele é boa mesmo. Mas o melhor foi a caracterização. A gente também tem que dar um desconto à ficção, não é? Cinema não é história.

    😉

  2. Esse filme é simplesmente visualmente lindo. O fato de ser inspirado nos quadrinhos- que já são em si uma livre adaptação – abre a possibilidade do filme ser o que é, e não uma representação fiel da história. E sabe do que mais? Ficou extremamente fiel aos quadrinhos, você olha um desenho da revista e uma cena do filme e percebe! Fora isso, a probição no Irã e a polêmica em torno de xerxes só movimentaram ainda mais o filme, lotando o cinema de curiosos. As atuações são boas, o orçamento era pequeno e a revolução do cinema dizem que vai começar com esse filme.
    Enfim, eu gostei muito – e também sinto a falta desses grandes homens de honra.
    Beijo,professora.

    _________________________________________

    Onde estão eles?

  3. Quando você lê a história em quadrinhos e depois vê o filme, parece mágica! Que bela fotografia! Ignorando todas as monstruosidades (deformidades, melhor dizendo), claro… mas afinal, é uma história fantástica. E sem esquecer o festival de homens semi-nus… como eu disse no meu blog: “De quebra, temos Rodrigo Santoro no elenco do filme e mais 300 homens com barriga de tanque, bíceps e tríceps torneados à mostra. Está chovendo homem, aleluia!”.

    Até a próxima aula, ou melhor, post!
    🙂

  4. Bela resenha, Alena. O meu olhar sobre o filme foi mais de leitor de quadrinhos e fã do Frank Miller, e nesse aspecto achei a adaptação de 300 quase tão boa quanto a de Sin City… Enfim, também gostei (muito) do filme.

  5. Compreendi todos os seus aspectos, até mesmo algumas de tuas manias pude perceber no texto… Ainda assim, quando mencionou a honra e a epoca em que homens protegiam o que lhes era precioso me tocou mais que todo o resto do texto (de qualidade, sim.), ainda hoje eles protegem o que lhes é precioso, apenas as prioridades é que foram alteradas… Embora, e muito embora, eu não jazia vivo naquela epoca, muito menos nos contos de homero por exemplo… Não saberia dizer quais os valores caros a eles…

    rodrigo.

  6. gostei muinto dos textos.A minha opinião vocÊs deveriam não falar so sobre a Esparta mas sim de toda a Gecia

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    Larissa, o blog é escrito só por mim, Alena. Olha, a Grécia virá em outros posts. Neste, o tema era o filme.

    Um abraço

    Alena

  7. querida alena
    fico à espera de mais posts sobre a grecia. o que li , sobre a presença da sua mãe na sua viagem à grecia, trouxe-me lembranças dos meus filhos nas nossas viagens , e de como gostaria de tambémum dia ser dessa forma lembrada por eles. Por isso lhe enviei aquele comentario.
    sou apaixonada pela grecia, e as vezes que lá fui foram momentos tão felizes que tenho medo de voltar e quebrar o encanto.
    vou por mais fotos da grecia no blog para voce poder partilhar alguns desses momentos
    um abraço do outro lado do mar, do lado de cima do equador

  8. Sua vaca retardada, nenhum homem é obrigado a defender mulheres e crianças. Vc pensa q sua vidinha miserável é especial só porque tem uma buçanha q não vale nada… Se mata sua nojenta, gente como vc tem q morrer… Vc devia ter sido morta ao nascer, como os espartanos faziam com alguns monstrinhos… ops, quero dizer crianças.

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