Cultura e Pensamento 2007

Segunda-feira, às 19h40, na Reitoria da UFBa, ocorreu o lançamento do Programa Cultura e Pensamento 2007 . Estavam presentes no evento o ministro da Cultura Gilberto Gil, o secretário de Cultura da Bahia Márcio Meirelles, o reitor da Universidade Federal Naomar Almeida Filho, o secretário do MinC Alfredo Manevy e Rosemberg Pinto da Petrobrás.

 
 

No momento em que a cerimônia de abertura acontecia, os índios pataxós invadiram o salão nobre e entoaram um canto em protesto, dançando em círculos num ritmo interessante. Afora o espetáculo em si, foi inoportuna a intervenção. Alegavam não ter sido convidados, fato improcedente uma vez que foi um evento de participação pública e amplamente divulgado, do qual qualquer um poderia participar. Por sinal, mais da metade das cadeiras estvam vagas e, após o protesto, os índios em massa se retiraram. Por que não ficaram, ocupando mais alguns dos lugares disponíveis?

300 de Esparta

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Leônidas nas Termópilas (David, Jacques-Louis Musée du Louvre)

Histórias gregas sempre atiçaram a minha imaginação de menina. Entre as opções de filmes que havia no sábado, escolhi, portanto, assistir a 300 de Esparta.  Àquela altura, não tinha noção dos quadrinhos nem da concepção original do filme.

Luzes apagadas e extensos minutos de cansativos traillers, intrigou-me, inicialmente, a imagem em sépia. Desejei muito ver o mar azul da Grécia na telona, como nas cenas de Capitão Corelli. Por isso durante vários minutos estive atenta ao segundo plano das cenas. Até que a ‘ficha caiu’: nenhum grande homem ou guerreiro ganharia atenção dos espectadores em detrimento do azul do mar grego.

Eu vi o mar de Santorini na Grécia

 A narrativa nos remete a 480 anos a.C. quando o rei Leônidas (interpretado por Gerard Butler), espartano de grande honra e destemido guerreiro, luta contra o Império Persa do rei-deus Xerxes (Rodrigo Santoro) no desfiladeiro das Termópilas. Se o figurino de ambos os personagens deixa a desejar porque adereços de guerra foram desconsiderados tanto na concepção fílmica quanto nos quadrinhos e o rei da Pérsia aparece, por exemplo, cheio de piercings,  não posso deixar de aplaudir a caracterização do Leônidas enquanto grego. Ao ver a projeção do espartano, imediatamente fui levada ao Museu Nacional de Atenas, onde está exposta a estátua de Poseidon. Compare:

Se o Leão de Esparta foi tão bem representado por um lado, por outro há hipérboles imagéticas que me decepcionaram. Embora a licença ficcional do cinema permita o inverossímil  e gere o efeito de realidade,  infelizmente não mergulhei no efeito do real porque os inimigos persas estavam tão caricatos e alguns humanos tão monstruosos (como um grandão brutamontes deformado e acorrentado e o traidor e miserável Ephialtes) que só pude pensar na subliminar e pobre visão maniqueísta do mundo. Se Platão dicotomizou as forças do Bem e do Mal, é fato que a filosofia moderna já superou as falhas de um mundo tão estoicamente organizado. “Para além do Bem e do Mal” ( Nietzsche)  talvez seja uma leitura para os autores/diretores da atualidade que ainda insistem em um ponto de vista partidário ao extremo. 

Na linha do inverossímil, as bestas apocalípticas que como feras encarnam todo o mal inimigo  (os elefantes e o rinoceronte) parecem mais saídos de um filme de terror que daqueles navios depois de dias no mar: improvável que fossem domesticadas para atacar apenas o inimigo grego. A história conta outra versão e não há registros da presença destes animais na referida batalha, mas apenas em outra 200 anos após. 

Ainda a descortinar a crítica, embora assuma o ritmo de game moderninho na luta e apresente um Xerxes (Rodrigo Santoro) com 3 metros de altura, o filme agradou-me. Fez-me recordar os idos do colégio quando o professor de história em 1992 contou-nos na sala a Batalha das Termópilas. A aula do mestre Miguel Dratovinsk foi repassando na minha cabeça e adorei ver, no cinema, a representação daquilo que imaginei no passado (melhor ainda -uh lá lá – porque, na época, eu não tinha conhecimento do belíssimo corpo dos gregos).

O expansionismo persa nos lembra a estupidez da sanha humana pelo poder, assim como os EUA ainda hoje revelam ao ocupar o lugar do grande Império do século XX, já ameaçado no terceiro milênio pela China. Terras e mais terras com suas riquezas em  troco de vidas que são sacrificadas pela vaidade de ditadores insadecidos pela supremacia tão ansiada.

Por outro lado, a honra dos espartanos me deixa saudosa dos tempos épicos e também líricos em que os homens defendiam a sua pátria, as suas mulheres e crianças. 300 de Esparta nos traz valores há muito usurpados pelo torpe capitalismo. Nos tempos de agora, homens moderninhos se vendem a qualquer preço, traem valores, instituições e a família por qualquer ‘trezentos’ que lhes molhe o bolso. É uma pena.

8a Bienal do Livro em Salvador

Começou hoje e permanecerá até o dia 22 de abril a 8a edição da Bienal do Livro em Salvador. O evento ocorre no Centro de Convenções. Registro aqui as primeiras impressões.

Estive na abertura às 10h de hoje. Decepcionou. Nenhuma programação para abrir o evento.  Muitos stands ainda abarrotados de caixas e expositores ainda a arrumar estantes. Na praça de alimentação, os garçons brigam ávidos por clientes , com aquela abordagem de “morta-fome” que nos irrita.

O cantinho da Literatura de Cordel está muito lindo e organizado. O da Poesia idem. E o Espaço Jovem está muito legal também.

Professores entram gratuitamente, mas têm que pegar uma fila gigante onde se misturam diversas pessoas que esperam credenciais por motivos vários. Pedi informação a uma funcionária. Ela me deu uma ficha. Primeiro duvidou de que eu fosse mesmo professora e me pediu um catatau de documentos. Para adquirir o passe gratuito, levei 20 minutos na fila, preenchi uma ficha que não tinha mais tamanho na qual tive que informar CPF e RG (para quê?). Após todo este trabalho e a fila inteira, a garota do computador pegou minha ficha e mandou-me esperar porque era a primeira pessoa com quem falei que tinha que me dar o ingresso. Reclamei e chamei a tal moça do ingresso. Ela veio e após mais uns 5 minutos (só para ela me dar um papelzinho que já estava em seu poder desde o início)… perguntei porque a gente não recebia uma espécie de passe para todos os dias com o nosso nome…. ela disse que todos os dias eu teria que pegar a fila, preencher tudo de novo e… haja saco! Sinceramente! Se eu dependesse da Bienal, não teria lido nenhum livro na vida.

Lá dentro do Centro de Convenções, no Pavilhão de Feiras, a impressão que eu tive foi de que aquilo tudo era só um evento para as editoras venderem seus livros sem o intermédio das livrarias que também estavam lá para vender. Poucos autores. Poucos nomes. Poucas promoções.

Creio que os próximos dias serão melhores. Irei para conferir.

Ah, porque um evento como este não é gratuito?

Um modelo

Sem gracice tamanha nunca vi. Assino alguns jornais on-line e recebo por e-mail notícias. Resolvi ontem e hoje gastar uns minutos lendo a ‘famosa cultura inútil’.

Não. Não adianta. Não consigo perceber a relevância de Marcello Novaes  sair com Fani e passar a mão em sua coxa ou não. E daí? Não são pessoas? Isso ser notícia para mim significa dar muita importância ao que não tem.

Continuo lendo o jornal do link que veio parar no meu e-mail e descubro uma tal de Bombom. Mulher com nome de iguaria é para ser objeto de desejo como comida mesmo? O detalhe é que a fulana musculosa, nada feminina por sinal com tantos músculos à mostra, declara só comer ovo e batata com SUPLEMENTOS alimentares. Isso mesmo que você leu.

Uma pessoa que é considerada desejada no nosso país, que impõe um suposto padrão de beleza e ainda apresenta um programa que eu não sei sobre o que é, mas que parece que tem IBOPE bom, declara se alimentar de quase nada para manter a forma.

Com tantas possibilidades alimentícias (vamos lembrar o brócolis, o inhame, a picanha, a paella, o camarão e sei lá mais o que, até o acarajé, a tapioca, o biscoito…), uma mídia tirana quer me convencer de que, para manter um corpo “desejado” conforme o padrão imposto (pelos outros), nós, mulheres, além de malhar todos os dias vamos nos alimentar de ovos e batatas? Ah, desculpem. Esqueci-me das pílulas de sobremesa. Ou serão a entrada?

Nestas horas, agradeço ser ANORMAL e estar fora do padrão. 

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Ah, esta moça é mesmo um modelo. Daquilo que quem quiser viver bem não deve fazer. Estou louca ou a mídia deveria ser mais criteriosa?  

Trem de Grande Velocidade

Os países que mantêm a malha ferroviária funcionando sabem o que é eficiência e custo no transporte de passageiros e cargas. Viajar pela Comunidade Européia de trem é um dos maiores prazeres que se pode ter. A viagem é barata e confortável, pontualíssima e aprazível devido às belíssimas paisagens que se descortinam nas janelas de vidro.

De Milano a Paris, por exemplo, pega-se um trem que vai a Turim e de lá parte pelos Alpes franceses. No inverno, é quase uma locomotiva vagarosa a raspar a neve dos trilhos e, devagarinho, cortar a paisagem exuberante saída de um desenho animado de Natal: chalés cobertos por espessa neve, emoldurados pelas montanhas ao fundo. De tirar o fôlego.

Após passar pelos Alpes, pegamos um TGV ( Trem de Grande Velocidade) e rumamos a mais de 300 km para a capital francesa. Além do conforto que se percebe na primeira classe, a velocidade é algo impressionante. Vemos os pontos irem passando ao longe, mas, por estarmos inertes, não percebemos, obviamente, a velocidade.

Distraída com a paisagem e  o ineditismo da viagem no Natal de 2005, estava curtindo a novidade pela janela quando percebi que chovia há tempo, mas a janela não estava molhada. Então comecei a esperar que a nuvem chegasse onde estávamos, meio como quando começa a chover nas grandes cidades e temos tempo de ver o asfalto daqui e dali ir molhando. Passaram muitos minutos e nada da chuva chegar ao trem. Inquieta, observei que na estrada paralela os automóveis lutavam com os pára-brisas ligados e a água forte que caía do céu. Fiquei intrigada e não entendi porque estava chovendo na estrada e não na linha férrea. É que a mocinha aqui nunca tinha visto no Brasil algo tão fabuloso como um TGV.

Foi então que aconteceu: um finíssimo fio cortou a minha janela no alto em sentido horizontal. Percebi que o TGV estava ‘molhado’ pela chuva há muito tempo, mas a velocidade não permitia que a água parasse na janela. Nossa, que coisa mais incrível!.