Deixemos de hipocrisias

Legalização do aborto: polêmica de longa data. Em primeiro lugar, aproveito o ensejo para lembrar que o Papa pode ser uma autoridade religiosa e manter seus dogmas inconversíveis, mas legislação não é religião (embora no passado Igreja e Estado se confundissem).

A questão é muito óbvia. Quem tem lá sua crença e quem é radicalmente contra o aborto em quaisquer circunstâncias, inclusive em caso de estupro ou de risco de morte para a mãe, que se mantenha com o seu pensamento e não pratique o ato ou leve sua mulher, esposa, noiva, namorada, amante ou ficante a praticá-lo (no caso dos homens que se postam contra a legalização).

Legalizar o aborto não obrigará ninguém a fazê-lo. Dá para a população raciocinar?

A questão envolve a hipocrisia das relações sociais, o abismo da desigualdade social e a eterna mania humana de achar que o telhado de vidro é o do vizinho. Atire a primeira pedra quem não sabe as formas de se praticar o aborto ou conhece as clínicas que se espalham nos grandes centros ou as mulheres de periferias e interiores que ajudam as meninas a livrarem-se de fetos indesejados. Todo mundo faz de conta que não vê. As clínicas se travestem de consultórios ginecológicos, mas ninguém se engana diante delas. Sabemos quais são.

O fato é que legalizar o aborto significa apenas dar assistência médica a meninas, moças e mulheres pobres que se submetem às aborteiras sem higiene e sem conhecimentos científicos, aos cabides introduzidos nas vaginas, aos Cytotec’s desassistidos, aos chás de ervas perigosas, às quedas propositais em escadarias, aos socos e murros nas barrigas, aos charlatões despreparados… Porque só as grávidas pobres é que põe em risco a própria fertilidade e saúde. A classe média e a alta fazem quantos abortos desejam ( desejam?! ) ou necessitam em clínicas ambientadas, com música relaxante de fundo,  incenso, sigilo, discrição e assistência garantida.

A questão da legalização se coloca no âmbito da desigualdade social.  Ouço poucos com coragem de se posicionar ponderadamente diante do tema. Todos nós conhecemos mulheres que se submeteram ao aborto. Umas desabafam, outras se calam e guardam o segredo condenado religiosa, política e socialmente. A maioria das pessoas, entretanto, atira pedras às que ousam falar e dividir a experiência ( até descobrir as suas próprias frágeis telhas).

Os cristãos mais fervorosos que reflitam: se a própria bíblia ensina um Jesus justo, que questionou os atiradores de pedras, o que querem condenando quem precisa passar pelo sofrimento de abortar um filho?

As razões que levam as genitoras a abortar são as mais diversas. Estupro, má formação fetal, dificuldades financeiras, abandono do companheiro, família já numerosa etc. etc. etc. Abstenho-me de avaliar o que é justo ou não, a consciência já é um tribunal opressor. Nestes anos de leitura sobre o tema, a conclusão mais certa a que cheguei foi a de que todas as mulheres sofrem no pós-aborto. Todas temem, todas carregam culpas – ainda que não se arrependam. Todas choram.  Todas sentem.

Por outro lado, conheço pais que se isentam da responsabilidade, discursando belamente: eu disse a ela que se quisesse ter que tivesse( ai, ai… outra hora eu falo sobre este desamparo absoluto a que submetem suas mulheres), não obriguei ninguém a fazer aborto.

Se a sociedade deixar de lado o salto alto da hipocrisia, perceberá que a legalização do aborto não incentivará ninguém a fazê-lo, porque , nestes casos, não é a lei que se teme. Legalizar apenas oportunizará e assegurará às moças pobres que tenham assistência como as semelhantes de classes mais abastadas já têm.

Educar para a anticoncepção é a melhor saída na luta contra o aborto. Evitar a gravidez é mais eficiente e menos danoso psicologicamente que abortar. Mas não dá para fechar os olhos e engolir um discurso hipócrita que apenas põe em risco a vida das mulheres pobres, já despossuídas de tantos outros direitos.

Volto a enfatizar com muita tranqüilidade: a legalização não obrigará ninguém a abortar nem ferirá o seu princípio religioso, seja este ou aquele. Se a própria lei também garante-nos a liberdade de credo, que se respeitem as opções alheias e que se pense, inclusive, que a imposição da idéia de pecado provoca o movimento inverso: é até comum mulheres que abortaram tornarem-se mais religiosas e aderirem a seitas ou igrejas para expiar as culpas que a própria religião e o senso comum maquiado de pudores lhes impõem.

Nos tempos antigos, talvez a própria hipocrisia social que exigia moças virgens nos casamentos velasse os índices que hoje se descortinam ainda timidamente. Isso sem aprofundar o debate acerca do celibato obrigatório que conduziu a abortos de freiras e de “mulas-sem-cabeça”, vulgo mulheres de padres, para evitar os escândalos.

Para encerrar, não me sinto à vontade de saber que questão de tamanha relevância seja uma discussão nas mãos de um grupo político de maioria ainda masculina e sem conhecimentos psicológicos e médicos. As mulheres precisam quebrar a lei do silêncio para dizer ao mundo os porquês de sua causa ser justa. E deixa que digam, que falem.

* * *

(Tenho arquivada uma Veja antiga cuja capa foi sobre o aborto. Nela, mulheres anônimas e ‘celebridades’ como Hebe Camargo e Elba Ramalho contavam a sua experiência. Tocante e esclarecedor.) 

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5 comentários sobre “Deixemos de hipocrisias

  1. Oi Alena!
    Você tocou exatamente na ferida! Todos sabemos de alguem, conhecemos alguem e estamos sujeitos tambem a passar por isso. Nosso telhado de vidro ( eu diria de cristal)´pode cair a qualquer momento. Porem é muito mais fácil levar essa discussao pra lados completamente alheios ao verdadeiro.
    Minha duvida maior é saber como vamos agir a partir daí.
    Eu sou sincera. Diante de tantas crenças, fatos e acontecimentos eu prefiro me manter na minha individualidade mental e refletir pra mim mesma.
    Acho que cada um sabe o que faz da vida que leva e não é uma lei que impede nenhum acontecimento.

    ______________________________________

    É, Priscila, a lei não impede que abortos aconteçam. Já estou farta de ver tanta hipocrisia quanto ao tema na sociedade. Grande parte das pessoas que se mostram desfavoráveis, na hora em que acontece consigo ou com seus parentes ou amigas, muda ou flexibiliza a opinião. Ah, com a vizinha eu atiro pedras, mas na minha casa eu faço de conta que não vejo???
    Basta.

  2. É um tema polêmico. Polêmico e doloroso. Por isso e pelas imbricações de uma certa moral e da religião entre outras coisas, creio que as mulhares não gostam muito de falar à respeito .
    Pessoalmente voto a favor do aborto traçadas as regras ( tempo de gravidez , assistência psicológica, etc ).
    A discussão do lado que é contra, tende a focar o assunto na coisa do assassinato, do pecado. Não olham para as condições destas futuras mães, a miséria em que vivem, em que viverão os filhos e que é imoral. Não olham para o fato de que estas mulheres em geral já têm muitos filhos. Nem olham para o fato de que o estado não oferece condições abrigar, educar, tratar dos seus filhos. Não olham para o fato de que mulheres muito jovens, quase adolescentes ( e as adolescentes) terão que enfrentar vida, pais, sociedade ( não sabem como é o interior do Brasil?). Nem atentam a estatística que cresce de meninas de 11/12 anos grávidas, a parirem bebês, sem saber sequer o que é criar um filho. Não atentam para o fato de que manter o aborto ilegal pode levar à morte ou outras consequências terríveis. Mulheres que procuram “curiosos”, curetagens feitas sem a menor condição de higiene e técnica, portanto de grande risco. Ainda, claro, há os casos de estupro, de risco de vida, etc. Que precisam farta documentação para serem autorizados, o que significa exporem-se, arranjarem provas. De tal forma a coisa é complicada que até pelo Sus, nas restritíssimas situações em que o aborto é legal, médicos evitam fazê-lo,
    É tudo colocado como se fosse uma escolha da vaidade, uma escolha leviana, impensada.
    Nenhuma mulher em sã consciência dirá que escolheu o aborto porque tudo é festa, porque pretendia mesmo engravidar e depois era fácil, era só abortar e tudo se resolvia. Nenhuma dirá que não sofreu.
    É natural que políticos façam disso bandeira, eles é que levarão isto à votação (com o nosso empurrão, claro).O problema é o quão hipócritas podem ser.

    É isso. Por enquanto.

    Um abraço grande e obrigada ,
    Silvia

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    Obrigada, Silvia, você acrescentou que deveria. Muito obrigada.

  3. Alena,
    O ministro da saúde está certíssimo. Aborto é questão de saúde pública. Mensalmente cerca de 30.000 mulheres são atendidas pelo SUS, em condições de risco, devido a práticas clandestinas de aborto. Teriam amparo médico caso fosse legalizado. A Igreja não deveria se meter em questões de Estado, que deve ser laico.
    Beijo

    ______________________________________

    É isso.

  4. Estava lendo uma pesquisa sobre aborto feita com meninas de classes A e B e o resultado é quase o mesmo daqueles coletados em hospitais públicos. O aborto é feito clandestinamente por mulheres de todas as classes sociais e não apenas pela pobres que usam o SUS. Não dá mais pra esconder essa realidade.
    Acredito que a discussão do tema vai esquentar bastante esse ano – ainda bem que o novo ministro da saude é inteligente e bem assessorado.
    Estou tão interessada nessa discussão quanto você, querida, vamos ficar nos falando!
    Beijo

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    Beth, não creio que a discussão tenha esquentado… estamos em setembro e parece que pouco evoluiu. Tomara…

  5. que comentário mais irracional é este. somos contra a legalização sim ~e outra vc diz: legalizar o aborto não obrigará ninguém à faze – lo. mas eu digo para vc somos contra o aborto porque se o mesmo for liberado vai virar festa. imaginou? homens e mulheres vão ter relaçoes sem proteção nenhuma poque vão saber se ocorrer uma gravidez é só procurar uma clínica e abortar. raciocine bem isto. uma mulher que apoia o aborto é uma vergonha para a sociedade. mulher que é mulher mesmo evita uma gravidez através de métodos contraceptivos e não matando uma criança

    __________________________________

    Marcinha,

    você escreve “somos”, fala no plural? Por você e por quem? Você crê mesmo que liberar o aborto fará com que vire ‘festa’? Quer dizer que legalizar fará as pessoas abortarem mais? Acorda. Nenhuma mulher aborta com freqüência e se há mulher assim, com certeza é exceção e continuará a existir independente da descriminalização do aborto.

    Não se esqueça de que ‘se ocorrer uma gravidez’ muitas mulheres terão seus filhos, porque os querem e foram concebidos em condições ideais ou com o desejo delas. Outras, mesmo surpreendidas, terão também seus filhos. Nem todas as mulheres abortam.

    A proteção anticoncepção não depende de saber que se ‘pode’ legalmente abortar. Não se esqueça de que existem muitas mulheres instruídas e responsáveis. Não deixarão os métodos contraceptivos para depois arriscar abortar por aí. Nem farão do aborto a sua ‘solução’, como você generaliza.

    Uma vergonha para a sociedade é a mulher que tem dinheiro fazer aborto com segurança e apoio em clínicas bem equipadas ENQUANTO as mulheres que não têm dinheiro se submetem a toda sorte de maus tratos em clínicas clandestinas e receitas caseiras, quedas de escada, introdução de objetos perfurocortantes na vagina , cytotec e etc.
    Você defende ainda mais a falta de assistência à mulher carente?

    É hipócrita pensarmos que abortos não existem ou que os proibir evitará que ocorram. É mais fácil sempre atirar pedras nas mulheres. Eu não tenho esta postura. Abraço-as em compaixão.

    Reflita um pouco.

    Alena

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