Para falar de amor (e com amor)

foto by  Alena Cairo

Namorados devem ter identidade. Namorados precisam ter intimidade. Namorados precisam se conhecer. Para poder amar, para poder gostar, para sentir tesão. Uma forma importante de estreitar os laços do amor é partilhar as nossas leituras preferidas com aquele que a gente ama.  Virá o debate, o discurso do outro e a visão de mundo que se somará ao que lemos e ao que somos.

Ler as mesmas palavras e ouvir o que o outro pensa é importante para conhecermos quem amamos. De repente, talvez ‘do riso faça-se o pranto’ e descubramos não ter tanta afinidade assim com quem nos parece tão grande amor. Não é questão de concordar invariavelmente, de obter aquiescência muda ou silêncio temeroso face às discordâncias. Mas significa projetar o diálogo, construir os pilares das longas conversas que o futuro pode lhes reservar em noites longas à luz da Lua e ao sabor do vinho.

Porque relação não se constrói de aparência, mas do cotidiano comezinho, idiossincrático que inclui dor de barriga e mau humor, mas que se abre em possibilidades de amar quando há espaço para o riso, a brincadeira e o conVERSAR. Versemos, então.

 

Como sugestão de um presentinho muito acessível, meu livro preferido de Saramago: Ensaio sobre a cegueira (custa R$30,00 na Siciliano ou Saraiva).  Como o amor é cego, nem precisa dizer que vale a pena ler.

Se o seu amor é leitor assíduo e apaixonado, certamente que conhece e já leu há muito Ensaio sobre a cegueira. Para não perder o espaço da indicação, sugiro então que lhe dê Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido (pela bagatela de R$23,90), um primor de leitura, uma ode de amor à mulher , uma ode ao amor.

Se ele gosta de religião, para pensar ( e pensarem juntos), vale O Evangelho segundo Jesus Cristo.

Outra leitura imperdível: A caverna, do mesmo autor. Nem preciso dizer que sou fã, não é?

Ah, mais uma coisinha: fuja dos presentes óbvios. Se o seu amor é professor, provavelmente pode estar cansado de tantos livros e prefira algo mais pessoal, afinal ele lê todos os dias. Se é desportista, talvez ganhar um short ou bermuda de malhação não seja a melhor idéia. É preciso conhecer bem quem vamos presentear, conhecer bem quem amamos. Para falar a verdade, eu nunca entendi dizerem ser difícil presentear. Com amor, tudo fica muito mais fácil. Presente difícil é aquele dado por obrigação ou mesura social.

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Com a palavra, Pablo Neruda:

“O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.”

Pablo Neruda

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7 comentários sobre “Para falar de amor (e com amor)

  1. Alena,
    A questão do presente nem sempre é fácil. Difícil acertar da primeira vez. No primeiro dia dos namorados que vivi com minha mulher, na época ainda éramos namorados, dei-lhe uma máquina fotográfica. Sabia que ela fotografava bem pois já havia me mostrado várias fotos que fizera. O que não sabia é que a experiência com a fotografia não tinha sido boa, ela tinha abandonado os cliques. Mais tarde, já casados, quando o dinheiro apertou, vendemos a câmara. Eu sou esportista e adoro receber roupa para ginástica. Uso todo dia, quanto mais melhor. O importante me parece conhecer bem a pessoa amada, prestar atenção nela. Temos que procurar entender e atender o gosto do outro, não o nosso. É claro que essa é uma visão particular, mas acho que vale à pena ser observada.
    Grande beijo
    ____________________________________________________

    A primeira vez é muito difícil mesmo. Geralmente, no caso, opta-se quando se pode pagar por presente que seja caro porque então é mais ‘fácil’, como se preço fosse sinônimo de qualidade e gosto pessoal. Mas, à medida que conhecemos o outro, creio sim que vá se tornando cada vez mais fácil presentear.
    Outro aspecto importante: atender ao gosto do outro e não ao nosso. Conheço pessoas que gastam muito dinheiro para presentear e não conseguem acertar uma! Amigo secreto de família sempre dá nisso. Uma pessoa da minha família gasta fortunas e não consegue comprar uma coisa certa. Meio assim: a pessoa olha para a outra e pensa no que ela não tem. Só que o que o outro não tem é, justamente, muitas vezes, porque não gosta. Ui!

    Quanto ao que a gente gosta, por exemplo, a roupa de ginástica ou os livros, isso precisa ser realmente medido de pessoa para pessoa. Conheço quem goste e quem não goste de presentes relacionados à profissão. No meu caso, depende da hora. Neste exato momento, em que estou saturada de corrigir provas, papéis me oprimem. Envelopes pardos então… nem se fala!

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