Um homem só

A toada da canção entristece tudo … As bolsas sob os olhos parecem hoje ainda mais fundas, mais inchadas… Na moldura de um rosto másculo, os fios envelhecidos de uma barba por fazer quase grisalha. As marcas do tempo se percebem ainda mais nitidamente quando o olhamos varando os limites do físico e adentrando sua alma.

Tristeza. Solidão. Frustração. Certezas de ser só.  

O homem maduro, cansado da livre existência, mais uma vez constata o fim do romance que quisera eterno. Que faltara? É sempre assim. Despedaçado, passa os olhos pelo quase nada de pertences que lhe restam. Livros, roupas, discos, um som e … meia dúzia de itens mais. Que sentido há em querer os demais objetos ou móveis? Tudo pode ser refeito. Tudo.  

De relance, olha a estante repleta de livros e os sapatos na prateleira de baixo militarmente alinhados. Pode-se entrever uma sombra de solidão em seus olhos. Calado, caminha em direção ao quarto. Na cama, a mulher que fora sua até tão pouco tempo. À vontade, deitada está entregue ao deleite dos lençóis macios. Com certeza ela cheira. O doce cheiro de uma mulher…

Tira os olhos de cima do seu corpo, respeitoso pelo fim do relacionamento e , sozinho, fecha o armário de roupas ainda ocupado pelas suas camisas . Uma peça fica um tanto de fora e, delicadamente, com os dedos alisa a manga da camisa pra dentro da porta sanfonada. Nesse ritual tão mudo, parece querer entender os cuidados que outrora deveria ter tido. O silêncio está em sua alma, enche o seu corpo de vazios, corta a sua existência inteira. Tímido e silente, o adeus quase sussurrado ecoa entre as paredes que de tantos sonhos foram testemunha. 

Este homem é grande. Mas tão pequeno agora…

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5 comentários sobre “Um homem só

  1. Bonito. Mas esta é a visão do observador, pretensioso em pensar que vê a verdade. Coitado de quem foi submetido a tal “raio X” e não pode defender-se de tal juízo.
    _________________________________________________-
    Qual é a verdade?
    <em><strong>Para Platão, todos nós estamos condenados a ver sombras a nossa frente e tomá-las como verdadeiras. Uma das mais recentes retomadas deste mito de mais de 2500 anos encontra-se em A caverna de Saramago.
    O que vemos senão sombras bruxuleantes de nossas próprias projeções?</strong></em>

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