Crime cometido

Rasgar o passado não é fácil, mas é preciso.

Há quem creia impossível. Eu creio nas mudanças que vêm com o tempo. E no prazo de validade que todas as coisas têm. Inclusive nós, seres humanos perecíveis.

Inquietações de saber-me pesada com tantas recordações: âncoras a me prender na projeção futura e necessária. Cortar os grilhões, rasgar os papéis rabiscados de tintas. Em minhas mãos lavadas a todo instante, poeiras que carregam o sangue de um passado tão vivido.

Sentei no chão de meu quarto, abri a pasta rosa, passei os olhos neste e naquele bilhete, cartão ou carta quilométrica ou expressa. É hoje apenas papel e rasguei-os todos sem dó nem piedade, mas sentindo um peito afobado e um passado que de mim talvez teimasse não sair. Quisera eu a metáfora perfeita de um escravo alforriado que ainda não sabe se teme mais o que passou ou o que virá. O que já foi não é mais. E nem eu queria que assim fosse.

Por outro lado, parece que me ver diante da que eu era há tempo me conduz ao conflito óbvio. Cartas e mais cartas e mais cartas de amor rasgadas, palavras que hoje perderam a coesão com suas companheiras de linha, rasgadas que foram. Agora, estão compatíveis com as emoções que há muito perderam o sentido, a lógica, a razão.

Fotos ainda registram o que não existe mais e nem o amarelar do tempo talvez apague tudo. Não. Não apagará. Mas há de esmaecer. Assim é. Assim será. É preciso mais tempo. Mais disposição para não se saber a si mesma, para deletar-se de si, desconstruir o que é memória apenas e apenas isso deve ser. Recordações.

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8 comentários sobre “Crime cometido

  1. Sempre passo por aqui, e adoro suas palavras.
    Não poderia deixar de comentar esse post!
    Achei muito corajoso da sua parte conseguir se livrar dessas lembranças físicas!
    Preciso ter coragem pra fazer o mesmo.
    Parabéns pelo blog!

    ______________________________________________

    Nem me fale da coragem, acho que nem é isto. É mais desprendimento necessário mesmo. Preciso de espaços para outras coisas acontecerem. Obrigada pela visita. Quando vocês não comentam, não tem como a gente saber e visitar também. Um beijo

  2. Tenho sempre o presente como uma nova vida a ser respirada. O passado é a morte. Um aprendizado que se foi. É preciso coragem para reinventar-se, para descobrir o o que ficou e o que já não serve mais. Nesses momentos, é importante ser como a grama, que passa por tempestades, por dias de sol, por brisas frescas e mesmo assim continua intacta, apenas com um verde mais claro ou mais forte. Ótima sorte para esse momento e aproveite-o, pois quando agimos sabiamente eles nos tranformam em seres mais fortes.
    Beijos,
    Mari

    _____________________________________________________

    É hora de recomeçar. Mas não se engane, a grama sofre com todas as intempéries da natureza. Assim como nós.

  3. Eu fiz isso. Me desfiz do passado, pra ter espaço para novas emoções…

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    Coisa é a vontade de descolar-se de si e, simplesmente, recomeçar.

  4. Suas palavras nao deixam lacunas, parabéns mais uma vez pelo seu grande dom!
    Coragem é preciso para navegar pelos mares uma volta navegados…onde por vezes pescamos, ou fomos pescados, onde triunfamos ou naufragamos.
    Termino o comentario com uma frase da musica Onde ir, de Vanessa da Mata que a mim diz muito:
    “Cada um pode com a força que tem
    Na leveza e na doçura
    De ser feliz.”

    Bjs,

    Martinha

  5. Alena,
    Texto maravilhosamente bem escrito. Só fiquei pensando em uma coisa. E no futuro, quando você for uma autora famosa, teremos perdido o livro de cartas de amor?
    Beijão

    ____________________________________________

    É lord, juro que eu penso na questão das memórias (não por questão de ‘fama’ -risos-, mas por questão de história, tipo netinhos pequenos arrodeando-me e eu a contar o que vivi), mas eu já estava sufocada por tanto passado. É mais do que hora de abrir espaço para outras histórias. A gente acaba sem fazer o que deve porque parece que muito já foi feito e nada mais parece que vai acontecer, quando, na verdade, há tanta vida ainda para viver. Há cartas de amor para serem escritas ainda.

  6. Ah! Lena,
    eu secundo as palavras do Lord.
    Aliás, como sabes que sou sinceríssima (que paradoxo, n’é?) pergunto-me qual a profundidade da dor ou da lembrança do amor que faz alguém escrever assim tão articuladamente sobre um sentimento. Presente ou passado.
    Mas, ouve o conselho de alguém que não tem, aparentemente, mas na verdade, tem muito a dizer: Um dia, o que doía deixa de doer, vai acabando e esmaecendo sim, mas deixa, permite, Alena, que fique uma brisa suave daquilo que foi bom!
    Porque sempre , em tudo, há algo que é foi ou terá sido bom.
    beijos

    ___________________________________

    Meg, eu sei disso … e como sei…

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