Aborrecimentos

Aborrecimentos ocorrem quando as coisas não acontecem como queremos, ocorrem quando as pessoas revelam faces que não nos são aprazíveis, aborrecimentos ocorrem quando o espelho nos cobra mais do que somos, mas a imagem refletida é apenas o que pode ser… Creio que nos aborrecemos porque vemos uma realidade diferente daquela que idealizamnos, daquela que sonhamos e isso é um problema nosso, isso é uma limitação nossa, sim, porque nós, seres humanos, sabemos o quão pouco somos, o quão pouco o outro é ou tem para nos dar e ambicionamos o máximo, as alturas…. nos escondemos em desculpas e sensações de que podemos ter mais, receber mais, sentir mais; egocentricamente nos vemos como o centro do universo e não o somos.

Não, o outro não é grande, é isso mesmo. Porque nós também não somos. Se um monge qualquer estivesse a ler este escrito ou um fazedor de slide xaroposo ia logo protestar que o outro é grande, que nós somos grandes, que somos imagem e semelhança de qualquer criador ou de um criador… mas não. Insisto. Nós somos falíveis, pequenos e sós. E nossas carências são do tamanho do universo inteiro. Um buraco negro que nos devora a todos e cospe depois em forma de lágrimas vilipendiadas o resto dos nossos sonhos.

Amanhã

Em 27 de julho de 1975, às 8h35 da matina, minha mãe estava, pela primeira vez, ouvindo o meu chorinho.

Eu pesava 3,2 quilos e media 49 centímetros. E agora, o tempo passou na janela. E é hora de comemorar de novo!

ACM

” O tempo leva por diante todas as coisas”

Machiavelli 

 

Antônio Carlos Magalhães morreu. Morte anunciada e esperada. Não me assombrou nem me desesperou nem assustou. A lei da vida é imperativa. A morte chega, até para ele, persona não acostumada a perder.

As palavras perda e ACM não rimam, não combinam, mal dialogam. Hoje a Bahia veste o seu luto e, embora haja um misto de alegria e alívio para os que não o admiravam nem suportavam ou toleravam, é inegável que esta foi, sim, uma morte significativa. O atual governador da Bahia, eleito neste final de mandato e de vida de ACM num prenúncio de que o ‘império’ e a hegemonia dele, ACM, chegavam ao fim, assim como sua vida, disse que haverá uma página na História da Bahia para tratar de ACM. Wagner foi modesto e econômico: uma página é pouco. Nos meus trinta e um anos de vida, pude politicamente perceber os efeitos do carlismo no meu estado e posso assegurar que ACM não é uma página apenas da história da Bahia, mas um livro inteiro, talvez mais de um volume.

” Os homens devem ser mimados ou exterminados, pois se se vingam de ofensas leves, das graves já não podem fazê-lo. Assim, a injúria que se faz deve ser tal, que não se tema a vingança.”

Machiavelli 

Seus mandos e desmandos afetaram a nossa sociedade, a nossa cultura, a nossa economia, a nossa comunicação, a vida na Bahia. “Cabeça branca” era amado ou temido ou odiado, não havia “tanto faz” ao se falar dele. Legou avanços significativos ao nosso estado, especialmente à capital, Salvador, a menina de seus olhos. O interior nem sempre foi lembrado e há muitas cidades esquecidas na nossa geografia que não evoluíram em quase todos os aspectos – de saneamento à saúde ou educação. Mas todo e qualquer dado depreciativo sobre seu governo foi maquiado na imprensa que a ele servia.

Foi mestre em propaganda política, em despertar o amor do povo, este mesmo povo de quem ele tanto precisava para se eleger. Elegeu quem quis aqui na Bahia durante quase todo o período da história. Lançava nomes desconhecidos até então e, em tempo recorde, olha o fulano ou sicrano, ilustre desconhecido, governando a cidade ou o estado.

 

“Quod nihil illi deerat ad regnandum praeter regnum (Que não lhe faltava para ser rei senão um reino)”

Machiavelli 

 

A Bahia, indubitavelmente, foi o seu reino. Por vezes inúmeras, a extensão de seu poder alcançou o cenário nacional. Sua influência foi notória. E Brasília sabe disso. Ouvir sua retórica era admirável e as réplicas que fazia, coisa de mestre. Soube perder todas as batalhas e embates políticos e aqui, nesta ’sua’ Bahia, não pareceu ao povo que tivesse perdido luta alguma, porque nunca o viram senão de cabeça erguida. A imagem inabalável de um rei, como ensinou Machiavelli.

 

“Nada faz estimar tanto um príncipe como os grandes empreendimentos e o dar de si raros exemplos”.

Machiavelli 

 

ACM soube disso. Viabilizou obras faraônicas na Bahia: quando ministro, as telecomunicações por aqui eram avançadíssimas, a telefonia de ponta da época estava em nosso estado; idealizou o novo Centro Administrativo de Salvador, reformou o aeroporto, inaugurou centenas de obras e ‘reinaugurou’ tantas outras, dando às construções de outros governos a nova roupagem que interessava. 

 ACM não passou em branco pela vida. Na Itália, achei num trem que ia de Veneza para Roma uma revista esquecida. Ao folheá-la, deparei-me com uma entrevista que apresentava o singular ‘dono da Bahia’ aos povos do outro hemisfério.

Toinho Malvadeza para os que, conscientes do seu poder ’sem limites’ e de suas manobras políticas, não o aplaudiam. Cabeça branca como metonímia e referência (ou reverência?). ACM, sigla clichê nos diálogos da Bahia e do Brasil. “Rouba, mas faz”, slogan que, surpreendentemente, não era uma depreciação, mas um incentivo a que se continuasse votando nele ou nos seus corregilionários.

 

“É necessário a um príncipe que o povo lhe vote amizade; do contrário, fracassará nas adversidades”

Machiavelli 

Mais ou menos quando eu tinha 18 anos, resolvi ingressar na vida política e resolvi conhecer ACM da forma mais simples: como povo. Fui a um comício realizado numa favela de Brotas. Embora consciente de grande parte de sua trajetória, não pude deixar de chorar ao sentir a emoção da massa alucinada que parecia estar diante de um ídolo. É porque emoção vem em ondas e nos atinge desavisados que estamos. Neste dia, ganhei uma rosa dele. Uma mulher enlouquecida a tomou de minha  mão. Ele viu. Beijou outra rosa, piscou o olho e pediu a um dos seguranças que descesse do palanque e ma entregasse em mãos. Assim eu conheci a sua força no meio do povo. Confesso que fiquei impressionada com a figura forte deste homem que distribuía rosas, guardando os espinhos para o momento oportuno.

 

“Assim, é necessário a um príncipe, para poder se manter, que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso segundo a necessidade.”O desejo de conquistar é coisa verdadeiramente natural e ordinária e os homens que podem fazê-lo serão sempre louvados e não censurados.”

Machiavelli

Tirano, déspota, salvador da pátria, herói (o povo se divide). Não o aplaudo, mas tiro o chapéu por saber o quanto ele foi FORTE, o quanto a sua força política afetou o estado, a política. Li Machiavelli, curiosa, quando descobri que era seu livro preferido. A leitura me impulsionou na vida. Aprendi estratégia e plano de vitória epude ver o quanto o prefeito-governador-senador-ministro-todo-poderoso Antônio Carlos Magalhães sabia aplicar as premissas de O Príncipe.

ACM ou Antônio Carlos Magalhães foi uma personalidade ímpar. Isso não há como negar. E nem que a Bahia viverá, a partir de sua morte,  um novo tempo. Melhor ou pior só o futuro dirá.

“O desejo de conquistar é coisa verdadeiramente natural e ordinária e os homens que podem fazê-lo serão sempre louvados e não censurados.”

Machiavelli

Serão?

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Fonte da imagem: doisdedosdeprosa.wordpress.com

Segunda-feira chegou, mas lá não adiantou muito.

Nossa, os salgadinhos da festa da minha amiga no sábado estavam muito gostosos. Na seqüência, domingo foi dia de moqueca de camarão com tudo a que temos direito aqui na Bahia.

Segundinha, promessa é dívida: dieta. Aí eu acordo, tomo banho e depois o café com o pão integral e o iogurte desnatado, como manda o figurino. Vou à escola às 12h para levar um material a ser fotocopiado e sou surpreendida com a torta mais deliciosa de todas que comi nos últimos tempos: bolo com creme de leite condensado, super recheada de muitos kiwis,  pêssegos, morangos e maçãs em mini pedaços intercalados em camadas com o creme e o bolo. Toda esta maravilha coberta por chantilly. Vocês acham que eu resisti por causa da promessa? É ruim, hein!

E a terça também arrasou: cheguei à escola e encontrei um belíssimo pedaço de torta de chocolate com morangos pelo aniversário da outra coordenadora. Nhoc!

Prometo que faço dieta, prometo. Quando? Não sei.

Haja…

quinta-feira: menu da dieta = três dúzias de lambreta, caranguejo e moqueca de camarão com pirão, farofa de dendê, arroz e feijão fradinho. De sobremesa: sorvete na Perini.

sexta-feira: menu da dieta = almoço no spaguetti lilás e dois sacos mega de pipoca no cinema. à noite, lasanha.

sábado: menu da dieta = amendoins, salgadinhos e patês. Bobó de camarão, moqueca de peixe e arroz. Bolo de chocolate, calda de chocolate. Sobremesa de morango com creme de leite. Doce de melão com manga. Biscoitinhos. Sequilhos. À noite = chá de cozinha da amiga e mais um aniversário de criança.

EU PROMETO que segunda-feira vai chegar.

Poeta, poetinha, camarada…

A uma mulher

“Quando a madrugada entrou, eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito

Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias

E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.

Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino

Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne

Quis beijar-te num vago carinho agradecido.

Mas quando meus lábios tocaram teus lábios

Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo

E que era preciso fugir para não perder o único instante

Em que foste realmente a ausência de sofrimento

Em que realmente foste a serenidade.”

Vinicius de Moraes

Há 27 anos já não temos mais o poeta conosco (09/07/1980). Falar de Vinicius é falar de saudade.

Interior da Bahia (ou de mim?)

Viajar a Feira de Santana há muito não é rotina na minha vida. No tempo de minha mãe, ir a Feira ao menos uma vez por mês era programa certo, mas confesso que, depois que ela morreu, me afastei da família porque me doía de qualquer forma. Preferi criar um mundo meu, à parte, meio uma nova vida onde o passado não mais residia e tudo passou a morar na lembrança (tantas vezes idílica).

Neste fim de semana, regressei às origens, bem ao estilo repensar em que estou imersa nos últimos dois anos. E a viagem de ida na companhia de um tio me conduziu a princípios e valores dos quais eu precisava me lembrar. A chegada é sempre interessante; a volta, carregada de sensações.

Cada um dos meus tios teve um momento breve comigo neste fim de semana. Revi cada um: Joca, Gu, Chuca, Maryse, Zezéu. Notícias boas aqui, ruins acolá. Alegrias de expandir o coração, tristezas de apertá-lo. É a vida, concluí. Antes, ou alegrias ou tristezas estavam pesando demais, em desequilíbrio. Gostei desta viagem: consegui enxergar sem muitas fantasias as coisas e, inclusive, a mim.

Bom constatar que sou parte de tudo. Ver minha avó velhinha, magra de dar dó, definhando seus fios tênues de vida foi sentir-me tragada por um passado que me fez perceber indelevelmente que todos nós saímos dela. Matriarca, mãe de oito filhos, avó de 15 netos e bisa de dois(ou três e mais os que virão).

Sempre minha avó Zélia me inspira amor. Sempre sinto carinho, sempre sinto carinho. Sempre lhe falo com voz doce. Sempre gosto de vê-la. E ela sempre a nos dar aos netos uns trocados. Tão valiosos. Ninguém nem imagina como eu gostava de ganhar aquele dinheirinho quando era pequena e, mesmo hoje aos 31, trabalhadora e assalariada, como é doce e real a nota que recebo. É tanto amor que passa de suas mãos que dez reais ou um real vem carregado de milhões de valores que se fazem tão importantes para mim.

Vi hoje em seus olhos opacos a retrospectiva de tudo que fomos. Do amor de meu avô. Da minha mãe. Dos tempos áureos quando os meus eram vivos e havia muitos presentes coloridos para abrir nos natais tão cheios de prosperidade. O tempo dos acampamentos na ilha e do balanço de madeira nas árvores de sua chácara. Das frutas chupadas em rodas de primos. E da alegria de viver criança sob as asas de avós tão amorosos. Vi o passado. Revi. Mas vi também o que nós temos hoje: o nosso presente.

Vi nas palavras e gestos e atitudes de minha prima casada o amor que sente pelo marido, a fidelidade que lhe dedica, a esperança que transborda nela em repetir a família de onde veio. O desejo de ter um filho ano que vem. Vi na prima, mãe-da-primeira-bisneta, a certeza do amor que sente pela cria, a realização mulher que deriva da beleza que sempre foi a família de dona Zélia. Vi a construção da casa de minha irmã noiva, passo a passo, economia de dinheiros e sacrifícios de tempo e diversão para que o futuro lhes chegue, a ela e ao noivo,  aconchegante. Vi a certeza de trabalho, de batalha, de luta profissional em minhas primas que solteiras esperam que um homem bom lhes apareça para compartilhar os sonhos e o futuro. Vi carinho no namorado de minha prima que a espera retornar do curso em outro estado. Vi preocupação nos olhos de meus tios que serão avós da aventura de meu primo. Vi sorrisos nos olhos de minha prima deficiente que me revia, orgulho no de seu pai, homem tão bom, alegria no de sua mãe, mulher que admiro. Vi uma linha de cumplicidade tácita que nos abraçava invisivelmente como numa corrente cujos elos inquebráveis se entrelaçam.

No caminho de volta, peguei um ônibus e vi pessoas muito pobres com suas mochilas e sacolas a regressarem aos trabalhos na capital. Na  estrada, vi o terceiro ou quarto mundo. Casas caiadas de cores que se apagam com o passar dos carros e do tempo. Matinhos que crescem em moradias sem eira nem beira, burros que pastam, bananas que são vendidas com pinhas, canas e aimpins. E percebi como faço parte deste microcosmo humano, como cada telhado abriga sonhos, perspectivas distintas mas convergentes: família, união, acalanto.

É possível também conjecturar: felicidade.

Sim, eu ando pelo mundo!

Estar em Praia do Forte requer tempo para saber-se vivo. Esta é a delícia que a vida nos prepara e que a urbanidade de Salvador corrói, sufoca no centro urbano de poeira, fumaça, engarrafamentos e caos estressante. Praia do Forte nos convida a sabermo-nos humanos, seres naturais, que respiram e inspiram… estar na praia a ver a vida e a paisagem de barcos que ondulam para lá e para cá nos dá tempo de expirar as mazelas diárias.

Mais no Eu ando pelo mundo.