Interior da Bahia (ou de mim?)

Viajar a Feira de Santana há muito não é rotina na minha vida. No tempo de minha mãe, ir a Feira ao menos uma vez por mês era programa certo, mas confesso que, depois que ela morreu, me afastei da família porque me doía de qualquer forma. Preferi criar um mundo meu, à parte, meio uma nova vida onde o passado não mais residia e tudo passou a morar na lembrança (tantas vezes idílica).

Neste fim de semana, regressei às origens, bem ao estilo repensar em que estou imersa nos últimos dois anos. E a viagem de ida na companhia de um tio me conduziu a princípios e valores dos quais eu precisava me lembrar. A chegada é sempre interessante; a volta, carregada de sensações.

Cada um dos meus tios teve um momento breve comigo neste fim de semana. Revi cada um: Joca, Gu, Chuca, Maryse, Zezéu. Notícias boas aqui, ruins acolá. Alegrias de expandir o coração, tristezas de apertá-lo. É a vida, concluí. Antes, ou alegrias ou tristezas estavam pesando demais, em desequilíbrio. Gostei desta viagem: consegui enxergar sem muitas fantasias as coisas e, inclusive, a mim.

Bom constatar que sou parte de tudo. Ver minha avó velhinha, magra de dar dó, definhando seus fios tênues de vida foi sentir-me tragada por um passado que me fez perceber indelevelmente que todos nós saímos dela. Matriarca, mãe de oito filhos, avó de 15 netos e bisa de dois(ou três e mais os que virão).

Sempre minha avó Zélia me inspira amor. Sempre sinto carinho, sempre sinto carinho. Sempre lhe falo com voz doce. Sempre gosto de vê-la. E ela sempre a nos dar aos netos uns trocados. Tão valiosos. Ninguém nem imagina como eu gostava de ganhar aquele dinheirinho quando era pequena e, mesmo hoje aos 31, trabalhadora e assalariada, como é doce e real a nota que recebo. É tanto amor que passa de suas mãos que dez reais ou um real vem carregado de milhões de valores que se fazem tão importantes para mim.

Vi hoje em seus olhos opacos a retrospectiva de tudo que fomos. Do amor de meu avô. Da minha mãe. Dos tempos áureos quando os meus eram vivos e havia muitos presentes coloridos para abrir nos natais tão cheios de prosperidade. O tempo dos acampamentos na ilha e do balanço de madeira nas árvores de sua chácara. Das frutas chupadas em rodas de primos. E da alegria de viver criança sob as asas de avós tão amorosos. Vi o passado. Revi. Mas vi também o que nós temos hoje: o nosso presente.

Vi nas palavras e gestos e atitudes de minha prima casada o amor que sente pelo marido, a fidelidade que lhe dedica, a esperança que transborda nela em repetir a família de onde veio. O desejo de ter um filho ano que vem. Vi na prima, mãe-da-primeira-bisneta, a certeza do amor que sente pela cria, a realização mulher que deriva da beleza que sempre foi a família de dona Zélia. Vi a construção da casa de minha irmã noiva, passo a passo, economia de dinheiros e sacrifícios de tempo e diversão para que o futuro lhes chegue, a ela e ao noivo,  aconchegante. Vi a certeza de trabalho, de batalha, de luta profissional em minhas primas que solteiras esperam que um homem bom lhes apareça para compartilhar os sonhos e o futuro. Vi carinho no namorado de minha prima que a espera retornar do curso em outro estado. Vi preocupação nos olhos de meus tios que serão avós da aventura de meu primo. Vi sorrisos nos olhos de minha prima deficiente que me revia, orgulho no de seu pai, homem tão bom, alegria no de sua mãe, mulher que admiro. Vi uma linha de cumplicidade tácita que nos abraçava invisivelmente como numa corrente cujos elos inquebráveis se entrelaçam.

No caminho de volta, peguei um ônibus e vi pessoas muito pobres com suas mochilas e sacolas a regressarem aos trabalhos na capital. Na  estrada, vi o terceiro ou quarto mundo. Casas caiadas de cores que se apagam com o passar dos carros e do tempo. Matinhos que crescem em moradias sem eira nem beira, burros que pastam, bananas que são vendidas com pinhas, canas e aimpins. E percebi como faço parte deste microcosmo humano, como cada telhado abriga sonhos, perspectivas distintas mas convergentes: família, união, acalanto.

É possível também conjecturar: felicidade.