Espinafre e hipérboles animadas

Quando eu era pequena, pedi a minha mãe que comprasse espinafre lá naquela seção de hortifrutigranjeiros, palavra que eu achava a coisa mais maluca do mundo – levei um tempão para entender esta aglutinação. Ela estranhou e disse que não, que eu estava inventando moda. Mas sempre fui ladina na argumentação e aquelas aulas de ciência valiam para dizer que criança tem que comer folha, fruta e verdura. E eu repetia direitinho o argumento.

Minha mãe comprou e fui para casa sob a ameaça: tem que comer tudo que tem criança por aí no mundo passando fome e meu dinheiro não é para se jogar fora.

Fui feliz para casa carregando o saco do Paes Mendonça. Planejava o alimento de uma vingança maquiavelicamente articulada.

A empregada lavou tudo e fez a salada, que eu comi alvoroçada, sem achar muito gosto na folhinha, mas saboreando a desforra. Fui para a sala, provoquei-o e fiz o muque. Nada. Não cresceu nem um pouquinho o bíceps nem o tríceps. Dei-lhe um murro no braço e recebi outro que doeu. Meu primo da mesma idade era ágil, menino ( e só as meninas sabem o que isso significa nestas províncias machistas) e batia em mim que era uma beleza.

Decepcionada, lavei uma lata de leite condensado e coloquei todo o espinafre do outro dia dentro para ver se era assim que fazia efeito. Nada também. Apanhei de novo.

E foi assim que eu descobri o que era ficção. Nunca mais dei crédito ao marinheiro.

Uma professora com a palavra

Eu sei que a gente vai vivendo a vidinha como pode, faz umas burradas aqui, outras ali, mas acerta em algumas coisas.

Nos elogios de alunos, por exemplo, eu não acredito muito. Quem é professor sabe que, enquanto existe nota na jogada, é melhor sorrir simpática, mas não confiar muito nas mesuras… exceto um ou outro caso, obviamente.

Eu tenho orkut. Já pensei em deletá-lo várias vezes. Mas é que os meus ex-alunos vivem aparecendo por lá e eles me dizem umas coisas tão lindas, mas tão lindas que sinceramente me emocionam e fazem crer que estou na profissão certa. Então o orkut continua. Continuará. Porque gentileza gera endorfina, enche a minha vida de alegria e me comove profundamente.

Um elogio, uma delicadeza, palavras doces de ex-alunos me derretem imensamente. Sim, porque eles, os ex-alunos, já não precisam mais da nossa nota avaliativa ao final do semestre ou do ano letivo. Eles reaparecem gratuitamente na nossa vida. A gente sabe que acertou se a pessoa nos encontra e não finge que não nos vê, se ela não desvia o olhar e passa batido. Se ela não vira o rosto e faz de conta que não nos viu. Se ela reclama de nunca mais nos ter visto.

Não há preço. Não há cobrança. Não há boletim. Mas eles, os meninos e meninas que passaram por nossa vida, muitas vezes imprimem em nossa história a certeza de que VALE A PENA.

Quando eu escolhi ser professora, eu queria mudar o mundo. E mudei. O meu mundo hoje está muito melhor.