Auto-retrato

Eu era uma menina quando li Pessoa pela primeira vez. E tinha uma professora que ficava estupefacta com a possibilidade dos heterônimos. Eu, na minha simplicidade infantil à época (que a idade traz muita complexidade), não entendia o maravilhamento dela:

– Oxi, professora, é simples. A gente é tantas pessoas ao mesmo tempo! Esse homem aí só fez escrever como se fosse cada uma desta gente toda que a gente é.

Assim eu aprendi pequena ainda quantas de mim eu posso ser e sabia que eu poderia ser o que quisesse. “Nada tem que ser. Tudo pode ser.”

Já faz um tempo que eu queria escrever sobre mim, tipo auto-retrato mesmo. O universo conspirou e a gentil Meg me encomendou o post apositivamente me apelidando de a refinada encantadora de palavras. Derreti, claro. Uma coisa muito linda de se dizer a alguém.

Então eu sou isso: estas muitas Alenas que existem em mim.

O post “Proibido ser mulher” diz mais de mim, muito mais. Na verdade, o A vida em palavras é minha história, meus pedaços, minhas versões de mim mesma, das pessoas e do mundo.

Eu sou… (resisto a cantar Raul)

Sou a Penélope que espera o seu Ulisses a tecer histórias e fantasias, sou a gata borralheira que adora cozinhar, sou Julieta capaz de morrer por quem amo enlevada que fico nas palavras de amor a mim dedicadas, sou Blimunda que junto minhas mãos ao Sete-sóis que me acompanha, sou Palas que se embriaga com o conhecimento, sou Aurora e adormeço sem picar o dedo quando muito me aborrecem para não envenenar meu corpo com tanta raiva.

Sou Olívia e deixo Eugênio partir quando não há mais lírios em nosso campo. Sou Aurélia Camargo e espezinho os pretendentes que de mim se aproximam de forma vil. Sou Fiona, ogra e princesa (depois da maquiagem e do salto alto), pronta para ser feliz com o ogro-príncipe da minha história.

Quando parece não haver mais nada e a vida me derruba, pego minhas armas de Maria Moura e luto. Eu não me conformo. Sou a ousada Emília, acredito que é possível (fazer-de-conta) ao menos quando se quer algo.

Já fui o bebê mais esperado, já fui a princesa de meu pai, a coisa linda de meu avô. Todos mortos. Sou eu mesma também e a antítese de mim mesma . Viva sou ainda parte do que minha mãe projetou mais uma parte da audácia do gene de minha avó que se separou do marido com dois filhos pequenos porque ele não a entendia e quis infernizar a vida de uma mulher ‘intelectual’ em 1949. Mas também já fui Mulher de Atenas.

Eu fui a Frida que chorou a traição do primeiro amor ainda na minha adolescência, fui também a Mulher do Médico que compreendeu o cego em busca da satisfação carnal com a rapariga dos óculos escuros. E doeu tanto. Também fui Ariadne abandonada por um Teseu que nem era um tesão assim…

Como Iracema, já esperei pelo Martim que viajava. Como Zélia, já fotografei meu Jorge.

Sou a professora maluquinha de Ziraldo ainda hoje que acredita na felicidade clandestina dos livros e na autonomia.

Sou a versão feminina de Aquiles: Iansã enraivecida a soltar trovões e raios se ferem o meu calcanhar.

Já me despi como a Vênus de Sandro. Já fui amada como Raquel de Labão. Já fiz suspirarem amores platônicos juvenis. Já levantei suspeitas ao Casmurro que encontrei. Já ouvi os cânticos de Salomão.

Já fui Madalena e me escondi quando tive depressão. Já fui Madalena e me arrependi.

Já fui Bradamante e me apaixonei pelo cavaleiro inexistente. Já fui Morgana e fiz feitiço. Já fui carola e rezei ajoelhada como a Dulce. Sou mulher: bruxa e santa, deusa e diaba.

Falo como a nega do leite. Rio como criança solta.

Já fui Cachinhos de Ouro e tentei encontrar uma cama em que não houvesse um abraço de urso. Já fui Yemanjá e roubei o homem da moça que chorou no cais enquanto ele nadou no meu mar. Já fui a mãe dos filhos que não eram meus. Sou a Oxum na maior parte do tempo: pacata, tranqüila e maternal. Mas carrego a fúria e a assertividade do rio.

Sou megera e não sou magérrima. Sou madrasta e também mãe emprestada, adotiva. Sou tia de aluguel. Sou neta ocupada, afilhada sempre amante, prima engraçada. Sou chata quando quero, intransigente quase nunca, mas teimosa quando ‘tenho certeza’. Sou leal aos meus amigos.  Gosto de elogiar. Peço desculpas sempre que estou errada e assim que identifico o meu erro. Prefiro sempre não brigar, mas brigo. E sou boa nisso. Detesto incompetência e gente  muito devagar. Sou acelerada e é difícil acompanhar meu pique. Admiro quem consegue fazer bem alguma coisa: da unha no salão a um projeto de míssel. Gosto de milhares de coisas diferentes. De livros diferentes. De pessoas diferentes. De cantores diferentes.

Sou …

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10 comentários sobre “Auto-retrato

  1. Que posto lindo! Lindo Alena, e mostra a mulher fascinante que você com certeza é. Beijos

    _________________________________________________

    Ô, Nalu, fiquei até com medo de ficar piegas… Obrigada pela sua gentileza. Um beijo !

  2. Lindo seu auto-retrato.
    Amei.
    Poético.

    E o engraçado é que mesmo tendo sido apenas uma aluna, eu consegui imaginar que de fato você é tudo isso aí, todas essas alenas.

    Adorei.

    Aliás, saudades de OLE I… =~

    Bjao!

  3. Alena,
    Li seu post querendo que não acabasse. Fascinado. Gosto da força da natureza que você demonstra ser, mulher antes de mais nada. Não é fácil colocar-se assim tão em evidência, despir-se em público, mas você conseguiu. A Alena que aparece é tanto que poucos não encontrarão alguma identificação. Eu mesmo sou, em alguns aspectos, parecido com você. Também tenho essa admiração pela competência. No final, não consegui de deixar de sorrir, quando li a declaração de que você detesta gente devagar. Deve ser, e não estou sendo preconceituoso, um sentimento difícil de se ter vivendo em Salvador. Adorei!
    Beijão

  4. Alena,

    pô, como é bom ler algo que o autor gostou de escrever!
    Você deve ter adorado escrever esse post, aposto!
    Li com o maior prazer, procurando, descobrindo, te – e me – encontrando.
    Penso que todos se encontrarão aqui, mulheres e homens (aí está o Lord Caco, que não me deixa mentir), uns mais, outros menos.

    Beijo admirado

    Vivina.

    PS. Por uma questão de honestidade, preciso confessar: desconheço alguém mais devagar que eu…

  5. Menina! Que texto bom de ler. Coisa de craque.

    Sou cheio de pudores pra escrever sobre mim. Mas no fim das contas, tudo o que eu escrevo, seja drama seja engraçado. Seja coisa séria, seja besteirol, tudo, qualquer coisa que eu escreva, revela um pouco de mim. Acho que é assim com todo mundo, não é?

    Adorei: “Nada tem de ser. Tudo pode ser”

  6. Alena,
    Que texto lindo de se ler! É muito bonito ver alguém se desnudar através das palavras. Consegui enxergá-la em vários momentos. Me identifiquei muito também.

    Um grande beijo,

    Mari

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