Só pai e mãe

Há momentos na vida em que ser órfã é mais difícil. Mais difícil ainda do que é ser todo dia.

Não ter pai e mãe vivos significa um sucessão de vazios. Desde o vazio maior que é o afeto e o colo (im)possível diário ao vazio de rememorar o seu passado. Como rememorar?

Quem é que vai contar a meus filhos (que eu ainda nem tive) as travessuras e gracinhas que cometi na infância? Parece irrelevante, mas o conhecer-se, o autoconhecer e o construir de nossa identidade requerem, sim, a imagem que eles (nosso pai e nossa mãe) têm de nós. Freud explica.

O mais f*da ainda ocorre quando você precisa de um tipo de auxílio que só pai e mãe dão. Tipo arranjar um fiador. Pai e mãe são fiadores naturais de filhos honestos e desonestos. A paternidade e a maternidade (quase) sempre suplantam quaisquer obstáculos que o capitalismo impõe (leia-se DINHEIRO $$$).

Um dia você acorda toda feliz, dá um passo na sua vida, tem dinheiro sacrificadinho para pagar – fruto do seu suor… passou por seleção, tirou fotocópia de trezentos documentos, assinou cinqüenta papéis, carimbou todos eles, reconheceu firma, pegou n filas e… então se depara com a pedra no meio do caminho. Os contratos exigem fiador. Às vezes, mais de um.

E você é um pássaro livre sem ninho e as portas se fecham. Só negativas. Recusas. Nem adianta falar como deus da instituição. Nem com todos os chefes daqui e dali. Educação é um grande negócio. E negócio é negócio. E exige contrato. Com fiador.

Sua avozinha não ganha o suficiente. Salário federal vergonhoso. Sua irmã ainda é estudante com salário de brasileira: droga. A outra é professora. Já viu, né? O tio está complicado. O primo nem pensar. Aí seu dedo aflito busca todos os números do celular e você escolhe umas vítimas mais próximas e, para não acabar a amizade para sempre, começa logo com o discurso de que dá a ele ou a ela, amigo ou amiga, a oportunidade livre e sem zangas de lhe dizer não. E ouve um não. Outro não. Outro e mais outro. Uns não querem e outros não podem. Normal. Sem zangas mesmo. Sua melhor amiga que faria isso sem pestanejar está a mais de 1000 km.

Mas aí bate uma orfandade sem limites e você faz beicinho porque as coisas para você não são simples e você é uma guerreira mesmo e não vai desistir ainda que com lágrimas nos olhos.

Aí cata a agenda dos tempos arcaicos, aquela manuscrita que guarda em casa e recorre aos consanguíneos. Liga para um. Para dois. Para três. E respira aliviada porque uma prima de alma boa se solidariza sem problema algum. ufa, enxuga a lágrima. Passa as costas da mão na bochecha e ouve os dados preciosos de que precisa para dar este passo em sua vida. E vai ser grata até a morte.

É . Agora você já pode se matricular. Vai trabalhar, vai estudar, vai se virar. É honesta, paga com sufoco, não está inadimplente. Nem pretende ficar.

Não há incentivo para estudar neste país de particulares. 

E você se resigna, pega o material das aulas. Filou hoje a academia na maratona pelo fiador. Nem almoçou com tanto assunto indigesto. Vai trabalhar aqui e ali. E mais ali. Talvez acolá.

E não vai se esquecer nunca da carinha alegre dos calouros que conduziam seus pais à fila de matrículas. Os fiadores natos. Eles os têm. São ricos de verdade.