Se Maomé não vai à montanha…

… o puteiro vem à sua casa.

Antigamente(“nos primórdios”), quando eu era adolescente, saber que existia um lugar para fazer sexo onde só os homens entravam me deu uma curiosidade danada. Primeiro, achava injusto. Por que é que as mulheres também não poderiam ir? Aí descobri que as mulheres iam sim, mas na condição de prato principal.  O silogismo era lógico na minha cabecinha: a mulher é objeto então. E me revoltei.

Ora, cresci com as possíveis castradoras doutrinas católicas e familiares. Ai de minha mãe ao me ouvir falar assim. E ela ouvia. Porque eu conversava e dizia o que pensava. Na condição de mãe, tentava purificar a minha cabeça, mas cada vez mais me dava livros e me estimulava a estudar. Então não teve jeito.

Desde a época em que tomei consciência da condição existencial da putas, fiquei fascinada e deprimida. Fascinada porque pensava na possibilidade de uma mulher fazer sexo com quem quisesse, libido pura, desejo e prazer. Então descobri que não era bem assim. As mulheres putas ou eram escravas do dinheiro ou de sua condição social (às vezes de ambos).

Então percebi que putas não fazem sexo apenas com quem querem, mas com quem paga.

Das putas pobres, eu sempre tive dó. Não creio que a pobreza leve irremediavelmente à prostituição. Há quem seja pedinte, esmolé ou mesmo indigente. Mas é fato que há mulheres de vida difícil que dão o corpo em troca do alimento. Ou do dinheiro para comprá-lo. No âmbito da ficção, por exemplo, a cena mais chocante do filme “O nome da rosa” é para mim a que uma pobre medieva faz sexo com um monge franciscano para receber um frango. A equação é óbvia: sexo = a comer para não morrer de fome .

Outra situação é a da menina, moça ou mulher seduzida pelo novo celular ou pelo jantar ou hotel de luxo, que vende o produto a fim de gozar o dinheiro. É difícil do meu lugar social entender que o valha. O fato é que não se pode comparar ambas garotas. Que fique claro que não estou a atirar pedras, até porque a incompreensão para mim envolve é os freqüentadores das putas.

A mesma cabeça adolescente e anárquica que eu sempre tive perguntava-se desde jovem: mas por que é então que todo mundo não transa com todo mundo para se evitar o sexo pago? Na verdade, evitar-se o nojo de ter INTIMIDADE com quem não se quer? A condição de mulher traída já doía tardiamente (se considero o passado de minhas avós) e precocemente ( se entendo que tinha ainda 14 anos e já pensava assim) em mim. Sim, sentia a dor das putas que copulavam com homens que não desejavam e a dor das mulheres traídas em casa. Até eu entender que não ia salvar a humanidade inteira e que não era Madre nenhuma quanto mais Teresa.

Uma vez um amigo de quase 60 anos me explicou uma coisa: “Alena, a gente paga as putas para depois se ver livre delas”. Minha cabeça deu um nó e eu tinha 26 anos. Pensei, pensei e senti compaixão. Dele. Na varanda, várias conversas com o grisalho me levaram à conclusão triste: estes homens satisfazem o desejo biológico e depois querem ficar a sós. Pagam para ir embora. O gostoso do abraçar e dormir depois não havia. Nem com a esposa em casa, que o casamento estava falido, nem com as moças de aluguel.

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Mas esta é só uma versão de um longo assunto sobre o qual ainda quero ensaiar bastante. Para ver se eu mesma entendo algumas coisas.

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O fato é que, como não vejo televisão quase nunca, só hoje tomei conhecimento do vídeo no you tube da novela Duas Caras. E aquele lugar mágico, misterioso, proibido e ‘sujo’ que povoou minha imaginação durante anos foi simplesmente revelado tal e qual na novela das oito a todas as famílias que a ela assistem. A minha curiosidade de saber como era um puteiro, uma casa de show, não é mistério hoje para qualquer criancinha ou senhora de idade. Estou doida ou é vídeo erótico esta cena?

Nenhum puritanismo, por favor. Eu era criança e via novelas e achava as putas maravilhosas: eram mulheres maquiadas e exuberantes, sempre alegres e vestidas de forma exótica. Vedetes. Minha mãe precisou de muita castração para me ensinar que aquilo não era maravilhoso (kkkkk) . Eu era criança e o bordel de “Roque Santeiro” era a melhor parte da novela.

O realismo de certas cenas feitas para a família brasileira ultrapassa minha compreensão como no caso da cena protagonizada por Flávia Alessandra. E a necessidade de uma trama como essa também. É o quê? Necessidade de perdoar as belas enfermeiras (eta! lá vão estigmatizar uma profissão) que fazem programa para completar a renda e sustentar os filhinhos?

Qual o benefício sociopolítico destas ditas novelas engajadas? Creio que a ficção não precise de tanta verossimilhança. Em tempos de BBB, Casa dos Artistas, pornografia on line ou via webcam e cia, talvez seja eu mesma a antiquada.