Fazer um bolo

Há quem banalize tudo, até a própria existência. Há quem esqueça a mágica diária, quem se perca em pedaços de si, em retalhos dos outros, em migalhas soltas pelo vento das intempéries da própria vida.

Fazer um bolo requer amor, requer plenitude, requer doação ao outro. Requer você inteira. Sim, porque os bolos não se fazem nas indústrias ou megapadarias com suas batedeiras gigantes. Ali se faz farinha de trigo enriquecida com açúcar, assada com fermentos químicos, gorduras hidrogenadas e pirofosfato de sódio. Isso tudo pronto e embalado dá às pessoas apressadas que nem têm consciência do próprio existir, imersas que estão no frenético dia-a-dia , a falsa impressão de que se alimentam no café noturno ou no lanche da tarde. Elas comem, devoram sem sentir os pedaços açucarados da massa sem sentido. Embrulham-se. Embromam-se.

Não, a indústria não é capaz de fazer um bolo. Nem o supermercado. Fazer um bolo requer tempo. Um tempo que não será imperativamente tido com o desperdício de dinheiro. Requer um tempo investido. Um tempo para si, para o outro, para a família. Um tempo para os amigos.

Um bolo se faz com a carícia do sorriso ao pensar nos queridos a degustar consigo aquele pedaço de ternura oferecido ao outro. Um bolo se faz com o açúcar do AMOR, com a antevisão da gulosa faca ou espátula a partir o pedaço fofo de si que foi oferecido, partilhado, festejado ou, simplesmente, convivido.
Um bolo se faz com o frio na espinha do forno quente e a apreensão de que dê realmente certo. Sim, porque quando o oferecemos, queremos de nós dar o melhor. Porque amamos.

Um bolo se faz com preenchimento da alma e certezas de carinho. O “hummm” de satisfação interjeitiva que invade a nossa corrente sanguínea e suaviza os males do mundo. Ajuda-nos a viver.

Ontem eu fiz um bolo.