Dia de lembrar a mãe

É sempre assim. Ocorre com uma doçura inenarrável todas as vezes em que eu faço um bolo. Se tiver cobertura de marshmallow então… Minha mãe fazia bolos confeitados para aniversários, festas, 15 anos, casamento, eventos em geral. Às vezes, mães de santo lhe encomendavam o bolo para Oxum ou Yemanjá. Ela dizia que eram as melhores freguesas, essas nem choravam desconto nem demoravam a pagar (vai que o orixá se zangasse ou achasse que o bolo lhe era dado de má vontade…). Assim explicavam (risos).

Durante anos, o zumbido da batedeira Arno Planetária ecoava toda quinta-feira na cozinha lá de casa. E era o dia inteiro. Peneirar farinha de trigo, açúcar, quebrar ovos, bater claras, manteiga ou margarina (ela só usava Claybom – dizia que as outras solavam os bolos), fazer a mistura e adicionar fermento lá no fim com espátula… E a máquina fazia o serviço enquanto as formas eram untadas. Lembro-me bem das latas enormes de margarina no canto da cozinha e que ela levava para o interior para o povo que queria pegar água ou para meu avô cozinhar amendoim no quintal.

O cheiro de bolo era o aroma da casa, ou melhor, o cheirinho adocicado da baunilha que subia delicioso invadindo nossos pulmões. Talvez por isso, pela capacidade sinestésica, eu nunca tenha ligado para um pedaço de bolo. O cheiro bastava-me.

Hoje com a minha planetária – que eu também tenho uma – revivi aqueles tempos em que tinha mãe. E lambi os dedos cheios de marshmallow, feliz o dia inteiro embalada pela música memorável do motor da batedeira, ajudante indispensável para os três bolos ficarem prontos.

Depois da tarefa que levava um dia inteiro, ela tomava seu banho e a gente via o cabelo preto lisinho molhado. Sentava-se no sofá e então era hora de, mesmo grande, ser filha: deitava-me no colo dela e inventava coisas para conversar, bem assim, só para sentir o cheiro mais que doce que só as mães sabem ter.

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E a vida nos atropela

MAS SOMENTE SE PERMITIMOS ( e quando ).

Descubro-me grávida em janeiro porque nem tive tempo de me perceber em dezembro na agonia do final das aulas e do planejamento de 2008. Trabalho as férias inteirinhas para ganhar um extra. Depois começo um ritmo alucinado com dez turmas em sala de aula e mais cinco disciplinas para estudar no curso que resolvi fazer para alcançar um up grade na profissão. Isso significou trabalhar todas as manhãs de 7 h às 13 h e todas as noites de 19h às 22h40. O meio termo significa que eu tinha que almoçar, planejar, estudar, corrigir, descansar, ir ao médico etc etc etc

Traduzindo: a vida quase não ocorreu. Muito menos pôde ser posta em palavras. Por isso não houve tantos posts, por isso não houve diversidade, por isso não houve riqueza. Não havia vida. Mas não falo da vida comezinha, subreptícia, arrastada no correr dos dias e na contagem regressiva dos tempos (que fazem todos aqueles que não aguentam mais). Faltou-me a vida cheia, a vida alegre, a vida divertida. Até para sofrimentos, sobrou-me pouco tempo. Nada de viver intensamente.

Além do mais, encher o leitor com as lamúrias de um professor cansado não era meu objetivo. E olha que nós, professores, todos, temos muito bem do que reclamar. Lugar-comum total.

Falar do que tenho visto também nas salas de aula como aluna não era meu propósito porque, como o blog não é anônimo, não queria colher inimizades aqui e ali.

Cadê as viagens? Não ocorreram. Cadê os passeios? Foram curtos, pequenos, só para respirar de dentro da caixa d’água em que me meti. Cadê as horas de gastronomia, de experimentos na cozinha? As aventuras urbanas? A descoberta e os olhares pela cidade?  Que… nadica de nada.

Então a natureza, que é muito sábia (como reza o velho clichê), deu-me um stop total. E a gravidez vai ser o ponto de mutação. É. Mais um deles.

Vem uma menininha aí. E eu preciso dela para distribuir todo o meu tempo, para doar-me, para enchê-la de todo o amor que eu tenho incontido neste corpo tão humano. É uma menininha para amar, para ser amada com todas as horas do meu dia. É uma família nova que se inicia. Uma família. Algo que para mim há muito se fragmentou. A família que tanto me fez falta desde que meus pais morreram. A casa cheia de vento, de gente, de alegrias. Um passarinho que canta, uma gargalhada que ecoa, um choro que é acalentado. Uma confusão que só as famílias sabem fazer à hora das refeições.

Eu passei um tempo grande com uma solidão que só não me devorou inteira porque eu nasci para ser feliz. Porque todos os dias tomo esta decisão apesar de todos os ‘emboras’ e ‘senãos’ que me acontecem.

Com licença, que eu voltei. Com licença, que eu não mais estarei atropelada. Com licença, que agora há tempo para mim, para ela, para ele, para nós, para minha família, meus projetos. O semestre ainda se finda, mas, oh, como é bom saber que ele se finda. Com ele irão as provas, os excessos de correções. Os amigos? Estes ficam todos. Não há o que temer.

Julho chegará, mudarei de pele, chegarei aos 33 e agosto explodirá em flores antecipando a primavera mais esperada: o nascimento dela.

Anne Geddes

Um beijo às pessoas de quem eu tanto gosto. E que me fizeram muita falta neste primeiro semestre 2008.

Maria tralhinha

Faltou muito pouco nos últimos 22 dias para eu trocar a minha certidão de nascimento. Nunca vi uma pessoa acumular tanta tralhinha na vida. E olha que eu sou  expert em doar coisas.

Tento ler na internet sites que ajudem para tomar coragem extra. Pouco está escrito sobre o tema. Na verdade, há muito, mas dicas práticas a gente quase não encontra. Só teorias e blá blá blás.

Depois de mudar-me de casa a fim de arrumar um canto para caber um neném na minha vida, organizar as coisas não foi brincadeira. Pauleira pura. Até licença de dois dias eu tive que tirar depois de carregar oitenta mil coisas e abaixar e levantar, arrumar e engavetar coisas e mais coisas.

Passado o furacão da mudança, quatro dias depois a casa já funcionava normalmente. então era hora de “deletar” o passado e comprar o novo que fosse possível, considerando tudo que era a esta altura inútil e aquilo que não mais servia. Ainda estou neste processo. Algumas máximas e alguns questionamentos têm me ajudado:

O MANTRA DA ORGANIZAÇÂO

Repeti muitas vezes ao chegar na casa nova: O MEU NOME É DESAPEGO. (Riam, auto-ajuda da pior espécie)

Ao arrumar os papéis, eu falava para me convencer: se eu morresse, iam jogar tudo fora sem nem olhar. Ajudou muito.

Vamos lá … (ou “sendo mais prática”)

Para que você guarda revistas velhas? Despache. Circule-as.

Disquetes? Isso nem se usa mais! Os novos pcs nem vêm com disquete. E pen drives pequeninos há muito já substituem suas caixas de tecnologia ultrapassada da década de 90.

Frasquinhos de comésticos nunca usados? Pare de comprá-los em primeiro lugar e observe os já vencidos = lixo! Os demais que resistem em sua casa: ou use-os ou passe-os adiante.

Toalhas velhas, desbotadas ? Casas de caridade as esperam.

(continua mais tarde… vou tomar fôlego)

Gravidez e outras coisas

É… sempre me perguntam como é estar grávida. Eu digo bem humorada que ainda não sei. Vou ter que engravidar de novo (!!!) para saber porque tenho trabalhado tanto e feito tantas 30.000 coisas ao mesmo tempo que ainda nem sei direito o que é estar grávida.

* * *

Só sei que nas horas vagas do domingo – no qual eu não tenho trabalhado nem a pau – eu percebo a barriga. E está sendo uma delícia.

* * *

À noite, todos os dias, também guardo uns 15 minutos para me sentir. Sempre ocorre lá pela meia-noite, quando deito já cansada do dia. E parece que a menininha sabe que eu finalmente deitei e resolve protestar ou me revelar a sua presença com toda força. Ela faz um carnaval na minha barriga e dá até para ver o movimento para lá e para cá. O papai encosta a mão e ela chuta sem parar, as ondas vão e vêm neste mar de amor placentário.

* * *

A minha filhinha da barriga, ex-sem-terra (leia-se sem-quarto), já tem o seu minifúndio no pós mudança.

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E eu que me gabava de até o sexto mês não ter comprado absolutamente nada, entendi o que é consumo após o advento do quarto.

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A casa nova vai bem, obrigada. E a vontade de ter MUITO DINHEIRO para renovar tudo também (risos).